Capitulo 1
Dois meses depois... Como eu odeio esse emprego. Papéis, drogas, cartéis, milícias... Odiava tudo isso. Tentei ao máximo me manter afastada desse mundo por medo. Minha família era da máfia russa e, não suportando a pressão e um casamento contra minha vontade, fugi para a Itália. Mudei meu sobrenome, aparência, cor dos olhos, tudo que eles pudessem usar para me encontrar. Meus olhos prateados se tornaram castanhos, meu cabelo loiro tingido de castanho claro. Tentei viver no anonimato, longe de tudo que era perigoso ou estivesse envolvido com atividades ilícitas. Por ironia do destino, alguém da máfia cruzou meu caminho e, por consequência, me envolvi novamente nesse mundo que tanto tentei fugir. Mas essa era minha punição depois de fazer um acordo com o líder antecessor. Era uma situação complicada, reconheço, mas para ter o que procuro com tanto desespero, precisava suportar todos esses meses ao lado de Lorenzo. 'Isso será complicado', pensei comigo mesma. Mantive um olhar sereno no rosto enquanto arrumava a papelada para o neto arrogante de Giovanni Vacchiano. O motivo do meu acordo. Don Lorenzo Vacchiano. Ele não era o mais apropriado para assumir, todos sabiam disso. Mas a frieza e agilidade que lidou com a conspiração de usurpação o consagrou ao título de Capo. Lorenzo não medira esforços para dizimar seus concorrentes, acabando até mesmo com pequenas sementes de traição. Era um homem perigoso, frio e cruel que mataria até mesmo um bebê se ameaçasse seu título. Passei as mãos na saia levemente amassada. Odiava imperfeições, odiava ser observada com desdém ou luxúria. Malditos filhos da puta. Dei algumas batidas na porta e entrei, fechando a porta atrás de mim. O lugar cheirava a charuto caro. O mesmo charuto que Giovanni usou quando fizemos o acordo. Meu coração doeu ao lembrar dele, já que sempre me apoiou nos momentos mais sombrios de minha vida. Eu só queria sumir, deixar de existir. Giovanni me dera um propósito e eu iria até o fim com a segunda chance que ele me ofereceu. Aproximei-me. Meus passos audíveis na sala silenciosa, exceto pelo som de tragadas no charuto. Pigarreei, chamando sua atenção. - Sei que está muito ocupado, senhor. Mas preciso de sua aprovação. – não consegui esconder o desdém da minha voz. Ouvi a cadeira girar e um par de olhos verdes me olharam, carrancudo. Lorenzo suspirou, estendendo a mão. - Não consegue esconder que me odeia, certo? Um sorriso debochado surgiu em meus lábios. - Estou cuidando disso. Se eu for evidente demais, afetará meu trabalho. – disse estendendo a papelada para ele. - Tente melhor! Caso contrário, acabará em problemas. -sua voz brusca tirou de mim uma leve risada. Eu poderia retrucar, dizer que era algo infantil de se dizer, porém ele estava certo. Se alguém visse minha falta de respeito com Lorenzo, poderia incitar uma intervenção. Não pude deixar de me sentir incomodada com isso. Mantive a postura profissional enquanto observei Lorenzo assinando a papelada lentamente, parecia até que queria me irritar. Se tornou algo corriqueiro, provocações, risadas maliciosas e piadinhas de mal gosto. Tudo entre nós era tão complicado que, quem nos visse juntos, comentaria que formávamos um belo casal, revirei os olhos só de pensar nessa possibilidade. Em seus trinta e dois anos, se não fosse um dos homens mais temidos da costa leste da Itália, diria que é apenas um garoto mimado brincando de ser mafioso. Cabelos castanhos, olhos verdes, mãos longas, um corpo bem trabalhado e cheio de músculos, coxas malhadas e firmes. O tipo de cara que atraía olhares de homens e mulheres, passando um ar de protetor. Mas para mim, era a pior das víboras. Quando me olhou, a carranca continuava lá. De forma impaciente, passou as mãos na cabeça e praguejou. - Será que dá para se sentar? - É uma ordem, senhor? - Não, porra! Você está grávida, esqueceu? Mesmo que esteja apenas no início, todo cuidado é pouco. – ele inclinou o corpo e olhou para meus pés, soltando outro palavrão. – Já pedi para não usar saltos, Emma Cassano! Está ficando louca? E se você cair e perder o bebê? Embora estivesse frustrado, sua voz era