Max
O despertador soou estridente ao lado da minha cabeça, mas eu já estava acordado. A noite tinha sido longa e inquieta, marcada por um turbilhão de pensamentos que se recusavam a me deixar em paz. Pisquei algumas vezes, tentando afastar a sensação incômoda no peito, mas ela continuava lá. Algo dentro de mim estava errado. Algo que eu não queria admitir.
Passei a mão pelo rosto, soltando um suspiro pesado antes de finalmente me levantar. A luz matinal entrava timidamente pelas frestas das cortinas, projetando sombras suaves pelo quarto. Caminhei até o banheiro e encarei meu reflexo no espelho. Eu parecia cansado, os traços tensos, como se a noite sem dormir tivesse cobrado seu preço. Mas não era apenas o cansaço. Era outra coisa. Algo que eu não queria nomear.
Charlotte.
As imagens da noite anterior vieram com força total. A forma como ela interveio naquela reunião, como enfrentou a situação sem hesitar. Ela estava tentando me ajudar. Mas eu não enxerguei assim. Eu vi isso como uma afronta, um desafio à minha autoridade, e explodi. Disse coisas que talvez não devesse.
Passei a mão pelos cabelos, sentindo o incômodo aumentar. O problema era que Charlotte sempre soube como me desestabilizar. Ela me fazia sentir coisas que eu não queria sentir. Eu não podia me dar ao luxo de parecer vulnerável, muito menos diante dela. Mas quando a vi chorando, quando a vi gritar comigo e depois correr para fora da minha sala...
Engoli em seco. Ela tinha ido embora. Disse que estava se demitindo.
Mas isso não significava que realmente faria isso, certo?
Balancei a cabeça, afastando aquele pensamento. Charlotte sempre foi impulsiva. Ela estava apenas com raiva. Depois de uma noite de sono, pensaria melhor e perceberia que não fazia sentido jogar tudo para o alto por causa de uma discussão.
Respirei fundo e segui para o closet, escolhendo um terno escuro. Me vesti com precisão mecânica, como fazia todas as manhãs. Cada movimento era calculado, cada botão fechado com exatidão. Era a minha rotina, a minha forma de manter o controle. Mas hoje, nada parecia no lugar.
A verdade era que a ideia de Charlotte realmente sair me incomodava mais do que deveria. Não apenas porque ela era eficiente, organizada e praticamente insubstituível no trabalho. Mas porque...
Porque eu não queria que ela fosse embora.
Apertei o nó da gravata com mais força do que o necessário, ignorando o aperto no peito.
Ela viria para o trabalho. Com certeza. Charlotte sempre aparecia.
Hora mais tarde…
— São quase meio-dia, e Charlotte ainda não deu as caras. Será que finalmente cansou de você?
A voz de Daniel preencheu o escritório antes mesmo que eu pudesse levantar os olhos dos contratos espalhados na mesa. Ele entrou como sempre fazia, sem pedir permissão, como se aquele fosse o escritório dele e não o meu.
Ignorei seu comentário e continuei fingindo que estava ocupado, mas ele não se deu por vencido.
— Estou falando sério, Max. É a primeira vez em anos que entro aqui e não vejo a todo-poderosa senhorita Grant sentada naquela mesa, te lembrando de comer ou de não ser um completo babaca com as pessoas.
Bufei, massageando as têmporas. — Não tenho tempo para as suas piadas agora, Daniel.
— Ah, mas eu tenho — ele rebateu, jogando-se em uma das poltronas de frente para minha mesa. — E eu sou ótimo nisso.
Cruzei os braços e encarei seu sorriso satisfeito.
— O que você quer?
— Eu? Nada. Só vim cumprir minha rotina diária de irritá-lo. Mas, pelo visto, você já está irritado o suficiente por conta própria.
Daniel estreitou os olhos, me observando com atenção. Eu podia ver a mente dele trabalhando, ligando os pontos antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa.
— Ok, o que aconteceu?
Fingi desinteresse e voltei a olhar para a papelada, mas ele não desistiu.
— Max. Eu te conheço. Algo está errado, e tem a ver com Charlotte, não tem?
Soltei um suspiro pesado, recostando-me na cadeira.
— Ela não veio hoje.
— Sim, eu percebi isso sozinho, gênio. O que eu quero saber é o motivo.
Minha mandíbula travou, e Daniel percebeu na hora.
— Você fez merda, não fez?
Não respondi de imediato, mas pelo jeito como ele riu e balançou a cabeça, já tinha sua resposta.
