TRÊS

Cheguei em casa sem grandes surpresas depois de acompanhar Lorenzo até o porto onde a mercadoria fora apreendida. De fato, suas suspeitas eram de ter um agente infiltrado entre seus membros, caso contrário, uma apreensão dessa magnitude não teria sucesso.

Suspirei, me jogando sobre o sofá. Aquilo era uma loucura. Eu poderia rapidamente ser suspeita, já que todos sabiam meu rancor por mafiosos e sendo irônico que eu trabalhava exatamente para eles. Mas meu acordo com Giovanni era claro: eu não podia interferir nas operações, caso contrário, minha cabeça estaria a prêmio. Isso era frustrante, para não dizer o mínimo.

Enquanto tomava banho, peguei-me pensando no que acontecera mais cedo: o toque de Lorenzo ainda ardia em minha pele. O desejo em seus olhos ainda me sondava, me forçando mesmo sem dizer uma palavra que eu seria dele. Tive muita força de vontade para me afastar. Lorenzo representava tudo que eu odiava e fugia por muito tempo. Mas havia algo em seu comportamento que me atraia para ele. Sempre ficávamos nos provocando, atiçando um ao outro e isso uma hora nos levaria ao limite.

Ele sabia, mas não tinha nenhum problema com isso. Na verdade gostava.

- Merda! – xinguei em russo, minha língua nativa.

Depois de tomar banho, tentando ignorar meus desejos e pensamentos impróprios, vesti minhas camisola de seda vermelha e sentei na frente do computador. Tinha coisas que ainda precisava resolver. Liguei o canal da máfia e a voz da apresentadora transmitia um relatório sobre os acontecimentos recentes.

A noite caía sobre a cidade como um véu de sombras, ocultando as atividades ilícitas que se desenrolavam nas ruas escuras. A máfia, liderada pelo implacável Don Lorenzo, movimentava-se silenciosamente, coordenando uma operação de distribuição de drogas que abasteceria as gangues locais por semanas.

Fiz uma careta. Aquilo parecia uma fanfic de quinta categoria.

No submundo do crime organizado, a disputa pelo controle da região era feroz. Duas gangues rivais, os "Diablos" e os "Rebeldes", lutavam há meses pelo domínio do território. A máfia Vacchiano, astutamente, jogava ambos os lados contra si mesmos, fornecendo armas e drogas para ambas as facções.

Nessa noite, um carregamento de cocaína estava programado para chegar ao cais da cidade. Don Lorenzo havia designado seu homem de confiança, o temido Victor "O Sombra", para supervisionar a operação. Victor era conhecido por sua eficiência e brutalidade, capaz de resolver qualquer problema que surgisse sem hesitar.

Enquanto o carregamento era descarregado, os Diablos e os Rebeldes se reuniam em locais separados, ansiosos para receber sua quota de drogas. No entanto, um informante havia vazado informações sobre a operação para a polícia, que agora se aproximava do cais com uma equipe de oficiais disfarçados.

Nem todo seu relatório era verdade, pensei enquanto ouvia atentamente o desenrolar do relatório.

Victor, alertado por um de seus homens, rapidamente reagiu, ordenando que o carregamento fosse transferido para um local seguro. Os Diablos e os Rebeldes, desconhecendo o perigo iminente, começaram a se mover em direção ao cais, prontos para pegar sua carga.

A noite explodiu em tiros e gritos quando a polícia invadiu o cais. As gangues, surpresas, começaram a lutar entre si, acreditando que o outro lado havia os traído. Victor e seus homens desapareceram nas sombras, deixando para trás um rastro de destruição e morte.

A operação da máfia havia sido comprometida, mas Don Lorenzo já estava planejando sua próxima jogada. A guerra entre as gangues continuaria, e a máfia se beneficiaria do caos, consolidando seu poder sobre a região.

No fim da noite, a cidade estava em chamas, e o som de sirenes ecoava pelas ruas. A máfia, no entanto, já havia desaparecido nas sombras, pronta para planejar seu próximo movimento.

A transmissão encerrou, mas eu estava tendo uma crise de riso com os absurdos. Ninguém sabia, mas eu não iria divulgar a verdade do que realmente aconteceu. Poucas pessoas sabiam do ocorrido, assim, ficava fácil para mim manipular o relatório da operação.

Ainda estava rindo quando meu celular tocou. Atendi sem olhar e uma voz estranhamente fria chamou minha atenção.

- Acha isso engraçado?

Por mais estranha que a situação fosse, eu não seguia parar de rir. A pessoa pareceu irritada, o que me fez rir ainda mais.

- Calma Lorenzo. Olha pelo lado bom, as coisas se resolveram e você parece bem na fita.

- Está se divertindo com tudo isso, não está? Parece até que você fez isso de propósito. - Sua voz estava baixa e perigosa e eu não pude deixar de rir da cara dele.

