— Venha. — Lucian ordenou, a voz baixa, mas carregada de autoridade.Florence apertou os lábios, incapaz de decifrar suas intenções. Ela olhou ao redor, mas não havia para onde fugir. Sem alternativa, obedeceu e caminhou em sua direção.Assim que ela se sentou, ele segurou sua mão machucada e, sem dizer nada, tirou um pequeno tubo de pomada para queimaduras do bolso. Com movimentos firmes, ele espalhou o creme frio sobre o ferimento de Florence.Ela ficou surpresa. Como ele sabia que ela estava ferida? A dúvida passou rápido, substituída pela sensação gelada da pomada aliviando a dor. O frescor relaxou seu corpo quase que instantaneamente, e o aroma suave do creme misturado ao das velas aromáticas pareceu clarear o mundo ao seu redor.Lucian, com a cabeça levemente abaixada, tinha a expressão oculta, mas sua voz soou calma e direta:— Como você sabe sobre o passado de Lavínia? Isso aconteceu há dez anos. Depois do acidente de carro, ela mandou apagar todas as notícias relacionadas.As
Embora o calor por dentro do corpo de Florence a queimasse, suas costas se retesaram instintivamente. Ela ergueu o olhar e encontrou diretamente os olhos dele. Na penumbra, parecia que ela encarava um abismo profundo, impossível de alcançar o fundo.Lucian apoiava o rosto na mão com uma expressão de interesse. Seus olhos a observavam atentamente, enquanto um sorriso quase imperceptível dançava no canto de seus lábios.Florence sentiu um nó na garganta ao lembrar-se de episódios passados, memórias que a faziam sentir-se humilhada. Ela desviou o rosto, sem conseguir sustentar o olhar dele.Ela mordeu o lábio inferior com força, tanto que o gosto metálico do sangue começou a se espalhar. Mesmo assim, a dor não era suficiente para afastar a sensação de tormento que fervia dentro dela. Florence continuou pressionando os dentes contra os lábios, tentando resistir.De repente, uma dor aguda em seu maxilar a fez soltar o lábio. Seus lábios entreabriram-se involuntariamente, e o sangue escorreu
De acordo com as regras, ninguém da família podia assistir à cremação no crematório. Florence Winters, no entanto, pagou o que foi necessário. Com passos lentos, ela empurrou a maca de ferro gelada para dentro da sala de cremação. O ar tinha um cheiro metálico de queimado, e no feixe de luz que atravessava a janela, partículas de cinza flutuavam no ar. Talvez fossem restos de ossos. Em breve, sua querida filha também se tornaria isso. Vestida com um longo vestido preto, Florence parecia ainda menor do que era. Nem mesmo o menor tamanho escondia sua silhueta magra e abatida. Seus olhos, inchados e vermelhos de tanto chorar, estavam agora estranhamente serenos. Ela passou a mão pelo lençol branco que cobria o corpo imóvel e pálido da filha e, cuidadosamente, colocou na palma da mão fria da menina duas estrelas de papel cor-de-rosa. — Estela, espera a mamãe. Quando o tempo acabou, um funcionário aproximou-se e puxou Florence gentilmente para o lado. Ele ergueu o lençol, re
Ela tinha voltado à vida! Florence havia ressuscitado!Ignorando os olhares incrédulos ao seu redor, ela cravou as unhas em seu braço, apertando com força. A dor aguda percorreu-lhe o corpo, e seus olhos logo se encheram de lágrimas.— Chorando por quê? — Uma voz grave e autoritária ecoou pelo salão. — Quem deveria pedir desculpas aqui é você, não a nossa família Avery!Florence voltou a si e ergueu o olhar, encontrando os olhos frios e impacientes de Theo Avery, o patriarca da família.Imediatamente, ela baixou a cabeça, assumindo a postura submissa de sempre. Mas, por dentro, seu corpo tremia, não de medo, mas de excitação.Ao redor, ouviam-se risinhos abafados e cochichos venenosos.— Jovem desse jeito e já com coragem de drogar o próprio tio para seduzi-lo? Fez a maior confusão na cidade só para tentar obrigar o Lucian a assumir responsabilidade. E agora finge que nada aconteceu! Quem educou essa garota?— Isso não é coisa de gente da nossa família. A família Avery nunca criaria al
