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Maria e suas investidas

ARTHUR NARRANDO

Arthur estava em pé, com as botas enfurnadas na terra molhada, o suor escorrendo pela testa, e os olhos fixos na vaca atolada no lamaçal. As mãos calejadas, com dedos grossos, apertavam o cabo do facão com tanta força que parecia que ele ia quebrar o metal. O ar estava pesado, e o cheiro de terra e estrume misturava-se com o do mofo, vindo da vaca atolada.

Ele grunhiu, resmungando algo entre dentes. A vaca mugia, desesperada, seus olhos arregalados em um pânico que Arthur bem conhecia. Já havia visto muitos animais passarem por situações como aquela, e ele sabia o que era preciso fazer. Não havia tempo para sentimentalismo ou para pensar muito. Ele só sabia uma coisa: a vaca precisava sair dali, ou ele perderia um valioso pedaço de seu rebanho.

“Você, Pedro, vem cá, me ajuda com essa porra!”, gritou para um dos soldados, que estava distante, observando com um olhar de quem não sabia o que fazer. Pedro correu até Arthur, com o rosto pálido pela tensão.

Arthur lançou um olhar impiedoso sobre o homem. “Eu não vou te pagar para ficar olhando, seu inútil! Pega aquela corda e amarra em uma das patas dela. Vamos ter que puxar até ela sair do atoleiro.”

Pedro hesitou por um momento, mas logo seguiu as instruções do fazendeiro, puxando com força a corda. Arthur xingou, resmungando palavras duras, como se fosse uma rotina para ele, cada ato uma batalha contra a natureza e contra a sua própria vida.

“O mundo não é feito de gentilezas, Pedro. Aqui, ou você resolve os problemas com força, ou é engolido por eles”, disse Arthur, olhando para a vaca, que agora começava a se debater, mais desesperada.

Quando a vaca finalmente foi retirada, Arthur deu uma última olhada no animal antes de virar-se e caminhar de volta para o rancho. Ele não olhou para trás. A luta com a terra, com os animais, com a vida, estava ali. Ele não se sentia derrotado, mas tampouco se sentia vitorioso. Ele era o dono daquelas terras, mas a terra nunca o deixaria esquecer quem estava no comando.

Enquanto caminhava de volta, seu telefone celular vibrou no bolso da calça. Ele atendeu com a voz áspera, a mesma que ele usava para comandar e para reclamar.

“Pai, estou indo para a fazenda com a Luz. Vamos chegar em breve”, disse Anderson, do outro lado da linha, com a voz calma, mas com uma tensão sutil.

Arthur parou por um instante, os olhos ficando mais rígidos. “Eu sei que você está vindo. Só não se esqueça de que aqui as coisas não são fáceis, Anderson. Essa terra não gosta de frescura.”

Ele escutou o filho, que disse algo mais sobre a viagem, mas a resposta de Arthur foi apenas um grunhido baixo. Ele sabia o que o filho precisava ouvir. A vida não era um conto de fadas, e Arthur não ia mudar para agradar ninguém. O que importava era que Anderson estava indo para a fazenda, e logo teria que enfrentar a realidade do que era viver como Arthur, o homem que suava, ralava e, acima de tudo, lutava.

“Que venha”, disse Arthur, desligando o telefone com a mesma frieza de sempre. Ele então entrou no galpão, seus olhos fixos na velha máquina que ele usava para os serviços pesados. O trabalho nunca acabava, e ele não esperava que acabasse. Mas, no fundo, havia algo de bom nisso. A terra lhe ensinou a não esperar nada, a não pedir nada. E era essa lição que ele queria passar para o filho.

Arthur sabia que a vida na fazenda exigia mais do que força física. Às vezes, o que ele precisava não era de alguém forte, mas de alguém que soubesse o que fazer nas horas de silêncio, quando ele estava sozinho com seus pensamentos e com o peso da terra. Durante anos, ele não se importou com mais nada além do trabalho. Mas havia sempre algo — ou alguém — que vinha lhe tirar a paz.

Era uma mulher simples. Maria. Uma das muitas empregadas que ele tinha, mas ela era diferente. Ela sabia cuidar da casa e das poucas tarefas que ele deixava para dentro do rancho, mas Maria tinha um olhar peculiar, uma quietude que atraía a atenção de Arthur de uma maneira que ele nunca havia esperado. Não era uma beleza de encher os olhos, mas havia algo na maneira como ela o observava, como ela fazia as coisas sem dizer uma palavra, apenas com gestos rápidos e eficientes, que o fazia pensar nela mais do que deveria.

