A noite era deles. Pela primeira vez, sem barreiras, sem medo, sem fugas. Ivy sentia o toque de Lucian como se fosse a única coisa real no mundo, como se estivesse queimando e sendo salva ao mesmo tempo. Os lábios dele eram firmes e famintos contra os seus, e cada gesto, cada suspiro, parecia carregar tudo o que haviam reprimido por tanto tempo.No silêncio da mansão, entre lençóis amassados e respirações entrecortadas, Ivy sentiu que, finalmente, havia encontrado um lugar onde pertencia. Lucian a segurava como se nunca fosse deixá-la ir, sussurrando promessas que ela queria desesperadamente acreditar.— Não há mais volta, Ivy — ele murmurou contra sua pele, os olhos intensos cravados nos dela. — Você sabe disso, certo?Ela soube. E, pela primeira vez, permitiu-se não ter medo.E se seguiu assim a noite inteira.Na manhã seguinte, quando o sol já filtrava-se pelas cortinas, lançando um brilho dourado sobre o quarto, Ivy despertou devagar, sentindo o calor ao seu lado, o corpo de L
O carro cortava a estrada, mas Lucian não conseguia enxergar nada além do próprio reflexo no vidro da janela. Ele deveria estar concentrado no que o aguardava no destino, mas sua mente insistia em voltar para a última conversa com Ivy.Seu peito apertava ao lembrar do olhar dela—da dor camuflada pela frieza, do jeito como ela se virou e saiu, sem olhar para trás. Ele queria chamá-la de volta, queria dizer que não era insegurança o que o impedia, mas sim algo maior, algo que ele não podia explicar. Não agora. Porque aquilo poderia arruinar tudo entre eles, justo quando tudo, finalmente, havia se encaixado.Mas como dizer a ela? Como explicar que seu passado ainda o assombrava, que havia segredos que poderiam destruir tudo? Destruí-la?Lucian fechou os olhos e apoiou a cabeça contra o assento, tentando afastar os pensamentos. O destino daquela viagem não era opcional. Ele precisava estar ali.E, acima de tudo, precisava descobrir se ainda tinha o direito de voltar para Ivy depois diss
Dor.Era tudo que Ivy conseguia sentir.Ela piscou lentamente, tentando entender onde estava. Seu corpo doía em vários pontos, um peso esmagador a mantinha imóvel contra o chão frio e úmido. O cheiro de terra molhada impregnava o ar, e um zumbido incessante preenchia sua mente, como se o próprio ambiente pulsasse ao redor dela.Tentou mexer os dedos. Depois as pernas. Mas era inútil.O desespero começou a se infiltrar, corroendo os limites de sua razão.Então, ela ouviu.Passos.O coração de Ivy disparou.O som ecoava pelo espaço escuro, ritmado, cada vez mais próximo.Não!Seu peito subia e descia em uma respiração acelerada e trêmula. Sua mente gritava que era ela. A pessoa que a observava. Ele estava voltando.O pânico tomou conta de seus sentidos.— Fique longe... — tentou dizer, mas sua voz saiu fraca, um sussurro quebrado.Os passos continuavam. Mais perto. Mais perto.Ivy sentiu lágrimas quentes escorrerem pelo canto de seus olhos, misturando-se à sujeira em seu rosto. Ela qu
Capítulo 93O silêncio da mansão era interrompido apenas pelo som abafado da chuva fina batendo contra as janelas. O relógio marcava um horário indecifrável, e o tempo parecia se arrastar de forma cruel.Lucian chegou como uma tempestade.As portas se abriram com força, e seus passos ecoaram pelo mármore frio. Seu olhar varreu o ambiente até encontrar Grace, que o esperava ao lado da porta do quarto de Ivy.— Onde ela está? — sua voz saiu cortante, carregada de urgência e algo mais sombrio.Grace cruzou os braços, mas havia uma tensão perceptível em seus ombros.— Lá dentro. Está inconsciente. Ainda.Lucian não esperou mais nenhuma palavra. Ele empurrou a porta e entrou.O quarto estava à meia-luz, as cortinas pesadas bloqueando a maior parte da claridade da manhã que tentava invadir o espaço. Ivy jazia sobre a cama, seu corpo encolhido sob os lençóis, os cabelos espalhados pelo travesseiro. O rosto estava pálido demais, os lábios ligeiramente entreabertos como se lutasse para respira
