Emma
A orquestra passa para uma música mais ritmada, convidando os recém-casados à pista de dança. Todos os olhares se voltam para nós: Peter e eu, o casal do dia, a grande atração. A expectativa é que façamos a primeira dança juntos, uma apresentação pública do nosso “afeto”. Sinto o estômago embrulhar, mas não há escapatória.
Meu pai aproxima-se com um sorriso tenso, seguido por James Blackwood. Eles trocam alguns comentários sobre a festa, elogiando a decoração, a música, o buffet. Minha mãe e Margaret Blackwood também estão por perto. Todos parecem satisfeitos com o progresso do evento, ignorando o turbilhão pessoal que vivo.
— Emma, Peter, é hora da dança — diz meu pai, num tom que não aceita recusa.
Peter se aproxima, esboçando um sorriso que não atinge os olhos. Eu encaro seu rosto, lembrando-me do tapa que dei nele, do beijo com segundas intenções. Ele não comenta nada, apenas me estende a mão, de forma desafiadora. Engulo a raiva, aceito sua mão e seguimos para o centro do salão, onde um espaço é aberto para nós.
A música começa suave, e Peter me conduz. Sua mão na minha cintura emana calor, mesmo sobre o tecido do meu vestido. A outra segura minha mão com leveza. Não trocamos palavras no primeiro momento, apenas nos movemos ao som da melodia e eu evito seus olhos verdes, que perscrutam minha face. Os flashes das câmeras disparam, fotógrafos contratados para registrar o momento. Precisamos parecer um casal feliz, correto?
Meus pés obedecem à cadência, minha postura é impecável. Mesmo dilacerada por dentro, mantenho a máscara. Ao girar, vejo os rostos dos convidados: sorridentes, entusiasmados. Eles acreditam no espetáculo. É isso o que importa para as famílias. Aparências. Negócios. Uma imagem a zelar.
Peter se inclina ligeiramente, murmura algo:
— Você está estranhamente quieta, Emma. E outra coisa. Por que me bateu? E por que me beijou?
Eu o encaro surpresa. Por que ele tinha de falar do beijo? Encontro o sorriso debochado de sempre.
— Não tenho nada a dizer — respondo, a voz baixa, mas firme, virando meu rosto. — Vamos apenas cumprir nosso papel.
Ele aperta minha mão um pouco mais, seu toque em minha cintura me puxando mais para perto. Talvez também esteja inquieto, pensando se eu o vi com Jessica. Por enquanto, mantenho o silêncio sobre isso, mas esquecerei. Apenas não aqui, não agora, quando temos uma plateia nos observando.
Um arrepio me percorre a espinha novamente, quando o ouço murmurar em meu ouvido:
— Acho que estão esperando um beijo.
Minha respiração fica suspensa por um minuto e torno a encará-lo. E lá está o sorrisinho de lado, me provocando, me desafiando.
O beijo anterior foi um ímpeto. Apenas aconteceu antes que eu pensasse. Mas, nunca o beijaria deliberadamente. Ainda mais depois do que presenciei entre ele e Jessica.
— Você bem que queria, não é? — é minha vez de provocar.
Engulo em seco quando os olhos dele pousam em minha boca e ele diz com voz baixinha e suave.
— O que eu tenho a perder?
Nossos olhos se encontram e ficam presos por alguns longos segundos.
Com uma súbita coragem que vem não sei de onde, me aproximo lentamente, notando as pupilas dele se dilatarem.
— Só nos seus sonhos.
O risinho que ele solta junto ao meu pescoço, irritamente me provoca um calafrio no estomago.
A dança termina com aplausos. Nós nos separamos e começamos a tirar as fotos oficiais. Primeiro as fotos do casal, depois com os pais, padrinhos, parentes próximos. Cada flash é uma pequena punhalada, lembrando-me da falsidade desse momento. As poses são ensaiadas, os sorrisos forçados. Peter que me abraça mais que o necessário e eu sei que isso é somente para me provocar. O fotógrafo pede um sorriso mais aberto, e eu obedeço. Sou uma atriz presa a um papel que não escolhi.
Depois das fotos com as famílias unidas, chegam as fotos mais descontraídas, com amigos, colegas de negócios. Olho ao redor, buscando Jessica. Ela está no canto do salão, conversando com alguém, mas seus olhos encontram os meus por um segundo, desafiadores. Lembro-me de suas palavras cruéis. Aperto a mandíbula, mantendo o sorriso para a câmera.
Concluída a sessão de fotos, Peter e eu somos conduzidos a uma mesa principal, onde seremos alvo de um pequeno discurso. Meu pai e James tomam o microfone. Meu pai fala sobre o quanto essa união significa para as empresas, para a família, como marca uma nova era de prosperidade. James ressalta a importância da parceria e o quão sortudo seu filho é por ter me encontrado. Palavras vazias.
