Mais tarde, quando Lauren acordou e se deu conta de que já era de dia, ela se sentou abruptamente na cama, olhando ao redor. Damian, claro, não estava ali.
“Por favor, deve ter passado a noite com aquela…”, Lauren apertou os lábios. Ela viu o celular em cima da mesinha de cabeceira e o pegou, mas ele estava sem bateria.
Lauren queria falar com Damian, perguntar por que ele não a queria. Se ela o tocasse e desse indícios de que o desejava, ele não a recusava. Às vezes, ele a abordava, incluindo durante o banho — na verdade, era um lugar que ele adorava colocar as mãos em Lauren.
Ela suspirou e lembrou que o casamento deles estava fadado a terminar. A cláusula que ainda poderia salvá-la, sobre a criança, parecia não fazer mais muito sentido. Por mais que Damian nunca tenha deixado Marissa de lado, Lauren ainda se convencia de que ele amoleceria o coração e, quando eles tivessem um bebê, tudo mudaria. Ela nunca tinha visto evidências reais da traição de Damian, até a noite anterior.
“E ele vai ter um filho com Marissa…”
Lauren não sabia qual seria a reação de Damian ao saber que ela estava grávida. A ruiva mordeu os lábios e pousou a mão na barriga, ainda plana, e sorriu em seguida.
“Bebê… você é muito amado pela sua mãe,” ela disse e suspirou. Damian nunca rejeitou a ideia de um filho, nunca disse que ela não era boa o suficiente, algo que ela temeu quando viu como ele estava contrariado após o casamento.
Durante aqueles cinco anos, ela tinha se esforçado para ser uma boa esposa. Deixou o emprego de lado, dedicou-se ao lar, aprendeu tudo o que Damian gostava e, mesmo assim, fora dentro do quarto, ele a deixava de lado e a tratava como se ela nem mesmo fosse digna do tempo dele.
“ — Em cinco anos, você não serviu nem mesmo para cumprir com as suas obrigações para com os Lancaster. Pois bem, eu fiz isso por você!” Aquela frase de Marissa a assombrava. Damian tinha mesmo engravidado outra mulher? E se não fosse dele? E se…?
— Que nojo! — Lauren levou a mão à boca ao imaginar que ele a estava traindo por todo aquele tempo, em todas as vezes que ia ao encontro de Marissa, o primeiro amor dele. A mulher que sempre entre eles, como um espinho. Ele afirmava que não, que Lauren estava errada. Mas uma criança não era feita sozinha!
Uma enfermeira entrou e lhe ofereceu o café da manhã. Lauren agradeceu, mas ela não sentia muita fome. Estava um pouco enjoada.
— Pode me emprestar um carregador? — ela perguntou e a enfermeira assentiu, voltando alguns minutos depois. — Obrigada.
Lauren colocou o aparelho na tomada e decidiu caminhar para ver se o enjôo passava. Como o bebê estava bem, Lauren não ficou na ala ginecológica, mas na geral. Antes que chegasse ao elevador, ela passou pelas escadas e ouviu um suspiro. Virou o rosto e arregalou os olhos.
— Pai! — ela falou, vendo Evan Everett sentado nos degraus, os cabelos bagunçados e a camisa desalinhada. — Pai, o que houve?
Evan não sabia que a filha estava ali e piscou algumas vezes.
— Lauren! — ele a abraçou e chorou.
— Pai, me fala… o que aconteceu? Por que o senhor está chorando?
— Logan… — Evan não sabia nem como dizer. — Logan está em estado crítico, minha filha.
Lauren cobriu a boca com a mão e engoliu em seco. Ela colocou a mão no ombro do pai.
— Eu vou falar com o Damian e…
Evan segurou o rosto da filha.
— Meu amor, foi por ordens dele que o seu irmão perdeu a chance de ter um coração novo — primeiro, as palavras não fizeram sentido no cérebro de Lauren. Então, quando o significado delas começou a assentar, a ruiva puxou o ar, mas sentia não poer expandir os pulmões. Damian tinha… tinha prejudicado Logan propositalmente? — Sua mãe está doente de tanta preocupação. Eu não sei nem o que fazer!
— Pai, o que o senhor está dizendo? Damian foi quem mandou procurarem um coração para Logan! — ela tentou argumentar, porém, o olhar de Evan confirmava que ele não estava enganado.
— Eu não sei, minha filha. Mas foi o que me falaram no hospital — Evan fungou. — Damian disse que ele não era mais o responsável e que qualquer coisa relacionada a Logan deveria ser falada com a família dele.
Lauren entendeu o significado daquelas palavras: Damian já não os considerava família. Seria aquilo por causa do bebê que Marissa esperava?