profundamente rouca e cheia de preocupação. Não pude deixar de rir da ironia cruel que estava na minha frente. - Senhor, eu estou bem! Mas se isso o incomoda, me sentarei enquanto espero esses papéis. – falei de forma profissional, sentando na cadeira à sua frente. Ele não parecia satisfeito, mas voltou sua atenção para os documentos novamente. Seu olhar estava muito concentrado e apenas permaneci em silêncio. Não era segredo minha gravidez, nunca foi. Porém, odiava a forma como ele agiu, como se estivesse preocupado. Pelo amor de Deus! Eu não estaria grávida se não fosse por ele. Olhei meu celular em silêncio, anotando minha próxima visita ao obstetra. Estou com dois meses de gestação e a barriga não evidenciava a gravidez. Pelo menos não por agora. Lorenzo parou o que estava fazendo e perguntou: - Teve algum problema com o acordo de paz? - Não, senhor. Mas acredito que suas exigências são absurdas, comparada com os seus delitos. Perder a mercadoria e achar que tem o direito de exigir clemência é um pouco fantasioso. Ele confirmou, jogando os papéis para o lado. Ergueu-se da cadeira e deu a volta, parando em minha frente. Inclinando o corpo para a frente, ele tocou meu rosto, pensativo. Continuei quieta, avaliei sua atitude arqueando a sobrancelha. - Não gosto de te pôr em perigo, Emma. - Isso faz parte do meu acordo com o antigo Capo. Você não tem nada a ver com isso, Lorenzo. E já que estamos falando de coisas que não gostamos... – olhei em seus olhos verdes como esmeralda. – Afaste sua mão de mim. Ele riu, como se meu comentário não o afetasse. Seu polegar brincou com minha bochecha e cerrei os dentes. Lorenzo sabia o quanto eu o odiava, mas isso não o impedia de me perturbar. Como eu disse, uma criança mimada brincando de ser mafioso. - Você não sabe o que está perdendo, querida. – com um sorriso irritante, afastou sua mão do meu rosto. - Na verdade, sei... Mas não me importo. – provoquei de volta, levantando da cadeira. – Terminou de assinar, senhor? - Sim, Emma. – Lorenzo volta a fumar como se aquilo não fosse nada demais. – Ligue para John e peça para ele vir me ver ainda hoje. Arqueei a sobrancelha enquanto recolhia os documentos de sua mesa. Moleque mimado, ele já era um adulto, pelo amor de Deus. - John está aposentado, senhor. Seja razoável. – Observei, gesticulando as mãos. – Você é o líder, precisa saber como lidar com os problemas e não incomodar os outros. - Olha o tom de voz, senhorita. Lembre-se de qual é o seu lugar! É claro, pensei friamente. Mas em breve isso acabaria e Lorenzo não fazia ideia disso. Me curvei de forma cortês. - Perdoe-me pela ousadia. Ele apenas me olhou, muito irritado e não pude deixar de sorrir. Um toque de seu celular tirou sua atenção de mim e olhou para o celular, fazendo uma careta e afrouxando a gravata. Estranhei. - O que foi? - Um dos nossos carregamentos de heroína foi apreendido pela policia. – Jogou o celular sobre a escrivaninha e passou a mão nos cabelos, irritado. As coisas podiam não ter saído da forma que ele esperava, mas ele tinha influência suficiente para resolver uma situação tão simples como essa. Fui até ele e, tirando o charuto de suas mãos, ajeitei sua gravata em silêncio. Sentia seu olhar questionador sobre mim e me afastei ao terminar. Ignorei seu olhar chocado e dei de ombros. - Você é Lorenzo Vacchiano! Seu título e influência são maiores que a própria policia. Tenho certeza de que achara uma solução. Ele continuou me olhando e um sorriso manipulador se formou em seus lábios. - O que minha secretária brilhante sugere? Dei de ombros, mas isso não me impediu de sorrir. - É simples, senhor. Descubra o responsável da operação e desenterre todo o passado sujo do infeliz. – levantei o indicador até meu rosto. – No mundo de hoje, ninguém é tão limpo assim. Todos tem segredos. É fácil encontrar nomes e suborná-los, certo? Ele sabia que eu estava certa. Essa era a maneira correta de lidar com coisas aborrecidas como estas. Principalmente nesse mundo de incertezas. - Incluindo você? Fiquei em silêncio por um tempo, pensando um pouco. Claro que eu tinha segredos, mas ele não deveria saber. Considerei provocá-lo um pouco, mas sabia que ele agiria de forma imprudente. Além disso, não desejava sua atenção em mim. Dei de ombros, recolhi os papéis e caminhei até a porta. Quando parei em frente delas e a abri, olhei para trás e sorri friamente. - Principalmente eu.