Com o coração pesado, ela saiu do prédio do advogado. Cinco anos jogados fora! Ela então se lembrou do pequeno milagre dentro dela e levou instintivamente a mão à barriga. Não, não foram jogados fora. Ela tinha aquela pequena criança. Mesmo que Damian tenha errado muito, traindo-a, ao menos lhe deu um bebê.
No escritório, Damian estava tendo dificuldades de concentração. Todas as vezes que pegava algum documentos, ou mesmo a caneta, ele se lembrava do acordo de divórcio. Além disso, Lauren esteve algumas vezes ali e, claro, Damian não se refreou em tornar aquele também um ninho de amor com ela por perto.
“Maldição!”, ele reclamou. O telefone tocou e Damian o atendeu, irritado, no entanto, assim que ouviu de Loui que era o advogado, o humor de Damian pareceu melhorar um pouco sem que ele percebesse.
Com um sorriso, Damian recebeu Edward. Este segurava uma pasta e Damian já esperava que o advogado tivesse ido ali para informar como Lauren tinha sido difícil, ao recusar o divórcio. Ele olhou para o próprio telefone, esperando que a ruiva ligasse a qualquer momento. As juras de amor dela eram muitas, afinal.
— Foi muito complicado? — Damian perguntou, estendendo a mão.
— Não, senhor Lancaster — Edward respondeu formalmente. Damian ainda sorria, porém, ao chegar à última folha do documento e ver ali o nome de Lauren, assinado, os cantos da boca dele se curvaram para baixo.
— O que é isso? — ele perguntou e o advogado franziu a testa, incerto.
— O acordo de divórcio, senhor. A senhorita Everett o assinou e — Edward tirou do bolso do paletó um pequeno envelope — e disse que não queria nada. Ela devolveu o cartão que o senhor deu a ela quando se casaram. E disse que assim que o senhor voltasse para casa, ela já teria tirado tudo de lá. O senhor não precisará se preocupar com o incômodo de a ver no seu lar.
Damian trincou o maxilar. Estaria ele com problemas de audição? Ou de sinapses?
— Ela… ela assinou sem… sem causar… — Damian olhou novamente para a assinatura da esposa. Não, da ex-esposa e foi como se um punho de ferro descesse pela goela dele e alcançasse-lhe o coração, apertando-o.
— Se isso é tudo, senhor Lancaster, eu vou me retirar — o advogado falou, ansioso por sair da presença do CEO que estava, a cada segundo, ficando mais hostil. Damian nada respondeu e Edward viu ali a chance dele, escapando imediatamente da sala.
Sozinho, Damian jogou a pasta com o documento do divórcio em cima da mesa, com raiva. Ele levou a mão à boca, apoiando o cotovelo no apoio de braço da cadeira. Ela tinha assinado o divórcio. Lauren tinha assinado a droga do divórcio!
— Mas não pode ser… não, ela… Deve ser algum truque! — ele então se lembrou de como Lauren não só salvou Elliot em um acidente, como resilientemente cuidou para que o idoso não sofresse com os machucados. Se ela tinha feito isso, não seria justo então que Damian ajudasse Logan?
“Talvez eu tenha sido muito duro com ela?”, ele se perguntou. “Assinar o divórcio deve ter sido o meio de ela me dizer que eu não deveria ser tão incisivo.”
Damian tentou se convencer daquelas palavras, porém, no fundo, o coração dele estava apertado. Lauren tinha dito que quando ele chegasse em casa, não restaria nada dela. Damian não acreditava naquilo.
E se ela ficou sabendo que o irmão dela tinha perdido a chance de transplante?
Só naquele momento a gravidade do que ele tinha feito caiu sobre a cabeça de Damian. Ele tinha impedido que Logan recebesse o coração que lhe salvaria a vida. Basicamente, ele tinha condenado o rapaz à morte!
Com a garganta seca de nervosismo, Damian ligou para o hospital.
— Boa tarde, aqui é Damian Lancaster. Eu gostaria de falar sobre o transplante de coração do paciente Logan Everett — ele disse.
— Só um momento — Damian ouviu o som dos botões de um teclado de computador, então, a pessoa do outro lado da linha voltou a falar com ele. — Senhor Lancaster, vi aqui que o senhor retirou a sua responsabilidade quanto ao paciente em questão, por isso, não posso lhe passar nenhuma informação.
Damian levantou as sobrancelhas. Ele era Damian Lancaster, como assim ele não tinha acesso às informações?
— Se não quiser que eu ligue pro diretor agora mesmo e cuide para que o seu emprego evapore, é melhor que me dê as informações — o tom de voz dele enviou um calafrio gelado pela espinha do atendente, que era novato. Ele fez sinal para o chefe e cochichou o que estava havendo.
