Enzo Albuquerque
Depois de anos fora do país, finalmente estou de volta. Não que eu sentisse falta daqui, mas agora tenho um novo propósito: a minha própria empresa. Pela primeira vez, algo que construí sem precisar da influência da minha família, sem que meu sobrenome fosse a única coisa que me definisse. Isso significava muito para mim. Finalmente, Enzo Albuquerque seria mais do que apenas o herdeiro de uma dinastia de empresários bem-sucedidos.
Minha volta ao Brasil foi estratégica. Passei anos na Europa, absorvendo conhecimento, fazendo contatos, aprendendo sobre o mercado. E agora, com a aquisição da SoftTech, eu tinha algo só meu. Uma empresa promissora, com potencial de crescimento e inovação. E o melhor: sem nenhuma interferência da minha família. Não que eu não os respeitasse, mas estar sempre sob as asas da minha mãe era sufocante. Eu queria construir algo por mérito próprio, provar que era capaz sem precisar da aprovação deles.
Entrei no prédio da SoftTech no início da manhã. Queria conhecer melhor o ambiente, ver de perto a estrutura que agora estava sob meu comando. Fui recebido por alguns dos diretores, que fizeram questão de mostrar cada setor e me apresentar a funcionários estratégicos. Tudo corria bem, até que, em meio à conversa, algo – ou melhor, alguém – chamou minha atenção.
Analu.
Meu corpo inteiro enrijeceu ao vê-la. Não poderia ser ela. Mas era. E não havia como negar.
Estava ali, imponente, vestida de forma impecável, demonstrando uma confiança que eu nunca tinha visto antes. Nem sombra daquela menina simples que um dia conquistou meu coração. Meus olhos a acompanharam, incrédulos, enquanto ela conversava com um grupo de funcionários. Seu olhar era firme, sua postura segura, e eu pude notar que, mesmo diante de algumas pessoas que pareciam mais experientes, ela mantinha a autoridade e o respeito.
O tempo foi cruel comigo ao me fazer acreditar que nada havia mudado. Mas Analu era a prova de que tudo muda. Ela já não era a garota doce e ingênua que eu conheci anos atrás. Aquela doçura nos olhos dela havia sumido.
E quem poderia culpá-la? Depois do que eu fiz…
Engoli em seco. Meus pensamentos me levaram de volta ao passado, a tudo o que aconteceu entre nós. Eu era um idiota naquela época. Um covarde. Me deixei levar por expectativas que nem eram minhas, por uma família que já havia decidido tudo por mim. E, no final, acabei magoando a única pessoa que realmente me enxergava além do meu sobrenome.
Respirei fundo e voltei a prestar atenção ao que os diretores estavam me dizendo, tentando ignorar a presença dela. Mas era impossível. Meus olhos sempre voltavam para Analu. Algo dentro de mim se revirava ao vê-la ali, tão diferente, tão distante da menina que um dia sonhava comigo. Ela agora parecia inatingível, como se tivesse construído um muro ao seu redor, impedindo qualquer um de chegar perto.
Pela forma como me ignorou, percebi que não queria nenhuma aproximação. E, sinceramente, eu entendia. Mas também sabia que, de uma forma ou de outra, nossos caminhos estavam cruzados novamente.
A reunião seguiu seu curso, mas minha mente estava longe dali. Eu precisava encontrar uma forma de falar com Analu. Mesmo que fosse apenas para quebrar essa barreira que agora existia entre nós. Eu devia isso a ela. Devia uma explicação, uma tentativa de reparação, por mais que o tempo já tivesse coberto nossa história com um véu de indiferença.
Ao final da apresentação, os diretores me convidaram para um almoço, mas recusei educadamente. Precisava de um momento sozinho para processar tudo. Assim que todos se dispersaram, procurei pelo nome dela na lista de funcionários. Ela provavelmente tinha conquistado seu espaço com esforço e dedicação. E, ao que tudo indicava, era respeitada na empresa.
Fechei a lista e suspirei. Eu deveria estar comemorando minha nova conquista, o início de uma nova fase na minha vida. Mas, ao invés disso, estava aqui, perdido em lembranças do passado, pensando na única pessoa que eu nunca deveria ter deixado para trás.
Sabia que, cedo ou tarde, teria que enfrentá-la. E, pelo que vi hoje, isso não seria nada fácil.
Quando cheguei em meu apartamento, encontrei minha mãe à minha espera na sala.
— O que faz aqui? — Perguntei, afrouxando a gravata.
— É assim que você trata a sua mãe? — Ela fungou, fazendo drama, e eu revirei os olhos.
— O que deseja de mim, senhora Heloíse?
— Assim está melhor. Filho, devo dizer que não gostei nada de você estar de volta ao Brasil. Se não estava satisfeito na empresa da Suécia, poderia ter ido para Boston, Bariloche, Austrália ou qualquer outro lugar. Menos voltar para o Brasil. Aqui não tem nada para você.
Minha mãe não parava de tagarelar. Ela tentou me manter afastado do Brasil por anos, mas eu precisava retornar. Afinal, aqui é o meu lar.
