Batidas altas na porta me fizeram pular da cama. Olhei para o relógio na mesa de cabeceira e praguejei baixinho. Estava atrasada! Duas horas atrasada! Tinha certeza que Lorenzo estava surtando. Sentei na cama, coçando meus olhos sonolentos enquanto as batidas seguiram cada vez mais insistentes. Vesti meu robe e fui atender a porta, sem expressar surpresa ao ver Lorenzo parado em minha frente.
Para uma reunião profissional, era estranho vê-lo com roupas casuais: uma camisa polo preta que evidenciava seus músculos e uma calça jeans. Porém, seus sapatos não combinavam com o arranjo, me passando a sensação de um típico playboy.
Seu olhar misturava alívio e irritação e sem nenhum convite, ele invadiu minha casa. Cruzei os braços e o observei como se ele estivesse louco.
— Algum problema?
Ele passou a mão nos cabelos, seu olhar vagando pelo meu corpo por um momento, antes de seu olhar se fixar ao meu.
— Por que ainda está vestida assim? Eu estava a sua espera desde cedo. — Ele caminhou lentamente para perto de mim, com sua postura de predador.
Arqueei a sobrancelha. Nesses meses, Lorenzo nunca viera em minha casa, nem mesmo quando eu atrasava para o trabalho, o que raramente acontecia, ou por qualquer motivo. Era natural da minha parte desconfiar de sua aparição repentina. Respondi sua pergunta, enquanto o guiei para a sala de estar humilde.
— Não dormi bem durante a noite, peço perdão por isso.
O homem me olhava como se não acreditasse em minhas palavras. Parecia que tinha visto um fantasma. Por um momento, vê-lo desse jeito me afetou mais do que eu admitiria e involuntariamente, segurei sua mão. Lorenzo se assustou com meu toque, mas colocou a própria mão sobre a minha.
— Aconteceu alguma coisa?
Ele balançou a cabeça, apertando minha mão com mais força, como se quisesse afastar algum pensamento estranho. Observar esse homem agindo dessa forma era estranho demais para mim.
— Se não aconteceu nada, por que veio aqui? Sei que estou atrasada, mas eu iria até o escritório.
Ele fez uma careta.
— Já te falaram que você não é delicada com a situação?
— Não preciso ser delicada, Lorenzo. Preciso ser prática. E você não me respondeu.
Não tinha razões para ser gentil com ele. Diferente do escritório, onde precisava controlar minhas emoções, em minha casa a conversa era outra. E não liguei por estar com o corpo sensível por causa da gravidez, ou mesmo achar o homem que arruinara minha vida muito gostoso. Meu humor não era dos melhores e ele tinha consciência disso.
Fui até a geladeira, peguei uma garrafa de cerveja e entreguei para ele. Lorenzo me olhava com os olhos cerrados. Será que pensou que eu iria beber? Irritação transparecia em meu rosto quando me sentei longe dele, enquanto aguardava sua resposta.
Ele suspirou, a irritação clara em seus olhos.
— Eu fiquei preocupado, não é do seu feitio se atrasar.
— Para isso existe celular. — Ironizei, cruzando as pernas. — Era só ligar.
Pude ver fumaça saindo de seus ouvidos, e lá no fundo estava apreciando a situação. Lorenzo apenas me encarou, a raiva e outro sentimento peculiar tomando suas expressões.
Algo estava errado. Ele não viria ate minha casa se não fosse importante, já que tinha deixado claro ao Don anterior meus limites.
— Lorenzo, o que foi?
O homem soltou um suspiro profundo, daqueles que provocavam um arrepio na espinha. Sentei-me ereta, cerrando os punhos. A ansiedade tomando conta do meu corpo.
— Uma garota foi achada morta perto em um dos portos da companhia. — respondeu por fim e deu um gole demorado na cerveja. — Ela tinha graves sinais de violência física e ainda não sabemos se algo mais aconteceu. — Um suspiro escapou de meus lábios. Aquilo iria atrair ainda mais a polícia. — Mas isso não é tudo. Ela tinha uma mensagem. Para você.
— Mensagem?
Ele assentiu e tirou um papel cuidadosamente embalado em uma bolsinha de plástico, estendendo para mim.
