Otto permaneceu frio nos dias que se seguiram. O carinho de antes desaparecera, e até sua voz soava distante. Julia tentava respeitar seu espaço, mas, no fundo, só queria que tudo voltasse ao normal. Passou os dias mergulhada na tristeza, se culpando. Pérola era sua única fonte de conforto, já que Otto parecia sempre ocupado demais para ficar por perto.
— Julia, dá um tempo para ele. Isso vai passar.Pérola dizia isso, e Julia repetia para si mesma como um mantra.Otto continuava levando-a ao hospital, cuidando dela, mas sem realmente estar presente. Julia tentava se aproximar. Às vezes, parecia que havia conseguido, mas, de repente, ele se fechava de novo. Em um momento, a procurava; no outro, no meio de um gesto de carinho, recuava.Julia apenas suspirava. Não havia muito o que fazer. No começo, isso a afetou profundamente, mas, depois de três dias, decidiu que era melhor dar espaço e focar em si mesma.A casa era cheia de livros, entãoOtto ajudou Julia a se levantar, pegou o notebook, colocou dentro da bolsa dela e ofereceu o braço para que ela andasse com mais segurança. Ela sorriu para ele – um sorriso bobo, um sorriso que ele adorava ver. Otto sorriu de volta, e caminharam em direção ao carro.— Aqui é bonito, né? — falou ela com um tom meigo.— Sim, muito bonito.— Podíamos comer um cachorro-quente, o que acha? — apontou para a barraca.— Nada disso, vai para casa jantar direito. Outro dia você come cachorro-quente.— Tudo bem.Ao chegar no carro, Otto abriu a porta, acomodou Julia e lhe entregou a bolsa. Depois, deu a volta, entrou e partiram em silêncio.Ao chegarem em casa, ele a ajudou a subir os degraus devagar, deixou que ela entrasse primeiro, fechou a porta atrás de si e foi até a cozinha ligar o forno novamente. Julia deitou no sofá e viu Otto passar para o quarto, demorar um pouco e então retornar.— Preparei seu banho. Dá tempo
Apesar de terem feito as pazes, Otto continuava dormindo no quarto de cima. Julia não questionou — apenas aceitou. Depois de dias sem receber muita atenção dele, já não se incomodava ao vê-lo ir dormir sozinho.Ainda assim, Otto voltou a ser carinhoso e atencioso. O homem frio dos últimos dias parecia ter desaparecido, e isso, para ela, era um alívio.A reaproximação foi lenta, cuidadosa, mas ambos queriam, de verdade, ficar bem. E, aos poucos, Otto se deixou levar.Julia expressava seu afeto nos detalhes — no tom suave da voz, no toque delicado ao acariciá-lo, no simples gesto de ajeitar sua gravata antes de ele sair.A ternura, a dedicação, a adoração estavam de volta. E, pouco a pouco, tudo se encaixava novamente.Otto e Julia começaram, de fato, a se sentir à vontade um com o outro. O desejo entre eles era inegável, ardia em ambos, mas Otto mantinha distância. Tinha medo de que tudo se repetisse, de que Julia se arrependesse e, mais u
Com a alta, Julia sentiu uma mistura de alívio e ansiedade. Depois de tanto tempo no hospital, a liberdade parecia quase surreal. O peso das paredes que a cercavam agora se desfazia, e ela tinha diante de si um novo espaço, com infinitas possibilidades. Saiu do consultório com os folhetos de atividades em mãos e uma leveza no coração. A cidade, com seus caminhos conhecidos e desconhecidos, agora parecia cheia de oportunidades. Decidiu dar um passeio, aproveitar a liberdade de seus próprios passos e respirar o ar fresco. Enquanto caminhava, pensava no que Cole lhe dissera. Ela estava bem, mas algo dentro de si ainda sentia falta de um pedaço de sua memória. O desejo de se lembrar a acompanhava, mas por agora, ela sabia que deveria se permitir viver o presente. Julia sentia que, aos poucos, estava se redescobrindo. Cada esquina, cada café que passava, parecia trazer uma nova lembrança, uma nova sensação. Mas nenhuma delas ainda era forte o
