Camila narrando :Acordei cedo com o barulho da porta do quarto se abrindo e Maria entrando.— Bom dia, minha filha. — Ela sorriu.— Bom dia, Maria.Ela se aproximou, ajeitando a cortina, e soltou um riso baixo.— Seu pai acordou de bom humor hoje. Acredita que ele mesmo preparou seu café? Disse pra você se arrumar, que vão sair.Achei estranho, mas deduzi que fosse para ver o vestido de noiva.— Tá bom, Maria. Obrigada.Ela saiu do quarto, e eu fui direto pro banheiro. Tomei um banho demorado, deixando a água quente relaxar meus ombros. Depois, vesti uma lingerie preta e um vestido soltinho, confortável. Soltei os cabelos, ajeitei os fios com os dedos e finalizei com meu perfume preferido.Sentei na cadeira da mesinha do quarto e comecei meu café da manhã. Peguei o suco e dei um gole, enquanto mordia o misto quente que Maria havia deixado pra mim. O dia mal tinha começado, mas eu sentia que algo estava diferente. Sabia que hoje ele ia me levar pra escolher o maldito vestido e eu ia p
Camila narrando :Meu coração batia descompassado, o desespero tomava conta de mim. Minha mente tentava buscar respostas, mas tudo estava embaralhado.Minha última lembrança era de estar no meu quarto, tomando café. Depois disso… um apagão. E agora eu estava aqui, nesse pesadelo.Levantei cambaleando, minhas pernas ainda fracas, mas eu precisava sair dali. Precisava ir atrás do Guilherme, explicar o que tinha acontecido. Tropecei até o banheiro, olhei meu reflexo no espelho. Meus olhos estavam inchados, meu cabelo bagunçado, a lingerie preta colada no meu corpo me fazia querer vomitar. Me senti suja, enojada.Lágrimas escorreram pelo meu rosto, mas eu não podia me deixar desabar. Corri até o guarda-roupa, vesti um short jeans e uma blusa larga, calcei os chinelos e saí dali o mais rápido possível.Quando cheguei na rua, o sol forte me cegou por um segundo. Respirei fundo, tentando manter a calma, mas meu peito ainda queimava. Eu precisava do Guilherme. Precisava dele mais do que nunc
Camila narrandoUma semana. Sete dias trancada nesse quarto, sem ver ninguém, sem vontade de nada. Meu pai me devolveu o celular, mas parecia não ter adiantado. Guilherme nunca mais me atendeu. As mensagens nem chegavam mais.Eu não comia direito, não dormia direito, não vivia direito. Só respirava por obrigação. Hoje era meu aniversário, dezoito anos, e eu não tinha vontade de comemorar nada.Acordei com o sol batendo no meu rosto. A cortina estava aberta, e o quarto parecia mais claro do que eu queria. Virei pro lado, tentando voltar a dormir, mas um enjoo forte me fez sentar na cama na mesma hora. Meu estômago revirou, e eu corri pro banheiro, mal conseguindo chegar antes de vomitar.Me ajoelhei no chão frio, segurando a borda do vaso, sentindo meu corpo todo trêmulo. O suor escorria na minha testa, e minha respiração estava pesada. Quando terminei, encostei na parede e fechei os olhos, tentando entender o que estava acontecendo comigo.Eu tava doente? Era o estresse? A tristeza?R
Camila narrandoOlhei pro teste de gravidez em cima da cama e senti meu coração martelar contra o peito. Eu precisava contar pro Guilherme. Era o certo. Mas como?Maria percebeu minha hesitação e cruzou os braços, me olhando firme.— Aproveita que seu pai saiu e vai atrás dele, Camila. Você sabe que ele não vai deixar você ir se souber.Mordi o lábio, nervosa. Meu pai nunca deixaria eu sair pra procurar o Guilherme. Pra ele, esse assunto já tava encerrado. Mas pra mim, não.Levantei da cama, decidida.— Tá bom. Eu vou.Maria sorriu de leve e foi até o guarda-roupa.— Então se arruma logo. Você precisa estar bem quando chegar lá.Peguei um short jeans e uma blusa branca soltinha. Maria me ajudou a arrumar o cabelo, prendendo em um rabo de cavalo alto. Passei um pouco de perfume e encarei meu reflexo no espelho. Meus olhos ainda estavam inchados de tanto chorar essa semana, mas eu não podia mais ficar assim.— Você tá linda, filha. Agora vai antes que seu pai volte.Peguei minha bolsa e
