CAPÍTULO UM
Ergueu a cabeça, sentindo-se tonta; seu estômago parecia comprimido. Sentiu um nó na garganta e observou, com calma, que estava em um bote. Encostou-se e analisou os danos na madeira. Passou a mão na testa, percebendo uma ardência, e logo identificou um pequeno corte no local. Sua mão voltou manchada de sangue. Olhou ao redor, sentindo a cabeça latejar.
— O que estou fazendo aqui? — perguntou-se.
Recordações iam e vinham como cartas sendo embaralhadas, passando por sua mente sem identificação. Sem compreender o que havia acontecido, sentiu-se sufocar com lembranças que a fizeram perder o controle, sem saber exatamente em que momento aquilo ocorreu. Havia uma quantidade razoável de água no bote, mas não havia buracos que a justificassem. Nada além de algumas rachaduras na borda. Ergueu os olhos, observando as nuvens que cobriam o sol ao longe, demonstrando que uma tempestade estava se dissipando.
— Estou confusa! — falou, levantando-se cambaleante.
Perdida em pensamentos, buscava alguma lembrança, pois não se recordava nem mesmo de quem era. O balanço do bote a deixava tonta. Passou a mão na nuca; a dor latejante a fez tremer. Olhou ao redor, procurando os remos, mas não os encontrou. O enjoo a fez levar as mãos à boca. Encostou o peito na beirada do bote e vomitou no mar. Limpou os lábios com as mãos, olhou mais à frente e observou um ponto que surgia no horizonte. Seria uma embarcação? Pensou. Tentou visualizar com mais atenção; a cabeça latejou, fazendo-a apertar os olhos. Iniciou-se uma agitação de ondas mais fortes vindas do leste. Ao longe, as nuvens escuras anunciavam a chuva que seguia em sua direção. Surpreendeu-se com a informação que lhe veio à mente.
A fragata surgiu algum tempo após erguer os olhos para olhar as nuvens. Ficou surpresa por lembrar-se de algo. A informação era nítida agora. Pôde observar três mastros de velas redondas que apontavam para o céu.
— A tripulação deve estar em missão de reconhecimento de terras ou mares aos redores — pensou.
Começou a acenar e gritar, mas sentiu uma forte sensação de perigo. Arrependeu-se. Tentou identificar o motivo do alerta, mas lampejos de lembranças iam e vinham sem esclarecer seu temor. Apertou os olhos novamente; nada podia ser pior que manter-se à deriva sem saber onde estava. Então, foi tomada de pavor pela incerteza do que lhe causava aflição. Sentiu o coração acelerar; algo estava errado. Percebeu a mudança de rota da embarcação, que agora seguia em sua direção. O alerta crescente a fez procurar por algo para se defender, mas nada encontrou além de seus próprios punhos. Percebendo que seria impossível defender-se de algo estando em um bote, pensou em pular na água e nadar rápido, seguindo em qualquer direção. Mas olhou ao redor e não encontrou qualquer possibilidade de chegar à terra firme.
Abriu os olhos, vendo um bote parecido com o seu, que começou a descer da fragata e veio em sua direção. Algum tempo depois, parou ao lado do seu bote.
O vento sussurrou em seu ouvido, alertando-a sobre a ameaça que se aproximava. Repentinamente, um dos homens pulou para dentro do seu bote. Olhou para ela, que se afastou. Ele, com um passo, pegou seu pulso, fazendo-a sentir dor. Ela girou sem direção. Sentiu o pulso se soltar e, em segundos, ouviu o som de algo sendo acertado. Rodopiou de lado, mas não caiu no chão.
Ela havia abaixado e pegado um pedaço pequeno de madeira, acertando o rosto do homem, que se ergueu surpreso com a velocidade do golpe. O homem olhou para ela, cuspindo o sangue que descia do canto inferior dos lábios, resmungando algo e cerrando os dentes. Seus olhos demonstravam ira. Os demais tripulantes do bote ao lado gargalhavam alto, debochando da situação. Ela se afastou até quase a beirada, pensando se devia saltar para o mar. Ele investiu novamente em sua direção, e ela, às cegas, acertou outro golpe até que ouviu alguém reclamar. O rapaz observou o punho fechado dela. Irritado, o barbudo e magricela gritou, pulando em sua direção. Ela desviou e virou o braço, acertando um gancho na garganta dele, fazendo-o cair do bote.
Outro homem, que se divertia à custa do caído, despertou e pôs-se a pular para dentro do bote. Ela sentiu a cabeça latejar, mas bateu-a com força contra a testa dele. Sentiu dor. Acertou-lhe as partes íntimas, e ele a soltou, cambaleando para trás e tombando para fora do bote, caindo sobre o outro que estava na beira tentando voltar à tona.