Franzi o cenho, sem entender a situação. Mensagem para mim? Isso era estranho demais, até mesmo para mim. Peguei o embrulho de suas mãos e tirei o papel do mesmo. Reconheci a caligrafia no momento que as primeiras palavras surgiram no papel. Meu sangue gelou e a cor deixou o meu rosto. Se eu não estivesse sentada, acabaria desmaiando ali mesmo. Lorenzo, percebendo minha palidez, correu para meu lado e segurou meus ombros.
A mensagem era curta, mas significativa o bastante para me fazer tremer por dentro.
TE ENCONTREI, MINHA QUERIDA NOIVA!
A palidez, acompanhada de uma náusea surreal me fizeram levantar do sofá e correr até o banheiro para vomitar. Enquanto meu corpo se contraia em espasmos cruéis enquanto vomitava, Lorenzo se pôs ao meu lado e me ofereceu apoio. Segurou meus cabelos encanto afagava minhas costas.
Quando tudo passou, pedi que ele saísse do banheiro e escovei os dentes. Embora a náusea tivesse desaparecido, minhas mãos não paravam de tremer. Milhares de perguntas ecoavam em minha mente, mas nenhuma tinha resposta naquele momento. Olhei meu próprio reflexo e me dei conta de que estava sem as lentes de contato. Praguejei baixinho, mas não as coloquei novamente. Por hora, deixaria desse jeito.
Quando saí do banheiro, notei Lorenzo segurando o papel nas mãos. Quando olhou pra mim, não pude distinguir o que passava em sua mente. Mas uma coisa era certa: Lorenzo estava furioso.
— Quem te mandou isso?
Não tinha motivos para responder. As únicas pessoas que sabiam da minha situação era Giovanni, que já estava morto, e o John. Eu conhecia bem o antigo secretário e sabia que ele era confiável.
— Deixe isso pra lá. — Tentei mudar de assunto.
— Você está noiva?
Lorenzo se aproximava, sua presença intimidante preenchendo a sala. Institivamente recuei, parando em frente a uma pequena mesa com algumas fotos que trouxera comigo quando fugi. Neguei com veemência.
— Não!
— Está escondendo algo, senhorita Cassano. — disse com tom de voz perigosamente baixo. — Sua reação mostra mais do que quer transparecer.
Odiava quando fazia isso. Odiava esse jogo de poder. Não estávamos trabalhando ou na frente de seus homens, então isso era ridículo.
— Isso não tem nada a ver com você...
— Tem a partir do momento em que o corpo foi desovado perto de minha propriedade!
Tentei me afastar dele, mas Lorenzo foi mais rápido. Me empurrou contra a parede e segurou meus braços acima da cabeça, me imobilizando. Seu corpo estava perto do meu, mas não me tocou. Seu rosto pairava sobre o meu à centímetros de distancia e o encarei, sem me intimidar com seu olhar.
— Isso não é problema seu, senhor Vacchiano. É meu. E irei resolver à minha maneira, sem afetar meu trabalho — rosnei.
Ele não pareceu convencido disso, pois continuava me observando e procurando algum vestígio de algo que só ele via. Se eu era noiva ou não, não era problema dele. Não era algo que Lorenzo pudesse se meter. Era a minha vida e para ter minha vingança, precisava resolver isso o quanto antes.
O aperto em meu braço se intensificou, a dor incomoda se manifestando ali. Lorenzo fitava meus olhos intensamente. Eu sabia que ele percebera a diferença e sua carranca ao se dar conta foi a prova disso.
— Está se escondendo de alguém. — Concluiu, soltando meu braço e recuando.
Apenas assenti, não podia mais esconder. Desviei o olhar e esfreguei meus braços em silêncio. Não estava indefesa, a mensagem apenas me pegara desprevenida. Mas, como a mesma era clara, precisava me preparar, principalmente se fosse afetar os negócios da família Vacchiano.
Senti um puxão e quando dei por mim, meu rosto estava pressionado contra o peito dele. Seus braços me envolveram em um abraço apertado e sua mão afagava minhas costas com delicadeza. Meu corpo ficou rígido automaticamente, lembranças ruins tomando conta da minha mente. Tentei me libertar dele, mas não tive sucesso.
— Fique quieta!
E então seus lábios tomaram os meus.
