Capítulo 35Camila narrando :Uma semana. Sete dias presa dentro desse quarto, sem poder sair nem pra respirar. Meu pai pegou meu celular e não devolveu mais. Ele trancou a porta e disse que era pro meu próprio bem, mas eu sabia que era só pra me punir.No começo, eu gritava, pedia pra abrir a porta, mas só serviu pra ele entrar aqui e me bater. Duas vezes. Depois disso, aprendi a ficar quieta, mas a raiva e o medo ainda estavam aqui dentro comigo. Nem pra escola eu fui mais. Nem sei como tá minha vida lá fora.A única pessoa que entra aqui é a dona Maria. Ela vem todo dia, traz comida e tenta me consolar, mas não pode fazer nada além disso. São ordens dele. E todo mundo nessa casa obedece ele.Eu me sinto sufocada. Sem celular, sem contato com ninguém, sem saber do Guilherme… Só queria que isso acabasse.Eu tava sentada na cama, chorando baixinho, quando a porta se abriu de repente. Meu pai entrou e me encarou com aquele olhar frio que me dava arrepios.— Marquei seu casamento pra da
Capítulo 36Jorge Sanches narrando:Meu nome é Jorge Sanches, tenho 53 anos. Fui casado por anos até minha mulher morrer e me deixar com dois filhos, Camila e Santiago.Santiago sempre foi igual a mim. Gosta dos negócios, entende como o mundo funciona e sempre fez o que eu mandei, sem questionar. Já a Camila... Bom, Camila sempre foi geniosa, teimosa, cabeça dura. Tudo isso era coisa da mãe dela.Desde pequena, nunca aceitou minhas ordens sem contestar. Sempre querendo escolher o próprio caminho, ser dona do próprio nariz. Mas isso acabou. Ela precisa entender que, no meu mundo, não existe espaço pra mulher fazer o que bem entende. Eu decido o que é melhor pra ela. E esse casamento que arranjei vai garantir que ela tenha um futuro seguro, longe de más influências.Não vou deixar que ela estrague tudo por causa daquele favelado.Santiago sempre foi meu orgulho. Meu sucessor, meu braço direito nos negócios. Mas eu fui burro... Cego.Quando percebi, já era tarde demais. Ele tava se perde
Guilherme narrando : Eu sabia que aquele dia não seria como os outros. Desde o momento em que acordei, uma sensação estranha me acompanhava, como se algo estivesse prestes a acontecer. Algo ruim. O meu instinto gritava, mas eu ignorei. Estava ansioso para ver Camila, para sentir o seu cheiro, para tê-la nos meus braços mais uma vez. Era como um vício, uma obsessão que eu não conseguia controlar. A casa de praia da família dela era o nosso refúgio, o lugar onde podíamos nos esconder do mundo. Onde ela me dizia, entre suspiros e beijos, que nunca sentiu nada igual. E eu sempre acreditei nisso. Eu acreditei que ela era minha, assim como eu era dela. Cheguei lá com o coração disparado. A porta estava entreaberta, como se estivesse me esperando. Algo no silêncio do lugar me incomodou. O som das ondas parecia distante, abafado pela sensação sufocante que tomou conta de mim. Um arrepio percorreu minha espinha. — Camila? — chamei, a minha voz soando estranha até para mim. Nenhuma
Camila narrando :Acordei cedo com o barulho da porta do quarto se abrindo e Maria entrando.— Bom dia, minha filha. — Ela sorriu.— Bom dia, Maria.Ela se aproximou, ajeitando a cortina, e soltou um riso baixo.— Seu pai acordou de bom humor hoje. Acredita que ele mesmo preparou seu café? Disse pra você se arrumar, que vão sair.Achei estranho, mas deduzi que fosse para ver o vestido de noiva.— Tá bom, Maria. Obrigada.Ela saiu do quarto, e eu fui direto pro banheiro. Tomei um banho demorado, deixando a água quente relaxar meus ombros. Depois, vesti uma lingerie preta e um vestido soltinho, confortável. Soltei os cabelos, ajeitei os fios com os dedos e finalizei com meu perfume preferido.Sentei na cadeira da mesinha do quarto e comecei meu café da manhã. Peguei o suco e dei um gole, enquanto mordia o misto quente que Maria havia deixado pra mim. O dia mal tinha começado, mas eu sentia que algo estava diferente. Sabia que hoje ele ia me levar pra escolher o maldito vestido e eu ia p