Simultaneamente, os dois homens puseram as mãos na beirada do bote. Ela chutou suas mãos, fazendo-os cair novamente. Algo foi jogado contra ela, e o peso a fez cair. Estava presa em uma rede. Tentou se mover, mas um homem começou a amarrar uma corda ao seu redor.
Algum tempo depois, sentiu que o bote estava sendo suspenso para a fragata. Encolheu-se, pedindo em pensamentos que não lhe fizessem mal. O homem mais alto, de olhos esbugalhados, assustou-a. Ele veio até ela, pegou-a pela cintura em meio ao emaranhado de cordas e redes e a arremessou no chão. O pânico a dominou, e ela se debateu com a dor.
— Me solte! — gritou.
O homem pareceu confuso e virou-se para o colega que vinha a passos largos, gritando com ele. Outros trabalhavam e conversavam como se fosse normal ter uma mulher envolvida por uma rede, encontrada no meio do alto-mar, jogada no chão da embarcação.
Um rapaz de aparência sofisticada parou à sua frente com um sorriso estampado e gargalhou em seguida. Ela observou a rede que a envolvia e olhou para ele.
— Me solta! — gritou novamente.
Ele fez sinal com as mãos para soltarem as cordas.
Ela suspirou aliviada.
— O que ele faz entre aqueles homens? — pensou.
Avaliou o homem de vestimentas refinadas, bem diferente do nível dos demais a bordo. Sorridente, ele se aproximou dela.
— Como sempre, não ouve o que estou falando — disse ele.
Ele havia falado algo, mas ela, distraída, observando os demais, não ouviu.
Ela se arrastou no chão em meio ao emaranhado de cordas, afastando-se dele em busca de uma saída. O homem a olhou por alguns segundos, confuso. Andou alguns passos, agachou-se ao seu lado e observou seus olhos perdidos e assustados.
— Nesey. — Falou em um tom delicado, tocando sua cabeça como se fosse a de um filhote.
— Não. — Ela tirou as mãos dele de sua cabeça. — Não me toque como se eu fosse um cachorrinho.
Olhou irritada para ele, ameaçando-o com o olhar.
— Ah, vejo que está apenas confusa, mas continua sendo a mesma Nesey de sempre. — Disse ele, gargalhando.
Observou o corte na testa e as manchas de sangue no vestido. Olhou para um dos homens, que murmurava algo. Ele fez um sinal para que os outros se dispersassem e estendeu-lhe a mão para que ela se levantasse.
Desconfiada, olhou ao redor, observando os homens que a encaravam à distância. Outros estavam distraídos com suas atividades. Pegou na mão dele, sendo suspensa e amparada por braços fortes. O rapaz suspirou de alívio, querendo abraçá-la, mas apenas a manteve firme.
Ele girou, pedindo que ela o acompanhasse. Olhou ao redor. Não havia para onde ir, e sentia que ele não lhe faria mal algum. Estendeu as mãos e foi segurada pela cintura, seguindo ao lado dele, na direção oposta aos homens, que agora esboçavam sorrisos.
Transitando entre eles, percebeu que havia um misto de ilegais embarcados. Alguns os observavam de maneira ameaçadora. Outros demonstravam confiança e fidelidade ao homem ao seu lado. Alguns pareciam surpresos em vê-la viva, como se a conhecessem. Eles acenavam brevemente.
Entrou na cabine e observou as prateleiras repletas de mapas. Caminhou até a escrivaninha. Não estava preocupada; não havia sinais de ameaça vinda dele, pois sabia que a conhecia. Mas ela não se lembrava dele.
Tocou no livro sobre a mesa e folheou algumas páginas. Na capa, havia um nome estranho, mas não conseguiu decifrar o que estava escrito.
— Está confusa? — O homem estava com os braços cruzados, observando-a. Parecia manter o controle de si mesmo em relação a ela. — Vai se lembrar aos poucos. Pelo confronto no bote, percebo que algumas memórias estão voltando. — Ele estreitou os olhos. — Deve ter sido uma pancada forte, mas você só está assim por causa dos últimos meses.
— Não me lembro… Sinto que já estive nesta cabine antes, mas não recordo os detalhes.
Passou os dedos sobre as letras que não conseguia entender, e, subitamente, elas se formaram diante de seus olhos: "As Ilhas de Desmond."
Um mau presságio a tomou, e ela fechou o livro, levando a mão ao peito. Seu coração acelerou.
Ouviu passos rápidos, e, em seguida, braços a ampararam antes que caísse.
— Acho melhor descansar, Nesey. — Ele percebeu que ela estava pálida e, ajeitando-a nos braços, caminhou com um ar pesado, deitando-a na cama. Com um gesto cuidadoso, afastou os fios soltos de sua testa.