Após consolar o pai, Lauren explicou que teve um acidente quando ele questionou a estadia dela ali. Ela o acalmou e disse que só precisava descansar um pouco e que falaria com Damian para descobrir o que realmente estava acontecendo.
Ao entrar no quarto, ela viu que uma ligação estava sendo feita para ela e andou até o aparelho.
— Alô? — ela atendeu o número desconhecido.
— Senhorita Everett? — um homem falou do outro lado da linha e Lauren franziu o cenho. Ninguém a chamava daquele jeito. Ainda que o casamento com Damian não fosse o melhor, ele não a escondia do público a relação deles e fingia ser um bom marido, atencioso e carinhoso, aos olhos dos que estavam fora da casa deles.
— Aqui quem fala é Lauren Lancaster — ela fez questão de corrigir a pessoa. — Como posso ajudar?
— Senhorita — o homem insistiu, o que fez Lauren franzir a testa ainda mais. — Eu sou Edward Lewis, advogado do senhor Damian Lancaster. Estou ligando para discutir o divórcio de vocês.
Apunhalada. Foi assim que Lauren se sentiu. Apunhalada, sem dó nem piedade, bem no coração. O ar lhe fugiu dos pulmões. Divórcio?
“O que você podia esperar? Ele engravidou o amor da vida dele!”, uma voz interna lhe lembrou e Lauren sentiu as mãos tremendo quando as levou até a própria barriga.
— Senhorita? Ainda está aí?
— Ah, sim… — Lauren respondeu, um pouco aérea. Ela não achou que Damian se divorciaria dela. A única cláusula que implicava em divórcio era a falta de um herdeiro, porém, Lauren estava grávida! Ela só não tinha falado com ele, ainda!
— Por favor, poderia vir até o escritório às três da tarde? Assim, discutiremos calmamente os termos e, se tudo estiver correto, prosseguiremos com o divórcio.
— Espere! — ela pediu e mordeu o lábio. — Senhor Lewis, sabe me informar se… se Damien falou algo sobre o meu irmão?
— O senhor Lancaster já optou pelo divórcio e, por isso, já retirou as responsabilidades dele quanto ao seu irmão. Tenha um bom dia, senhorita Everett.
A ligação foi finalizada e Lauren olhou para o aparelho em suas mãos. Cinco anos… Ela dedicou cinco anos da vida dela, deixando tudo de lado, para que Damian a visse, que a notasse! E no fim, ele apenas a descartou, não esperando nem mesmo o prazo acabar para engravidar outra mulher!
Se aquela ligação tivesse chegado antes, Lauren choraria e imploraria a Damian que lhe desse uma chance. Falaria do bebê no ventre dela e tudo, porém, depois de descobrir que ele tinha sido o causador da piora do irmão dela e, ela não queria nem pensar, da possível morte do rapaz, ela não podia mais continuar. Que tipo de homem era aquele? Se ele tinha um problema com ela, que resolvesse com ela. Por que prejudicar um inocente?
Inspirando fundo, Lauren se decidiu: se ele queria um divórcio, ele teria um divórcio!
— Senhora Lancaster? — ela ouviu o médico atrás dela e se virou. Lauren ainda tinha a impressão de que aquela pessoa não lhe era estranha! Mas… se eles se conhecessem, o homem já teria dito algo, não? Mas ele continuava chamando-a formalmente. — Por que está chorando? Não pode se estressar!
Ele se aproximou mais dela, com o cenho franzido e segurou o braço de Lauren, de maneira a apoiá-la. Por algum motivo, a ruiva se sentiu confortável com o médico, afinal, ele tinha sido muito bom com ela, na noite anterior!
Após contar a ele a situação do irmão dela e do divórcio iminente, quando o médico questionou o motivo de ela não falar com o marido dela — já que este era um homem poderoso e rico.
— Senhora Lancaster…
— Me chame de Senhorita Everett. Por favor — Lauren pediu e o médico assentiu.
— Senhorita Everett… eu não sou tão próximo à senhorita, porém, quero oferecer minha ajuda. Não posso ignorar a situação do seu irmão e, menos ainda, que a senhorita esteja passando por isso grávida, sem o apoio necessário.
Lauren sentiu-se tocada com as palavras do médico.
— E-eu agradeço, doutor, mas…
— Por favor. Eu sou um médico e é meu dever ajudar — ele sorriu para ela. — Deixe-me ajudá-la. Eu conheço quem pode ajudar seu irmão, porém, a senhorita teria que se mudar.
Horas depois, Lauren foi para a casa dos pais. Ela não queria pisar na residência que dividia com Damian, não ainda. Não depois de ver a face verdadeira dele. Usando uma das roupas que ela tinha deixado na casa dos Everett, Lauren foi ao encontro do advogado.