Camila narrando :Meu coração batia descompassado, o desespero tomava conta de mim. Minha mente tentava buscar respostas, mas tudo estava embaralhado.Minha última lembrança era de estar no meu quarto, tomando café. Depois disso… um apagão. E agora eu estava aqui, nesse pesadelo.Levantei cambaleando, minhas pernas ainda fracas, mas eu precisava sair dali. Precisava ir atrás do Guilherme, explicar o que tinha acontecido. Tropecei até o banheiro, olhei meu reflexo no espelho. Meus olhos estavam inchados, meu cabelo bagunçado, a lingerie preta colada no meu corpo me fazia querer vomitar. Me senti suja, enojada.Lágrimas escorreram pelo meu rosto, mas eu não podia me deixar desabar. Corri até o guarda-roupa, vesti um short jeans e uma blusa larga, calcei os chinelos e saí dali o mais rápido possível.Quando cheguei na rua, o sol forte me cegou por um segundo. Respirei fundo, tentando manter a calma, mas meu peito ainda queimava. Eu precisava do Guilherme. Precisava dele mais do que nunc
Camila narrandoUma semana. Sete dias trancada nesse quarto, sem ver ninguém, sem vontade de nada. Meu pai me devolveu o celular, mas parecia não ter adiantado. Guilherme nunca mais me atendeu. As mensagens nem chegavam mais.Eu não comia direito, não dormia direito, não vivia direito. Só respirava por obrigação. Hoje era meu aniversário, dezoito anos, e eu não tinha vontade de comemorar nada.Acordei com o sol batendo no meu rosto. A cortina estava aberta, e o quarto parecia mais claro do que eu queria. Virei pro lado, tentando voltar a dormir, mas um enjoo forte me fez sentar na cama na mesma hora. Meu estômago revirou, e eu corri pro banheiro, mal conseguindo chegar antes de vomitar.Me ajoelhei no chão frio, segurando a borda do vaso, sentindo meu corpo todo trêmulo. O suor escorria na minha testa, e minha respiração estava pesada. Quando terminei, encostei na parede e fechei os olhos, tentando entender o que estava acontecendo comigo.Eu tava doente? Era o estresse? A tristeza?R
Camila narrandoOlhei pro teste de gravidez em cima da cama e senti meu coração martelar contra o peito. Eu precisava contar pro Guilherme. Era o certo. Mas como?Maria percebeu minha hesitação e cruzou os braços, me olhando firme.— Aproveita que seu pai saiu e vai atrás dele, Camila. Você sabe que ele não vai deixar você ir se souber.Mordi o lábio, nervosa. Meu pai nunca deixaria eu sair pra procurar o Guilherme. Pra ele, esse assunto já tava encerrado. Mas pra mim, não.Levantei da cama, decidida.— Tá bom. Eu vou.Maria sorriu de leve e foi até o guarda-roupa.— Então se arruma logo. Você precisa estar bem quando chegar lá.Peguei um short jeans e uma blusa branca soltinha. Maria me ajudou a arrumar o cabelo, prendendo em um rabo de cavalo alto. Passei um pouco de perfume e encarei meu reflexo no espelho. Meus olhos ainda estavam inchados de tanto chorar essa semana, mas eu não podia mais ficar assim.— Você tá linda, filha. Agora vai antes que seu pai volte.Peguei minha bolsa e
Guilherme narrando :Eu nunca me senti tão destruído na minha vida. A decepção foi tanta que eu só queria sumir. Não tinha vontade de fazer nada, de ver ninguém. A única coisa que me mantinha de pé era a ideia de ir embora daqui.Passei numa prova pro curso de ADM numa das universidades federais mais requisitadas do Brasil, lá no Rio Grande do Sul. No mesmo dia, consegui pela internet um trampo numa padaria pra mim e outro pra minha mãe. Não pensei duas vezes.Arrumei minhas coisas e parti. Sem olhar pra trás. Sem despedidas. Sem dar chance pra ninguém me convencer do contrário.Eu precisava recomeçar. Longe de tudo. Longe dela.Nos primeiros dias, foi um alívio e um inferno ao mesmo tempo. Joguei o chip do celular fora assim que cheguei, não queria receber nada dela, nenhuma mensagem, nenhuma explicação. Pra mim, já tava tudo dito.Acordava cedo pra trampar na padaria, passava o dia entre os estudos e o trabalho, tentando enfiar na minha cabeça que essa era a melhor escolha. Mas à no