Ela o olhou, preocupada.
— Tenha calma. Não pretendo tocá-la sem que recupere suas memórias. — Ele cruzou os braços, um sorriso ousado surgiu em seus lábios. Seu olhar deslizou por seu decote. — Já tivemos noites interessantes juntos… tantas que já não me sinto tentado a fazer algo sem que seja por sua vontade.
Ela franziu a testa. Algo a incomodou.
— Sinto-me tentado a tomá-la agora, mas não o farei. Estou ocupado demais pensando em como fugir de um compromisso e não entregar a mercadoria onde deveria… sem que percebam, ao menos até estarmos a milhares de milhas de distância, em um lugar inabitável para homens como ele.
O homem ficou absorto em seus pensamentos.
Ela o observou e percebeu que alguma recordação o incomodava. Ele pareceu resmungar algo contra certo alguém, mas não pronunciou o nome.
— Quem é você? — Ela perguntou.
Ele gargalhou.
— Não diga nada, Nesey. Você levou um golpe. Devia estar furiosa com eles, mas ultimamente não tem sido uma boa companheira. — Ele sorriu, mas seu olhar era triste. — Todos nós já levamos golpes a ponto de perder a memória, mas, com você, é mais perigoso do que deveria ser.
— Por quê?
Ele desviou o olhar para a janela.
— Não é da sua conta.
Um estalo em sua mente a alertou de que havia algo errado no que ele acabara de dizer.
— Como eu disse, tenha calma. — Ele continuou. — Está cansada?
— Não me lembro. O cansaço não é nada comparado à dor que estou sentindo.
— Nesey, não seja dramática. Logo vai melhorar.
A música da tripulação chamou sua atenção:
"Somos maus, caçadores, ladrões, Servimos apenas aos nossos ideais. Quem cruzar nosso caminho, Cortamos! Cortamos! Cortamos!"
Ela deu um passo para trás. Talvez estivesse em perigo.
Ele cruzou os braços.
— Somos diferentes deles, mas, recentemente, precisei me envolver com esse tipo de gente.
Seu olhar deslizou pelo corpo dela com desejo, e Nesey percebeu a malícia em seus olhos.
— Já tive você em meus braços. Conheço cada curva do seu corpo. Mas pode ficar tranquila, não pretendo dormir com você nesse estado.
Ela arregalou os olhos.
— Não tenho a intenção de tocá-la ou sequer eliminá-la. — Ele virou-se e seguiu até a escrivaninha. — Não quero problemas com ele.
Socou a mesa, furioso.
— Sem mencionar que me tornei um funcionário dele sem nem ao menos saber qual era a encomenda.
Passou a mão pelos cabelos, puxou uma cadeira e estendeu as pernas sobre outra.
— Meu nome é Hoope Besito. Sou um corso, comandante deste navio. Atacamos sob as ordens do rei. — Ele olhou para o teto, algo o incomodava. — Você é uma pirata, ou seja, não possui a Carta de Marca do reino de Desmond.
Fez uma pausa, analisando o rosto dela.
Nesey sentiu vontade de se sentar, mas, em vez disso, olhou para ele, suplicando por respostas. Lembranças de lutas e confrontos vieram à sua mente. Em algumas delas, via a imagem dele, o que, de certa forma, a deixava mais confortável.
Ele percebeu que não seria fácil explicar o que havia acontecido, principalmente no estado em que ela se encontrava. Cruzou os braços novamente, observando os ferimentos no corpo dela.
Praguejou contra alguém cujo nome não mencionou.
— Eu sou uma pirata? — perguntou ela.
Ele a olhou.
— Não saqueamos nossas próprias ilhas. Passamos anos fora, navegando por mares distantes, e voltamos para nos encontrar na Ilha de Cratera.
Ele ouviu o som de uma batida na porta. Sabendo do que se tratava, mandou entrar. Uma mulher de olhos castanhos caminhou até a outra, que ainda estava deitada na cama.
— Nesey, devo parar de subestimá-la. Continua viva. Surpreende-me que tenha sobrevivido a Jack Loud. Aquele homem maldito! Está nos caçando como animais. Você devia parar de trabalhar para ele, Hoope.
— Blasfêmias. Trabalhamos para Desmond. — Ele respondeu em um tom tranquilo.
A mulher deixou cair o pote de água no chão, espalhando o líquido e o pano que antes segurava.