O silêncio que veio depois das palavras de Lucian parecia diferente. Não era mais pesado ou carregado de tudo o que eles evitavam dizer. Era algo novo, um espaço onde a verdade finalmente tinha sido dita.Ivy não desviou o olhar. O peso da confissão dele ainda pulsava entre eles, mas, pela primeira vez, ela não sentiu medo.— E o que você precisa agora, Lucian? — Sua voz saiu baixa, quase um sussurro.Lucian inspirou fundo. Seus dedos ainda seguravam a mão dela, como se não quisesse soltar.— De você.O coração de Ivy bateu forte.Lucian não se afastou. Não desviou o olhar, não recuou como fazia todas as vezes. Ao invés disso, ele trouxe a mão dela para perto e a segurou contra o peito, onde seu coração batia de forma firme, intensa.— Eu passei tempo demais tentando te proteger da minha própria escuridão. Mas agora eu entendo… Você sempre foi a única luz que fez sentido.Ivy não sabia o que dizer. Por tanto tempo, ela esperou que ele parasse de fugir. E agora, ele estava ali, finalme
Os dias que se seguiram foram diferentes de qualquer coisa que Ivy e Lucian já haviam vivido juntos. Pela primeira vez, não havia barreiras, não havia hesitação. O peso das sombras entre eles parecia ter dado espaço para algo mais leve, mais genuíno.Lucian permanecia ao seu lado sem medo de se perder nela. E Ivy, por sua vez, se entregava a ele sem receios.Eles passavam as manhãs juntos, explorando a intimidade recém-descoberta. À tarde, dividiam conversas tranquilas, risos discretos, olhares roubados. À noite, encontravam conforto um no outro, se amando entre sussurros e toques suaves, como se cada momento fosse precioso demais para ser desperdiçado.Era uma bolha de paz em meio ao caos iminente. Mas Ivy sabia. Sempre soube. Aquilo não duraria para sempre.E a primeira rachadura veio naquela noite.Ivy estava no quarto, sentada na cama, passando os dedos distraidamente pelo lençol enquanto Lucian tirava a camisa e jogava no canto do quarto. Ele a observou com um meio sorriso, aque
Capítulo 96O mundo ao redor de Ivy se dissolveu.O sangue latejava em seus ouvidos, abafando tudo, exceto as palavras de Grace, ecoando como facas afiadas em sua mente."Você tem que escolher, Lucian. Porque, se continuar assim, você vai perder as duas."As duas.Ivy sentiu um arrepio subir por sua espinha, sua pele se arrepiando como se estivesse exposta a um vento gélido, embora o ar estivesse parado.Suas mãos apertaram com força o pequeno embrulho que segurava, os dedos ficando dormentes. O papel fino amassou sob a pressão, mas Ivy não percebeu.Ela queria se afastar. Queria sair dali antes que ouvisse algo ainda pior. Mas suas pernas estavam presas ao chão, como se fossem raízes fincadas na madeira.A conversa continuava, cada palavra empurrando Ivy para um abismo que ela não queria encarar.— Você sabe que isso não pode continuar assim. — Grace insistiu, sua voz agora mais controlada, mas carregada de algo profundo. — Você está se enganando, Lucian. E está enganando ela.Ivy se
O peito de Ivy subia e descia rapidamente, como se mal conseguisse respirar, como se o ar tivesse sido arrancado do ambiente. Seus olhos estavam fixos em Lucian, esperando… implorando por uma explicação.Mas ele hesitava.— Me diz a verdade! — a voz de Ivy quebrou o silêncio, carregada de dor. — O que mais você está escondendo de mim?Lucian passou as mãos pelos cabelos, o olhar selvagem, a mandíbula travada. Seu corpo inteiro parecia tenso, prestes a explodir.— Ivy, você está tirando conclusões erradas.Ela riu, mas era um riso vazio, quebrado.— Erradas? Erradas, Lucian? — ela deu um passo à frente, os olhos brilhando de fúria. — Então me diz o que é certo! Porque tudo o que eu vejo é você, no meio da noite, sussurrando segredos com ela, falando sobre escolhas e enganos, como se eu fosse uma idiota que não percebe o que está acontecendo debaixo do meu nariz!— É isso que você acha de mim? — ele rebateu, a voz carregada de algo perigoso, a dor se misturando à raiva. — Que eu sou ca