Como ele tinha dito ao telefone, Damian estava levando o acordo firmado no dia do casamento adiante: sem um herdeiro, a única saída era o divórcio.
Ao ler o documento, Lauren viu que Damian não estava deixando-a sem nada, porém, ela não queria nada daquele homem! Mesmo que o coração dela doesse por se separar de Damian, o casamento deles não tinha mais qualquer base para continuar existindo, a começar pelo desejo de Lauren de permanecer ao lado do homem que tinha estragado as chances do irmão dela de se curar!
Com a mão trêmula, Lauren pegou a caneta, que lhe parecia tão pesada, e assinou os papéis.
Com o coração pesado, ela saiu do prédio do advogado. Cinco anos jogados fora! Ela então se lembrou do pequeno milagre dentro dela e levou instintivamente a mão à barriga. Não, não foram jogados fora. Ela tinha aquela pequena criança. Mesmo que Damian tenha errado muito, traindo-a, ao menos lhe deu um bebê. No escritório, Damian estava tendo dificuldades de concentração. Todas as vezes que pegava algum documentos, ou mesmo a caneta, ele se lembrava do acordo de divórcio. Além disso, Lauren esteve algumas vezes ali e, claro, Damian não se refreou em tornar aquele também um ninho de amor com ela por perto. “Maldição!”, ele reclamou. O telefone tocou e Damian o atendeu, irritado, no entanto, assim que ouviu de Loui que era o advogado, o humor de Damian pareceu melhorar um pouco sem que ele percebesse. Com um sorriso, Damian recebeu Edward. Este segurava uma pasta e Damian já esperava que o advogado tivesse ido ali para informar como Lauren tinha sido difícil, ao recusar o divórcio. El
Damian apertou a ponte do nariz entre o polegar e o indicador. Quando Elliot falava daquele jeito, ele sabia que o idoso estava pronto para uma briga. — Vovô, Lauren e eu tínhamos um acordo, lembra? — Um acordo! Cinco anos e você não pode esperar nem mesmo um dia a mais? — Elliot vociferou do outro lado da linha. — Como pôde deixar uma boa mulher como ela escapar das suas mãos. Francamente, não entendo como tenho um neto tão tonto! Damian suspirou fundo. Ele sabia o quanto Elliot era parcial quanto à Lauren, sempre dizendo que ela era a mulher perfeita, a mulher que faria o neto feliz e que era a única que ele aceitaria como senhora Lancaster! — Vovô, por favor… — Vá atrás dela! Estou falando para o seu próprio bem, você vai se arrepender! Elliot começou a tossir do outro lado da linha, o que fez Damian ficar alarmado. — Certo, certo. Eu vou falar com ela e… bom, vamos ver se nos resolvemos. Tudo bem? Mas Lauren também não é obrigada a ficar presa a mim. Damian não queria dize
— Oh, você achou o meu celular — o sorriso de Marissa vacilou e ela ergueu o queixo, tentando disfarçar o nervosismo. — É, eu achei… — Damian disse e entregou o aparelho para a mulher. — Deveria ter mais cuidado. Eu quase pisei nele. Marissa engoliu em seco. — Que descuido… bom, obrigada. Eu, eu estou indo embora. Com licença. Ela virou as costas, porém, podia sentir o olhar fuzilante de Damian nas costas dela. Ao sair da sala, Marissa soltou o ar. “Tá tudo bem! Por que ele olharia o seu celular, huh?”, ela se perguntou, sentindo-se mais confiante, e saiu dali com a cabeça erguida. Enquanto isso, Damian estava no escritório, socando a parede. — Como… eu… pude ser… tão idiota?!Ele gritou consigo mesmo. Então, deu-se conta do que estava fazendo: perdendo tempo! Sem mais, ele pegou o próprio celular e tentou ligar novamente para Lauren, esquecendo-se de que ele estava bloqueado. — Que inferno! — ele apertou repetidamente o número que o ligava diretamente à sala de Loui. — Ah, at
Uma sensação estranha se apoderou de Damian. — Lauren. Pode ser o pai dela, também. Evan Everett. A mulher pareceu reconhecer aquele nome e Damian quis revirar os olhos. Quem era aquela mulher, afinal de contas? — O senhor Everett não mora mais aqui! — ela abriu um sorriso, porém, Damian ficou ainda mais sério. — Ele não… — Damian passou a língua pelos lábios ressecados. — Por favor, qual o seu nome? — Oh, meu nome é Jeniffer Gill. Comprei essa casa há uns dias — a mulher parecia muito contente ao contar aquela novidade. — Ela é um sonho! O senhor e a senhora Everett… — Desculpe por interrompê-la — Damian não queria ser indelicado, porém, o cérebro dele não estava sendo capaz de processar as informações. Ele soltou o ar, num sorriso nervoso, e colocou uma perna mais à frente, a cabeça mais para baixo, pressionou os lábios e levou uma mão à cintura. — A senhora está me dizendo que os Everett não moram mais aqui, é isso? A mulher piscou algumas vezes. — Foi exatamente o que eu