Depois dos discursos, brindes são feitos com champanhe. Eu ergo a taça, tocando levemente o cristal com a de Peter. Ele me observa de canto de olho, como se tentasse decifrar meus pensamentos. Sabe que algo não está certo, mas não sabe o quê. Eu, em contrapartida, sei muito bem o que se passa: ele tem uma amante, e essa amante não é outra senão uma mulher que considerava minha amiga.
Os pais se aproximam novamente, agora mais discretos. Meu pai encara Peter, e James me encara, alternando olhares. Minha mãe e Margaret Blackwood nos cercam, formando uma roda de conselhos silenciosos. Meu pai pigarreia:
— Lembrem-se, agora vocês representam as duas famílias. Os olhos do mercado estão sobre nós. A imagem é tudo.
James concorda, balançando a cabeça:
— Peter, Emma, mantenham-se impecáveis. Não podemos permitir que rumores ou escândalos manchem o que construímos aqui.
Minha mãe se inclina para mim, a voz fria:
— Emma, seja inteligente. Não deixe transparecer nada. De agora em diante, vocês são um casal perfeito aos olhos de todos.
Margaret Blackwood sorri com serenidade exagerada:
— Lembrem-se da lua de mel. Será um ótimo momento para estreitarem laços e garantirem que a imprensa veja a harmonia entre vocês.
As palavras deles pesam sobre meus ombros. Tenho que manter a farsa, não posso desmoronar. Ao mesmo tempo, a raiva e a tristeza me consomem. Sinto-me uma marionete, manipulada por todos. Mas não há saída. A dependência financeira da minha família me prende a essa situação.
Sorrio e aceno com a cabeça, calando-me. Peter faz o mesmo. Não falamos nada que contrarie o discurso de nossos pais. É um acordo tácito: somos o casal modelo, e assim devemos permanecer.
A orquestra muda o tom mais uma vez, e os convidados se dispersam para comer, beber e conversar. Estamos livres do centro das atenções momentaneamente, mas não podemos baixar a guarda. Em algumas horas, iremos para a lua de mel, e aí será outro desafio encenar união e felicidade.
Tenho vontade de correr para um canto, arrancar esses sapatos apertados, tirar o vestido sufocante e gritar. Mas só posso manter o semblante tranquilo, disfarçando qualquer ferida. Aqui, no meio deste mar de sorrisos, estou sozinha com meus pensamentos dolorosos.
Peter toca minha mão de leve, como se quisesse dizer algo, mas eu a retiro com delicadeza, fingindo que arrumo o véu. Não há como ter uma conversa honesta agora. Ele precisa saber que não estou cega, que não sou ingênua. Mas contarei meu trunfo na hora certa.
A partir desse ponto, a noite corre como um rio de falsidades douradas. Bebidas, risadas, músicas. Todos acreditam no “amor” entre as famílias, na solidez da união. Ninguém desconfia do veneno por trás dos bastidores.
Somos peças de um jogo de poder e dinheiro, e nossa imagem vale mais do que nossa felicidade. Apesar da dor e da indignação, não tenho saída. Vou continuar fingindo, sorrindo para as câmeras, dançando conforme a música, enquanto a chama da revolta arde dentro de mim.
EmmaA madrugada avança e, finalmente, os convidados começam a partir. A maior parte das formalidades já foi cumprida: danças, fotos, brindes, conversas superficiais. Agora, antes de seguirmos para o aeroporto, preciso voltar ao camarim para trocar de roupa. Peter está ocupado conversando com o pai e alguns sócios, garantindo que tudo pareça perfeito até o último segundo.Caminho pelos corredores silenciosos rumo ao camarim. O som da música diminuiu, apenas um murmúrio distante. Ao chegar lá, vejo meu reflexo no espelho: o vestido branco, antes um símbolo de pureza, agora parece um manto pesado de mentiras. Minha maquiagem permanece impecável, mas meus olhos mostram cansaço e desilusão. Pego um lenço e o passo de leve no canto do olho, tentando não borrar a maquiagem.De repente, a porta se abre. Minha mãe entra, fechando-a suavemente atrás de si. Esperava encontrar algum gesto de conforto dela, mas é pura ilusão. Seu olhar frio me avalia, estudando cada detalhe. Por um segundo, penso
Peter Eu não esperava que uma troca de alianças pudesse mudar tanto a dinâmica de uma vida. Cresci certo de que meus caminhos seriam sempre abertos, de que as pessoas me receberiam de braços abertos, principalmente as mulheres, e de que nada me atingiria de verdade. Mas, desde que disse “sim” diante do altar, sinto um desconforto incomum sempre que olho para Emma, especialmente quando ela se esquiva de mim ou quando a vejo em conflito. É como se o chão sob meus pés estivesse prestes a ruir a qualquer momento, e eu, ao contrário do que sempre acreditei, não consigo manter aquela postura de completo desapego.Estamos na festa pós-cerimônia, e Emma ainda evita meu olhar. Ela conversa, aqui e ali, com parentes e amigos que a parabenizam. Tenho a impressão de que ela faz tudo no automático, um sorriso educado no rosto, mas os olhos já não brilham. Antes, eu pensava que isso pouco me importaria: afinal, nosso casamento é um contrato, um arranjo de conveniência. Contudo, cada vez que a vejo
