Capítulo 4
Às nove da noite, os dois deixaram a mansão da família Lima.

Enquanto Bruno afivelava o cinto de segurança, perguntou como quem não quer nada:

— O que você estava conversando com o Eduardo? Pareciam bem animados.

Helena respondeu com indiferença:

— Ah, estávamos falando sobre sua amiga de infância.

Bruno ficou sem palavras.

Depois de um tempo, ele segurou delicadamente a mão de Helena. Sua voz, pela primeira vez em muito tempo, trazia um traço raro de ternura.

— Eu nunca tive nada com ela.

Helena se recostou no banco, os olhos úmidos, refletindo um brilho contido de lágrimas.

Ela sabia bem que essa súbita gentileza de Bruno não passava de um reflexo do seu período fértil. Ele queria que ela engravidasse.

Não tinha nada a ver com amor. E muito menos com ela!

Ela se perguntava: se Bruno descobrisse que ela não podia mais ter filhos, será que ainda tentaria mantê-la ao seu lado? Ou assinaria o divórcio sem hesitar, ansioso para encontrar a próxima mulher ideal para ser sua esposa?

Naquela noite, Bruno parecia disposto a investir mais do que o habitual. Se aproximou de Helena, tentando provocar o desejo da esposa.

Mas Helena apenas sentiu um profundo desalento.

Seu marido não a amava. Para ele, ela não passava de uma máquina de trabalho e de reprodução. Ele nem sequer sentia prazer em estar com ela, mas, mês após mês, fazia questão de cumprir esse "dever" apenas para conceber um herdeiro. Qual era a diferença entre isso e o instinto de um animal?

Ela desviou dos lábios dele, sua voz rouca, carregada por uma tristeza inexplicável:

— Bruno, eu estou falando sério sobre o divórcio. Se acha que estou pedindo demais, podemos renegociar.

No interior escuro do carro, Bruno encarou intensamente o rosto da esposa, como se quisesse enxergar cada detalhe sob aquela fraca iluminação.

Após um longo silêncio, sua voz soou fria como gelo:

— Eu já disse, não vamos nos divorciar. Helena, quando tivermos um filho, você vai parar de pensar nessas bobagens!

Helena fechou os olhos devagar, se sentindo exausta demais para argumentar:

— Bruno... E se eu não puder ter filhos?

Ele franziu a testa, sem aceitar a possibilidade:

— Isso é impossível. Nós fizemos exames antes do casamento, lembra? Estava tudo certo.

Helena sorriu, mas foi um sorriso amargo.

Os resultados daquele exame pré-nupcial, feitos quatro anos atrás, já não significavam mais nada.

Assim como as promessas que Bruno fez ao pedi-la em casamento... Promessas que haviam sido engolidas pela sua falta de consciência e apagadas pelo calor de outras mulheres.

Quando chegaram de volta à Mansão Belezas, já passava das dez da noite.

Bruno tomou um banho no banheiro e, inicialmente, queria convencer Helena a fazer amor com ele, mas acabou recebendo uma ligação e saiu apressado.

Helena suspeitou que ele tivesse ido se encontrar com a amante.

Ela não se importou. Pelo menos naquela noite não precisaria lidar com Bruno.

Durante toda a madrugada, ele não voltou.

As luzes da Mansão Belezas permaneceram acesas até o amanhecer, mas o dono da casa não retornou...

Na semana seguinte, Bruno continuou sem voltar para casa à noite.

Quanto ao divórcio, ele não fez nenhum avanço.

E durante aquelas noites frias, o que Helena fazia?

Frequentemente, ela ficava diante da janela panorâmica do quarto, observando as folhas lá fora, que começavam a amarelar. Em meio àquele silêncio, pensava, com indiferença, se teria sido mais feliz caso não tivesse desistido da pintura, se não tivesse se casado tão cedo, se não tivesse entrado no mundo dos negócios.

Quanto ao Bruno, ela nem sequer lhe fez uma ligação. Um homem que se divertia por aí... Para ela, era como se já estivesse morto.

Os dois passaram muito tempo sem se ver. Quando se encontraram novamente, foi em um evento de negócios.

...

Clube Furtivo.

O clube de negócios mais luxuoso da Cidade D.

Assim que entrou na sala privativa, Helena avistou Camila sentada bem próxima a Bruno, adotando uma postura delicada e gentil. Ao perceber a presença de Helena, ela simplesmente abaixou a cabeça e começou a mexer no celular, sem demonstrar qualquer preocupação.

A secretária, Ana, ficou indignada.

Helena a interrompeu e disse com indiferença:

— Agora ela é a amante do Sr. Bruno. Deixe que ele a mime.

Sem um lugar disponível ao lado de Bruno, Helena não queria se sentar junto ao "time adversário". Então, aproveitou a desculpa de ir ao banheiro, dando tempo suficiente para que Bruno resolvesse a questão com sua amante.

