O quarto ainda estava mergulhado em silêncio. Apenas o som ritmado das respirações preenchia o espaço entre os dois. Aurora repousava sobre o peito de Darius, ouvindo as batidas fortes de seu coração, tentando entender por que, mesmo depois de se entregarem tão profundamente, algo dentro dele parecia... quebrado.Ela traçava círculos preguiçosos na pele dele com os dedos, mas sua mente estava a mil. As palavras dele ainda ecoavam:"Você vai me odiar quando souber o que eu escondo."— Darius... — ela chamou, baixinho, como se tivesse medo da resposta.Ele não respondeu de imediato. Seus olhos estavam fixos no teto, como se buscassem forças em algum ponto distante.— Você prometeu me contar. Não agora, eu sei... mas já é depois. — A voz dela não era dura. Era suave, mas firme. Doía. Porque ela sentia que algo grande estava por vir. E ela estava prestes a ter o chão arrancado dos pés.Ele soltou um longo suspiro, passou a mão pelo rosto e sentou na cama, afastando-se levemente dela. Auro
Aurora dormia profundamente, os cabelos espalhados no travesseiro como uma auréola selvagem, o corpo ainda aquecido pelo toque de Darius. Mas a paz durou pouco. A escuridão a envolveu como um véu e, sem aviso, ela foi tragada por um redemoinho de imagens.Estava em uma floresta desconhecida. O céu acima era púrpura, tingido de sangue. A Lua, gigantesca, tremia no alto como se estivesse à beira de desabar. Corvos voavam em círculos, grasnando mensagens que ela não compreendia.— Aurora… — uma voz sussurrou. Não era masculina. Nem feminina. Era como se a própria terra falasse com ela.Ela virou-se e viu... ela mesma. Ou melhor, uma versão distorcida de si, com os olhos completamente negros e a pele marcada por símbolos antigos. A outra Aurora sorriu, e seus dentes eram afiados como presas.— Você está marcada. Escolhida... ou amaldiçoada. Ainda não decidiram.Aurora deu um passo para trás, mas as árvores ao redor começaram a se fechar, galhos retorcidos como mãos tentando agarrá-la.— O
Aurora sentia os olhares sobre ela como punhais invisíveis. Os guerreiros ao redor se calaram, mas o julgamento estava estampado em cada rosto. Ela engoliu em seco, o sonho ainda reverberando em sua mente como um presságio. Mas agora, o que doía mais era ver Darius parado ali, sem dizer uma palavra.Elias rompeu o silêncio, sem tirar os olhos dela:— Ela ouviu tudo.Darius não se moveu. Não piscou. Só respirava fundo, como se tentasse conter algo prestes a explodir.— Então diga, Darius — Elias insistiu, virando-se de volta para o alfa — Quem você escolhe? Sua alcateia... ou ela?A pergunta caiu como uma pedra no centro de um lago congelado. Aurora sentiu o impacto no peito.Darius, enfim, se virou. Seus olhos dourados estavam tomados por um brilho indecifrável — era dor, era raiva, era amor e medo misturados numa única expressão.— Vocês são meu sangue. Minha família. Lutei por cada um aqui. Sangrei, matei, perdi irmãos... — ele disse, a voz firme, mas baixa. — Mas ela é minha alma.