- Che donna astuta! – sussurrei quando minha assistente deixara meu escritório.Eu não conseguia tirar ela da minha mente desde o dia que meu avó nos apresentou. Emma aparentava ser uma mulher fria, mas eu conseguia enxergar algo nessa garota e fiquei fascinado por ela. Belos cabelos compridos, olhos castanhos e desafiadores, corpo curvilíneo e sensual. Não era tão baixa, chegando à altura do meu queixo. Vestia sempre ternos, que realçavam ainda mais seu corpo lindo. Hoje, porém, Emma usava um vestido preto, formal para quem o visitava, mas sexy aos seus olhos. Por mais estranho que pudesse parecer, algo acontecia entre eles. Tensão sexual, talvez. Mas desde que a vira, ela não saía de seus pensamentos. Voltei para a minha mesa, considerando minhas opções. Se o velho me visse desse jeito, estaria dando risadas da minha cara nesse momento. Cerrei os dentes, fechando a pasta que estava em minhas mãos com força. Parece que matar o maldito não foi suficiente, já que eu podia ouvir sua r
Cheguei em casa sem grandes surpresas depois de acompanhar Lorenzo até o porto onde a mercadoria fora apreendida. De fato, suas suspeitas eram de ter um agente infiltrado entre seus membros, caso contrário, uma apreensão dessa magnitude não teria sucesso.Suspirei, me jogando sobre o sofá. Aquilo era uma loucura. Eu poderia rapidamente ser suspeita, já que todos sabiam meu rancor por mafiosos e sendo irônico que eu trabalhava exatamente para eles. Mas meu acordo com Giovanni era claro: eu não podia interferir nas operações, caso contrário, minha cabeça estaria a prêmio. Isso era frustrante, para não dizer o mínimo.Enquanto tomava banho, peguei-me pensando no que acontecera mais cedo: o toque de Lorenzo ainda ardia em minha pele. O desejo em seus olhos ainda me sondava, me forçando mesmo sem dizer uma palavra que eu seria dele. Tive muita força de vontade para me afastar. Lorenzo representava tudo que eu odiava e fugia por muito tempo. Mas havia algo em seu comportamento que me atraia
Batidas altas na porta me fizeram pular da cama. Olhei para o relógio na mesa de cabeceira e praguejei baixinho. Estava atrasada! Duas horas atrasada! Tinha certeza que Lorenzo estava surtando. Sentei na cama, coçando meus olhos sonolentos enquanto as batidas seguiram cada vez mais insistentes. Vesti meu robe e fui atender a porta, sem expressar surpresa ao ver Lorenzo parado em minha frente.Para uma reunião profissional, era estranho vê-lo com roupas casuais: uma camisa polo preta que evidenciava seus músculos e uma calça jeans. Porém, seus sapatos não combinavam com o arranjo, me passando a sensação de um típico playboy.Seu olhar misturava alívio e irritação e sem nenhum convite, ele invadiu minha casa. Cruzei os braços e o observei como se ele estivesse louco.— Algum problema?Ele passou a mão nos cabelos, seu olhar vagando pelo meu corpo por um momento, antes de seu olhar se fixar ao meu.— Por que ainda está vestida assim? Eu estava a sua espera desde cedo. — Ele caminhou lent
Seus lábios eram o paraíso.Eu não conseguia descrever as sensações que inundavam meu corpo. O cheiro dela me inebriava, me seduzia a um ponto que me fazia perder a razão. Meus sentimentos sempre ficavam mais claros quando Emma estava em meus braços e eu tinha a absoluta certeza de que ela seria minha.Quando fui até o lugar e vi o corpo desovado, meu primeiro pensamento dizia que era Emma ali, morta por alguém. Fui tomado por pavor e desolação, mas quando me aproximei e vi que não era ela, suspirei de alivio. A ideia de ver minha secretária morta provocou um embrulho em meu estomago. Agora, aqui com ela, meu nervosismo fora embora e minha mente estava calma. Trouxe-a para junto de mim, mas sua rigidez me fez congelar.Afastei um pouco de Emma, nossos lábios se separando no processo. Quando olhei seu rosto, senti meu sangue gelar. Ela estava irritada, a frieza tomou conta de suas belas feições. A cor sumiu do meu rosto e me afastei dela instantaneamente. Seu silencio me incomodou, seu