Ela estava lá quando o sol ainda não tinha subido completamente, servindo o café amargo e quente, e estava lá depois que o sol se punha, arrumando a casa, lavando as roupas. Maria não falava muito, e Arthur não gostava de conversas desnecessárias, mas às vezes, em momentos de fraqueza, quando ele pensava que ninguém estava olhando, ele percebia que ela o observava com um certo interesse — algo que ele não sabia como lidar. Mas era só isso: interesse. E ele, acostumado com tudo, não sabia se isso era bom ou ruim.

Naquele dia, depois de um longo período de trabalho, Arthur se sentou à mesa, o peso das horas de trabalho o esmagando. Ele estava suado, a camisa gruda na pele, e suas mãos, grossas de tanto trabalho, repousaram sobre a madeira. A única coisa que ele desejava era um pouco de paz, mas havia algo mais no ar, algo que ele não conseguia entender.

Maria entrou na sala, como sempre fazia, sem fazer barulho. A porta rangeu atrás dela, e ela se aproximou dele com um prato de comida quente. Não era o melhor prato, mas, para Arthur, já era suficiente. Ele pegou a comida sem dizer nada, mas seus olhos, que antes estavam focados no prato, encontraram os dela por um segundo mais longo do que o necessário. O olhar dela era suave, mas havia algo ali, algo que ele não conseguia escapar.

“Você sempre trabalha até tarde, senhor Arthur,” disse ela, de forma calma, sem um pingo de medo ou hesitação na voz.

Arthur olhou para ela. A frase parecia simples, mas ele sabia que havia algo por trás dela. Ele engoliu a comida com um gesto apressado, sem dizer nada. O silêncio entre eles se estendeu, mas ele não estava confortável. Ele nunca foi bom com o silêncio, principalmente quando esse silêncio envolvia alguém que o entendia mais do que ele gostaria de admitir.

“É a terra”, disse ele, mais para si mesmo do que para ela. “Ela não para nunca. Não posso parar, senão sou engolido.”

Maria observou-o por um momento, seus olhos fixos nele, antes de responder. “A terra não vai te engolir, senhor Arthur. Mas, às vezes, é bom dar uma pausa.”

Aquelas palavras não eram comuns para alguém como Maria. Ela nunca se atreveria a dizer algo assim para qualquer outro homem, mas com Arthur, parecia ser diferente. Ela sabia que ele carregava uma carga pesada, e, por algum motivo, sentia que poderia aliviar um pouco disso, mesmo que fosse apenas por um momento.

Arthur não respondeu imediatamente. Ele se levantou, caminhou até a janela e olhou para a fazenda, onde os campos se estendiam para o horizonte, imponentes e impiedosos. Por um momento, ele se sentiu fraco, como se fosse apenas um homem comum diante da imensidão daquilo. Mas logo se endireitou, voltando sua atenção para a mulher na sala.

Ele não sabia o que estava acontecendo entre eles. Ele nunca tinha sido um homem de relacionamentos fáceis, e muito menos de sentimentos. Mas algo ali estava mudando. Ele não queria admitir, mas não conseguia evitar.

“Você está ficando atrevida, Maria,” ele disse, sem o tom usual de brutalidade, mas com uma risada seca na garganta.

Ela não se intimidou. “Só falo o que penso, senhor Arthur. E se isso te incomodar, posso ir embora a qualquer momento.”

Arthur a olhou, e pela primeira vez em muito tempo, algo parecia quebrar dentro dele. Ele sabia que não deveria estar se aproximando de Maria dessa forma. Ele não precisava de mais complicações em sua vida. Mas, naquele momento, parecia que a fazenda e o mundo ao redor estavam em silêncio, e só restava ele e ela. Apenas os dois, sozinhos, no meio da vastidão.

O silêncio entre eles era denso, como a poeira que se acumulava sobre as coisas que ele preferia ignorar. Arthur não sabia o que estava acontecendo, mas a presença de Maria ao seu lado parecia preencher o vazio que ele carregava. Ele sempre se viu como um homem solitário, acostumado à terra, ao trabalho árduo. Mas, naquele instante, algo em seu peito se agitava, algo que ele não podia controlar. Ela estava ali, perto demais, e ele sentia o peso daquele olhar que a fixava nele de maneira diferente.

