Capítulo 04  

Enzo Albuquerque

Depois de anos fora do país, finalmente estou de volta. Não que eu sentisse falta daqui, mas agora tenho um novo propósito: a minha própria empresa. Pela primeira vez, algo que construí sem precisar da influência da minha família, sem que meu sobrenome fosse a única coisa que me definisse. Isso significava muito para mim. Finalmente, Enzo Albuquerque seria mais do que apenas o herdeiro de uma dinastia de empresários bem-sucedidos.

Minha volta ao Brasil foi estratégica. Passei anos na Europa, absorvendo conhecimento, fazendo contatos, aprendendo sobre o mercado. E agora, com a aquisição da SoftTech, eu tinha algo só meu. Uma empresa promissora, com potencial de crescimento e inovação. E o melhor: sem nenhuma interferência da minha família. Não que eu não os respeitasse, mas estar sempre sob as asas da minha mãe era sufocante. Eu queria construir algo por mérito próprio, provar que era capaz sem precisar da aprovação deles.

Entrei no prédio da SoftTech no início da manhã. Queria conhecer melhor o ambiente, ver de perto a estrutura que agora estava sob meu comando. Fui recebido por alguns dos diretores, que fizeram questão de mostrar cada setor e me apresentar a funcionários estratégicos. Tudo corria bem, até que, em meio à conversa, algo – ou melhor, alguém – chamou minha atenção.

Analu.

Meu corpo inteiro enrijeceu ao vê-la. Não poderia ser ela. Mas era. E não havia como negar.

Estava ali, imponente, vestida de forma impecável, demonstrando uma confiança que eu nunca tinha visto antes. Nem sombra daquela menina simples que um dia conquistou meu coração. Meus olhos a acompanharam, incrédulos, enquanto ela conversava com um grupo de funcionários. Seu olhar era firme, sua postura segura, e eu pude notar que, mesmo diante de algumas pessoas que pareciam mais experientes, ela mantinha a autoridade e o respeito.

O tempo foi cruel comigo ao me fazer acreditar que nada havia mudado. Mas Analu era a prova de que tudo muda. Ela já não era a garota doce e ingênua que eu conheci anos atrás. Aquela doçura nos olhos dela havia sumido.

E quem poderia culpá-la? Depois do que eu fiz…

Engoli em seco. Meus pensamentos me levaram de volta ao passado, a tudo o que aconteceu entre nós. Eu era um idiota naquela época. Um covarde. Me deixei levar por expectativas que nem eram minhas, por uma família que já havia decidido tudo por mim. E, no final, acabei magoando a única pessoa que realmente me enxergava além do meu sobrenome.

Respirei fundo e voltei a prestar atenção ao que os diretores estavam me dizendo, tentando ignorar a presença dela. Mas era impossível. Meus olhos sempre voltavam para Analu. Algo dentro de mim se revirava ao vê-la ali, tão diferente, tão distante da menina que um dia sonhava comigo. Ela agora parecia inatingível, como se tivesse construído um muro ao seu redor, impedindo qualquer um de chegar perto.

Pela forma como me ignorou, percebi que não queria nenhuma aproximação. E, sinceramente, eu entendia. Mas também sabia que, de uma forma ou de outra, nossos caminhos estavam cruzados novamente.

A reunião seguiu seu curso, mas minha mente estava longe dali. Eu precisava encontrar uma forma de falar com Analu. Mesmo que fosse apenas para quebrar essa barreira que agora existia entre nós. Eu devia isso a ela. Devia uma explicação, uma tentativa de reparação, por mais que o tempo já tivesse coberto nossa história com um véu de indiferença.

Ao final da apresentação, os diretores me convidaram para um almoço, mas recusei educadamente. Precisava de um momento sozinho para processar tudo. Assim que todos se dispersaram, procurei pelo nome dela na lista de funcionários. Ela provavelmente tinha conquistado seu espaço com esforço e dedicação. E, ao que tudo indicava, era respeitada na empresa.

Fechei a lista e suspirei. Eu deveria estar comemorando minha nova conquista, o início de uma nova fase na minha vida. Mas, ao invés disso, estava aqui, perdido em lembranças do passado, pensando na única pessoa que eu nunca deveria ter deixado para trás.

Sabia que, cedo ou tarde, teria que enfrentá-la. E, pelo que vi hoje, isso não seria nada fácil.

Quando cheguei em meu apartamento, encontrei minha mãe à minha espera na sala.

— O que faz aqui? — Perguntei, afrouxando a gravata.

— É assim que você trata a sua mãe? — Ela fungou, fazendo drama, e eu revirei os olhos.

— O que deseja de mim, senhora Heloíse?

— Assim está melhor. Filho, devo dizer que não gostei nada de você estar de volta ao Brasil. Se não estava satisfeito na empresa da Suécia, poderia ter ido para Boston, Bariloche, Austrália ou qualquer outro lugar. Menos voltar para o Brasil. Aqui não tem nada para você.

Minha mãe não parava de tagarelar. Ela tentou me manter afastado do Brasil por anos, mas eu precisava retornar. Afinal, aqui é o meu lar.

— Já conversamos sobre isso.

— Você saiu do grupo Albuquerque, comprou uma empresa própria… Por quê?

Decidi que não iria dizer mais nada. Minha mãe nunca ouvia de verdade.

— Filho, janta comigo. Sua irmã, aquela ingrata, saiu com os amigos e me deixou sozinha. Vamos ao meu restaurante favorito, por favor.

Ela insistiu tanto que acabei cedendo. Durante o jantar, parecia mais feliz, até que começou a falar mal do meu pai. Como sempre.

Eles estavam em processo de divórcio quando ele morreu em um acidente. E, no fundo, eu sabia que ela se sentia satisfeita por não ter que dividir sua fortuna com ele.

— Filho, quando você vai se casar? Quero ter um netinho.

— Não tenho pretensão de me casar.

Ela torceu a boca e balançou a cabeça, desaprovando.

— A filha dos Castro de Melo está linda agora, depois da rinoplastia e da bariátrica. Se casar com ela seria uma maravilha.

Respirei fundo.

— Qual parte de "não quero me casar" você não entendeu?

— Não precisa ser grosso com a sua mãe.

— Não gosto de ser, mas às vezes é necessário. É o único jeito de você escutar.

Ela me encarou por alguns segundos e voltou a comer em silêncio. Após o jantar, a levei para casa e segui para meu apartamento. Finalizei a noite com uma dose tripla de uísque enquanto relembrava de Analu.

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