— Dê logo as informações! Ele é uma exceção!
O atendente assentiu e respirou fundo.
— A cirurgia de transplante foi cancelada. Pelo senhor.
— Eu sei disso. Quero que operem o garoto.
— Perdão, senhor Lancaster, mas isso não será possível — o atendente disse, tentando não gaguejar.
— E por quê?
— Hmmm… primeiro, o coração já foi doado para outra pessoa que estava na fila de espera. E… e também… Ah… o senhor Logan Everett não é mais um paciente nosso.
Silêncio. Damian desligou, com raiva. Ele então discou o telefone de Lauren, apenas para receber a mensagem automática de que aquele número estava desligado ou fora da área de serviço.
— Argh! — Damian apertou o botão do telefone de mesa e, em menos de um minuto, Loui estava na frente dele. — Procure saber o que houve com Logan Everett!
— Sim, senhor! — Loui saiu dali rapidamente. Damian tentou ligar novamente para Lauren e não obteve sucesso. Tentou mandar mensagem e esta não foi entregue.
— Lauren está cada dia mais atrevida! — ele largou o aparelho em cima da mesa e fechou os olhos, buscando se controlar. Damian decidiu ir para casa e resolver cara-a-cara o problema. Porém, quando ele se levantou e pegou o paletó, a porta do escritório dele se abriu e Marissa entrou.
Ela estava sorridente, trajando um vestido abaixo do joelho, mas que marcava cada curva do corpo dela. A maquiagem, bem como o cabelo, estava perfeita. Para a maioria dos homens, aquela era a figura da beleza, no entanto, Damian não prestou a mínima atenção.
— Damian, querido, vim buscá-lo para jantarmos juntos — ela falou, segurando a bolsa de mão. — Abriu um novo restaurante e eu estou morrendo de vontade…
— Agora não, Marissa — Damian falou e foi passar por ela, enquanto vestia o paletó. Marissa se colocou na frente dele, fazendo com que o CEO a encarasse. — Saia da frente, tenho um assunto importante a resolver.
— Isso pode esperar. Eu vim aqui para sair com você — Marissa disse, ainda mantendo um sorriso, mesmo que este já não alcançasse os olhos dela.
Damian soltou o ar. Ele não tinha mais paciência para lidar com as exigências de Marissa que, a cada dia, se tornavam mais ridículas! Além disso, o fato de ele ser tão leniente com aquela mulher era possivelmente o motivo de agora Damian estar tendo que correr atrás de Lauren por ela estar com raiva!
— E eu disse que tenho o que resolver — Damian disse entre dentes. — E não entre mais no meu escritório sem se anunciar e sem permissão.
Quando Damian tentou passar por ela novamente, Marissa segurou o braço dela e, agora, não havia qualquer traço de humor no rosto dela.
— Não pode me tratar assim, Damian. Já esqueceu o que me deve?
Ele estreitou os olhos afiados para ela, arrancando o próprio braço do aperto da mulher.
— Eu já paguei o suficiente. Anos pagando por algo que eu não tenho qualquer envolvimento — Damian falou, porém, Marissa soltou uma risada amarga.
— Não tem? Seu pai matou os meus pais, me transformou numa órfã! — a boca de Marissa entortou de maneira feia. — A sua generosidade, Damian, não é nenhum favor! Enquanto você aproveitou a boa vida, eu fiquei sozinha! Não me venha com essa de já ter quitado a sua dívida! Ela é eterna, porque meus pais não podem voltar!
Damian apertou os lábios. Ele acatava os pedidos de Marissa porque se sentia culpado pelo que o pai dele, Rodney, tinha feito. Em uma noite, após beber horrores, ele voltou para casa dirigindo e acabou causando um acidente. Courtney e Edwin Langston faleceram no local, deixando a única filha, Marissa, de 12 anos, sozinha.
O pai de Damian não era a melhor pessoa e, por isso, fez apenas o que a lei mandou, a fim de que não fosse preso. Pagou uma ínfima pensão para manter Marissa em um lar adotivo temporário. Porém, ela foi atrás de Damian e expôs o ocorrido. Com o senso de justiça do rapaz, ela conseguiu mantê-lo na rédea curta, acatando todos os caprichos dela, inclusive deixando a própria esposa sozinha.
— Muito bem — Damian trincou o maxilar. — Vamos logo!
Marissa sorriu, vitoriosa, e saiu dali de braços dados com Damian. A postura dele era um contraste acentuado com a dela, pois Damian parecia enfurecido, como uma besta enjaulada, prestes a atacar alguém.
“Ele vai ser meu… e logo!”
