A Sra. Santos Quer se Divorciar Há Muito Tempo
A Sra. Santos Quer se Divorciar Há Muito Tempo
Por: Procurando Nuvens
Capítulo 1
Quando Isabela Gomes chegou ao aeroporto do País A, já passava das nove da noite.

Hoje era o seu aniversário.

Ao ligar o celular, recebeu uma enxurrada de mensagens de felicitações.

Todas eram de colegas de trabalho e amigos.

Porém, da parte de Pedro, não havia uma única mensagem.

O sorriso de Isabela se apagou um pouco.

Quando chegou à mansão, já passava das dez da noite.

Dona Rose a viu e ficou surpresa.

— Sra. Santos, o que a senhora está fazendo aqui?

— Onde estão o Pedro e a Ana?

— O Sr. Pedro ainda não voltou. A Ana está no quarto brincando.

Isabela entregou a mala para ela e subiu as escadas. Ao chegar ao quarto, viu a filha vestindo um pijaminha, sentada à mesinha, com total concentração em algo. A menina estava tão focada que nem percebeu a presença da mãe.

— Ana?

Ana Santos ouviu a voz, se virou e exclamou alegremente:

— Mamãe!

Em seguida, voltou imediatamente ao que estava fazendo.

Isabela se aproximou e a pegou nos braços. Mal lhe deu um beijo e já foi empurrada de volta.

— Mamãe, eu ainda estou ocupada!

Isabela não via a filha havia dois meses. A saudade era imensa, e por mais que a beijasse, nunca parecia suficiente. Também queria muito conversar com ela.

Mas, ao ver o quão concentrada Ana estava, decidiu não atrapalhá-la.

— Ana, você está fazendo um colar de conchas?

— Sim! — Ao ouvir isso, Ana pareceu ainda mais animada. — Falta só uma semana para o aniversário da tia Sofia! Esse é o presente que eu e o papai estamos preparando para ela! Todas essas conchas foram cuidadosamente polidas por nós dois com ferramentas especiais. Não estão lindas?

A garganta de Isabela se fechou. Antes que conseguisse responder, ouviu a filha dizer, ainda de costas para ela, com alegria:

— O papai até encomendou outros presentes personalizados para a tia Sofia. Amanhã...

O peito de Isabela apertou, e ela não conseguiu mais segurar.

— Ana, você se lembra do meu aniversário?

— O quê? — Ana ergueu os olhos para a mãe, mas logo voltou a se concentrar no fio de contas em suas mãos. Com um tom de reclamação, disse. — Mamãe, não fale comigo agora, senão eu vou errar a ordem das miçangas.

Isabela soltou os braços que ainda a envolviam e não disse mais nada.

Ficou ali de pé por um longo tempo.

Quando percebeu que a filha não levantaria os olhos para ela nem por um instante, Isabela apertou os lábios e, por fim, saiu do quarto em silêncio.

Dona Rose a viu e disse:

— Sra. Santos, acabei de ligar para o Sr. Pedro. Ele disse que hoje à noite está ocupado e pediu para a senhora descansar.

— Eu já sei.

Isabela respondeu com um suspiro, se lembrando das palavras de sua filha de pouco antes. Ela hesitou por um momento e ligou para Pedro.

Do outro lado, o telefone demorou um bom tempo para ser atendido, e a voz que respondeu era fria:

— Tenho mais coisas para fazer. Vamos falar amanhã.

— Pedro, tão tarde... Quem é?

Era a voz de Sofia Mendes.

Isabela apertou o celular com força.

— Não é nada.

Antes que Isabela pudesse dizer mais alguma coisa, Pedro já havia desligado a ligação.

Fazia dois ou três meses que o casal não se via. Ela, finalmente, havia conseguido viajar até o País A, mas ele, ao invés de voltar para casa para vê-la, nem sequer teve paciência de ouvir o que ela tinha a dizer em uma simples ligação...

Depois de tantos anos de casamento, ele sempre foi assim com ela: frio, distante e impaciente.

Ela, na verdade, já havia se acostumado.

Se fosse no passado, ela teria ligado de novo, perguntado pacientemente onde ele estava e se ele poderia voltar para casa.

Hoje, talvez por estar cansada, ela de repente não teve ânimo para fazer isso.

No dia seguinte, Isabela acordou e, depois de pensar um pouco, decidiu ligar para Pedro.

No País A, a diferença de fuso horário com o Brasil era de dezessete horas, e, naquele dia, ainda era seu aniversário.

Ela veio para País A com a intenção de ver a filha e o Pedro, mas seu maior desejo era passar esse dia especial com a família, em um simples jantar juntos.

Esse era o seu desejo de aniversário deste ano.

Pedro não atendeu a ligação.

Muito tempo depois, ele mandou uma mensagem.

[Tem algo de errado?]

Isabela respondeu:

[Você tem tempo hoje à tarde? Trago a Ana e vamos almoçar juntos.]

[Entendido. Me avise o endereço depois.]

Isabella respondeu:

[Ok].

Depois disso, Pedro não enviou mais nenhuma mensagem.