Seus lábios eram o paraíso.Eu não conseguia descrever as sensações que inundavam meu corpo. O cheiro dela me inebriava, me seduzia a um ponto que me fazia perder a razão. Meus sentimentos sempre ficavam mais claros quando Emma estava em meus braços e eu tinha a absoluta certeza de que ela seria minha.Quando fui até o lugar e vi o corpo desovado, meu primeiro pensamento dizia que era Emma ali, morta por alguém. Fui tomado por pavor e desolação, mas quando me aproximei e vi que não era ela, suspirei de alivio. A ideia de ver minha secretária morta provocou um embrulho em meu estomago. Agora, aqui com ela, meu nervosismo fora embora e minha mente estava calma. Trouxe-a para junto de mim, mas sua rigidez me fez congelar.Afastei um pouco de Emma, nossos lábios se separando no processo. Quando olhei seu rosto, senti meu sangue gelar. Ela estava irritada, a frieza tomou conta de suas belas feições. A cor sumiu do meu rosto e me afastei dela instantaneamente. Seu silencio me incomodou, seu
Passei o final de semana alternando entre o medo e a raiva. Depois que Lorenzo foi embora, me permiti desmoronar. Se aquela mensagem era realmente para mim, significava que tinham me encontrado. Só por considerar isso me dava náuseas.As horas seguintes foram borrões. Conversei com John por telefone. Ele mais do que ninguém, conhecia minha situação. Expressei minhas preocupações a respeito do que tinha acontecido e na possibilidade de Maximillian ter me encontrado. John fora categórico, me passando algumas informações. Aquele homem estava na Itália, tentando se estabelecer na região. Porém, deixara claro de que eu não deveria me preocupar.— Pense comigo, Emma. Todo o treinamento que você recebeu de Giovanni servirá perfeitamente. Não se renda! Lute! E caso seja demais para você, use os Vacchiano. — Dissera ele.Isso me acalmou um pouco, considerando quão estressada estava com a situação. Conhecendo aquele homem, em breve entraria em contato com os mafiosos locais para formar alianças
Não demorou muito para Dimitri entrar no escritório com alguns documentos nas mãos. Emma tinha saído para pegar o café, então era o tempo que eu precisava para analisar o dossiê. Mas antes disso, olhei para ele com o cenho franzido.— Alguma novidade?Dimitri se mexeu, desconfortável.— Notamos uma movimentação suspeita nos arredores da casa de Emma. — Fechei a cara, mas o homem não se intimidou e continuou o relatório. — Além disso, ela fez uma ligação para o secretario anterior. Permaneceram na linha por duas horas e depois disso ela seguiu com suas atividades normais.John novamente. O que diabos eles conversaram? Por que eram tão próximos? Será que tinha alguma relação com o acordo que fez com meu avô. Cada vez que essas perguntas surgiam em minha mente mais irritado eu ficava. Eu sou o líder da família. Eu sou capaz de proteger a Emma. Mas cada movimento que eu fazia para me aproximar a fazia se afastar ainda mais, como se tivesse aversão a mim. Não faz sentido, pensei. Nada esta
Os gritos de Miguel encheram a sala.Lorenzo não teve piedade e o torturou por horas a fio, mas o homem não abriu a boca, mesmo passando pelas piores torturas. Precisava admitir que era admirável o quanto Miguel suportou nas mãos de Lorenzo, mas até mesmo o mais determinado sucumbira nas mãos dele.Me recostei na cadeira enquanto meu chefe arrancava a pele das costas do homem, que urrava de dor. Tentei ignorar o sangue que respingava aos montes, fazendo poças no chão ou mesmo o cheiro nauseante de sangue. Lorenzo estava se divertindo, sua cara tão sádica que até mesmo minha indiferença era substituída pelo medo.— Sabe... — Lorenzo passou a faca pela carne exposta do pobre coitado. — Para um vermezinho insignificante, até que suporta a dor. O que acha querida? Devo parar?Seus olhos eram frios e inexpressivos. Sua voz estava repleta de sarcasmo. Será que esperava um elogio de minha parte? Ri suavemente.— Parece que está perdendo o jeito, meu amor. Quer uma ajuda?Algo brilhou em seus