- Muito! E para sua informação, a ideia foi do John.

Um silencio se fez na linha, mas de repente ouvi sua risada profunda e sexy. Meu coração palpitou, meu corpo respondeu aquele som. Suspirei, frustrada por desejar esse homem. Seria mais fácil se ele fosse feio, só então poderia odiá-lo com todas as forças.

- Admito que a historia pareceu muito surreal aos meus ouvidos. Eu sabia que você mudaria os fatos, mas queria um pouco de ação. Ou até mesmo um romance... – disse, sugestivo.

Romance? Ele enlouqueceu de vez? Até parece que uma história assim viraria romance. Não me deixei abalar por sua provocação e respondi:

- Achei que nossa comentarista foi romântica o suficiente, chefe. - ironizei, provocando-o. - Fez até você parecer desejável, quem diria!

Não pude deixar de provocá-lo, e pelo ranger da cadeira ele parecia nervoso. Julguei que deve estar em seu escritório, seguro em casa.

- Seja honesta. O que você acha? Como a policia descobriu sobre a carga?

- Acho que há um traidor infiltrado. Isso é algo que precisa ser descoberto o quanto antes. Se ele não for pego agora, pode afetar as próximas operações.

Ele estalou a língua.

- Concordo. Se realmente há um rato entre nós, precisamos erradicar essa peste. Por hora apenas nós dois sabemos da situação. – falou e eu concordei, olhando para a tela do computador. – Quanto ao problema do fornecimento das gangues...

- Já foi resolvido.

- Tem certeza? – questionou.

- Sim. Vamos discutir isso segunda.

- E por que não amanhã?

- Não trabalho nos fins de semana. Preciso comprar algumas coisas também. Não posso fazer isso depois do trabalho, você sabe. – já que saio muito muito tarde.

Lorenzo não disse nada e apenas suspirei. Odiava admitir, mas eu esperava ansiosamente o fim de semana para me manter afastada dele. Considerei encerrar a ligação quando ele ordenou, sua voz fria como gelo, sem se importar com o que eu falei um pouco antes.

- Emma Cassano, vejo você amanhã às 9h em ponto. Não teste minha paciência.

Só então desligou. Fiquei parada, olhando o celular sem acreditar no que tinha escutado dele.

Eu vou matar esse arrombado!

- Maldito! Filho da puta!

Eu poderia gritar em frustração, mas isso não me ajudaria em nada. Não pude deixar de me irritar com a sua prepotência e frieza. Será que esperava que eu abaixasse a cabeça e aceitasse suas ordens? Coitado! Lorenzo Vacchiano não fazia ideia com quem mexera.

Afastei-me do computador e deitei na cama, estendi as mãos até a cabeceira e peguei meu álbum de fotos. Folheei as páginas, um misto de dor e saudade tomando conta dos meus pensamentos. Sentia saudades de casa, de como as coisas eram antes.

Eu era a filha mais velha de uma prestigiada família russa de sete pessoas. Meu pai trabalhava como ministro da defesa e minha mãe era uma física bem renomada. Vivi como se nada pudesse me alcançar, não era arrogante, mas vivia em minha própria bolha cor de rosa. Me arrependi disso há muito tempo. Meu pai era mafioso e descobrir isso destruiu minha vida.

Um dia, ao entrar no escritório de meu pai, notei alguns documentos sobre a mesa. A curiosidade me venceu e olhei com atenção. Uma solicitação de noivado foi feita por um dos amigos de meu pai; um casamento de interesses onde eu não tinha direito de opinar.

Maximillian Czar, líder da família Czar e chefe da máfia local. Eu não fazia ideia disso até as coisas se desenrolarem na minha mente, buscando uma explicação, até a realidade me atingir. Meu pai tinha envolvimento com a máfia por anos e eu era a criança prometida a um velho pervertido para formar um grupo invencível.

Não pensei duas vezes. Fugi de madrugada, com o homem que eu amava e não olhei para trás. Mas, ao chegarmos na Itália, ele me abandonou dizendo que, sem minha herança, eu não valia mais nada. A dor da traição foi sufocante e jurei para mim mesma que nunca mais entregaria meu coração. Agora, depois de alguns meses, me pegava pensando neles. Será que estavam bem? Sentiam minha falta? Ou falaram para as pessoas que eu morri? Eu não queria saber. Mudei minha identidade para não ser encontrada e pretendia continuar dessa forma.

Mas, quando esta criança nascer me mudarei novamente para longe. Um lugar seguro onde ninguém irá nos encontrar.

Acariciei minha barriga lentamente, dizendo:

- Sei que você é só uma pequena bolinha nesse momento, mas eu prometo que vou te proteger. Nunca fará parte desse mundo cruel.

Eu vou proteger essa criança de tudo e de todos. Até mesmo de mim, se necessário. Com isso em mente, adormeci, abraçando minha barriga.

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