Capítulo 2
Mário só então pareceu se lembrar do assunto e, do outro lado da linha, o silêncio se instalou por um breve momento.

Ele ainda queria dizer algo, mas o telefone foi arrancado de sua mão por Ezequiel.

— Celeste, você pode parar de ser tão desprezível? Acha que todo mundo é igual a você, sempre competindo com outras mulheres? Te aconselho a parar com essa palhaçada! Se atrapalhar o trabalho do Mário e dos outros, vai se responsabilizar por isso? Pare de ser idiota e de obrigar os outros a limparem sua bagunça, tá bom?! — Depois de despejar essas palavras, ele desligou o telefone.

Beatriz, encostada nos braços de Mário, acariciou suavemente a cabeça de Ezequiel e o confortou com doçura:

— Pronto, pronto. Vocês sabem bem como a Celeste é. Hoje é o dia mais importante da minha vida. Seja bonzinho, fique feliz, tá?

Com apenas uma frase, ela conseguiu acalmar Ezequiel.

O grupo seguiu animado em direção ao quarto nupcial.

Quando a animação terminou e a noite solitária caiu, só restava eu mesma.

Como um palhaço de quem ninguém se importava.

Peguei meu celular e marquei uma consulta para o aborto.

Depois, virei as costas e fui embora.

Um coração que tentei aquecer por quinze anos… em vão.

Não quero mais.

Quando voltei para o centro da cidade, já era madrugada.

Reservei um hotel qualquer, tomei um banho e, atordoada, adormeci.

Mas, no meio da noite, fui despertada pelo toque insistente do telefone.

Do outro lado da linha, a voz do chefe da emissora soava ansiosa e empolgada:

— Celeste, ouvi dizer que houve um terremoto de magnitude 5,3 ontem em Vila do Antigo! Vá logo coletar material!

Sem esperar minha resposta, ele desligou.

Me senti ridicularizada. Se soubesse que seria assim, jamais teria vindo.

Aceitando meu destino, me levantei e peguei o celular.

Foi então que me deparei com um novo post de Beatriz no Twitter.

Era apenas uma foto.

Na imagem, sua mão pequena e pálida estava envolvida pela mão grande e bem definida de Mário.

Em seus dedos anelares, um par de alianças idênticas.

Meu olhar recaiu sobre a cicatriz pálida no dorso da mão de Mário.

E meu coração, já morto, ainda assim não pôde evitar a dor.

Aquela cicatriz era da época em que Mário, aos dezoito anos, me protegeu da violência do meu próprio pai, sendo ferido pelos estilhaços de uma garrafa de cerveja quebrada.

Foi essa cicatriz que me fez acreditar, por tanto tempo, que ele se importava comigo.

No fim, tudo não passou de uma ilusão criada por mim mesma.

A última fagulha de apego em meu coração se extinguiu.

Liguei o notebook e rapidamente organizei o material da reportagem.

Depois, pedi a um amigo advogado para redigir um acordo de divórcio.

Quando voltei a Vila do Antigo, tudo estava em ruínas.

Guardei meus sentimentos e, com um coração pesado e solidário, comecei a organizar o resgate das vítimas.

Por alguma razão, as consequências desse terremoto pareciam excepcionalmente graves.

Observando os detonadores espalhados próximos à nova vila construída ao pé da montanha, um pressentimento ruim surgiu em minha mente.

Mas, antes que pudesse reagir, alguém me deu um chute violento por trás.

Fui pega de surpresa e caí no chão coberto de entulhos deixados pelo terremoto.

Minha mão e meu rosto rasparam contra as pedras, arrancando pedaços de pele.

Uma voz irada soou atrás de mim. Era Ezequiel:

— Celeste, você é um chiclete, é isso?! Veio até aqui só para flagrar uma traição?! Você tem algum problema mental?!

Em algum momento, Ezequiel pareceu ter esquecido como nossa mãe foi forçada à morte pela mãe de Beatriz.

Hoje, ele não passava de um cão fiel para Beatriz.

Um irmão assim... eu não quero mais.

Me levantei em silêncio e bati a poeira das minhas roupas.

Com o rosto inexpressivo, caminhei até ele e dei um tapa forte em seu rosto.

O golpe fez sua cabeça virar de lado. Ele me olhou, chocado. Não esperava que, desta vez, eu revidasse.

Antes que ele pudesse reagir, o encarei com puro desprezo e disse friamente:

— Não se iluda. Se gosta tanto da Beatriz, então se torne o cachorrinho dela de uma vez. Esse tapa foi o troco. De agora em diante, não temos mais nenhum vínculo.

Ignorando seu olhar furioso, me virei e continuei com a entrevista.

Ao longe, Mário se aproximava, segurando Beatriz, que estava pálida.

Por um instante, vi um traço de culpa em seu rosto.

Ele então abriu a boca e disse:

— Celeste, esqueci de te parabenizar pelo seu aniversário ontem. Quando eu terminar os trabalhos de escavação aqui, volto para te compensar...
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