“Don Giovanni, por que me chamou aqui?”O homem olhava pela janela, um charuto caro em sua boca, como se estivesse absorto em pensamentos. Eu não pude deixar de notar o cansaço em seus ombros e o esforço que o mesmo fazia para manter-se de pé.Giovanni Vacchiano estava doente. Diagnosticado com mal de Parkinson, ele manteve-se forte, lidando com assuntos que eu não queria saber. Em seus setenta e oito anos, mantinha a mesma mão firme de antes, sendo até mais implacável quando recebeu o diagnóstico. Homem austero, calvo e baixinho, vestia sempre seu terno caro para tudo, mesmo para coisas simples. Era um homem admirável… e manteve meu segredo guardado.Aproximei-me da cadeira à sua frente e sentei, tentando entender o motivo dele ter me chamado. Imaginei que seria por conta de sua doença.“Boatos começaram a surgir sobre quem seria seu sucessor.”Ele estalou os dentes, irritado.“Bando de inúteis. Não veem a hora da minha morte. E sabe o que é mais hilário, querida?” - deu uma tragada
Capitulo 1Dois meses depois...Como eu odeio esse emprego. Papéis, drogas, cartéis, milícias... Odiava tudo isso. Tentei ao máximo me manter afastada desse mundo por medo. Minha família era da máfia russa e, não suportando a pressão e um casamento contra minha vontade, fugi para a Itália. Mudei meu sobrenome, aparência, cor dos olhos, tudo que eles pudessem usar para me encontrar. Meus olhos prateados se tornaram castanhos, meu cabelo loiro tingido de castanho claro.Tentei viver no anonimato, longe de tudo que era perigoso ou estivesse envolvido com atividades ilícitas. Por ironia do destino, alguém da máfia cruzou meu caminho e, por consequência, me envolvi novamente nesse mundo que tanto tentei fugir. Mas essa era minha punição depois de fazer um acordo com o líder antecessor. Era uma situação complicada, reconheço, mas para ter o que procuro com tanto desespero, precisava suportar todos esses meses ao lado de Lorenzo. 'Isso será complicado', pensei comigo mesma. Mantive um olhar
- Che donna astuta! – sussurrei quando minha assistente deixara meu escritório.Eu não conseguia tirar ela da minha mente desde o dia que meu avó nos apresentou. Emma aparentava ser uma mulher fria, mas eu conseguia enxergar algo nessa garota e fiquei fascinado por ela. Belos cabelos compridos, olhos castanhos e desafiadores, corpo curvilíneo e sensual. Não era tão baixa, chegando à altura do meu queixo. Vestia sempre ternos, que realçavam ainda mais seu corpo lindo. Hoje, porém, Emma usava um vestido preto, formal para quem o visitava, mas sexy aos seus olhos. Por mais estranho que pudesse parecer, algo acontecia entre eles. Tensão sexual, talvez. Mas desde que a vira, ela não saía de seus pensamentos. Voltei para a minha mesa, considerando minhas opções. Se o velho me visse desse jeito, estaria dando risadas da minha cara nesse momento. Cerrei os dentes, fechando a pasta que estava em minhas mãos com força. Parece que matar o maldito não foi suficiente, já que eu podia ouvir sua r
Cheguei em casa sem grandes surpresas depois de acompanhar Lorenzo até o porto onde a mercadoria fora apreendida. De fato, suas suspeitas eram de ter um agente infiltrado entre seus membros, caso contrário, uma apreensão dessa magnitude não teria sucesso.Suspirei, me jogando sobre o sofá. Aquilo era uma loucura. Eu poderia rapidamente ser suspeita, já que todos sabiam meu rancor por mafiosos e sendo irônico que eu trabalhava exatamente para eles. Mas meu acordo com Giovanni era claro: eu não podia interferir nas operações, caso contrário, minha cabeça estaria a prêmio. Isso era frustrante, para não dizer o mínimo.Enquanto tomava banho, peguei-me pensando no que acontecera mais cedo: o toque de Lorenzo ainda ardia em minha pele. O desejo em seus olhos ainda me sondava, me forçando mesmo sem dizer uma palavra que eu seria dele. Tive muita força de vontade para me afastar. Lorenzo representava tudo que eu odiava e fugia por muito tempo. Mas havia algo em seu comportamento que me atraia