— Ele vai matar a todos. Não percebe que é um plano dele? Nos usar uns contra os outros? Ele é o cão de Henke! Muito estranho precisar roubar mercadorias que afetam acordos pacíficos para ambos os lados, quando se trata de um rei tão admirado e cheio de servos fiéis. — Ela bufou. — Sempre enviando representantes, sempre mandando seu cão fiel nos caçar, rastreando cada canto das ilhas ao redor de Desmond com seu focinho. Aquelas ilhas nos pertencem!
Hoope a observou tranquilamente.
— Por que se zangar? Você está viva e sendo bem paga pelos seus serviços, que, aliás, faço questão de cobrar caro. — Ele piscou.
O olhar dela não foi amigável.
— Bastava dizer que eu estava morta ou simplesmente me deixar à deriva até que acontecesse. Vocês não se cansam de obedecer às ordens dele?
A mulher então olhou para Nesey.
— Nesey, você sempre concordou com minha ideia de eliminar Jack Loud. Queria enviar um dos nossos para se tornar o braço direito dele, até conseguir enganá-lo e arrancá-lo do poder ao lado do Rei Henke, para finalmente eliminá-lo.
— Isso seria cavar a própria sepultura com as próprias mãos. — Hoope interveio. — Richard confia sua vida nas mãos de Jack Loud. É como um filho nas mãos de um pai. Às vezes, me pergunto se não é, de fato, isso. Ouvimos falar de uma devoção tão intensa que nem moedas nem um trono foram capazes de mudar sua posição em relação à fidelidade ao rei.
— Juntos podemos vencê-los. Somos mais fortes. — Ela insistiu.
O nome Richard causou uma agitação em Nesey.
Hoope ficou sério.
— Minha cara, somos usados como peças baratas para enfraquecer inimigos e causar desordem, sem sequer conhecer os objetivos secretos deles. Recentemente, não estamos mais fazendo transferências, apenas usurpando para disfarçar e devolvendo sob a forma de permuta entre os reis. Fazer o quê? Já existem tantos outros piores, navegando por águas ainda não exploradas. E, sinceramente, não pretendo descobrir o que há por lá.
Ela olhou para Hoope e para a mulher, que ironicamente sorriram ao notar a expressão um do outro.
A mulher pegou o pano do chão, observou o pouco de água que restava no pote, molhou o tecido e, em seguida, sentou-se na cama. Após analisar o ferimento na testa de Nesey, pressionou suavemente o pano contra a ferida.
— Acredito que tenha gostado muito de seduzi-lo. — franziu a testa — Nem ao menos sei como ele pode ser enganado. — Ela desviou olhar para o nada. – Eu a subestimei. Falou com tom de uma ironia distante.
— Maldito Jack Loud! Nesey proclamou, inesperadamente, uma revolta, chutando o nada, ao gritar o nome.
Nit jogou o pano no pote.
— Não vou ficar sentada aqui, lembrando da morte de meu homem. — Ergueu se seguindo porta afora. — A culpa é sua Vanesey. Por ele não estar mais entre-nos. — bateu com força, como se fosse projetar toda amargura e ódio guardado dentro do peito no momento que fechou a porta.
Vanesey balançou a cabeça.
Nesey colocou as mãos na boca, uma parte da memória voltou, em meios a espadas sujas de sangue uma imagem que causou náuseas dela mesma, de saber que participou ativamente no assassinato daquelas pessoas estiradas e amontoadas no chão em sua memória.
— Devia estar morta, Vanesey. — A mulher bufou. — Fiquei feliz ao saber que tinha morrido, mas, por um momento, senti que nossos planos contra Jack Loud iriam afundar, assim como nossa antiga embarcação, destruída por nossas próprias mãos.
— Quem é você? — Vanesey perguntou.
A mulher olhou para ela, revirou os olhos e bateu o pano na testa dela novamente.
— Ai! — reclamou.
— Vanesey, não quero falar nada. Daqui a pouco, você volta a ser a cadela que conheço. Chame-me de Nit.
Hoope gargalhou.
— Já não vivemos por aventura, mas saqueamos por ordens e entregamos a Desmond. Corsos, é o que somos. — Ele fez uma pausa e então acrescentou: — Quanto a você, meu amor, não serve ao mesmo propósito.
— Vanesey, entre os seus, comenta-se sobre a tranquilidade, o renascimento de uma nova linhagem de liderança.
— Sobraram poucos de sua tripulação. Houve um motim para decidir quem deveria liderar após sua morte. Nem ao menos uma embarcação você tem. Apenas os fiéis estão nesta, enquanto os outros partiram para a Costa Oeste em busca de aventura.
— Cães! — Nesey bravejou.
Será que tudo aquilo era verdade? Ela se perguntava, tentando encontrar na memória algo que fizesse sentido.
— Como nos conhecemos, Hoope? — Ela perguntou.
Ele sorriu.