— Eu sabia! — Ele apontou para mim, se divertindo. — O senhor frieza e controle absoluto finalmente cometeu um erro com a única pessoa que te atura sem ganhar um milhão para isso.
— Vai me deixar em paz ou quer que eu te expulse daqui?
Daniel apenas riu de novo, cruzando os braços.
Meu telefone continuava mudo. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. O relógio no canto da tela marcava quase meio-dia, e Charlotte ainda não havia aparecido.
Cada minuto sem notícias apenas alimentava minha irritação. Mas não era só irritação. Era algo mais profundo.
— Isso está me divertindo mais do que deveria — a voz de Daniel trouxe minha atenção de volta. Ele estava jogado em uma das poltronas do meu escritório, as mãos cruzadas atrás da cabeça e um sorriso presunçoso nos lábios.
Lancei um olhar cortante para ele. — Por que diabos você está achando graça?
— Porque é hilário ver você, Maximilian Steele, o homem mais calculista que eu conheço, completamente perdido porque sua secretária resolveu te dar um gelo.
Minha mandíbula travou. — Eu não estou perdido.
Daniel ergueu uma sobrancelha. — Não? Então por que está verificando o celular a cada dois minutos como um adolescente rejeitado?
Joguei o telefone sobre a mesa com mais força do que o necessário. Daniel apenas riu.
— Vai me contar o que aconteceu ou tenho que adivinhar?
Cruzei os braços e olhei para a cadeira vazia onde Charlotte deveria estar.
— Discutimos ontem. Ela... interveio em uma reunião. Defendeu minha decisão quando me atacaram. Mas eu não vi desse jeito.
— E o que você fez?
Desviei o olhar. — Explodi com ela.
O silêncio de Daniel foi quase pior do que se ele tivesse me xingado. Depois de alguns segundos, ele soltou uma risada baixa e balançou a cabeça.
— Você é um idiota.
— Eu sei.
O reconhecimento saiu antes que eu pudesse me conter. Daniel piscou, surpreso.
— Espera. Você admitiu?
Passei a mão pelo rosto, sentindo o cansaço pesar sobre mim. — Sim, admiti. Agora pode parar de comemorar?
— Nem fodendo. Isso é histórico! — Ele sorriu, mas depois ficou sério. — O que vai fazer?
O que eu podia fazer? Charlotte era teimosa. Se realmente decidiu que ia se demitir, não voltaria atrás tão facilmente.
Mas eu não podia deixá-la ir.
Respirei fundo e peguei o celular, hesitando por um segundo antes de abrir a conversa com ela.
Maximilian: "Charlotte. Precisamos conversar."
Aguardei. Nenhuma resposta.
Daniel se inclinou para frente, observando minha tela. — Se acha que uma mensagem dessas vai fazê-la voltar, você realmente não a conhece.
— Eu sei.
Mas era só o começo.
Então, Charlotte aparece, entrando em minha sala como um furacão.
O som firme dos saltos ecoou pelo escritório antes mesmo que eu levantasse o olhar.Charlotte entrou como uma tempestade, seu corpo rígido de tensão e os olhos faiscando determinação. Mas foi o pedaço de papel em sua mão que realmente fez meu estômago afundar.Seu aviso prévio.Senti Daniel se remexer na poltrona ao meu lado, claramente interessado no que aconteceria a seguir.— Daniel. — Minha voz saiu firme, um comando direto. — Nos deixe a sós.Ele ergueu as mãos em rendição, mas antes de sair, lançou um olhar divertido.— Boa sorte, chefe. Você vai pre
Charlotte se afastou de mim com um movimento brusco, sua respiração acelerada e os olhos faiscando.— Se eu for ficar, Maximilian, vai ter que ter mudanças.Cruzei os braços, analisando-a. Eu já esperava que ela não fosse simplesmente aceitar minha imposição, mas algo em sua postura me dizia que ela não estava apenas exigindo um pedido de desculpas.— Que tipo de mudanças? — questionei, mantendo minha voz calma.Ela ergueu o queixo, determinada.— Eu quero ser respeitada. Quero que meu trabalho seja reconhecido sem precisar provar mil vezes que sou competente. Quero que pare de me tratar como se eu fosse descartável.
