capítulo 5

— Olha quem chegou na casa da vovó. — Silvia, agarrou Ângelo e Sofia, e vendo sua filha,  deu um beijo em Cristina. — E você meu amor, está bem?

— Sim mãe, papai já foi trabalhar?

— Saiu daqui às seis, vamos tomar um café? Fiz um bolo de cenoura maravilhoso.

— Nós já comemos algo, eu vou tomar somente aquele café preto que somente a senhora sabe fazer. Eu tento fazer igual, mas é impossível mãe!—  A mãe de Cristina riu:

— É os anos de experiência minha filha. E vocês, pequenos, querem o bolo da vovó?

— Queremos!  — Tudo era uma festa para eles, e como gêmeos, mesmo sendo diferentes, sempre respondiam juntos algumas frases sem ao menos combinar.

— Cristina, hoje você irá demorar para chegar?

— Acho que não mãe, tenho uma reunião com a empresa de arquitetura lá na empresa, mas acho que até às seis da tarde eu chego.

— Tudo bem então, vem que a mãe fará aquele frango assado que você ama.

Mesmo com tudo que viveu, sua carreira profissional deslanchou. Abriu sua empresa de cosméticos, que ganhava espaço em todo Brasil. E até o ano seguinte, ela queria abrir uma grande filial e precisava de bons profissionais para que tudo ficasse impecável. Tinha contratado engenheiro, a empresa de construção, somente faltava um bom arquiteto de interiores, que cuidasse da eficiência da obra e sua imagem transmitida para quem chegasse ao espaço. Havia feito algumas outras entrevistas, porém ninguém do perfil que ela desejava. Seu assistente disse que finalmente havia encontrado alguém do jeito que ela buscava. A reunião seria no período da tarde, às 15:00.  O dia pareceu que passou voando, quando olhou no relógio, já era 14:30.

— Ocupada?

Ao olhar para a porta encostada, vinha seu assistente, o Miguel. Era alto, careca e nunca repetia a armação dos seus óculos, hoje por sinal era um vermelho. Cristina o conheceu enquanto ainda cursava a faculdade, os dois estudavam juntos, tinham uma boa convivência. Riam muito juntos, defendeu muito ele de preconceitos, pois o mesmo era homossexual, e os colegas queriam caçoar dele, mas ela não permitia na sua presença. E agora os dois, trabalhavam juntos!  Ele está com ela desde que abriu a empresa, ainda era um pequeno espaço na região da Lapa. Miguel chegou novamente em sua vida um ano depois de tudo que sofreu. 

— Não mais, agora é esperar o arquiteto que você tanto me falou ontem.

— Foi recomendação do engenheiro da filial, que diz que é o melhor no ramo.

— Espero, pois cansa ficar procurando.

— Quando ele chegar eu aviso.

— Ok, vou retomar esses documentos então. Quero voar para a casa da minha mãe, hoje ela me fará um frango assado.

— Ah, que saudade da comida da sua mãe! — Miguel fez aquela expressão já conhecida por Cristina, parecia uma criança pidona.

— Amanhã eu prometo que trago um pedaço do frango da mamãe. 

— Por isso somos amigos há tantos anos, te amo querida. E agora lhe deixarei trabalhar mais, quando o engenheiro chegar eu já o trago aqui para sua sala.

Cristina ao se ver sozinha, percebeu que apesar de tudo que viveu, hoje estava no auge do sucesso que poderia sonhar em sua vida. Muitas mulheres dependiam de seus esposos, não que seja errado, mas como ela não sonhava mais em ter um amor em sua vida, o trabalho se tornou sua válvula de escape da ferida do seu passado.  Estar agora em sua loja nova, podendo dar tudo que seus filhos desejam era tudo que ela deseja. Passando-se algum tempo, ela escuta uma batida em sua porta, ordenou que podiam entrar, ela do jeito que estava lendo o documento em sua frente, de cabeça baixa, somente ouvia a voz de Miguel.

— Cristina, aqui está o engenheiro de interiores que pedi que viesse lhe encontrar. Qual o seu nome mesmo senhor?

— O meu nome é Fernando, senhor.

— Vou deixar vocês sozinhos para conversarem melhor, qualquer coisa é só me chamar Cristina.

— Tudo certo Miguel, trás um café para nós aqui no meu escritório por favor.

Quando a porta se fechou, Cristina largou o último papel à sua frente e levantou o seu olhar em direção do tão recomendado arquiteto. Porém, ao encontrar com os olhos daquele homem,  o seu mundo pareceu ficar  em silêncio, aquele homem, alto de pele clara, olhos castanhos que tinha um coque de seu cabelo preto  comprido amarrado  no alto da sua cabeça de  e o seu sorriso leve e doce, que a encarava com profundidade, parecia que o conhecia a muito tempo. Fernando caminhou próximo a sua mesa, e com um olhar penetrante estendeu sua mão, ela não sabia como mas parecia que ele lia sua mente de como ela ficou ao vê-lo, e abriu mais o sorriso a fazendo prender a respiração.

— Muito prazer Dona Cristina, eu vim para conversarmos sobre a vaga para a filial em sua nova loja.

Cristina não conseguia se mexer, o que era tudo que estava sentindo nesse momento? Depois de tanto tempo seu coração palpitou mais forte mais uma vez. O que poderia ser tudo que sentia agora? Quando percebeu que ele continuava com a mão estendida, ela despertou o controle sobre o seu corpo:

— Muito prazer Fernando, pode se sentar. 