— Fui obrigado a procurar falsos corsários de Desmond. Nos confrontamos, mas acabei seduzido por você na noite dos Mercadores de Esfil. Uma deliciosa tradição, que acabou me fazendo trabalhar para os dois lados. Óbvio que fui incentivado à traição por seus olhos. — Ele olhou para as pernas dela.
Nesey colocou as mãos na boca. Uma parte da memória voltou, em meio a espadas sujas de sangue, uma imagem que lhe causou náuseas: a de si mesma, sabendo que participou ativamente do assassinato daquelas pessoas estiradas e amontoadas no chão em sua lembrança.
— Muito bem, você é teimosa, insistente em tomar decisões que levaram integrantes de sua tribulação à morte — falou Hoope, com as mãos na cintura. — A maioria fugiu. Pensamos em tomá-la porque é uma das melhores de Desmond, mas recebemos ordens de procurá-la nesta localidade e levá-la para outro lugar, o que é uma ordem que estou pensando se devo cumprir ou não.
— E por que não cumprir?
— Quer ser prisioneira novamente? Eu te quero demais para passar mais anos pensando em você, enclausurada e no meio de ratos.
Ela o encarou, sentindo o coração agitado.
— Você os levou direto para o cão de Desmond, a pior das decisões. Ele a levou direto para a forca. Eu precisei subornar pessoas, arriscar minha vida entre eles para tirá-la de lá. Por sorte, o plano funcionou, e novamente foi sorte ter chegado até mim na embarcação.
Hoope percebeu o olhar de Vanesey.
— Richard — ela falou.
No impulso, ele a agarrou, mas ela o empurrou.
— Vanesey — falou quase em um sussurro. — Não inicie uma luta comigo. Você está sem forças, e eu confesso que estou exausto. Ele não a ama, se fosse assim, não teria feito o que fez.
Ele a puxou contra seu corpo, e ela desviou o rosto quando ele aproximou o dele. Vanesey percebeu que ele estava apaixonado, mas sentia-se fria na presença dele.
Hoope era um homem muito bonito.
— Compreendo. Saiba que estou desistindo de você. Vou ficar com Nit para mim. Deixei que o homem dela morresse para que ela se submetesse às minhas vontades.
Nesey compreendeu que a morte do homem não fora sua culpa, e a outra mulher era uma bela morena, ideal para um homem como Hoope.
— Melhor assim, somos amigos — afirmou Nesey.
Ele pareceu confuso com a rejeição. Ela afastou-se, buscando refúgio, sentando-se na cama.
Ele chutou o ar e ergueu o queixo.
— Estamos indo para a Ilha dos Balins. Eles tornaram-se nossos aliados. Loud decapitou quase todos os piratas de Montes, Asperes e Mondes.
Vanesey olhou para ele.
— Seus olhos estão ficando brancos. O veneno não lhe dará muito tempo de vida. Seu pai acha que pode se tornar o que sempre quis, mas não a levarei para ele, apesar de ele ter me ajudado a salvá-la.
— Eu o matarei quando o vir novamente — ela falou.
— Existe algo que preciso lhe contar, mas prefiro que Sofia conte. O que posso adiantar é que você não tem muito tempo de vida.
— O que preciso saber? — Ela voltou a se sentar. — Vejo um bebê em meus pensamentos. Quem é?
— Não sei de bebê algum — ele falou.
Ele fez um gesto para que ela se acalmasse, caminhou até um armário e tirou de dentro um vestido de tom avelã.
— Seja lá o que estiver planejando, faça sem me comunicar. Não tenho condições de tomar decisões agora. Sinto que fico presa em um ciclo, sempre voltando ao mesmo ponto na memória.
Sugerindo que ela trocasse de roupa, deu a entender que começava a ficar desconfortável com sua quase nudez e desviou o olhar. Vanesey olhou para si mesma e percebeu que o vestido que usava ainda estava úmido.
Ele lançou um olhar rápido para o corpo dela, jogou o vestido sobre a cama e saiu apressado, evitando encará-la novamente.
Vanesey pegou o vestido.
Havia se passado metade do dia desde que acordara e comera frutas. Ouviu cantoria do lado de fora e homens comentando sobre a Festa dos Mercadores, mas preferiu permanecer na cabine. Ela devia conhecer Hoope, pois reconhecia o modo gentil dele, que muitas vezes deixava claro que suas intenções não eram ruins.
Enquanto aguardava pela chegada de Sofia — esse era o nome que ele havia dito — sentou-se novamente, pensativa, vasculhando os próprios pensamentos para colocá-los em ordem.
