Desta vez, o homem não fugiu. Ficou parado no lugar, me encarando diretamente. — Você me conhece? — Perguntei assim que parei diante dele. — Não. Analisei aquele rosto com calma. Ele não era do tipo que chamava atenção à primeira vista, mas, quanto mais eu olhava, mais interessante ele parecia. Era um daqueles rostos que cresciam em beleza com o tempo. A pele clara destacava ainda mais o ar limpo e organizado que ele transmitia. Hoje, o moletom cinza já tinha dado lugar a uma camiseta azul clara, e seu visual me parecia ainda mais arrumado. — Só que, de ontem pra hoje, nossas “coincidências” estão ficando um pouco frequentes demais. — Comentei, tentando ser discreta enquanto indicava que ele estava mentindo. — A gente realmente não se conhece, mas você é muito parecida com alguém que eu conheço. — Disse ele, e eu não consegui segurar o riso. Aquela abordagem era tão clichê que parecia ter saído de um manual antiquado de cantadas. Ele percebeu o tom de deboche no meu sorriso
Se desligassem o respirador, uma vida iria desaparecer deste mundo. — Então, você deveria estar com ela agora, ao lado dela, acompanhando seus últimos momentos. — Lembrei Vinicius, tentando soar compreensiva, mas firme. — Eu sei. Vou agora mesmo. — Ele ergueu o olhar para mim, a expressão carregada de culpa e tristeza. — Desculpe ter incomodado. Eu desejei, com sinceridade: — Espero que aconteça um milagre. Vinicius não disse mais nada. Apenas virou-se e começou a caminhar. Fiquei olhando para sua silhueta enquanto ele se afastava. Dessa vez, o sentimento que ele me despertava era completamente diferente daquele da noite anterior, quando o vi fugindo atrapalhado. — O que você tanto olha? Eu te liguei e você nem ouviu. — George chegou, pegando o buquê de flores das minhas mãos e me encarando com curiosidade. Não sabia como explicar a George o que havia acontecido com Vinicius. Eu não tinha mencionado o encontro inesperado com ele na noite anterior, e agora seu drama pessoa
E parece que eles estavam olhando fazia um bom tempo. Ou seja, todas aquelas trocas de carinho entre mim e George provavelmente foram vistas por eles também. Não sei se era impressão minha, mas os três pareciam estar com expressões nada boas. Como já tínhamos nos cruzado cara a cara, não havia como evitar. Tinha que cumprimentá-los. Eu e George nos aproximamos. — Tia, tio, Miguel. — Chamei, tentando soar o mais natural possível. Cátia foi a primeira a abrir um sorriso. — Carol, George, o que vocês estão fazendo aqui? Olhei para George antes de responder: — Viemos visitar uma amiga. Não mencionei nada sobre Benedita. Eu sabia que George não gostava que outras pessoas invadissem o espaço ou a privacidade de sua irmã. Se João e Cátia soubessem que Benedita estava internada, com certeza iriam visitá-la. E, se isso acontecesse, Benedita acabaria perguntando sobre a relação entre mim e eles, o que seria difícil de explicar. Melhor evitar. Depois de falar, olhei para João.
