A rua estava tranquila quando Carly desceu do carro, ela se despediu de Serina. E permaneceu na calçada, observando o motor do carro rugir suavemente, enquanto sua irmã fazia a curva na esquina e desaparecer no labirinto de luzes do bairro.Carly parou diante da porta, analisando por um instante a escuridão atrás dos vidros. A chave girou na fechadura com um clique que ecoou pela casa, que a esperava como sempre. Em um silêncio que amplificava cada pequeno som, com aquela atmosfera peculiar de um lar limpo e organizado, mas vazio. Ela deixou as chaves caírem no pires da entrada. Dentro, o ar estava parado, impregnado do aroma morno do dia acumulado. Ela deixou a bolsa deslizar do ombro para o sofá, onde ficou meio perdida entre as almofadas. Seus sapatos foram abandonados no chão. O quintal a chamou, como sempre fazia nos momentos de inquietação. Sem pensar, ela abriu a porta dos fundos. Acionou o interruptor externo, e as luzes baixas do jardim se acenderam, revelando seu pequeno re
A noite estava serena, e a brisa do mar trazia uma sensação de frescor. Ela sorriu levemente, antes de pegar o celular e começar a digitar uma poesia própria, em seguida ligou a câmera e bateu uma foto da paisagem que parecia uma pintura noturna. Publicando aquilo em um feed anônimo. Por que não ir até lá? Cada dia é uma fagulha acesa,pronta para ruir.Somos dispersos, incansáveis, esperando o momento de partir. Quem sabe se ainda estarei aqui? O corpo presente, a alma ausente, como um barco à deriva, sem saber onde atracar. Entre altos e baixos,tentando acertar, na incerteza do que posso alcançar. Já desisti de tentar.Mas sigo a perseverar,crendo que Deus irá me ajudar.Entre tantas marés, a água me submergiu. Estou à deriva, sem saber o que esperar. O que importa no final?Se tudo um dia vai passar... Flutuar sobre o mar, sem saber nadar. Flutuar no mar,sem saber remar. Contra a maré, o que será? Há anos tento me encontrar.Serina dirigia sem pressa pela aven
A manhã amanheceu fria, e o céu ainda carregava os tons alaranjados do nascer do sol quando Carly se sentou à escrivaninha do seu quarto. Diante dela, dois papéis em branco. Pegou a caneta e, sem hesitar, escreveu no primeiro: "Monteiro." No segundo, "Pedro." Respirou fundo, apoiando as mãos sobre os joelhos. Aquilo era ridículo? Infantil? Talvez. Mas era a única forma que encontrou de lidar com o que sentia.— Que cafona... — murmurou para si mesma, os dedos frios levemente presionando a caneta. — Cartas? Como se fosse uma adolescente.Olhou para os nomes escritos e deixou escapar um suspiro, ela começou a escrever. As palavras estavam todas na sua mente, mas dizê-las em voz alta… não conseguia. Ao finalizar, dobrou as folhas cuidadosamente e guardou na bolsa.Ela
O silêncio da casa de Helena era interrompido apenas pelo som distante do relógio de parede. O aroma suave de flores frescas espalhava-se pelo ambiente, misturando-se ao perfume de lavanda do desinfetante que passara ao limpar a casa. Foi então que a campainha tocou.Helena ergueu os olhos do livro que lia e franziu o cenho. Quem poderia ser? Não estava esperando visitas. Ainda era cedo para os meninos chegarem da escola, e, de qualquer forma, eles tinham a própria chave. Pedro só voltaria para casa no dia seguinte, após o plantão. Curiosa, levantou-se do sofá e caminhou até a porta. Ao abri-la, deparou-se com um rosto que não esperava ver ali.— Carly?A jovem estava parada na calçada, parecendo um pouco incerta, como se tivesse hesitando sua entrada, antes de falar qualquer coisa.— Oi, Dona Helena. Eu… será que eu posso entrar?Helena piscou algumas vezes, surpresa. Não tinha muito contato com ela, pelo menos não em um nível tão íntimo