— Já conversamos sobre isso.
— Você saiu do grupo Albuquerque, comprou uma empresa própria… Por quê?
Decidi que não iria dizer mais nada. Minha mãe nunca ouvia de verdade.
— Filho, janta comigo. Sua irmã, aquela ingrata, saiu com os amigos e me deixou sozinha. Vamos ao meu restaurante favorito, por favor.
Ela insistiu tanto que acabei cedendo. Durante o jantar, parecia mais feliz, até que começou a falar mal do meu pai. Como sempre.
Eles estavam em processo de divórcio quando ele morreu em um acidente. E, no fundo, eu sabia que ela se sentia satisfeita por não ter que dividir sua fortuna com ele.
— Filho, quando você vai se casar? Quero ter um netinho.
— Não tenho pretensão de me casar.
Ela torceu a boca e balançou a cabeça, desaprovando.
— A filha dos Castro de Melo está linda agora, depois da rinoplastia e da bariátrica. Se casar com ela seria uma maravilha.
Respirei fundo.
— Qual parte de "não quero me casar" você não entendeu?
— Não precisa ser grosso com a sua mãe.
— Não gosto de ser, mas às vezes é necessário. É o único jeito de você escutar.
Ela me encarou por alguns segundos e voltou a comer em silêncio. Após o jantar, a levei para casa e segui para meu apartamento. Finalizei a noite com uma dose tripla de uísque enquanto relembrava de Analu.
Ana Luiza Martinelli Meu despertador tocou pela quinta vez, e eu ainda me recusava a levantar. Na verdade, eu não queria encarar Enzo. Por que o destino resolveu ser cruel comigo e colocar o cara que já foi o amor da minha vida e, ao mesmo tempo, me destruiu no local onde trabalho?Como vi que não poderia enrolar mais, levantei-me e me arrastei até o banheiro. Após fazer minha higiene matinal, fui à minha cafeteria preferida e comprei um café bem grande e um donut. Terminei tudo e voltei para o carro, pus uma música animada e, ao chegar à empresa, estacionei. Fiquei uns dez minutos dentro do carro, debruçada sobre o volante, e, de repente, ouvi batidas na minha janela. Quando levantei a cabeça, vi que era meu amigo.— Vamos, minha diretora executiva. — Ele disse sorridente, e eu revirei os olhos.— Acho que vou inventar alguma emergência e voltar para casa. — Digo enquanto saio do carro.— Tudo isso é para evitar o nosso CEO? — Ele perguntou, ainda sorrindo.Revirei os olhos e balanc
O dia seguiu arrastado depois da conversa com Enzo. Tentei ao máximo me concentrar no trabalho, mas minha mente insistia em reviver cada detalhe do nosso encontro. Eu odiava o efeito que ele ainda tinha sobre mim, e isso só me irritava mais.Afundei na papelada sobre minha mesa, analisando contratos e revisando relatórios. Se existia algo que me fazia esquecer dos problemas, era me perder no trabalho. Mas, mesmo assim, a cada intervalo entre um documento e outro, minha mente vagava para os olhos de Enzo, para a forma como ele me olhou, como se ainda tivesse algum direito sobre mim.— Está tudo bem? — A voz de Murilo me trouxe de volta à realidade. Ele estava encostado na porta da minha sala, segurando um copo de café e me observando com um olhar curioso.— Sim. Só tentando manter minha sanidade. — Suspirei e estiquei os braços, sentindo a tensão acumulada nos ombros.Ele entrou, puxando uma cadeira e se sentando de frente para mim.— Isso tem nome e sobrenome, né? — Ele disse, arquean
Esse dia parecia não ter fim. Como pulei o almoço, minha assistente pediu um café para mim, e agradeci.Assim que o lanche chegou, ela se sentou ao meu lado e sorriu.— Obrigada pelo lanche! Enquanto como, revise este documento para mim, por favor. — Camile me encarou animada.— Você não me trata como secretária igual os outros fazem com as suas.— Já estive no seu lugar, Camile, e tive um excelente mentor que viu potencial em mim e me incentivou. Vejo o mesmo em você.Ela me olhou de maneira estranha.— Não tem medo de que eu possa tomar o seu lugar? Muitos não ajudam justamente por isso.— O sol brilha para todos. Assim como brilhou para mim, vai brilhar para você. Eu era apenas uma faxineira, trabalhava com minha mãe, e, aos poucos, graças a pessoas que viram meu potencial, consegui crescer.— Por isso você chegou onde chegou... e ainda vai muito longe, chefinha!Sorri para ela. Enquanto eu comia, ela analisava os documentos que entreguei. Deixei alguns erros propositais para testa