Ele havia se esquecido de que era o aniversário dela.

Isabela, embora já estivesse preparada mentalmente, não conseguiu evitar sentir uma pontada de tristeza em seu coração.

Depois de se arrumar, ela estava prestes a descer quando ouviu os sons de sua filha e de dona Rose lá embaixo.

— Ana, você não está feliz? — Perguntou dona Rose.

— Eu e o papai já combinamos de levar a tia Sofia para a praia amanhã. Se a mamãe vier junto, vai ficar muito estranho. E a mamãe é tão má, sempre brigando com a tia Sofia.

— Ana, a Sra. Santos é sua mãe, você não pode falar isso. Ela vai ficar triste, sabia?

— Eu sei, mas eu e o papai gostamos mais da tia Sofia... Não dá para ela ser minha mãe?

O que dona Rose disse depois disso, Isabela já não conseguiu ouvir direito.

Sua filha tinha sido criada por ela, e nesses últimos dois anos, com a convivência cada vez mais próxima de Pedro, parecia que ela estava mais perto dele. No ano passado, quando Pedro foi para o País A expandir o mercado, a filha fez questão de acompanhá-lo.

Isabela não conseguia deixar de se sentir triste com a ideia de sua filha ir embora, e, naturalmente, queria que ela ficasse ao seu lado.

Mas, mais do que tudo, ela não suportaria ver sua filha triste. Por isso, concordou com a decisão.

Porém, não esperava...

Isabela ficou imóvel, como se tivesse sido paralisada, o rosto pálido e sem reação por um bom tempo.

Ela havia deixado seu trabalho para vir ao País A, justamente para poder passar mais tempo com a filha. Agora parecia que não havia mais necessidade disso.

Ela retornou ao quarto, pegou os presentes que trouxe do país natal e os guardou de volta na mala.

Alguns minutos depois, dona Rose ligou, dizendo que havia levado a criança para passear e que, se precisasse de algo, era só chamar.

Isabela se sentou na cama, com uma sensação de vazio imenso, perdida em seus próprios pensamentos.

Ela abandonou tudo para vir até aqui, mas ninguém realmente parecia precisar dela.

Sua chegada, na verdade, parecia mais uma piada de mau gosto.

Depois de um longo tempo, ela saiu de casa.

Sem destino certo, vagava por aquele país que ao mesmo tempo era familiar e estranho.

Quando o meio-dia chegou, foi que se lembrou de que tinha combinado de almoçar com Pedro.

Pensando nas palavras que ouviu pela manhã, ela estava hesitando se devia voltar para casa e pegar a filha. Nesse momento, recebeu uma mensagem de Pedro.

[Hoje à tarde, tenho um compromisso importante. Almoço cancelado.]

Isabela olhou para a mensagem sem demonstrar a menor surpresa.

Porque ela já estava acostumada.

No coração de Pedro, qualquer coisa que fosse trabalho ou reunião com amigos sempre parecia ser mais importante do que ela, sua esposa. Os compromissos que faziam juntos, ele sempre cancelava com uma facilidade surpreendente. Nunca parava para pensar em como ela se sentia.

Ela se sentia triste? Talvez no passado.

Agora, já estava anestesiada. Não sentia mais nada.

Isabela estava ainda mais perdida. Veio cheia de esperança para o País A, mas tanto com o marido quanto com a filha, o que encontrou foi um vazio de indiferença.

Sem saber ao certo o que a movia, ela pegou o carro e acabou indo parar no restaurante onde ela e Pedro haviam ido tantas vezes antes.

Ela estava prestes a entrar quando o viu. Pedro, Sofia e Ana estavam lá, sentados.

Sofia estava de forma íntima ao lado da filha, conversando com Pedro e brincando com Ana. A menina, animada, balançava as pernas e se divertia com a tia, chegando a pegar os doces que Sofia mordeu.

Pedro sorria, olhando para elas, mas seus olhos nunca deixavam Sofia, como se só ela existisse em sua visão.

Era isso que Pedro chamava de compromisso importante.

Foi pela filha também que ela passou por meses de angústia, trazendo ela ao mundo, arriscando a própria vida no processo.

Isabela sorriu, mas não um sorriso de felicidade. Era um sorriso vazio, dolorido.

Ela ficou ali, parada, observando.

Por muito tempo, apenas ficou olhando, até que finalmente desviou o olhar e se virou para sair.

De volta à mansão, Isabela preparou uma carta de divórcio.

Ele havia sido seu sonho de juventude, mas ele nunca a viu. Se não fosse pelo acidente daquela noite e pela pressão do avô de Pedro, Raul Santos, ele jamais teria se casado com ela.

Ela, que no passado acreditava que se ela se esforçasse o suficiente, um dia seria notada, agora sentia a dureza da realidade, como um tapa inesperado na cara.

Já se passavam quase sete anos.

Era hora de acordar.

Ela colocou o acordo de divórcio dentro de um envelope, pediu a dona Rose que entregasse ao Pedro e, com um suspiro pesado, arrastou a mala até o carro.

— Para o aeroporto.
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