O som de passos chamou sua atenção. Hoope entrou, desta vez acompanhado por uma mulher que, para Vanesey, parecia ter uns duzentos anos. A mulher caminhava com extrema lentidão e não se dignou a olhar para Vanesey. Sem pressa, foi até uma cadeira, puxou-a com dificuldade para se sentar e, com um pequeno frasco nas mãos, exalou um suspiro cansado. Antes de se acomodar, analisou a cadeira com um olhar atento, posicionando-a ao seu redor com esforço, e se sentou, arfando pesadamente.
A mulher, idosa e atordoada, olhou para Hoope após olhar para Vanesey. — Vanesey de Hert, está viva. Não é mentira — ela colocou as mãos na boca. Hoope olhou para Vanesey, que fez uma careta, sentindo um pressentimento estranho.
— Hoope, o que significa isto? — Falou em tom zangado.
Ele cruzou os braços ao perceber a recepção de Vanesey, que teria outra reação caso estivesse bem da cabeça. — Ela bateu com a cabeça durante a tempestade — afirmou com ar de desânimo. — Infelizmente, não tenho tempo para lhe contar quem você foi e fez isso antes — a mulher tossiu.
— O que querem de mim? — Perguntou Vanesey. — Atacaremos Desmond. O rei irá se casar às pressas, em algumas semanas, e já estamos preparados para acabar com o rei Richard Henke no dia de seu casamento. — Isso é loucura! — Falou Hoope. — Richard Henke morrerá, principalmente Jack Loud. Ele ordenou o ataque a Cratera. Precisamos nos vingar. — Ele é o rei! Como fugiremos dos reinos aliados e da própria guarda real? — Perguntou Hoope. — Conseguiremos vingança — disse Sofie. — Quantas embarcações irão contra Desmond? — Perguntou Hoope. — Nove. Dez, com Nesey.
Ela pediu para Vanesey se aproximar e a jovem obedeceu, curiosa ao notar que a mulher destampou o frasco, de onde emanava um cheiro forte de algo queimado. — Ele me disse que você se cortou com a adaga e lamenta por isso. Aqui está o antídoto, mas receio que seus olhos não voltem ao normal. Eu não gosto de você, mas precisamos de sua ajuda.
Hoope e Sofie começaram a discutir a vinda dela e como ela se sairia na batalha nas condições atuais. Ela insistia que sua força era mística, garantindo que ele não precisaria se preocupar com isso. O foco, segundo ela, deveria ser em como ele planejava eliminar Richard. O plano era chegar ao local, controlar os guardas, mas ainda não havia uma estratégia definida quanto ao rei.
Enquanto ocorria uma intensa discussão entre Sofia e Hoope, sobre a relutância dele em enfrentar as forças de Desmond, por ser um corso do reino, Vanesey foi tomada por uma memória nítida, algo relacionado a um homem que ela havia odiado. Ela se lembrava dele, mas os detalhes ainda estavam nebulosos em sua mente.
Na mémoria dela havia uma criança de nove anos corria de um lado para o outro com a espada de madeira na mão, enquanto a mulher de cabelos negros ondulados e olhos castanhos a observava brincar. Costurava uma peça de roupa, enquanto a pequena levantava poeira do chão.
Seu sorriso fazia a mulher sorrir também. Era uma noite calma; no andar de baixo, ecoava cantoria. Elas moravam em uma Casa de Distrações. A mulher sentada era mãe da menina, uma mulher de distrações. Estava livre naquela noite.
Foram interrompidas por gritos e a mulher percebeu que algo estava errado quando um silêncio muito incomum no andar de baixo surgiu. De repente, os gritos ecoaram misturados ao som de mesas sendo lançadas. A mulher cruzou o quarto e trancou a porta. Pegou a menina pelo braço e correu para o canto da cama.
— Fique quieta — avisou.
Foi o que a menina ouviu, antes da porta cair para dentro do quarto. Ela viu vários homens invadirem o cômodo. Um deles se aproximou delas, com passos largos, e arrastou sua mãe pelos cabelos. A pobre mulher gemia e implorava. A menina pulou em sua direção e acertou um homem com a espada, mordeu a mão de outro e foi arremessada contra a parede. A mulher estava sendo cercada por tantos homens, e a pequena chorou, sentindo dor e sem poder vê-la. Tentou se mover. Quando conseguiu, se levantou e pegou a espada de madeira.
Um homem gargalhou, colocando as mãos na cintura, achando divertida a cena da criança enfrentando dez homens dentro de um quarto. Ela correu, rolou no chão e acertou o tornozelo de um dos homens, rolou novamente, desviando das mãos de alguém.
Parou na frente de sua mãe. — Está morta — avisou o homem.
Eles se afastaram dela, sentindo uma sensação de mal presságio; aquilo não era reação de uma criança. Ela revirou os olhos, virou-se para eles, ergueu a espada e gritou.
