Marina ergue um conjunto de folhas.— Esses papéis contêm não apenas os desenhos originais de Dona Valquíria, mas também comentários e modificações feitas pelo senhor, senhor Almeida. Modificações que, posteriormente, aparecem no produto patenteado pela AgroTech.O tribunal entra em alvoroço, e o juiz b**e o martelo, pedindo silêncio.— Isso é ridículo! — exclama Renato Almeida, visivelmente alterado. — Eu jamais faria isso!Marina encara o juiz com seriedade.— Bem, meritíssimo — começa a declarar. — Eu pedi ao senhor Almeida que escrevesse essa frase por um motivo muito específico.Ela ergue a folha em uma das mãos e, com a outra, segura um conjunto de papéis.— Aqui, tenho o que foi recuperado de uma lixeira na AgroTech: rascunhos descartados que correspondem aos desenhos originais apresentados por Dona Valquíria. Esses rascunhos não apenas contêm as ideias dela, mas também estão repletos de anotações adicionais feitas pelo senhor Almeida.A tensão na sala aumenta, e Marina continua
Terminando o primeiro dia de julgamento, Marina acompanha Dona Valquíria, que estava acompanhada, até o táxi. Enquanto ajuda Dona Valquíria a entrar no carro, escuta a senhora desabafar com um tom preocupado:— Aquele advogado do outro lado é tão assustador. Ele me faz sentir medo, com aquele jeito frio e olhar sério. Não sei como uma pessoa como ele deve ser no dia a dia.Mesmo sentindo o coração apertar, Marina mantém a compostura. Forçando um sorriso amarelo, responde:— Ele só está fazendo o trabalho dele, Dona Valquíria. No tribunal, as pessoas às vezes precisam ser mais duras, mas isso não significa que sejam assim o tempo todo.— Mas olho para você e, mesmo séria, ainda transmite uma aparência tão doce, tão tranquila. Agora, aquele homem… — ela faz uma pausa, balançando a cabeça. — Ele é assustador. Fiquei até com medo quando ele se aproximava de você no tribunal.Mesmo sentindo o estômago revirar, Marina mantém o sorriso amarelo.— Ele só tem um jeito firme, Dona Valquíria. Faz
Deitado em sua cama, Victor fixa os olhos no teto, mas sua mente está longe dali, presa ao que leu no quarto de Marina. O plano de defesa que ela estava traçando era brilhante, cada ponto meticulosamente estruturado, algo que ele não esperava de alguém com nenhuma experiência no tribunal. Ela havia encontrado brechas que podiam muito bem virar o jogo e fazer com que a sentença pendesse para o lado dela.Mas, se isso acontecesse, ele perderia o caso. Seria o primeiro de sua carreira impecável, e o peso disso seria esmagador. Victor sabia como o mundo da advocacia era cruel; bastava um deslize para que os sussurros e críticas começassem. E perder para Marina, uma advogada iniciante, seria o suficiente para transformar sua reputação em motivo de questionamento.O conflito em sua mente era implacável. Por um lado, admirava o talento de Marina e sentia orgulho dela, mas, por outro, seu ego profissional e a responsabilidade para com seu cliente o atormentavam. Era mais do que uma questão de
O juiz ajusta os papéis à sua frente, passando os olhos pelas anotações uma última vez. Com um tom firme, inicia sua sentença:— Após ouvir as alegações finais de ambas as partes, analisar as provas apresentadas e considerar os depoimentos das testemunhas, este tribunal chega à seguinte conclusão.Ele faz uma pausa, olhando para Dona Valquíria e Otávio Mendes.— É inegável que a AgroTech Solutions possui a patente registrada do protótipo “AquaSmart” e, conforme as leis de propriedade intelectual, o registro confere a titularidade legal à empresa. No entanto, também ficou evidente, com base nas provas apresentadas, que as ideias de Dona Valquíria tiveram um impacto significativo no desenvolvimento final do produto, contribuindo diretamente para o seu sucesso comercial. Sendo assim, este tribunal determina que, embora a patente permaneça com a AgroTech Solutions, a autora tem direito a uma compensação financeira proporcional ao impacto de suas ideias no projeto e aos lucros obtidos pela
