CaíqueCaminho sem pressa pela calçada irregular, chutando pequenas pedras que encontram o caminho das minhas frustrações. A ressaca emocional pesa mais do que qualquer resquício de bebida que eu tenha ingerido na noite passada. Meu aniversário acabou virando um campo de batalha, e agora eu só quero chegar em casa e esquecer tudo. Mas sei que não será tão simples assim, ainda mais depois de passar a noite fora com minha namorada.O vento frio corta minha pele, e me encolho dentro do terno, sentindo o gosto amargo da discussão ainda preso na garganta. Meus pais nunca foram de aceitar bem quando algo não seguia o roteiro que escreveram para mim. Eles tinham certeza de que minha namorada não era "a pessoa certa", como se o amor fosse um problema matemático com uma solução única.Eu queria ter gritado. Ter enfrentado mais. Ter feito eles entenderem que ninguém tem o direito de decidir a minha vida por mim. Mas, depois de rebater minha mãe e, por fim, meu pai, tudo que saiu foi uma risada
CaíqueEu seguro o celular por um momento, sentindo o peso do aparelho nas mãos, como se ele fosse o único vínculo entre mim e o mundo que eu realmente quero, e não o que meus pais tentam me empurrar. O dedo hesita sobre a tela. Sei que ao enviar essa mensagem, estou colocando uma distância ainda maior entre mim e a Mayara durante os próximos dias. Sei que isso vai machucá-la. Não há dúvida disso. Mas eu não tenho escolha. Minha família parece ter decidido mais uma parte do meu futuro, e eu não consigo lutar contra isso no momento.Mensagem: Preciso viajar com minha família. Vamos passar uns dias fora. Te aviso quando voltar. Eu te amo.A mensagem é fria, distante, e mesmo que a declaração final seja sincera, ela soa como uma despedida apressada, como se eu não tivesse tempo nem coragem para explicar o que realmente está acontecendo. Como posso dizer para ela que essa viagem é mais uma obrigação imposta, mais uma tentativa desesperada dos meus pais de me afastar dela? Como explicar is
MayaraMensagem: (Foto em anexo). Estou aqui olhando o mar e pensando o quanto queria você aqui comigo.Mensagem: Desculpa estar distante. Tentei não discutir para não piorar tudo agora que estamos quase chegando ao fim do ano letivo. Eu te amo, May.Suspiro, feliz por ele estar mantendo contato como pode. Sua ação tem muito valor para mim.Respondo: Estava pensando em você. Sinto sua falta, mas entendo a situação. Em breve vamos estar juntos. Aguente firme. Eu te amo, Caíque.Guardo o celular no bolso e saio do banheiro. Volto para o salão do café.Eu estava terminando de organizar as mesas quando a porta do café se abre, e o som familiar de suas dobradiças rangendo quase me chama atenção. Fico paralisada por um momento. Não era só o som da porta, mas o fato de que eu sabia exatamente quem estava entrando. O rapaz que, dias atrás, esteve aqui e, bom, discutiu com Caíque.Tento me manter concentrada no meu trabalho, mas meu olhar desvia para a porta a cada poucos segundos, como se ele
MayaraO relógio na parede do café marca 18h45, e eu respiro fundo. Mais quinze minutos e posso ir para casa. Parece pouco tempo, mas é o suficiente para terminar o expediente com a sensação de que o peso sobre meus ombros aumenta a cada segundo. Hoje foi um daqueles dias longos, em que a gente simplesmente quer que o tempo passe rápido. Só que, para mim, ele nunca parece se mover rápido o suficiente.Olho para as mãos, quase trêmulas, e isso me faz pensar naquilo que tem me tirado o sono nas últimas semanas. Não sou do tipo que se desespera facilmente, mas, ultimamente, tem sido difícil controlar o medo, o desconforto. Sinto-me estranha, como se algo estivesse acontecendo dentro de mim e eu não tivesse controle sobre isso.Os minutos passam lentamente. Não posso mais evitar a verdade, não importa o quanto tente. Preciso saber.O