Lauren agradeceu por estar com os óculos escuros, ou Damian teria visto o rosto surpreso dela, o pavor em seus olhos. Ela fez um breve sinal, indicando que Oliver deveria voltar para ela. — Até outra vez! — ele disse a Damian e correu para a mãe. Ela segurou em sua mãozinha, falou algo para a criança e os dois se afastaram. Damian ainda estava parado no mesmo lugar. — Senhor? — Loui o chamou. — Precisamos ir. O jatinho… Isso fez com que Damian balançasse a cabeça e seguisse o assistente. Porém, a mente dele estava longe, junto com a tal mulher desconhecida. Algo nela lhe lembrou… — Ela tinha cabelos castanhos… — Perdão? — Loui perguntou e Damian se ajeitou na poltrona. — Nada. O assistente não insistiu, afinal, não seria inteligente da parte dele. A viagem foi silenciosa. Lauren estava escorada no batente da porta, enquanto Emma fuçava na mala dela. Oliver comeu, tomou uma ducha e caiu na cama, morto de cansaço. — Não acredito que não trouxe nada pra mim! — Emma resmungou, s
Damian tinha acabado de voltar de viagem e estava se sentindo um caco. Todas as vezes que ele voltava para casa, ele sentia aquele vazio terrível. Apesar de ser outro apartamento, ele pediu que decorassem como o anterior, em Charlotte. Ainda que doesse não ver Lauren ali, era melhor do que não ter nenhuma lembrança dela. A mulher tinha levado todo e qualquer item dela, impedindo que Damian mantivesse qualquer recordação, exceto as de sua própria mente. Ele mal sentou-se no sofá quando o interfone tocou. Damian revirou os olhos. Quem poderia ser? Ele foi até a cozinha e atendeu o maldito aparelho. — Alô? — ele disse, cansado. — Senhor Lancaster? A senhorita Langston está aqui e diz que precisa muito falar com o senhor. Damian ficou mais sério e a expressão dele tornou-se sombria.— Diga a ela que se precisar falar comigo, basta me ligar. Ela não pode subir. — Senhor, ela… senhorita! Não pode subir! — Damian ouviu o porteiro dizer e amaldiçoou internamente. — Perdão, senhor. — M
Dois dias depois, Marissa estava olhando-se no espelho e verificando se estava tudo certo com a maquiagem dela. Ela olhou pela janela do carro e sorriu. O ateliê de René contava com dois seguranças na porta e um hall de entrada, onde as pessoas primeiro precisavam colocar seus nomes e serem autorizadas a entrar. Isso garantia um senso de exclusividade muito maior entre os clientes. A loira desceu do carro, passou as mãos pelo vestido bem alinhado ao corpo e praticamente desfilou até a entrada do Ateliê. Lá dentro, ela foi até a recepção e disse o nome dela, certa de que René não a rejeitaria. Por mais que Damian não saísse com Marissa para os lugares, ela plantava aqui e ali a semente de que eles namoravam por baixo dos panos, afinal, ele era um homem muito discreto. No meio de Marissa, a maioria das pessoas cochichavam e a reconheciam como a futura senhora Lancaster. E, todas as vezes que a pergunta sobre o motivo do casamento ainda não ter saído surgia, a resposta estava sempre n
— Eu peço que a senhorita se abstenha de me falar dessa maneira. Eu não a conheço. Nunca fui casada! — Lauren inspirou fundo. — Peço que, por gentileza, retire-se do meu estabelecimento. — Ah, sim, seu estabelecimento? — Marissa começou a rir de maneira debochada, mas colocando a mão na frente da boca, para não parecer escandalosa. Ela olhou para as outras mulheres. — Senhoras, eu conheço essa mulher. Ela é uma mulher sem vergonha, que traiu o marido, arranjou filho de outro homem! As mulheres suspiraram, chocadas, e olharam para Lauren como se ela fosse a escória da terra. “E você era a amante do meu marido!”, Lauren queria dizer, no entanto, ela não o fez. Ela não podia, não ainda, ou confirmaria que ela era quem Marissa dizia que ela era e as coisas iriam escalar para algo muito feio, além de destruir a imagem que Lauren construiu por aqueles anos. — Como eu disse, nunca fui casada. Falar é fácil — Lauren fez um leve biquinho com a boca. — Mas onde estão as provas? A senhorita