Darius Blackwood e Aurora Hale cresceram em alcateias vizinhas, mas seus caminhos raramente se cruzaram. Ele era o herdeiro do título de Alfa da Lua, criado para comandar com força e respeito. Ela, filha de uma família respeitável, mas sem posição de liderança, sempre esteve à margem dos círculos de poder.A primeira vez que Aurora ouviu falar de Darius, ele já carregava a fama de ser um conquistador implacável, alguém que nunca levava um relacionamento a sério. Suas histórias eram sussurradas entre as fêmeas da matilha—todas o desejavam, mas nenhuma o possuía.Ela, por outro lado, nunca deu importância a isso. Sempre acreditou que sua alma gêmea viria no momento certo, alguém que a respeitaria e a amaria de verdade. Nunca cedeu a flertes vazios, pois seu coração e seu corpo pertenciam apenas ao seu verdadeiro companheiro.Darius, por mais que fosse cercado por pretendentes, também nunca encontrou uma conexão real com ninguém. Mas, ao contrário de Aurora, ele escondeu esse desejo sob
O silêncio entre eles era sufocante. Aurora sentia o peso do olhar de Darius sobre si, intenso e predatório. Seu corpo respondia ao chamado do laço, cada célula ansiando por ele, mas sua mente se recusava a ceder.Não podia ser ele.Ela deu um passo para trás, tentando recuperar o fôlego.— Eu não sou sua. — Sua voz era mais firme desta vez.Darius franziu o cenho, seu lobo rosnando dentro dele. O ar ao redor pareceu vibrar com sua fúria reprimida.— Não minta para mim, Aurora. — Ele deu um passo à frente, diminuindo a distância entre eles. — Você sentiu. Eu sei que sentiu.Ela engoliu em seco. Sim, sentiu. O vínculo era inegável, ardia em sua pele como uma marca invisível. Mas aceitar isso significava aceitar um homem que, até aquele momento, ela só conhecia por sua fama.Ela cruzou os braços, tentando esconder o tremor nas mãos.— Eu não confio em você.As palavras foram um golpe mais forte do que qualquer ferimento. Os olhos de Darius brilharam em fúria e algo sombrio passou por se
O rosnado de Darius ecoou pela clareira, fazendo até mesmo os lobos mais experientes estremecerem. Sua postura era predatória, cada músculo tenso, pronto para atacar. Os olhos dourados brilhavam com fúria enquanto ele encarava o homem que ousara desafiá-lo.Aurora sentiu um arrepio percorrer sua espinha. O poder de um Alfa era avassalador, e ali, diante dela, estava um dos mais temidos e respeitados de toda a região.Ela conhecia aquele lobo. Caleb Vaughn, um guerreiro arrogante da alcateia do norte, sempre à procura de uma briga. Ele não era um Alfa, mas sua sede por domínio o tornava perigoso.— Eu só disse a verdade. — Caleb sorriu de canto, cruzando os braços. — Sua fêmea não parece muito entusiasmada com essa união. Quem sabe ela prefira um lobo menos… impulsivo?Darius avançou antes mesmo que Aurora pudesse processar as palavras.Rápido como um raio, ele agarrou Caleb pelo colarinho e o ergueu alguns centímetros do chão. O outro lobo grunhiu, surpreso, mas não teve tempo de reag
Aurora não conseguia dormir naquela noite.Desde o momento em que os olhos dourados de Darius encontraram os seus, algo dentro dela se partiu e se reconstruiu ao mesmo tempo. O vínculo os ligava de uma maneira que ia além da lógica, além de qualquer coisa que ela pudesse controlar.Mas aceitar aquilo significava abrir mão de sua própria vontade?Deitada sobre os lençóis, ela fechou os olhos e tentou ignorar a sensação persistente de que não estava sozinha. Seu lobo estava inquieto, ansiando pelo toque do Alfa, pelo calor de sua presença.Ele ainda estava lá fora.Ela se levantou devagar e caminhou até a janela de seu quarto. Como esperava, a figura alta e imponente de Darius estava encostada contra uma árvore, os braços cruzados sobre o peito, os olhos brilhando na escuridão.Aurora sentiu um arrepio percorrer seu corpo.Ele estava vigiando-a.Parte dela queria se irritar com aquela obsessão possessiva, mas outra parte…Ela engoliu em seco e desviou o olhar.Respirando fundo, abriu a
O dia amanheceu quente e abafado. O sol já estava alto, e a aldeia parecia ainda estar em silêncio, como se aguardasse algo importante acontecer. Aurora acordou cedo, mas o peso do que aconteceu na noite anterior ainda a assombrava.Ela não conseguia parar de pensar em Darius. Cada olhar, cada palavra, cada toque… Tudo isso estava gravado em sua mente como uma marca indelével. Ela tentou se convencer de que o melhor seria afastar-se, evitar mais confrontos com ele, mas sua mente teimava em voltar àquele instante, ao calor do seu corpo perto do dela.A verdade era que, por mais que se esforçasse para manter o controle, ela sabia que não poderia negar o vínculo por muito mais tempo.Aurora se levantou e vestiu um vestido simples de algodão, tentando ignorar a sensação de ansiedade que se formava em seu estômago. Quando caminhou até a porta, hesitou por um momento, antes de dar um passo para fora, encontrando a luz da manhã.A aldeia estava silenciosa. Os poucos lobos que passavam por el