Guilherme narrando :Eu nunca me senti tão destruído na minha vida. A decepção foi tanta que eu só queria sumir. Não tinha vontade de fazer nada, de ver ninguém. A única coisa que me mantinha de pé era a ideia de ir embora daqui.Passei numa prova pro curso de ADM numa das universidades federais mais requisitadas do Brasil, lá no Rio Grande do Sul. No mesmo dia, consegui pela internet um trampo numa padaria pra mim e outro pra minha mãe. Não pensei duas vezes.Arrumei minhas coisas e parti. Sem olhar pra trás. Sem despedidas. Sem dar chance pra ninguém me convencer do contrário.Eu precisava recomeçar. Longe de tudo. Longe dela.Nos primeiros dias, foi um alívio e um inferno ao mesmo tempo. Joguei o chip do celular fora assim que cheguei, não queria receber nada dela, nenhuma mensagem, nenhuma explicação. Pra mim, já tava tudo dito.Acordava cedo pra trampar na padaria, passava o dia entre os estudos e o trabalho, tentando enfiar na minha cabeça que essa era a melhor escolha. Mas à no
Camila narrandoDois meses se passaram e eu ainda não tive coragem de contar pro meu pai sobre a gravidez. Mas fiz questão de acabar com aquela farsa do casamento, fui na casa do Albert e fiz o maior escândalo, contei tudo pra mãe dele. Falei que ele tinha abusado de mim e que, se insistissem nesse casamento, eu ia denunciar ele. Sabia que não tinha acontecido nada, mas foi o que ele quis fazer parecer, então fiz ele provar do próprio veneno. Depois disso, a família dele desistiu da ideia e cortou relações com meu pai.O que me atormentava era não saber como fui parar naquela casa de praia com ele. Maria me disse que naquela manhã, quando meu pai preparou meu café, ele mandou ela no mercado e quando ela voltou eu não estava mais em casa. Ela não viu nada, não sabe de nada. E eu continuo sem respostas.Pelo tempo, já devo estar de uns três meses. Como sou magrinha, ainda não aparece nada, mas dentro de mim já tem uma vida crescendo. E meu pai... meu pai quase não olha na minha cara. D
Camila narrandoMaria me ajudou a arrumar uma mochila com algumas roupas, meus documentos e um pouco de dinheiro que ela conseguiu juntar. Peguei em cima do meu closet, na parte do malero uma caixinha que minha mãe tinha me dado antes de morrer, estava cheia de jóias dela, era a única coisa de valor que eu tinha. Meu coração batia forte, o medo misturado com a tristeza, porque eu sabia que, a partir do momento que saísse daquela casa, não tinha mais volta.— A gente precisa sair antes do seu pai chegar — Maria falou baixinho, espiando pela janela.Assenti, engolindo o choro. Eu não podia me dar ao luxo de desabar agora.Saímos pela porta dos fundos, andando rápido até uma viela mais afastada. Maria chamou um mototáxi conhecido dela, e em poucos minutos eu já estava subindo na garupa, com a mochila apertada contra o peito.— Assim que chegar lá, me liga — ela pediu, segurando minha mão. — E não esquece, você não tá sozinha, minha filha.— Obrigada, Maria… — minha voz saiu embargada, e
Camila narrando :Passei o dia ajudando a dona Ana nos afazeres da casa. A noite passou devagar, o cansaço me dominou e eu acabei pegando no sono quase sem perceber. Quando acordei no outro dia, a luz do sol já entrava pela janela, e eu ainda estava um pouco atordoada com tudo o que aconteceu. O silêncio na casa era estranho, mas logo ouvi vozes vindas da cozinha.Me levantei, fui ao banheiro fazer minha higiene e, assim que terminei, desci as escadas, sentindo os passos ecoando na casa vazia. Quando entrei na cozinha, dona Ana e a Maria estava lá, com quatro malas grandes ao lado dela. Meu coração apertou, e a preocupação tomou conta de mim.— O que aconteceu, Maria? — perguntei, ainda tentando processar o que estava acontecendo.Ela olhou pra mim com um semblante cansado e triste, como se o peso de tudo tivesse caído sobre ela de uma vez.— Seu pai me mandou embora — ela disse, com a voz trêmula. — Disse que vendeu a casa e não precisa mais dos meus serviços. Eu trouxe tudo o que vo