O líder dos homens a olhou.
— Vou levá-la para mim. Já a escondi por muito tempo. Já recebi duas mercadorias bem cheias por ela, mas ela vale mais do que isso — falou, dirigindo-se à criança.
Hoope olhou para Vanesey, mas Sofia o puxou pela manga, avisando que seria uma traição da qual ele não poderia arcar. Então, Vanesey caminhou até a janela, lembrando-se de Richard Henke e de seu passado, antes de ser resgatada por Hoope Besito.
CAPÍTULO DOISFala-se de um rei muito inteligente e poderoso, chamado Richard Henke, que possuía muitos servos fiéis e aliados, tornando-se uma grande potência nas Ilhas de Desmond. O pai do rei Henke havia sido decapitado durante uma viagem de reconhecimento, quando foi abordado por piratas e executado. Este rei era temido por sua aliança com Jack Loud, conhecido como o "cão de Desmond", pois ele levava à forca muitos piratas. Sua reputação atravessava mares desconhecidos até mesmo pelos corsários e piratas locais, e agora Loud servia a Richard.Vanesey era uma pirata, criada por Flit e Flot, que a sequestraram de seu pai, Hert, que matou sua mãe por uma razão que ninguém jamais soubera responder. Ela sabia que sua mãe também fora uma pirata e havia sobrevivido ao mar revolto, um modo de vida que deixava de ser pirata para viver uma nova vida. No entanto, ela acabou sendo levada para uma casa de distração, onde foi criada por Nesey. Vanesey não se lembrava de nada, exceto do dia em qu
CAPÍTULO TRÊSO acesso à ilha rochosa era no topo, e era necessário escalar com muita dificuldade. Mas perdia-se mais marujos escalando até o topo de Cratera do que em disputas no alto-mar. Um bom marujo, bêbado e incorrigível, criou uma escada de pedras, talhando-a com marteladas, dia após dia, durante um período de abstinência, sem beber. Quando conseguiu, morreu por exaustão. Para alcançar o topo ou descer, passava-se por trilhas restritas, com atalhos frequentados por pássaros carnívoros. Conta-se também que alguns aproveitavam o período de chegada a Cratera para eliminar inimigos nas trilhas. Muitos morreram na subida, mas com as escadas entre arbustos e túneis secretos, já não se ouvia mais falar de mortes causadas por Cratera. Agora, a maior preocupação era manter os pássaros carnívoros afastados. Esses sim, eram um problema constante para eles. Muitas vezes, passavam-se horas lutando contra os pássaros carnívoros. Nem mesmo eles sabiam por que haviam escolhido um local tão rui
CAPÍTULO QUATROFazia algum tempo que estavam reunidos ouvindo velhas histórias e, entre elas, novas que sempre envolviam confrontos com Jack Loud. Hoope surgiu com o rosto amargurado entre as figuras na mesa à frente. Nesey subiu na mesa e começou a dançar. Ela chutou o que estava sobre a mesa. Os homens batiam na mesa.Nesey pulou em direção ao colo de Hoope, estava cansada de esperar para entregar-se.— Quero você. — Ela sussurrou e estalou um beijo nele.Ouviram-se murmúrios, e Reese apareceu.— Sua vadia! — Berrou Reese Hert.Vanesey gargalhou e deu outro beijo em Hoope.Ele a colocou no colo e ajeitou o cabelo.— Chega de bebida por hoje, Nesey. — Ele disse calmamente.— Estou falando com você, Vanesey! — Gritou Reese Hert.Ela o encarou em sua fúria e ficou de frente para ele, com os braços cruzados.— Quem pensa que é? — Disse Nesey.Ele revidou o olhar com ira, deixando claro que estavam sendo vigiados.— Sabe quem sou, sua maldita? Obedeça-me e me siga.Todos gargalharam quan
CAPÍTULO CINCODesmond era uma das visões mais incríveis de ilhas de todos os mares que navegou. Mesmo distante, em terras desconhecidas, jamais havia avistado uma beleza igual. Por um momento, concordou com o rei Henke. Desmond jamais poderia ceder a inimigos.Garth era a ilha central, sofria com inundações, e por isso muitas casas eram feitas em cima de embarcações. Em meio à multidão, que vinha dos portos das outras ilhas ou de mercadores vindos de longe, ela precisava encontrar o homem chamado Kov. Ele ajudaria. Kov servia de espião para os Asperes há muito tempo. E ele foi um deles. Ele teria que obedecer e ajudar. Ela seria bem convincente, caso ele se recusasse. Para isso, colocou seus melhores infiltrados na cidade.Era uma casa perfeita, com uma varanda de onde se dava para entrada. Mulheres detestavam aquele lugar e por isso passavam balançando a cabeça negativamente.Nesey bateu à porta com força.Uma voz fina berrou:— Espere!Em seguida, uma mulher surgiu.— Quero falar co