Meu rosto travou, e George já deu duas batidinhas na testa dela: — Está investigando identidade agora? Benedita fez um biquinho para ele: — Só perguntei por perguntar. Olhei para George e sugeri: — Os exames já terminaram. Leva ela para comer alguma coisa. Eu vou dar uma olhada em outra coisa. — Carolina, vai ver o quê? — Benedita quis saber, curiosa como sempre. George sabia exatamente o que eu queria fazer e, sem perder tempo, começou a empurrá-la para longe, dizendo: — Você não era tão falante assim antes. Veio pra cá e virou tagarela? — É que eu tenho medo de não ter mais chance de falar depois. — Benedita respondeu, com uma leveza que escondia o peso de suas palavras. A frase dela silenciou George e fez meu coração apertar. No fundo, ela também tinha medo de não sobreviver à cirurgia. — Para de falar besteira. — George deu um leve tapa na cabeça dela. Benedita segurou no braço do irmão, e os dois se afastaram. Vi os dois caminharem até desaparecerem, e só e
Acompanhado pelo grito de Augusto, joguei uma xícara de café direto no rosto dele. Augusto, que estava sentado, saltou da cadeira imediatamente, esfregando o rosto cheio de café enquanto gritava: — Você tá maluca, mulher?Segurando a xícara vazia, apontei para ele com firmeza: — Se você tentar me importunar de novo, vou quebrar essa xícara na sua cabeça e te mandar direto pra delegacia pra tomar café com a polícia! Augusto, que usava uma camiseta branca, agora estava todo manchado de café. O cabelo, encharcado, pingava restos de café, deixando-o com uma aparência patética. Mesmo assim, ele não perdeu a arrogância: — Carolina, você acha que isso vai me assustar? Eu não tenho medo de você, eu... Não esperei para ouvir o resto. Saí da cafeteria sem olhar para trás. Miguel veio logo atrás de mim: — Quem é esse cara? — O irmão da Lídia. — Respondi, enquanto puxava um lenço umedecido da bolsa para limpar os dedos sujos de café. — Ele te incomoda com frequência? — Miguel
— Carolina, você é tão grudenta. — Benedita comentou, me deixando um pouco sem graça. Mas, logo em seguida, completou com um sorriso travesso. — Mas eu adoro isso. — Boba. — Revirei os olhos, fingindo irritação, e ela caiu na gargalhada. Saí do quarto e olhei pelo corredor. Não havia ninguém de um lado nem do outro. Se ela disse que George tinha saído para atender uma ligação, então provavelmente ele havia ido para um lugar mais tranquilo. Pensei por um instante e segui em direção à escada de emergência. Assim que me aproximei, escutei a voz de George. — A oficina de carros já não existe mais, mas os mecânicos devem estar por aí. Dê um jeito de encontrá-los... Claro que é necessário. Preciso dar uma resposta para minha namorada, e também provar a inocência do meu pai. Ao ouvir isso, meu coração apertou. Nos últimos dias, eu vinha me perguntando se deveria investigar novamente o problema nos freios do carro no acidente de tantos anos atrás. Mas, pelo visto, George já estava
Meu coração deu um salto, pensando nos exames que Benedita fez hoje. Eu perguntei, preocupado:— Os resultados dos exames não foram bons?Luana, com as mãos no bolso do casaco branco, balançou a cabeça levemente e respondeu:— Não, o problema é com o doador.Eu, ainda confusa, franzi a testa e perguntei:— Hã?Luana suspirou e explicou:— O doador está em estado vegetativo irreversível. A família estava pronta para desistir e autorizou a doação de todos os órgãos, mas de repente mudaram de ideia.Eu comecei a entender. O doador era compatível com Benedita, e se a doação fosse cancelada, Benedita teria que esperar mais. Quanto tempo ela teria que esperar, ninguém sabia.Eu perguntei:— Você sabe por que desistiram da doação?Luana fez beicinho:— Não sei, só recebi a notificação. Você sabe que as informações sobre o doador são confidenciais.Ao pensar nas expectativas de Benedita em relação à nova vida, fico imaginando o quanto ela ficaria desapontada ao saber que, por enquanto, não pod
Chegou a menstruação!— Espera por mim! — Gritei para Luana, correndo atrás dela. — Como você falou, deu certinho. Minha menstruação chegou! Me empreste seus itens de emergência.Luana tirou a chave da sala de descanso do bolso e me entregou. — Pode pegar lá você mesma.Pegamos o elevador juntas para o andar da obstetrícia. Antes mesmo de sairmos, ouvimos gritos ecoando pelo corredor.— Sua sem-vergonha! Casou com o meu filho e ainda foi atrás de outro homem! Você matou o meu filho!— Agora está grávida de um bastardo e ainda tem coragem de dizer que é da nossa família Nunes!— Acha que a gente não sabe o que você quer? Só está interessada no dinheiro da indenização do meu filho!...Luana saiu correndo na direção do tumulto, enquanto eu fiquei parada, surpresa. Por que aquelas palavras me pareciam tão familiares?Embora eu precisasse urgentemente pegar um absorvente e ir ao banheiro, não consegui resistir e acabei caminhando em direção à multidão que se aglomerava. — Essa criança é d