A primeira noite ao lado de Liam foi tudo, menos tranquila. Collin sequer conseguiu pregar os olhos. A cada movimento dele na cama, a cada respiração mais profunda, seu corpo se enrijecia. Passou horas observando-o, esperando qualquer aproximação inesperada. Mas nada aconteceu. Liam apenas dormia, completamente alheio à tensão dela.O sono só veio quando o céu começou a clarear, e mesmo assim, foi leve e fragmentado. Foi despertada pelo rangido da porta se abrindo. Sentou-se de sobressalto, o coração acelerado, e viu Eve entrando no quarto. Ela carregava alguns vestidos nos braços e caminhou até o guarda-roupa de madeira escura, começando a organizá-los.Ao perceber que Collin estava acordada, a jovem se virou com um sorriso amistoso.— Me desculpe pelo barulho. As portas dessa coisa são tão velhas e enferrujadas...Collin piscou algumas vezes, ainda tentando sair do torpor do sono. Seu olhar pousou nos tecidos que a outra dobrava.— Isso são... vestidos?— São suas roupas — respondeu
Liam e os outros guerreiros retornaram e convocaram todos para a grande casa no centro da aldeia, onde costumavam se reunir para as refeições. O ar estava carregado de murmúrios apreensivos. As pessoas falavam baixo, como se temessem algo.Eve puxou Collin pelo braço, guiando-a para dentro do salão. Assim que entraram, Collin percebeu que Liam já estava lá, ao lado de Damon, que falava algo em seu ouvido. Havia um corte em sua testa, um fio de sangue seco contrastando com a pele bronzeada.— Por que toda essa tensão? — sussurrou Collin para Eve.— Liam e os vigias saíram esta manhã para uma patrulha. Algo sério pode ter acontecido.Collin voltou a observar Liam. Ele parecia imponente ali, e bastou um único gesto — um bater de mãos firme — para que o salão mergulhasse no silêncio absoluto. O peso de sua autoridade era quase palpável.Uma mulher idosa na linha da frente foi a primeira a se manifestar:— Eles voltaram, Alfa?— Estamos com medo! — outra voz se ergueu.— Precisamos de resp
A segunda noite dormindo ao lado de Liam foi tão detestável quanto a primeira. O calor que emanava dele era sufocante, e cada vez que ele se movia, Collin sentia como se estivesse prestes a ser esmagada por aquele corpo gigantesco.Na manhã seguinte, quando despertou, Liam já estava de pé, terminando de se vestir. Seu porte imponente fazia a cabana parecer menor. Collin se sentou na cama às pressas, ainda grogue de sono.— Para onde vai? — perguntou, a voz rouca da recém-acordada.— Cuidar dos assuntos da aldeia.Ela bufou.— E eu faço o quê?Liam olhou de relance para ela e ergueu uma sobrancelha.— Conheça as outras fêmeas, faça amizades.Havia uma ponta de ironia em sua voz, e isso a irritou.— Algumas mulheres daqui não parecem gostar muito de mim.Ele parou de ajeitar a roupa e se voltou para ela.— Por que acha isso?— Vi algumas me encarando ontem. Com cara feia.Liam deu de ombros, como se aquilo fosse irrelevante.— Isso não significa nada.— Para mim significa.— Pode ser co
A dor foi a primeira coisa que Collin sentiu ao recobrar a consciência. Sua cabeça latejava, a pancada fora brutal. O gosto de sangue em sua boca a fez engolir em seco.— O que faremos, então? — uma voz sibilou perto dela.— Já temos um plano.— Sim. Vamos acabar com ela.Collin estremeceu. O medo rasgou seu peito como uma lâmina afiada, e ela tentou se mover, apenas para perceber que estava amarrada – pés e mãos presas com firmeza.— Precisamos agir antes que o alfa perceba que ela sumiu.— Isso é óbvio.O som de passos se aproximando fez seu coração disparar. Fechou os olhos rapidamente, fingindo ainda estar desacordada.— A vadia ainda dorme.— Quero que ela esteja acordada para isso. Pegue o balde.— Tem certeza?Collin ouviu um movimento hesitante, seguido de um suspiro impaciente.— Já disse, pegue o balde.O silêncio se alongou por um momento antes de um dos passos se afastar. Era agora. Ela abriu os olhos devagar, fingindo estar despertando naquele instante. Três das mulheres