O banheiro era iluminado por lustres de cristal brilhantes.

Helena lavava as mãos quando, de repente, o som de passos femininos ecoou atrás dela...

Ela ergueu o olhar e, pelo reflexo do espelho, viu Camila.

Ela se aproximou e, diferente de sua habitual postura respeitosa, exibiu um sorriso afiado, carregado de provocação.

— Eu me mudei de volta para aquela mansão. O Bruno disse que posso ficar lá o tempo que quiser.

Helena fechou a torneira.

No espelho, observou o rosto jovem e angelical da outra.

Tão pura, tão nova... Diferente dela, que, após anos imersa no mundo dos negócios, carregava sempre um leve traço de cansaço na expressão. Ah, a juventude era mesmo uma coisa boa.

E então, de repente, lhe ocorreu que, no fim das contas, ela também tinha apenas 26 anos.

Helena abaixou o olhar e girou levemente a aliança de seis quilates em seu anelar, antes de dizer com indiferença:

— Srta. Camila, se eu fosse você, apenas me comportaria como a mulher ao lado do Bruno. Sem dramas, sem escândalos, apenas se pendurando no pescoço dele para pedir dinheiro. E, mais importante, jamais saia por aí espalhando os segredos de vocês. Além disso, por que veio causar confusão aqui? Esse tipo de ambiente não combina com você.

Camila curvou os lábios em um sorriso provocador.

— O Bruno me protege. Ele não tem coragem de me deixar beber.

— É mesmo? — Helena continuou sorrindo, mas sem emoção. — Srta. Camila, talvez você não saiba, mas para o Bruno, o dinheiro sempre vem em primeiro lugar. Negócios e mulheres, ele separa muito bem. Logo mais, não será apenas uma taça de vinho... Se for necessário, ele pode muito bem mandar você engolir veneno.

O rosto delicado de Camila empalideceu.

— Eu não acredito.

O sorriso de Helena se tornou ainda mais frio.

Quando Camila saiu, Helena permaneceu diante do espelho, encarando sua própria imagem, absorta em pensamentos. As palavras que havia dito, propositalmente exageradas, soavam até mesmo ridículas para si mesma. Ela sabia que, se quisesse, poderia facilmente continuar sendo a esposa de Bruno. Mas esse tipo de vida, esse casamento... Não era o que desejava.

Ela estava cansada. Cansada a ponto de querer virar a mesa.

...

Quando voltou para a sala privativa, encontrou um espaço vago ao lado de Bruno. Se sentou com a expressão serena, retomando o papel da esposa perfeita ao lado dele, como se nada tivesse acontecido.

Camila, por outro lado, se afastou.

Seu rosto exibia uma expressão de mágoa, como se estivesse prestes a chorar.

Bruno franziu a testa e disse, com um tom de leve descontentamento:

— Por que você precisa dificultar as coisas para uma garotinha?

Helena não respondeu. Ele não fazia ideia de que cada palavra que dizia para defender Camila era como uma lâmina cortando ela por dentro.

Ele se importava com Camila...

E tudo o que ela havia vivido ao lado dele? Todos os anos em que estiveram juntos, enfrentando dificuldades? O que aquilo significava?

Sim... O que significava?

Seu coração sangrava, mas sua expressão permanecia impecável. Com um sorriso tranquilo, chamou Camila para brindar com os representantes da outra empresa. O homem ao lado demonstrou evidente interesse pelo tipo de pureza que Camila exalava.

Ela hesitou, tentando se esquivar, certa de que, sendo "mulher de Bruno", não precisava se sujeitar àquilo.

Sob o brilho dos lustres de cristal, o rosto impecavelmente belo de Bruno ganhou um traço sutil de descontentamento.

Ele sabia.

Sabia que Helena estava fazendo de propósito.

Bruno segurou a taça de vinho com leveza, seu olhar pousava sobre Helena, mas suas palavras foram dirigidas a Camila.

— O Plano Mia envolve uma parceria de centenas de bilhões de reais. De qualquer forma, Assistente Camila, você precisa levar em consideração os sentimentos do Presidente Vasco.

Camila não ousou mais protestar. Seus lábios trêmulos cederam em concordância.

Enquanto ela, humilhada, acompanhava o Presidente Vasco em um brinde, Helena e Bruno estavam sentados lado a lado.

No rosto de Bruno, não havia a menor expressão. Já Helena se sentia uma mulher cruel, como se tivesse enterrado com as próprias mãos o grande amor do Sr. Bruno.

Naquele instante, ambos esqueceram que, desde a juventude, sempre estiveram juntos como marido e mulher.

...

Quando a noite caiu, no estacionamento subterrâneo...

A secretária Ana segurava Helena, abrindo a porta do banco traseiro do carro com a outra mão.

— Presidente Helena, cuidado para não bater a cabeça. A senhora bebeu um pouco demais esta noite.