Charlotte— Eu ainda não acredito que você vai me abandonar, Clara — dramatizei, levando a xícara de café aos lábios.Clara riu, revirando os olhos enquanto passava manteiga na torrada. — Você está falando como se eu estivesse me mudando para outro país. É literalmente a cinco quarteirões daqui.— E ainda assim, longe o suficiente para eu ter que lidar sozinha com minha própria vida. — Suspirei, fingindo desespero.— Talvez seja a hora, né? — Ela ergueu uma sobrancelha com um sorriso malicioso. — Além disso, quem sabe assim você finalmente leva um homem para casa sem medo de me traumatizar?Quase engasguei
Me aproximei da mesa com calma, sentindo o olhar de Maximilian ainda grudado em mim. Ele apertava os copos de café nas mãos, os dedos levemente tensos.Quando parei diante dele, ele pigarreou e engoliu em seco, desviando o olhar por um segundo antes de me encarar novamente.— Esse... esse café é para você. — Ele estendeu um dos copos, e eu olhei de relance para o líquido quente antes de erguer uma sobrancelha.— Sério? — Cruzei os braços, fingindo surpresa. — Porque, por um segundo, achei que estava tendo um delírio matinal.Max apertou os lábios, claramente se esforçando para manter a compostura.— Eu... só achei que você gostaria.Aquilo era inédito.Maximilian Steele, o homem mais arrogante e mandão que eu conhecia, trazendo café para mim.— Bom, obrigada. — Peguei o copo, observando seu olhar cair para as minhas mãos, como se não esperasse que eu realmente aceitasse. Dei um pequeno gole, apenas para provocá-lo. — Está do jeito que eu gosto.Ele pareceu relaxar um pouco, mas logo pi
Depois de um banho quente e demorado, fiquei em frente ao espelho, avaliando as opções de vestido que tinha separado. Nada muito chamativo, nada muito simples. Eu queria estar impecável, mas sem parecer que estava tentando demais.Escolhi um vestido preto de cetim, com alças finas e um decote discreto. O tecido abraçava minhas curvas no ponto certo, caindo suavemente até a altura dos joelhos. Um blazer estruturado por cima dava um toque profissional, mas não escondia completamente o vestido.— Elegante e perigosa — murmurei para mim mesma, sorrindo ao prender o cabelo em um coque baixo, deixando algumas mechas soltas para suavizar o visual.Clara passou pela porta do quarto no exato momento em que finalizei a maquiagem, com um brilho nos lábios e um
Victor girou o copo de uísque entre os dedos, um sorriso divertido dançando nos lábios enquanto seus olhos se fixavam em mim mais do que o necessário.— Então, Charlotte, me diga… há quanto tempo trabalha para o Steele?Ajeitei a postura, mantendo um tom profissional. — Um pouco mais de dois anos.— Dois anos? — Ele ergueu uma sobrancelha, impressionado. — E ainda não fugiu? Isso é admirável.Soltei um pequeno sorriso, mas antes que pudesse responder, Maximilian interveio.— Charlotte sabe reconhecer uma boa oportunidade quando vê uma.Victor soltou uma risada baixa. &md
Victor encostou-se relaxadamente na cadeira, o sorriso presunçoso nunca deixando seus lábios. Ele tomou mais um gole do uísque antes de falar:— Steele, você sempre foi um homem de sorte. Mas preciso admitir que, nesse caso, sua sorte foi além dos negócios.Maximilian apertou o copo com tanta força que, por um momento, temi que o vidro fosse estilhaçar em sua mão.— Do que exatamente você está falando? — Ele perguntou, a voz baixa e controlada, mas carregada de irritação.Victor ignorou a tensão crescente e girou o olhar de forma apreciativa para mim.— Charlotte, é claro. Inteligente, elegante… e linda. Acho que subestimei sua capacidade de manter talentos ao seu lado, Max.Segurei o garfo com mais força do que deveria. Eu já estava acostumada a ser tratada como um mero adorno em reuniões de negócios, mas Victor estava indo além. Ele estava provocando Max deliberadamente.E estava funcionando.Maximilian se inclinou para frente, os olhos faiscando.— Se está interessado na minha assi
— Maximilian! — Chamei seu nome pela terceira vez, mas ele parecia não me ouvir.Sua mão estava firme na minha cintura, me guiando com passos largos e determinados até o carro. Não era um toque doloroso, mas era forte o suficiente para me fazer sentir sua raiva fervendo sob a pele.— Max, se acalma! — insisti, tentando puxar meu braço de leve, mas ele não soltou.Ele abriu a porta do carro com força e praticamente me colocou dentro antes de dar a volta e entrar no banco do motorista.O silêncio durou exatamente dois segundos.— Filho da puta! — Max bateu as mãos no volante, seus olhos queimando de fúria. — Aquele des