Maria caminhou lentamente até ele, seus passos silenciosos no chão de madeira da casa. Não havia pressa. Ela o observava com uma intensidade que Arthur não sabia como lidar. Ele se virou para ela, e antes que pudesse pronunciar uma palavra, ela o alcançou. Sua respiração estava mais próxima agora, mais quente, mais real.

“Senhor Arthur…” O sussurro dela foi como um convite, um chamado. Ela não precisava dizer mais nada. Ela sabia. Ele sabia. O que quer que estivesse entre eles não era mais algo que poderiam negar.

Arthur não disse uma palavra. Em vez disso, a puxou para mais perto, seu braço envolvido em sua cintura, forçando o corpo dela contra o seu. Ela não se afastou, e, por um momento, o mundo à sua volta desapareceu. Ele estava cansado, mas havia algo em Maria que despertava nele uma necessidade primitiva, algo que a terra não podia dar.

Os lábios dela estavam tão próximos, quase ao alcance, e então, sem mais hesitação, ele a beijou. O beijo foi bruto, como tudo o que ele conhecia. Não havia delicadeza, mas havia necessidade. Maria não se esquivou, ao contrário. Ela estava ali, entregue a ele de uma forma que parecia desafiadora e ao mesmo tempo carinhosa. Suas mãos se encontraram, e o toque se intensificou à medida que seus corpos se aproximavam. Ele sentiu o calor de seu corpo, a suavidade de sua pele contra a dureza da sua, e aquilo parecia mais real do que qualquer coisa que ele já experimentara.

Maria o puxou para si com uma força silenciosa, e logo os dois estavam caindo na cama, sem palavras, apenas o som ofegante da respiração de ambos preenchendo o ambiente. Arthur, que estava acostumado à dor e ao cansaço, agora sentia algo diferente. Algo mais… humano. Ela não estava ali para ser apenas uma empregada. Ela era algo mais, e ele não sabia mais o que isso significava.

Os movimentos entre eles eram rápidos, impetuosos. Maria não hesitou, sabia o que queria e não se importava em esconder. Arthur, por sua vez, se entregava àquilo como se fosse a única coisa que importasse. Era uma mistura de necessidade e desejo reprimido, algo que ele não havia permitido sentir em anos. Quando a vida só exige trabalho, é fácil esquecer o que é viver.

O quarto estava quente, e o som dos corpos se movendo parecia se fundir com o som distante da fazenda, lá fora, onde o vento ainda cortava a noite fria. Eles não falavam, não precisavam. Cada toque, cada beijo, dizia mais do que as palavras poderiam expressar. Maria, com seus olhos fechados e as mãos em seu peito, parecia ser a única coisa que o fazia sentir-se vivo de verdade. Ele a possuía com a mesma intensidade com que conquistava a terra, sem nenhuma gentileza, apenas o desejo primal de dominar.

Mas, à medida que o tempo passava, Arthur sentiu uma leveza que não conseguia explicar. Ela não estava apenas sendo uma mulher para ele. Ela estava ali, desafiando sua dureza, quebrando as barreiras que ele havia levantado ao longo dos anos. No fundo, ele sabia que aquilo não era apenas um simples encontro. Algo estava mudando, e ele não podia impedir.

Quando tudo terminou, e os dois ficaram ali, exaustos e ainda ofegantes, o silêncio voltou a tomar conta da casa. Arthur se deitou ao lado de Maria, sentindo o peso do corpo dela contra o seu. Ele a observou por um momento, os olhos fixos no teto, tentando entender o que tinha acontecido. Mas, ao invés de buscar explicações, ele decidiu não procurar mais respostas. Talvez não houvesse necessidade de explicar. Talvez a terra, a vida que ele levava, fosse suficiente para dar sentido a tudo aquilo.

Maria virou-se para ele, e seus olhos se encontraram, com uma calma desconcertante. Não era de se esperar, mas algo no olhar dela dizia que ela não se arrependera de nada. Ao contrário, parecia que ela sabia o que havia acontecido antes mesmo de Arthur entender.

A noite avançava lentamente, e com ela, o peso do que tinha sido. Mas para Arthur, aquele momento era apenas mais um capítulo na história que ele estava escrevendo, uma história que ele não sabia onde ia dar, mas que, de alguma forma, já estava marcada pela terra, pelo suor e pelo desejo.

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