Helena apoiou a testa com a mão e murmurou:

— Estou de mau humor.

Ana compreendia bem. O Sr. Bruno tinha passado dos limites hoje.

Desde o início, o Plano Mia havia sido conduzido pela Presidente Helena, que investiu tempo, esforço e conexões para torná-lo possível. No entanto, naquela noite, o Sr. Bruno apareceu acompanhado de Camila. Se fosse Ana no lugar de Helena, também teria ficado furiosa.

Mas, pelo menos, Camila terminou a noite no hospital. Isso era, no mínimo, reconfortante.

Quando Helena se preparava para entrar no carro, um braço masculino agarrou seu pulso.

Um estrondo ecoou. Seu corpo foi lançado contra a lataria negra do veículo.

O frio do metal ressaltava ainda mais sua fragilidade e desamparo.

Levou alguns instantes até que a dor diminuísse o suficiente para que ela recobrasse os sentidos. Ao erguer a cabeça, encontrou o rosto do marido tomado pela fúria iminente. Sua voz soou baixa:

— Ana, me deixe a sós com ele.

Ana hesitou, preocupada.

— Você não está bem...

Os olhos de Helena se tingiram de um rubor úmido.

Diante da expressão sombria de Bruno, Ana não teve coragem de insistir e saiu, ainda relutante.

Assim que ficaram sozinhos, Bruno explodiu. Se aproximou bruscamente, segurando o queixo de Helena com força, sua voz gélida pressionando ela:

— Por que você dificultou as coisas para ela? Ela precisou ir ao hospital para fazer uma lavagem gástrica! Helena, já te disse que ela é apenas filha de um dos nossos velhos amigos. Só estou cuidando um pouco mais dela...

...

Um tapa estalou no rosto de Bruno.

A palma de Helena latejava, enquanto seu corpo inteiro tremia de forma incontrolável.

Helena olhou para Bruno e soltou uma risada fria.

— Você pretende cuidar dela até na cama da mansão? Bruno, me diga... Você realmente não faz questão de esconder seu amor por ela ou acha que sou uma completa idiota?

O rosto másculo de Bruno foi jogado para o lado com o impacto do tapa.

Ele virou a cabeça devagar, passando a língua pelo interior da boca. Seu olhar se cravou em Helena, carregado de uma fúria assassina, mas sua voz permaneceu fria e controlada.

— Você quer tanto o meu amor assim? A ponto de não medir consequências?

Helena imitou seu tom, repleta de sarcasmo:

— Não seja tão convencido!

Bruno pareceu se acalmar.

Após um longo silêncio, sua mão deslizou suavemente pelo rosto dela.

— Helena, você não é mais tão obediente quanto antes... O que há de errado em desempenhar bem o papel de minha esposa? Ter um filho para garantir seu lugar ao meu lado não seria melhor? Por que você insiste tanto em se opor a mim?

A noite estava fria e silenciosa.

O rosto de Helena estava coberto de lágrimas, mas ela nem sequer percebeu.

— Antes? Então você sabe que foi no passado? Bruno, nós ainda estamos vivendo naquele passado? O Bruno de antes não tinha outra mulher ao lado. O Bruno de antes voltava para casa todas as noites. O Bruno de antes não calculava o meu período fértil como se eu fosse apenas um instrumento para gerar um filho! Bruno, quem mudou afinal? Você ou eu?

...

Compartilhando a mesma cama por quatro anos, naquela noite, eles finalmente se romperam.

Bruno encarou Helena em silêncio, observando a mulher que o acompanhou ao longo de sua ascensão no mundo dos negócios.

Depois de um longo tempo, seu olhar se tornou gélido, como se, naquele instante, tivesse tomado uma decisão.

A noite estava quieta, como um funeral para o amor.

Bruno soltou Helena e recuou um passo.

— A partir de amanhã, você não será mais responsável pelo Plano Mia. Quanto ao seu cargo, convocarei uma reunião com os acionistas para decidir o que fazer.

Helena soltou um leve riso.

Todos os homens, ao conquistarem o sucesso, descartavam a mulher que esteve ao seu lado na jornada.

No fundo, tanto ela quanto Bruno sabiam que a presença de Camila não era o único abismo entre eles.

Bruno havia se esquecido de tudo que Helena fez por ele. Ele queria forçá-la a voltar para casa, a ser apenas uma esposa, a gerar um filho para ele, e chamava isso de amor.

Amor... Filhos...

Naquele instante, a dor e a revolta atingiram Helena com força.

Uma súbita sensação de desespero tomou conta dela.

Ela percebeu, com uma clareza cruel, que tudo o que fez no passado havia sido por vontade própria. Amar Bruno não tinha sido seu destino, tinha sido seu castigo.

E ela não queria mais esconder a verdade.

Ela precisava dizer naquele momento.

Ela precisava contar ao Bruno que... Ela não podia ter filhos!
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