O jantar durou mais do que Damian esperava e, depois de deixar uma relutante Marissa no apartamento dela, ele dirigiu para casa à toda velocidade. Loui havia dito ao patrão que Logan Everett tinha sido transferido para outro hospital, mas não tinha a informação de qual! E Lauren ainda não atendia o maldito telefone!
Damian estacionou na garagem e, antes que pudesse entrar em casa, o celular vibrou no bolso. Ele pegou o aparelho rapidamente, pensando que era Lauren, no entanto, foi recebido pela voz enraivecida do avô, que agora estava no exterior, tratando de uma doença nos ossos.
— Como você se atreveu a se divorciar de Lauren, seu moleque?!
Damian apertou a ponte do nariz entre o polegar e o indicador. Quando Elliot falava daquele jeito, ele sabia que o idoso estava pronto para uma briga. — Vovô, Lauren e eu tínhamos um acordo, lembra? — Um acordo! Cinco anos e você não pode esperar nem mesmo um dia a mais? — Elliot vociferou do outro lado da linha. — Como pôde deixar uma boa mulher como ela escapar das suas mãos. Francamente, não entendo como tenho um neto tão tonto! Damian suspirou fundo. Ele sabia o quanto Elliot era parcial quanto à Lauren, sempre dizendo que ela era a mulher perfeita, a mulher que faria o neto feliz e que era a única que ele aceitaria como senhora Lancaster! — Vovô, por favor… — Vá atrás dela! Estou falando para o seu próprio bem, você vai se arrepender! Elliot começou a tossir do outro lado da linha, o que fez Damian ficar alarmado. — Certo, certo. Eu vou falar com ela e… bom, vamos ver se nos resolvemos. Tudo bem? Mas Lauren também não é obrigada a ficar presa a mim. Damian não queria dize
— Oh, você achou o meu celular — o sorriso de Marissa vacilou e ela ergueu o queixo, tentando disfarçar o nervosismo. — É, eu achei… — Damian disse e entregou o aparelho para a mulher. — Deveria ter mais cuidado. Eu quase pisei nele. Marissa engoliu em seco. — Que descuido… bom, obrigada. Eu, eu estou indo embora. Com licença. Ela virou as costas, porém, podia sentir o olhar fuzilante de Damian nas costas dela. Ao sair da sala, Marissa soltou o ar. “Tá tudo bem! Por que ele olharia o seu celular, huh?”, ela se perguntou, sentindo-se mais confiante, e saiu dali com a cabeça erguida. Enquanto isso, Damian estava no escritório, socando a parede. — Como… eu… pude ser… tão idiota?!Ele gritou consigo mesmo. Então, deu-se conta do que estava fazendo: perdendo tempo! Sem mais, ele pegou o próprio celular e tentou ligar novamente para Lauren, esquecendo-se de que ele estava bloqueado. — Que inferno! — ele apertou repetidamente o número que o ligava diretamente à sala de Loui. — Ah, at
Uma sensação estranha se apoderou de Damian. — Lauren. Pode ser o pai dela, também. Evan Everett. A mulher pareceu reconhecer aquele nome e Damian quis revirar os olhos. Quem era aquela mulher, afinal de contas? — O senhor Everett não mora mais aqui! — ela abriu um sorriso, porém, Damian ficou ainda mais sério. — Ele não… — Damian passou a língua pelos lábios ressecados. — Por favor, qual o seu nome? — Oh, meu nome é Jeniffer Gill. Comprei essa casa há uns dias — a mulher parecia muito contente ao contar aquela novidade. — Ela é um sonho! O senhor e a senhora Everett… — Desculpe por interrompê-la — Damian não queria ser indelicado, porém, o cérebro dele não estava sendo capaz de processar as informações. Ele soltou o ar, num sorriso nervoso, e colocou uma perna mais à frente, a cabeça mais para baixo, pressionou os lábios e levou uma mão à cintura. — A senhora está me dizendo que os Everett não moram mais aqui, é isso? A mulher piscou algumas vezes. — Foi exatamente o que eu
Lauren agradeceu por estar com os óculos escuros, ou Damian teria visto o rosto surpreso dela, o pavor em seus olhos. Ela fez um breve sinal, indicando que Oliver deveria voltar para ela. — Até outra vez! — ele disse a Damian e correu para a mãe. Ela segurou em sua mãozinha, falou algo para a criança e os dois se afastaram. Damian ainda estava parado no mesmo lugar. — Senhor? — Loui o chamou. — Precisamos ir. O jatinho… Isso fez com que Damian balançasse a cabeça e seguisse o assistente. Porém, a mente dele estava longe, junto com a tal mulher desconhecida. Algo nela lhe lembrou… — Ela tinha cabelos castanhos… — Perdão? — Loui perguntou e Damian se ajeitou na poltrona. — Nada. O assistente não insistiu, afinal, não seria inteligente da parte dele. A viagem foi silenciosa. Lauren estava escorada no batente da porta, enquanto Emma fuçava na mala dela. Oliver comeu, tomou uma ducha e caiu na cama, morto de cansaço. — Não acredito que não trouxe nada pra mim! — Emma resmungou, s
