Jéssica nunca assumiu, mas sua cabeça estava voltada apenas para o dia do resultado. Fez várias outras provas com a mesma atenção e determinação. Não se dedicou menos em nenhuma delas. A que fazia seu coração bater acelerado era a da Unicamp. Buscava no calendário, todos os dias, a data em que sairia o resultado.Hugo, preocupado com a reação dela diante do resultado, procurou distraí-la. Propositalmente, marcou um dia de Bopi-Bari para toda a família. Célia e sua filha também foram convidadas.As crianças estavam superempolgadas, vendo tanta novidade. Maria era a mais feliz. Corria de um brinquedo para outro com uma velocidade difícil de acompanhar.— Anda, gente! Quero ir naquele elevador agora! — ela anunciava, chegando primeiro na fila.Sua risada era contagiante. Estava vivendo um sonho de menina.— Que bom que viemos. Olha a alegria dela! — Jéssica sorria, observando a menina girando no carrossel. Fez questão de ir sozinha.— Nunca vi Maria tão feliz como vejo nos últimos meses.
Seis anos se passaram. Jéssica está parada em frente a uma parede, verificando a lista de admitidos na residência médica. Mariana e Jonathas chegam para conferir também. Os três estavam tensos e ansiosos. Às vezes, nem toda a dedicação garante o resultado. Há muita coisa envolvida nesse processo. Prendendo a respiração, eles percorrem a lista com cuidado. De cabeça baixa, se encaminham para a sala vazia mais próxima. Jonathan fecha a porta, verificando que ninguém está chegando. Assim que se vira, eles soltam gritinhos de alegria. Aprovados e para o mesmo hospital! — Não acredito que vamos ficar juntos. Mariana é a primeira a sair do abraço em grupo. Aprenderam a comemorar as conquistas em segredo depois de um episódio com uma aluna muito desagradável. — Gente, olha pra mim. Futura ginecologista! Jéssica está sem acreditar no tamanho da mudança que sua vida está dando. — Empresária e ginecologista, você quer dizer, né? Pare de se menosprezar, gata. Você é incrível. Mariana não gos
— Não é incomodo e você não está atrapalhando nada. Meu programa com Nicole será a noite. — Ele piscou para a garota como uma promessa de que ainda teriam seu momento a sós. — E temos mesmo que conversar sobre algumas coisas das crianças.Hugo caminhava para a porta ajeitando a camiseta. Seu interior vibrava ao perceber que ainda era importante para Jéssica. Nicole não queria deixar Jéssica com a sensação de vitória. Pensou rápido para marcar seu território. Ela o segurou e deu um último beijo apaixonado.— Não vou me esquecer disso. Te quero inteiro a noite. Disse discretamente no ouvido dele. Jéssica rolou os olhos e saiu da sala para esperar no corredor. Não suportava esse agarramento da Nicole em cima de Hugo.Parecia que estava constantemente tentando provocar. Causar um atrito entre eles. Não confiava nada nela perto dos seus filhos.Hugo saiu da sala limpando o batom dos lábios. Um sentimento de que tinha feito algo terrivelmente errado o invadia. Odiava quando a Nicole fazia ce
— Ele só tem sete anos, Hugo. E nem você fica mais na loja. Jéssica queria que Breno tivesse uma infância normal. Temia que, se o menino se inserisse demais nesse meio, não terminasse os estudos adequadamente. — Posso levá-los por algumas horas. Os três ou quem quiser. Isso será muito bom pra ele. Eu amava ficar na loja com meu pai quando tinha a idade dele. São minhas melhores lembranças. Ele jogou baixo de propósito. — Tudo bem. Mas, por favor, não exagera. E leva a Maria também, mesmo que ela faça cara de quem não quer ir. — Jéssica alertava seriamente. A fase quase adolescente de Maria tirava Hugo do sério. — Como descobriu sobre o Vitor? — Não acredito que você sabia e não me contou. Hugo pagou e seguiram conversando até o carro. O clima entre eles era agradável como antes. Ele fingia um ar de ofendido. Jéssica adorava as performances teatrais que ele fazia em certos momentos. Riu facilmente do gesto. O coração dele disparou ao ver o sorriso. Como essa mulher é linda. E fica a
Jéssica não estava muito confiante em participar daquela festa. O centro acadêmico foi preparado para receber os foliões: um trio elétrico, paredão de som e tudo o que se tinha direito para parecer um pré-carnaval. Os veteranos pensaram nisso com cuidado.A música podia ser ouvida a pelo menos dois quarteirões de distância. Jovens seminus pulavam e festejavam, com corpos suados que se encontravam em batidas descoordenadas, dancinhas coreografadas ou beijos ardentes e desinibidos, despreocupados em saber se iniciavam um romance ou uma ocorrência de atentado ao pudor.— Não acredito que te arrastei! — Jonathan estava muito empolgado com a festa. Desde as provas de fim de semestre, não se envolvia em agitos na universidade e estava em abstinência de novas bocas para beijar.— Olha aquele carinha de camisa verde. Não tira os olhos de você — Mariana deu a dica, e ele se virou disfarçadamente para verificar. O rapaz tinha ombros largos, altura de jogador de vôlei e usava apenas uma bermuda.