Collin estava caída no chão, o corpo fraco, mas sua mente afiada. Ela viu o pavor estampado nos rostos das quatro mulheres.— Ele vai nos matar! — gritou uma delas, no exato momento em que mais uma batida violenta sacudiu a cabana.A loira começou a chorar, encolhida contra a parede.— Fiquem calmas! — ordenou a morena, tentando manter a compostura. — Ele não vai nos matar, somos da aldeia. Todas nós.— Mas sequestraram a alma de um… — a voz de Collin saiu arranhada, mal reconhecia a si mesma. Seu corpo estava destruído, mas seu ódio, não.Ela sorriu, cuspindo sangue.— Ele vai matar cada uma de vocês, malditas… e eu vou assistir.A morena se aproximou, puxando Collin pelos cabelos e forçando-a a se sentar.— Diga a ele para parar.Collin inclinou a cabeça, encarando-a com um olhar cortante.— Parar?Uivos preencheram o ar. Do lado de fora, pelo menos vinte lupinos cercavam a cabana.— Eu ainda posso te matar — a morena sussurrou, a faca tremendo em sua mão. — E morrerei feliz.— Entã
Assim que saiu do banho, Collin encontrou Eve esperando no quarto, pronta para ajudá-la a se vestir. Cada movimento fazia seu corpo protestar, os hematomas pulsando com a dor surda que se espalhava por sua pele.Enquanto Eve a vestia, Collin soltou em um sussurro:— Elas me odiavam porque sou humana e estou com Liam.Eve suspirou, como se desejasse dizer o contrário, mas não pudesse.— Eu gostaria de dizer que não é apenas por isso… mas é. Alguns na aldeia nunca vão aceitá-la como uma de nós, Collin.Ela engoliu em seco.— Então isso significa que tenho que viver com medo agora?— Não — Eve respondeu sem hesitação. — Liam vai cuidar disso.Collin riu sem humor.— Não importa quantas punições ele aplique, eles nunca vão me aceitar.Eve bufou e pousou uma mão gentil sobre seu braço.— Tente confiar nele.Collin não respondeu. Apenas baixou a cabeça, absorvendo as palavras.Quando Eve terminou de prender seus cabelos, Collin a encarou de frente.— Lá na cabana… Liam fez algo que eu não s
Os dias passaram arrastados desde o ataque. Collin se isolou completamente, recusando-se a sair da cabana. Não tinha forças. Cada vez que se olhava no espelho, via as marcas do que havia acontecido—o rosto ainda dolorido, o nariz inchado e vermelho. Sentia-se feia. Pequena.Naquela manhã, como tantas outras, permaneceu deitada, encarando o nada. Sabia que Liam já havia saído, provavelmente resolvendo algo importante, mas não se importava.Então, de repente, as janelas do quarto foram escancaradas.A luz do sol invadiu o cômodo, quente e ofuscante. Collin apertou os olhos, tentando se adaptar à claridade, quando a voz grave e firme de Liam ecoou pelo quarto.— Já chega disso.Antes que pudesse reagir, ele cruzou o cômodo com passos firmes, parando ao lado da cama.— Levante-se e saia desse quarto, fêmea.O estômago dela se revirou de raiva.— Já disse para não me chamar assim!Liam não recuou.— Levante-se.— Eu não quero sair daqui. Me deixe em paz.Ele continuou olhando para ela, ina
Collin tentou obedecer à ordem de Liam e permaneceu no refeitório por mais alguns minutos. Mas o desconforto crescia a cada segundo. Os olhares, os sussurros... a sensação de estar deslocada e presa em um mundo que não era seu.Não suportando mais, se levantou e caminhou em direção à saída.— Aonde pensa que vai? — a voz de Eve a deteve.Collin se virou e encontrou o olhar curioso da mulher.— Quero voltar para casa.— Ah, não vai mesmo. — Eve sorriu de canto e, sem dar espaço para protestos, entrelaçou o braço no dela. — Vem comigo.Sem ter muita escolha, Collin a acompanhou. Caminharam pelo centro da aldeia, passando por várias casas simples de madeira. Collin permaneceu em silêncio, observando tudo ao redor.— Sabe para onde Liam foi? — Eve perguntou.— Não. Damon só disse que alguém havia voltado.Eve franziu o cenho.— Que a Deusa nos proteja.Collin não perguntou nada, mas a preocupação no rosto de Eve a deixou inquieta. Para onde estavam indo?A resposta veio quando Eve a guiou