Passei o final de semana alternando entre o medo e a raiva. Depois que Lorenzo foi embora, me permiti desmoronar. Se aquela mensagem era realmente para mim, significava que tinham me encontrado. Só por considerar isso me dava náuseas.As horas seguintes foram borrões. Conversei com John por telefone. Ele mais do que ninguém, conhecia minha situação. Expressei minhas preocupações a respeito do que tinha acontecido e na possibilidade de Maximillian ter me encontrado. John fora categórico, me passando algumas informações. Aquele homem estava na Itália, tentando se estabelecer na região. Porém, deixara claro de que eu não deveria me preocupar.— Pense comigo, Emma. Todo o treinamento que você recebeu de Giovanni servirá perfeitamente. Não se renda! Lute! E caso seja demais para você, use os Vacchiano. — Dissera ele.Isso me acalmou um pouco, considerando quão estressada estava com a situação. Conhecendo aquele homem, em breve entraria em contato com os mafiosos locais para formar alianças
Não demorou muito para Dimitri entrar no escritório com alguns documentos nas mãos. Emma tinha saído para pegar o café, então era o tempo que eu precisava para analisar o dossiê. Mas antes disso, olhei para ele com o cenho franzido.— Alguma novidade?Dimitri se mexeu, desconfortável.— Notamos uma movimentação suspeita nos arredores da casa de Emma. — Fechei a cara, mas o homem não se intimidou e continuou o relatório. — Além disso, ela fez uma ligação para o secretario anterior. Permaneceram na linha por duas horas e depois disso ela seguiu com suas atividades normais.John novamente. O que diabos eles conversaram? Por que eram tão próximos? Será que tinha alguma relação com o acordo que fez com meu avô. Cada vez que essas perguntas surgiam em minha mente mais irritado eu ficava. Eu sou o líder da família. Eu sou capaz de proteger a Emma. Mas cada movimento que eu fazia para me aproximar a fazia se afastar ainda mais, como se tivesse aversão a mim. Não faz sentido, pensei. Nada esta
Os gritos de Miguel encheram a sala.Lorenzo não teve piedade e o torturou por horas a fio, mas o homem não abriu a boca, mesmo passando pelas piores torturas. Precisava admitir que era admirável o quanto Miguel suportou nas mãos de Lorenzo, mas até mesmo o mais determinado sucumbira nas mãos dele.Me recostei na cadeira enquanto meu chefe arrancava a pele das costas do homem, que urrava de dor. Tentei ignorar o sangue que respingava aos montes, fazendo poças no chão ou mesmo o cheiro nauseante de sangue. Lorenzo estava se divertindo, sua cara tão sádica que até mesmo minha indiferença era substituída pelo medo.— Sabe... — Lorenzo passou a faca pela carne exposta do pobre coitado. — Para um vermezinho insignificante, até que suporta a dor. O que acha querida? Devo parar?Seus olhos eram frios e inexpressivos. Sua voz estava repleta de sarcasmo. Será que esperava um elogio de minha parte? Ri suavemente.— Parece que está perdendo o jeito, meu amor. Quer uma ajuda?Algo brilhou em seus
“Don Giovanni, por que me chamou aqui?”O homem olhava pela janela, um charuto caro em sua boca, como se estivesse absorto em pensamentos. Eu não pude deixar de notar o cansaço em seus ombros e o esforço que o mesmo fazia para manter-se de pé.Giovanni Vacchiano estava doente. Diagnosticado com mal de Parkinson, ele manteve-se forte, lidando com assuntos que eu não queria saber. Em seus setenta e oito anos, mantinha a mesma mão firme de antes, sendo até mais implacável quando recebeu o diagnóstico. Homem austero, calvo e baixinho, vestia sempre seu terno caro para tudo, mesmo para coisas simples. Era um homem admirável… e manteve meu segredo guardado.Aproximei-me da cadeira à sua frente e sentei, tentando entender o motivo dele ter me chamado. Imaginei que seria por conta de sua doença.“Boatos começaram a surgir sobre quem seria seu sucessor.”Ele estalou os dentes, irritado.“Bando de inúteis. Não veem a hora da minha morte. E sabe o que é mais hilário, querida?” - deu uma tragada