Assim que veem Dona Valquíria entrar no táxi e partir, Victor permanece ao lado de Marina. Ele então volta o olhar para ela, seus olhos brilham com uma mistura de orgulho e admiração.— Parabéns, linda — diz ele, num tom sincero e caloroso. — Estou muito orgulhoso de você.Marina, ainda emocionada com tudo o que havia acontecido, sente suas bochechas corarem ao ouvir as palavras dele.— Obrigada, Victor — responde com um sorriso tímido. — Isso significa muito, vindo de você.Ele se aproxima um pouco mais, colocando as mãos suavemente nos ombros dela.— Não estou dizendo isso como namorado, mas como alguém que sabe o quanto você trabalhou duro por isso. Você foi incrível lá dentro, Marina. Mostrou força, inteligência e coração.Ela abaixa o olhar por um momento, sentindo-se tocada pelas palavras dele, mas logo o encara novamente, sorrindo.— E você também merece parabéns, Victor. Conseguiu manter a patente com a empresa, mesmo com toda a pressão. Foi um resultado incrível para ambos —
Os dias passam e a cada momento ao lado de Marina, Victor sente crescer dentro de si a vontade e a segurança de dar o próximo passo no relacionamento. Entretanto, as palavras do irmão ressoam em sua mente: “Fale com a mãe primeiro.”Ao chegar na mansão Ferraz, não consegue ignorar o silêncio pesado que paira no ambiente. A casa parece mais vazia e fria, como se refletisse o estado emocional de seus moradores. Até mesmo o número de funcionários parece ter diminuído.— Bom dia, senhor — cumprimenta Adelina, a funcionária mais antiga da casa, com sua costumeira educação.— Bom dia, Adelina. Onde está minha mãe?— Ela está tomando café no jardim — revela com um leve aceno de cabeça.— Obrigado.Victor a agradece brevemente e segue pelo longo corredor até o jardim dos fundos. De longe, avista Joana sentada em uma cadeira de ferro trabalhado, perdida em pensamentos enquanto encara o horizonte. A cena dela, solitária e melancólica, não o comove. Ele sabia que o isolamento da mãe era um refle
Assim que Victor desaparece de vista, Joana, tomada por uma raiva incontrolável, empurra a delicada xícara de porcelana sobre a mesa, que se estilhaça no chão com um som ensurdecedor. Em seguida, ela se levanta bruscamente, jogando a bandeja com o restante da louça refinada no chão, onde os cacos se espalham pelo piso. O grito que escapa de seus lábios é repleto de fúria e desespero.— Maldita! Maldita! — vocifera, enquanto caminha de um lado para o outro. — Está querendo roubar o meu filho de mim!Ela passa as mãos pelos cabelos, em movimentos rápidos e descontrolados, como se tentasse encontrar algum alívio para a tempestade que se forma em sua mente.— Isso não vai ficar assim! — declara para si mesma, com a voz rouca de raiva. — Ele é meu filho, meu! E não vou permitir que aquela desqualificada o leve de mim.Joana respira fundo, tentando conter as lágrimas misturadas à tempestade de emoções. Contudo, seu olhar permanece fixo no vazio, carregado de determinação.— Adelina! — grita
Um mês após o julgamento, Marina recebeu finalmente o pagamento pelo caso de Dona Valquíria, uma quantia que não apenas representava sua dedicação profissional, mas também mudou a dinâmica de sua família. Quando compartilhou a notícia com seus pais, viu os olhos de José e Daniela brilharem de orgulho.— Agora que recebi esse dinheiro, quero que vocês descansem — ela anuncia, com um sorriso decidido, enquanto se senta à mesa da cozinha com eles.José, franzindo o cenho, olha para a filha, confuso.— Descansar? Como assim? — pergunta, ajustando o corpo na cadeira, como se quisesse escutar melhor as intenções dela.Marina inspira fundo, antes de responder, num tom carinhoso.— Quero que parem com a padaria — revela. — Vocês já trabalharam demais a vida toda, é hora de descansarem um pouco, de aproveitarem a vida.Daniela arregala os olhos, surpresa, enquanto José balança a cabeça, ainda assimilando a ideia.— Mas filha, não podemos simplesmente parar assim, do nada — argumenta José, incr