Enzo Albuquerque Estava jogado no sofá da minha casa, tomando meu uísque, quando Ana Luiza veio à minha mente. Ela estava muito diferente da menina por quem me apaixonei anos atrás. A AnaLu do passado era insegura, tinha olhos doces e gentis. Já a AnaLu de hoje era uma mulher forte, determinada, e seus olhos perderam aquela inocência. Mas quem poderia culpá-la? Eu era o responsável por isso. Estava quase fundido ao sofá, mergulhado em lembranças do passado, quando a voz da minha irmã me trouxe de volta ao presente. — O que está fazendo aqui, Rafaela? — perguntei, encarando-a. Ela sorria. — Não posso visitar meu irmão querido? — Hum! Brigou com a mãe de novo? — perguntei, e ela deu de ombros. — Quem brigou comigo foi ela. Você conhece dona Heloíse melhor do que ninguém. Dessa vez, cismou que eu tenho que me casar. Aff! Minha irmã se jogou no sofá ao meu lado, tomou o copo da minha mão e virou o resto do líquido de uma só vez. — Rafa, isso é forte para você. Ela revirou
Ana Luiza Martinelli Estava me arrumando para ir trabalhar quando meu celular tocou. Olhei para o visor e vi o nome da minha mãe piscando.— Oi, mamis! Bom dia! Como vocês estão?— Oi, minha filha! Estamos bem, e você? E o seu irmão? Tem visto ele?Minha mãe sempre se preocupava conosco, mesmo já sendo adultos.— Seu filho está ótimo, focado nos estudos e no trabalho. Dá até orgulho do nosso menino. — Meio que me sinto mãe do meu irmão, já que passei a cuidar dele para que a senhora pudesse trabalhar.— Fico tão feliz em ver que vocês estão bem! Filha, te liguei para avisar que as passagens já estão compradas e que chegaremos essa semana. Tem alguém aqui que não para de sentir saudades.Respirei fundo ao ouvir minha mãe falar.— Filha, aconteceu alguma coisa? Você parece que não se animou quando eu disse que chegaremos essa semana.— Não é isso, mãe… é que surgiu um problema.— Que tipo de problema?— Lembra que eu te disse que a empresa onde trabalho havia sido vendida e que conhece
Depois que Enzo finalmente saiu do meu escritório, bufando como se eu fosse a culpada por alguma coisa, me joguei na cadeira e encarei a pilha de papéis que ele havia deixado sobre minha mesa. Eu realmente não precisava daquilo, mas, ao mesmo tempo, quanto mais ocupada estivesse, menos tempo teria para pensar no beijo que ele roubou.Eu queria esquecer. Esquecer o passado, esquecer Enzo, esquecer tudo.Mergulhei no trabalho com mais afinco do que o necessário, digitando relatórios, revisando contratos e organizando documentos. Meu objetivo era terminar tudo rápido para sair e me preparar para o jantar com Richard. Eu precisava daquilo. Precisava de uma distração.Quando finalizei o último documento, olhei o relógio e vi que já estava na hora de ir para casa. Peguei minha bolsa e saí do escritório sem olhar para trás.Assim que entrei no meu apartamento, fui direto para o banho. Deixei a água quente escorrer pelo meu corpo, relaxando meus músculos tensos. Fechei os olhos e inspirei pro
(Anos Atrás)Ana Luiza Martinelli A chuva castigava a cidade naquela noite, mas nada poderia se comparar à tempestade dentro de mim. O barulho das gotas contra o vidro da sala ecoava, abafando o som dos meus próprios pensamentos, mas não era o suficiente para silenciar a dor que se espalhava pelo meu peito.Meus dedos tremiam enquanto seguravam o celular, meus olhos fixos na tela, como se, a qualquer momento, aquela imagem fosse desaparecer. Como se, de alguma forma, eu pudesse acordar desse pesadelo.Mas a foto continuava ali. Ele continuava ali.Enzo.O homem que eu amava. O homem em quem confiei sem hesitar. O homem que, agora, estava estampado na tela do meu celular... com outra mulher.Ela sorria para a câmera, uma expressão de pura satisfação, e ele estava ao lado dela. Perto o suficiente para que qualquer desculpa fosse inútil. Seus braços envolviam sua cintura de um jeito íntimo demais para ser um mal-entendido.Meu coração batia forte, não por amor, mas por raiva, por incred
(Seis Anos Depois)Os corredores de vidro refletiam minha imagem conforme eu avançava, os saltos ecoando em um ritmo preciso, como um lembrete do caminho que trilhei até ali. O passado já não pesava mais sobre meus ombros, e a menina insegura, que uma vez trabalhou como auxiliar de serviços gerais para ajudar a família, agora não existia mais. No lugar dela, havia uma mulher confiante, determinada e, acima de tudo, implacável. Os funcionários desviavam o olhar quando eu passava, alguns cumprimentavam com um aceno respeitoso, outros cochichavam entre si, admirados ou intimidados. Eu sabia o que diziam,sabia o que pensavam. Ana Luíza Martinelli não era apenas a nova diretora-executiva, mas também a mulher que nunca aceitava um "não" como resposta. Meu nome já não estava vinculado à humildade do passado, mas à força que conquistei no presente. Ao entrar na sala de reunião, senti os olhares recaindo sobre mim. Alguns eram de respeito, outros, de inveja. Os diretores masculinos foram r