Daphne Gonçalves era filha de uma família tradicional, mas em decadência.Três anos atrás, Lucian surpreendeu a todos ao anunciar publicamente seu relacionamento com ela. Mesmo sob forte oposição de Theo, ele organizou um luxuoso jantar de noivado.Daphne, de um dia para o outro, tornou-se a mulher mais invejada de Cidade do Sol. Todos a admiravam: uma mulher linda, bondosa e elegante.Mas Florence sabia a verdade. Daphne não era nada disso. Se não fosse designer, certamente seria uma atriz de primeira linha. Ela era a melhor quando o assunto era fingir.E Daphne, com toda a sua esperteza, sabia exatamente o que Florence queria dizer ao apontar o dedo para ela. O casamento com Lucian já havia sido adiado por três anos, e Daphne não podia mais esperar para oficializar a união.Como esperado, Daphne deu um passo à frente. Sem hesitar, ajoelhou-se na mesma posição em que Florence estava antes e curvou a cabeça em uma demonstração teatral de humildade.— Vovô, fui eu! — Disse Daphne, com a
Sob o olhar gélido de Lucian, Florence apertou os lábios com força, tentando se manter calma. Mas, ao lembrar-se dos oito anos de sofrimento em sua vida passada, seus dedos começaram a tremer involuntariamente, e ela virou o rosto com esforço, tentando esconder sua fragilidade.Lucian desviou o olhar, a voz carregada de desdém:— Está planejando engravidar às escondidas?Florence franziu a testa profundamente, lançando um olhar rápido para Lyra. O remédio havia sido comprado por sua mãe. Será que ela ainda não desistira da ideia de casá-la com Lucian? Mas Lyra, diante do olhar frio de Lucian, tremia como uma folha ao vento. Comparada a Theo, Lyra tinha ainda mais medo de Lucian. Ela jamais teria coragem de agir sob os olhos dele.Então, o que estava acontecendo?Florence ergueu os olhos, sentindo-se cercada por olhares de todos os lados. Entre eles, havia um especialmente afiado: Daphne. Seus lábios esboçavam um sorriso ambíguo, que imediatamente trouxe à tona memórias desagradáveis
O salão era amplo, mas o ar ao redor de Lucian parecia congelado, sufocando todos ali presentes. Ele permanecia em silêncio, mas ninguém tinha dúvidas: estava furioso.Lucian tirou do bolso uma caixa de cigarros, acendeu um deles e soltou uma nuvem de fumaça que envolveu seu rosto. Ele olhava para Florence através da névoa, com um olhar indecifrável.— Saia.Logo em seguida, Theo, visivelmente irritado, fez um gesto de desdém com a mão.Lyra se aproximou para ajudar Florence a se levantar, mas ela afastou a mão da mãe e ficou de pé, ereta, no meio do salão. Sua voz soou firme, carregada de determinação:— Já que minha presença aqui é tão inconveniente, vou me mudar imediatamente. Obrigada, vovô Theo, por todos esses anos de cuidado.Se era para sair, que fosse com dignidade. Sem hesitação. Nunca mais ela se curvaria como antes, apavorada e submissa.Sem esperar qualquer resposta, Florence se virou e saiu.Mas, enquanto ela se afastava, sentiu o peso de um olhar frio e perigoso cravado
— Ontem à noite? — Florence repetiu, sua voz quase inaudível. De fato, ela havia dito muitas coisas.Ela não teve coragem de vê-lo, drogado com afrodisíacos, suportando tanta dor. Foi por isso que cedeu e se entregou a ele. No auge daquele momento, enquanto tentava suportar o toque quase torturante de Lucian, Florence se abriu, revelando seus sentimentos mais profundos:— Sr. Lucian, eu gosto de você. — Eu gosto de você há muito tempo. Desde o dia em que entrei na família Avery e você me defendeu... Naquele instante, comecei a observar você em silêncio.— Eu sei que você não liga para mim, mas eu... Eu realmente... Amo você.Naquele momento, ela pensou que talvez, no dia seguinte, Lucian nem se lembrasse do que aconteceu. Mas ela lembraria. Guardaria em sua memória cada detalhe. Afinal, pelo menos uma vez, ela esteve tão perto dele.Florence entrou na família Avery com dezesseis anos. Lyra a arrumou como se fosse uma boneca de porcelana para ser exibida. Naquela época, Lyra não sab