Ela  observou enquanto Fernando se acomodava à sua frente, sua presença ocupando não apenas o espaço físico, mas também cada pensamento que tentava organizar. Ele manteve o olhar preso ao dela, como se quisesse decifrar cada fato que ela pensava, cada mínima hesitação que surgia em seu semblante.

— Parece surpresa em me ver , senhora Cristina. — Comentou ele, um tom divertido na voz, enquanto apoiava os braços sobre a braço da cadeira que sentava.

Ela umedeceu os lábios antes de responder, sentindo um calor inusitado subir pelo seu corpo, o que era tudo isso que sentia?

— Eu... não esperava. — Sua voz saiu mais baixa do que pretendia, quase um sussurro. Onde foi parar aquela mulher decidida e forte? Não podia parecer fraca.

Fernando inclinou a cabeça de lado, o sorriso permanecendo ali, brincando nos lábios bem desenhados.

— Mas isso é bom ou ruim? Porque me olha com um certo nervosismo.

Cristina piscou algumas vezes, tentando manter a compostura. Não fazia ideia do que estava acontecendo, apenas que a atmosfera ao redor parecia eletrizada com a presença de Fernando. Como se, em algum momento, o mundo ao seu redor tivesse perdido o foco, deixando apenas ele ali, despertando sensações que ela não desejava nunca mais sentir em sua vida novamente, tinha que tomar o controle sobre essa situação que estava acontecendo.

O clima foi quebrado  com a chegada de Miguel com os cafés, como era estranho para Cristina se sentir assim depois de muito tempo na presença de uma homem.

— Com licença, trouxe o café que você me pediu. — Logo que entrou ele percebeu que Cristina estava visivelmente estranha, quase pulou em cima dele com a bandeja.

— Muito obrigada Miguel. — pegou a colher que estava junto com a xícara e sem olhar para trás, era até engraçado para o seu amigo vê-la assim, ela perguntou para Fernando:

— Você quer açúcar com adoçante?

— Com adoçante. - Ela se arrepiou inteira, a voz desse homem mexia com ela também. Cristina ficava repetindo para si mesma que devia manter a calma, tudo estava sob controle. Ela entregou a xícara mas nem olhou na cara do arquiteto recomendado por Miguel. Com a postura mais firme, Cristina falava enquanto caminhava de volta para a sua cadeira.

— Miguel me disse que você é o melhor na sua área? Quanto tempo de profissão você tem Fernando?  — Ela correu para achar o currículo dele entre os papéis em cima da sua mesa, quando olhou a data de nascimento dele, ela travou. Pelas contas, ela do ano de 92 e ele nasceu em 2002, Cristina não sabia porque sentiu uma certa frustração em seu coração em descobrir essa diferença de dez anos um do outro.

— Estou há dois anos na profissão, soube que a senhora está quase para inaugurar uma loja de cosméticos de grande porte aqui em São Paulo? — Era bom ter acabado aquele clima que anteriormente estava na sala entre eles, agora Cristina se sentia segura, falar de trabalho e sua nova loja.

— Sim, e desejo uma decoração mais clean mas nada que seja exagerado sem cor, algo que remeta a beleza, brilhos para minhas clientes.

De dentro da sua bolsa que Fernando carregava atravessada em seu corpo, era de cor bege escura e de dentro puxou um caderno e uma pasta preta, entregou ela a Cristina e com o caderno ia anotar algo nele. Ela ao abrir a pasta, seus olhos se encheram de emoção, tudo que desejava para sua loja estava na sua frente. Fernando, antes mesmo de vim já havia preparado o material com algumas imagens com o estilo que ela desejava.

— Incrível tudo isso Fernando, parece que você sabia o que eu desejava para a minha loja. Até os vidros com película estão aqui. — Cristina, sem perceber abriu um sorriso que parecia criança quando ganha um doce. Fernando parou de anotar tudo que queria dizer para ela, e ficou encarando. O sorriso dela era lindo:

— Só em ver esse lindo sorriso em seu rosto, vejo que fiz o meu trabalho muito bem. Antes de vir, pesquisei a história da loja e como era já o estilo dessa aqui. — Ela ficou meio sem graça pelo elogio, porém não podia perder o foco. E pelo material, desejava que ele a acompanhasse até a filial.

— Eu gostaria que o senhor me acompanhasse até a loja, adoraria que me mostrasse lá tudo que tem de ideias. Podemos?

— Só se for agora senhorita.

A Cristina abriu a porta do escritório para ele sair, e ao passar por ela a encarou profundamente, parecia que sabia o efeito que causava nela. Enquanto desciam as escadas rumo a saída da loja, Fernando observava cada gesto de Cristina, como acenava para seus funcionários e como ela era linda, fazia totalmente o seu tipo. E a sua postura firme, empoderada o fazia olhar com mais interesse.

Ao chegarem na loja que iria ser inaugurada,  ali próximo da Lapa, a loja era o dobro daquela que ele visitou. Em pensar o quanto aquela mulher lutou para conseguir construir tudo isso, soube por amigos sobre ela ser viúva e lutar sozinha para cuidar dos seus filhos. Queria saber mais dela, não era sua postura profissional porém sua curiosidade sobre ela falava mais alto.

— Nossa que lugar enorme, quanto tempo demorou para construir aqui? Me parece tão jovem.

— Obrigada pela parte da jovem, eu já tenho 34 anos de idade. Demorou cinco anos para conseguir realizar esse sonho, trabalhei tanto. — Cristina falava enquanto olhava ao redor, foi quando ele disse algo que a fez arrepiar de novo.

— Uma mulher linda como você, nem o tempo será capaz de deixá-la acabada. A torna mais interessante ter a idade que já tem.

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