CaíqueO carro acelera na estrada, e a sensação de liberdade ao voltar da viagem me traz um alívio instantâneo. Passamos o dia inteiro viajando, e a ideia de finalmente estar em casa me anima. A distância das últimas semanas deixou um buraco no meu peito, mas, ao mesmo tempo, trouxe uma certeza: amanhã eu vou ver a Mayara. Não vejo a hora de falar com ela. Tenho algumas coisas para contar, pensamentos que tive durante a viagem, o que aconteceu, mas o mais importante: quero sentir o calor do seu abraço, a alegria da nossa conversa, ver aquele sorriso que me deixa fraco. Sinto falta dela, de como me faz bem, de como tudo parece certo quando estamos juntos.Fico pensando na escola, no quanto vai ser bom voltar ao normal. Minha mãe resolveu prolongar a viagem e, para que minha irmã e eu não perdêssemos tantas matérias, conseguiu que fizéssemos as aulas online. Foi chato, mas, ao mesmo tempo, evitou que acumulássemos atividades.Poderíamos ter voltado na data combinada, mas acredito que el
MayaraO dia está abafado, o calor se espalha pela cidade assim como o suor escorre por minha pele quente, mas nada disso importa agora. Eu sinto meu estômago apertado enquanto me preparo para encontrá-lo. O dia finalmente chegou. Ele voltou da viagem, e nós havíamos combinado de nos ver no nosso lugar secreto, aquele canto que, durante um tempo, foi só nosso. Era o nosso refúgio, onde tudo fazia sentido. Onde, por mais que o mundo lá fora fosse complicado, ali dentro, entre nós dois, tudo parecia mais fácil.Mas eu sei que o que eu vou contar a ele vai mudar tudo. Eu sinto isso na pele, na garganta, no coração. A gravidez. Eu já fiz o teste. Os sintomas estão claros e, mesmo com todas as minhas tentativas de adiar, eu sei que não posso mais esconder isso. Preciso falar com ele. Preciso dividir isso, porque, mesmo sem saber o que fazer, ele tem o direito de saber e juntos, podemos decidir o nosso futuro que precisará de alguns ajustes.Ajeito a mochila nas costas e sigo em direção ao
CaíqueEu não acredito no que acabou de acontecer. Não consigo processar o que ela disse, o que ela fez, como fomos de um amor verdadeiro a isso, a esse final doloroso. Olho para trás, para o lugar onde nos encontramos, onde tudo começou, mas as lembranças agora são borradas pela raiva, pela decepção.Quando saí de lá, meu coração estava pesado, e o ar parecia mais denso, como se a cidade inteira tivesse se virado contra mim. Eu não sabia para onde ir, mas não queria ficar ali, perto de tudo o que me lembrava dela, do que construímos juntos. O que construímos... ou o que achei que estávamos construindo. Porque, se eu pensar bem, o que construímos foi uma mentira.Ela me olhou nos olhos e negou. Como pôde fazer isso comigo? Como pôde ser tão falsa a ponto de fingir choque? Tão dissimulada ao parecer triste, repetindo que não me traiu? A raiva me corrói por dentro, e é como se eu não conseguisse controlar os pensamentos. Eu queria gritar, queria que ela visse a dor nos meus olhos, mas o
MayaraEu não sei quanto tempo passei ali, no nosso esconderijo, mas parece que o tempo se arrastou enquanto eu olhava para o nada. As paredes, que antes pareciam um refúgio acolhedor, agora me cercam como um cárcere. O silêncio me sufoca, e a dor no peito é insuportável. Eu não consigo parar de chorar. Eu não queria que as coisas chegassem a isso. Nunca imaginei que o Caíque pudesse acreditar que eu estava com outro. Mas foi isso que aconteceu. Ele me olhou como se eu fosse uma estranha, como se eu tivesse traído a confiança dele de uma forma irreparável. Eu não sabia o que fazer. Não sabia como lidar com a dor que ele me causou e, ao mesmo tempo, com a culpa que me corroía por ter ficado em silêncio, por não ter dito nada sobre a gravidez.Mas como falar sobre isso para alguém que me acusa de traição? É capaz de ele piorar ainda mais a situação e me acusar de estar grávida de outro também.Eu sinto uma pressão no peito, uma sensação de estar afundando cada vez mais em algo que não c