Damian tinha acabado de voltar de viagem e estava se sentindo um caco. Todas as vezes que ele voltava para casa, ele sentia aquele vazio terrível. Apesar de ser outro apartamento, ele pediu que decorassem como o anterior, em Charlotte. Ainda que doesse não ver Lauren ali, era melhor do que não ter nenhuma lembrança dela. A mulher tinha levado todo e qualquer item dela, impedindo que Damian mantivesse qualquer recordação, exceto as de sua própria mente. Ele mal sentou-se no sofá quando o interfone tocou. Damian revirou os olhos. Quem poderia ser? Ele foi até a cozinha e atendeu o maldito aparelho. — Alô? — ele disse, cansado. — Senhor Lancaster? A senhorita Langston está aqui e diz que precisa muito falar com o senhor. Damian ficou mais sério e a expressão dele tornou-se sombria.— Diga a ela que se precisar falar comigo, basta me ligar. Ela não pode subir. — Senhor, ela… senhorita! Não pode subir! — Damian ouviu o porteiro dizer e amaldiçoou internamente. — Perdão, senhor. — M
Dois dias depois, Marissa estava olhando-se no espelho e verificando se estava tudo certo com a maquiagem dela. Ela olhou pela janela do carro e sorriu. O ateliê de René contava com dois seguranças na porta e um hall de entrada, onde as pessoas primeiro precisavam colocar seus nomes e serem autorizadas a entrar. Isso garantia um senso de exclusividade muito maior entre os clientes. A loira desceu do carro, passou as mãos pelo vestido bem alinhado ao corpo e praticamente desfilou até a entrada do Ateliê. Lá dentro, ela foi até a recepção e disse o nome dela, certa de que René não a rejeitaria. Por mais que Damian não saísse com Marissa para os lugares, ela plantava aqui e ali a semente de que eles namoravam por baixo dos panos, afinal, ele era um homem muito discreto. No meio de Marissa, a maioria das pessoas cochichavam e a reconheciam como a futura senhora Lancaster. E, todas as vezes que a pergunta sobre o motivo do casamento ainda não ter saído surgia, a resposta estava sempre n
— Eu peço que a senhorita se abstenha de me falar dessa maneira. Eu não a conheço. Nunca fui casada! — Lauren inspirou fundo. — Peço que, por gentileza, retire-se do meu estabelecimento. — Ah, sim, seu estabelecimento? — Marissa começou a rir de maneira debochada, mas colocando a mão na frente da boca, para não parecer escandalosa. Ela olhou para as outras mulheres. — Senhoras, eu conheço essa mulher. Ela é uma mulher sem vergonha, que traiu o marido, arranjou filho de outro homem! As mulheres suspiraram, chocadas, e olharam para Lauren como se ela fosse a escória da terra. “E você era a amante do meu marido!”, Lauren queria dizer, no entanto, ela não o fez. Ela não podia, não ainda, ou confirmaria que ela era quem Marissa dizia que ela era e as coisas iriam escalar para algo muito feio, além de destruir a imagem que Lauren construiu por aqueles anos. — Como eu disse, nunca fui casada. Falar é fácil — Lauren fez um leve biquinho com a boca. — Mas onde estão as provas? A senhorita
Depois que Marissa a reconheceu tão facilmente, Lauren sentiu um vacilo na sua determinação e confiança. Se Damian a reconhecesse… ela conseguiria sair pela tangente como fez com Marissa? E se ele a visse com o pequeno Oliver? Ela lembrou-se que eles já tinham se encontrado, no aeroporto e, por sorte, o homem não a reconheceu. “O que Damian faria se soubesse que tivemos um filho?”, ela se perguntou. Lauren sacudiu a cabeça. Ele não poderia saber. Nunca! Porque se ele soubesse, era capaz de querer a criança para ele. — Lauren? — Emma a sacudiu de leve e isso despertou Lauren do devaneio dela. — Amiga, no que tá pensando? — Eu… Emma, preciso pensar no que fazer. Não sabia que Damian tinha se mudado pra cá. Como eu fui burra em não pesquisar sobre isso! Emma fez uma massagem nos ombros de Lauren e apertou os lábios. — Talvez… talvez ele não cause problemas. Quer dizer, você disse que ele não foi hostil com Olie quando o viu no aeroporto, não é? Lauren torceu o nariz ao lembrar qu