Hugo teve dificuldades para chegar em casa. Jéssica passou toda a viagem de volta lhe provocando. Fazia várias carícias pelo seu corpo e soltava frases sedutoras sobre como estava feliz por vê-lo.O corpo dele estava em chamas e tudo o que mais queria era apreciar essa fera selvagem que surgia em ambiente alcoólico. Mas sabia que era errado. Por mais que seu corpo dissesse sim, a mente gritava que não era um canalha e não tocaria numa mulher bêbada.Jéssica continuava tomando a infinita cerveja vagarosamente.— Estou tão feliz que você veio me buscar. Ela provocava, deitada com a cabeça no lado oposto ao coração dele, acariciava o peito, descendo um pouco demais. Ele segurou a mão dela antes que chegasse em local proibido. Deu um beijo para não parecer muito agressivo.— Está na hora de parar de beber, não acha, minha linda? Tentava manejar a situação com gentileza para reduzir os danos. Mesmo que seu desejo tornasse cada momento ao lado dela insu
A dor de cabeça chegou antes de Jéssica abrir os olhos. Pulsava fundo em sua mente, afetando até os ouvidos. Um zumbido persistente marcava o ritmo, enquanto um gosto terrivelmente amargo se espalhava pela sua boca. O estômago parecia ter vontade própria e só queria uma coisa: água.— Meu Deus, isso é a ressaca? Pensou, confusa, prometendo a si mesma que nunca mais beberia daquele jeito.A cama ainda estava girando. Ela mal conseguia se sentar. Fez um esforço para se virar calmamente e viu Hugo dormindo ao seu lado. Isso não era incomum: várias vezes, eles dividiam a cama para dar atenção a algum dos filhos doentes, às vezes até aos três de uma vez.Buscava na memória quem precisara de cuidados e não encontrava. Fazer esforço para se lembrar doía ainda mais. Respirou fundo, fechando os olhos, e observou o homem ao seu lado. O abdome definido. Os shorts de seda que comprara de presente de aniversário. As feições fortes e o jeito sereno, mesmo dormindo.Parecia calmo, feliz, satisfeito.
Nicole entrou. Os sorrisos se desfizeram. Jéssica cerrou os olhos em desaprovação. Hugo largou a panela no fogo com peso. Maria, teve um mini surto ao ver aquela mulher entrar em sua casa. Ela despertava uma sensação muito ruim. — Quem é essa, pai? — inquiriu a filha, com um ar altivo. Hugo não sabia como explicar a presença de Nicole. O que diria aos filhos depois de beijar Jéssica lá em cima? Pensava desesperado, o pânico crescendo dentro de si. "Papai é um canalha e essa é a namorada dele." Ignorando o risco de causar uma briga com Nicole, ele achou mais seguro buscar a harmonia em casa. — Essa é a Nicole. Ela trabalha com o papai e veio trazer alguns documentos. Venha, Nicole, por aqui. — Ele guiou a mulher até o escritório, evitando o olhar de Jéssica. Foi a vez de Maria estreitar os olhos, soltando uma respiração funda. — Reunião. — Ela chamou os irmãos. No quarto de brinquedos, Maria tentava entender o que os irmãos achavam da “amiga do papai”. — Não gostei dessa mulher.