CAPÍTULO SEISA noite do véu era uma noite em que as mulheres da casa de Kov podiam escolher com quem queriam dormir, sendo necessário escolher um naquele momento.Vanesey espiou da escada o salão, que estava mais cheio do que de costume. Passou um bom tempo indo de um extremo a outro, até que viu o véu sendo colocado no centro de uma mesa. Kosnir parecia tranquilo, dando atenção aos que chegavam. Algumas mulheres, as mais jovens, pegavam o lenço e o jogavam no colo ou à frente do homem escolhido.Ela desceu os degraus como se estivesse pisando em brasas, irritada, localizou Laerte, o homem embriagado que Kov havia pedido para uma das jovens ficar ao lado dele e acenar discretamente para Vanesey.O homem estava sentado sozinho, não dizia nada que fizesse sentido, e ela passou a mão de leve sobre a dele. Ele ficou encantado, fazendo uma reverência curta, quase caindo no chão.O salão ficou em silêncio. A jovem de vestido vermelho claro, como sangue, atraía olhares, mas quem perguntava p
CAPÍTULO SETEVanesey saiu do quarto com olhares desconfiados, que analisavam a faixa em volta do pulso. Certamente, alguém a ouviu gritar e percebeu que a noite não foi melhor que a das outras. Encontrou Flot em um quarto, ele estava sentado, costurando uma blusa, e a olhou de rabo de olho.Ela caminhou até ele, aborrecida e irritada, cruzando os braços.— Onde está Flit?— Em reunião.— Como ousaram não me chamar?Flot a encarou.— Acalme-se, Nesey. Flit é o capitão. As sombras não lhe concederam ser capitã, apenas permitiram que partisse e fizesse o que fosse necessário.Vanesey se ergueu.— Eu sou a capitã. Eu tomei as decisões, eu sou a capitã!Flot se ergueu também, e Vanesey sentiu-se pequena diante dele.— Essa é uma decisão de Flit, respeite. Falou Flot.— Mas o que é isso? — Ela estava irritada.— Loud mudou a data da execução para daqui a dois dias.— Não importa.— Ele vai executar Vanesey de Hert. Aparentemente, alguma engraçadinha tentou adquirir alguns bens sob juramento
CAPÍTULO OITO Vanesey sentiu a carruagem se mover. Estava sendo levada para algum lugar.— Jamais ouse me desobedecer novamente, terei que castigá-lo por sua insolência diante dos outros! — gritou Richard.Loud ergueu-se.— Vá buscar provas, Loud! — Richard ordenou.Vanesey olhou pela janela, debruçando-se.— Sim, meu senhor. E, após uma reverência, saiu.A carruagem seguia rapidamente e logo ela viu o cais distante.O caminho era uma subida, não havia nada na estrada. Os pássaros cantavam e o som de uma cachoeira predominava no ambiente junto com o som da carruagem. Seus olhos pesaram e ela sentiu o sono a dominar, mas precisou focar no trajeto.A casa surgiu diante de seus olhos quando desceu, sendo puxada pela corda no pulso. Guiada pelo homem de bigodes, veio uma mulher bem-vestida que surgiu na varanda e colocou as mãos no peito.Ao parar diante dela, a mulher tocou seu rosto e olhou para ele.— Ele deve estar bastante zangado por causa do rosto. Um homem não deve bater em uma
CAPÍTULO NOVE A entrada dos cozinheiros estava ali. Vestida de homem, caminhou calmamente para a porta, mas o guarda a parou.— Já não entrou com seu amigo? — Falou o homem, confuso.Ela tossiu e forçou a voz.— Se tivesse entrado, não estaria aqui.O guarda tomou outro gole, e ela atirou uma garrafa para ele.— Cortesia.Ela disfarçou, olhando para uma das meninas de distração. O homem se distraiu e Nesey entrou.A prisão parecia vazia, não havia movimentos. Ela passou por várias áreas. Havia guardas jogando. Lembrava do que haviam dito sobre horários.Caminhou por entre as celas, olhando uma por uma, fingindo ser um guarda. A sorte quis que ela encontrasse Jenear.Jenear estava deitado na cela, havia alguém jogado num canto, enrolado em capuz sujo e velho.— Jenear! — Ela o chamou, fora da cela.— Quem me chama? — Ele se levantou às pressas.— Vanesey de Hert.Ele se aproximou, buscando a luz.— Menina! Como é possível ainda estar viva?— Não importa. — Ela começou a procurar a chav