O aroma do café recém-passado se espalhava pela cozinha enquanto Julia ajeitava as xícaras sobre a mesa. O dia estava calmo, e a presença de Pérola tornava tudo mais leve. As duas se sentaram, aproveitando o silêncio confortável que compartilhavam.— É engraçado — Julia comentou, mexendo distraidamente a colher no café. — Ás vezes, sinto como se estivesse começando do zero. Como se essa vida fosse nova para mim, mas, ao mesmo tempo, já estivesse vivida antes.Pérola apoiou o queixo na mão, observando-a com atenção.— Eu entendo, de certa forma — disse ela. — Acho que todos temos momentos assim, mesmo sem perder a memória. Eu mesma precisei recomeçar algumas vezes.— Você já passou por algo parecido? — Julia perguntou, curiosa.Pérola suspirou e sorriu de leve, como se buscasse as palavras certas.— Quando me mudei para cá, foi por necessidade. Deixei minha cidade, minha família, porque precisava fugir de um lugar que não me fazia
O quarto era banhado por uma luz dourada, suave e acolhedora. Julia estava sentada em um sofá macio, sentindo o calor de um pequeno corpo aninhado contra o seu. Pequenos dedos brincavam com os dela, e uma risada cristalina ecoava pelo ambiente.— Mamãe, olha! — a voz infantil, doce e cheia de vida, fez o coração de Julia se encher de um calor indescritível.Ela olhou para baixo e viu uma menininha de cabelos castanhos, os olhos brilhando de felicidade. A criança segurava um livro colorido, apontando para as figuras com entusiasmo. Julia sentiu-se inundada por um amor profundo, instintivo.— Você gosta dessa história? — perguntou, sua própria voz soando diferente, quase distante.A menina assentiu vigorosamente.— É a nossa história favorita!Julia sorriu, acariciando os cabelos macios da filha. Havia algo de familiar naquele momento, como se ela já tivesse vivido aquilo mil vezes antes. A sensação de paz era tão real.Ma
As horas se passaram, e as duas continuaram a dormir. O celular tocou várias vezes sem que ninguém atendesse. O modo silencioso estava ativado desde o dia anterior, então nada atrapalhava o merecido descanso.Julia despertou com o ronco da própria barriga — seu despertador inesperado. Espreguiçou-se, pegou o telefone e arregalou os olhos ao ver a hora: já passava das 13h. Só então notou as inúmeras chamadas perdidas. Otto havia mandado mensagens e, sem resposta, insistiu nas ligações.— Puta merda — murmurou, sentando-se no sofá.Julia enviou algumas mensagens para Otto, que respondeu de imediato. Depois de tranquilizá-lo, ele perguntou como tinha sido o dia. Ela mencionou o passeio com Pérola, mas omitiu o sonho, resumindo que estava cansada e dormiu cedo.Otto então avisou que precisaria estender a viagem por mais alguns dias. Pediu desculpas antes de voltar ao trabalho.Julia soltou um suspiro aliviado ao saber que ele demoraria mais p
As duas estavam sentadas na mesa da sorveteria, o barulho das conversas ao redor e o som das colheres batendo nas taças de sorvete quase imperceptíveis diante do silêncio que pairava entre elas. Julia mexia no sorvete, sem realmente comê-lo, perdida em seus pensamentos. Pérola observou sua amiga em silêncio por um momento, sentindo a dor que emanava dela. Finalmente, ela falou, suavemente: — Eu sei que o sonho foi muito forte, mas não é sua culpa, Julia. Você não pode carregar o peso disso sozinha. Julia olhou para o copo, com os olhos marejados. Sua garganta estava apertada, as palavras pareciam não sair. — Eu deveria ter feito mais por ela, Pérola. Ela era só uma criança, e eu não consegui protegê-la. Como pude ser tão fraca? Pérola não hesitou. Ela colocou a mão sobre a de Julia, apertando-a com carinho. — Você não foi fraca. Não se trata de fraqueza, mas de coisas que estão fora do nosso co
Julia se sentiu tão incentivada por Pérola que logo mudou sua rotina. Pela manhã, fazia caminhada. Depois, voltava para casa, realizava algumas tarefas domésticas e tinha o restante do dia livre para ler e escrever. Criou o hábito de ir ao parque no fim da tarde e se juntou ao clube do livro. Mas, mesmo assim, algo parecia faltar. O tempo livre se estendia demais, e uma inquietação crescia dentro dela. Queria mais. Precisava ocupar a mente. Trabalhar? Estudar? Não sabia ao certo, mas começou a pesquisar na internet e a caminhar pela cidade, atenta a qualquer oportunidade que lhe despertasse interesse. Foi em uma dessas caminhadas que notou um anúncio colado na porta da livraria Refúgio do Leitor. Já conhecia o lugar, afinal, era lá que participava do clube do livro. Mas, estranhamente, nunca tinha reparado naquele cartaz antes. As letras um pouco desbotadas pelo sol e as bordas do papel desgastadas indicavam que estava ali havia algum tempo. Seu coração