O sol se despedia no horizonte quando o som da campainha ecoou pela casa novamente. Helena, ainda estava processando o encontro com Carly. — Quem será agora? Ao abrir, deparou-se com dois pares de olhos brilhantes: Priscila, sua filha mais velha, equilibrava duas malas e a pequena Luna, que estava a sua frente com uma mochila de pelúcia. Ela agarrou à perna da vó como um filhote de koala. — Mãe! — a voz de Priscila carregava o cansaço da viagem, mas também uma estranho alívio nos olhos. Helena quase deixou cair as chaves que segurava. — Minha filha! Minha neta! — abraçou as duas com força, sentindo o cheiro do shampoo de cereja que luna usava. — Por que não me avisou? Teria me preparado, feito um bolo de chocolate, um jantar especial... Priscila riu, afastando um cacho de cabelo do rosto. — Mas teremos tempo. Podemos cozinhar juntas, não? Lulu, já escapando do abraço da avó, correu para a sala em direção aos brinquedos que conhecia tão bem. Helena observou a filha enqu
O carro seguia pela estrada iluminada pelas luzes dos postes e dos faróis dos outros veículos. Serina dirigia em silêncio, o olhar fixo na pista, enquanto Carly observava a paisagem noturna pela janela. O caminho até a igreja não era longo, mas o silêncio entre as duas tornou-se perceptível.— Você está estranha hoje. – Carly quebrou o silêncio, lançando um olhar desconfiado para a irmã.Serina piscou algumas vezes, como se voltasse de um devaneio.— Nada de mais. Está tudo bem.Ela não acreditou completamente na irmã. Mas decidiu não insistir. A rua e o estacionamento da igreja estavam cheios. Então, Serina acabou estacionando o carro na esquina. Pegou sua bolsa e a Bíblia, que estava no banco de trás.— Vamos?Carly assentiu e as duas desceram. Ao entrarem no pátio do local, avistaram Giulia, que estava acenando com um largo sorriso, segurando nos braços uma garotinha pequena e animada.— Quem é essa criança? – Carly perguntou, curiosa.Serina sorriu, achando interessante a expressã
Era o ápice do ano para todos ali, a cerimônia de um reconhecimento merecido pelas lutas diárias e os desafios superados pelos profissionais do hospital. A fisioterapeuta Carly estava deslumbrante e a noite apenas começando. Todos reunidos no salão de eventos do El Dourado, as luzes do local refletiam a sofisticação da festa de gala. A música suave preenchia o ar enquanto os convidados conversavam animadamente na celebração, compartilhando risos, trocando elogios e abraços. O seu nome foi chamado durante a premiação. Ela sorriu de forma forçada ao subir no palco para receber o prêmio e, por um momento, o olhar da plateia parecia mais um peso. O que ela estava comemorando, afinal? Enquanto descia do palco, as palavras dos colegas ecoavam em sua mente. "Parabéns, Carly. Você merece!" Mas, no fundo, ela sabia que esse reconhecimento não preenchia o que estava sentindo. Ela estava em pé, à margem da festa, com um belo vestido clássico, compartilhando um sorriso gentil enquanto seus
Pedro saiu da igreja sentindo-se leve. A comunhão de estar naquele lugar lhe trazia paz, mas, seus dias não tinham sido fáceis, algo o inquietava. Enquanto caminhava até o estacionamento, seu olhar foi atraído para a lanchonete da esquina. Lá estava Carly, sozinha, distraída ao celular, tomando um milkshake. A lembrança de seu primeiro encontro com ela surgiu à mente. Aqueles olhos claros e expressivos, que no primeiro momento lhe pareceram assustados, os seus lábios delicados, uma postura que exalava confiança. Ele chegou a pensar que uma mulher daquelas fosse comprometida. Principalmente depois, que sem aviso, ela simplesmente se afastou. Pedro hesitou. Será que eu deveria ir até ela ou seria melhor ignorar? A dúvida pairou os seus pensamentos, enquanto ficava de um lado para o outro de frente ao seu carro. Ele não entendia por que Carly recusou continuar trabalhando com ele meses atrás. Para ele, estavam se dando bem, a parceria de trabalho era boa. Mas, de repente, ela pediu para