PeterApós as fotos, Emma se afasta rapidamente, dizendo que quer se sentar um pouco. Acompanho-a para não parecer indiferente. É nesse instante que a vejo trocar olhares frios com a mãe. Helen, de cara fechada, aproxima-se.— Emma, lembre-se de que ainda precisamos da dança final antes de vocês partirem para a lua de mel — diz Helen, sem sequer se dirigir a mim. — Não vai começar a fraquejar agora, certo?Emma reage com um riso nervoso.— Não se preocupe, mãe. Vamos manter as aparências. Eu já entendi a minha função. — Ela lança um olhar furtivo para mim antes de se virar. — Não preciso que me lembre disso a cada segundo.Helen fica em silêncio, avaliando a filha com rigidez. E eu, espectador desse embate, sinto algo pulsar dentro de mim, uma pontada de empatia por Emma. Não sou fã de família controladora, embora a minha também tenha seus métodos de coerção. Ver Emma sendo pressionada assim me desperta uma vontade quase primitiva de rechaçar esse tipo de atitude, mas não encontro as
Emma O quarto é imenso e luxuoso, com uma vista deslumbrante para o mar. Mas só consigo enxergar a cama king size que domina o ambiente. Uma única cama. Meu estômago se revira com a ideia de dormir ao lado de Peter, principalmente depois do que presenciei no casamento.— Bem, parece que vamos ter que dividir — Peter comenta casualmente, jogando o paletó sobre uma poltrona. Seu tom é deliberadamente provocativo, como se a situação o divertisse. — A menos que você prefira o chão, é claro.Lanço-lhe um olhar fulminante. Ele mantém aquele sorriso irritante nos lábios, o mesmo que me faz querer socá-lo toda vez que o vejo. Como ele pode estar tão despreocupado depois do que aconteceu com Jessica?— Você pode ficar com o chão — respondo secamente, caminhando até a janela para admirar a vista e, principalmente, evitar olhar para ele.Peter solta uma risada baixa e rouca. — Não seja tão amarga, Emma. Somos adultos, podemos lidar com isso civilizadamente. — Ele se aproxima, e posso sentir su
PeterEla escolheu o vestido vermelho. Emma desce as escadas do hotel em direção ao restaurante como uma vingança personificada, o tecido vermelho fluindo ao redor de seu corpo, o decote nas costas revelando mais pele do que esperava ver esta noite. Engulo em seco, ajustando a gravata que de repente parece apertada demais.Não deveria me afetar assim. É apenas mais um vestido, apenas mais uma mulher. Mas quando ela passa por mim sem um olhar sequer, seu perfume deixa um rastro que me faz querer agarrá-la ali mesmo, no meio do saguão. Engulo em seco, meu corpo dando sinais de vida, admirando o movimento cadenciado e extremamente erótico da bela bunda dela. — Vamos acabar logo com isso — ela murmura, mantendo um sorriso artificial nos lábios.Saio do transe e limpo a garganta, ajeito a gravata uma vez mais, olhando para os lados, para me certificar de que não fui pego babando pela bunda da minha esposa. O restaurante do Grand Palazzo é um espetáculo à parte, com suas paredes douradas
Emma— Vou dormir no sofá — Peter anuncia depois do jantar, pegando um dos travesseiros da cama king size.Mantenho minha expressão neutra, embora algo em meu estômago afunde com suas palavras.— Ótimo — respondo secamente, pegando meu pijama da mala. — Pelo menos um de nós está sendo sensato.Ele me lança um daqueles olhares indecifráveis antes de se dirigir ao sofá do outro lado do quarto. É um móvel elegante, mas claramente desconfortável para alguém do tamanho dele. Não que eu me importe, repito para mim mesma.No banheiro, troco o vestido vermelho por um conjunto de cetim azul-claro. Ouço Peter se movimentando do lado de fora, provavelmente tentando encontrar uma posição confortável no sofá. Quando saio, ele já está deitado, apenas de calça de pijama, sem camisa. Desvio o olhar rapidamente das costas bronzeadas.— Boa noite — murmuro, deslizando para debaixo dos lençóis frescos.— Boa noite, Emma — sua voz soa rouca na penumbra do quarto, me deixando arrepiada.O silêncio que segu
EmmaO sol mal nasceu quando abro os olhos, sentindo a cabeça latejar. As memórias da noite anterior vêm em flashes confusos, o sonho intenso, o calor de outro corpo, o tapa... Deus, o tapa. Sento na cama de supetão, arrependimento correndo por minhas veias.Olho para o sofá vazio, os lençóis ainda amassados onde Peter deveria estar dormindo. Onde ele passou a noite? A culpa me corrói quando lembro da forma como o acusei, como o expulsei do quarto sem dar chance de explicação.O sonho ainda paira em minha mente, tão vívido que quase posso sentir... Não. Não posso pensar nisso agora. Preciso encontrá-lo, preciso ao menos ouvir sua versão dos fatos.Levanto-me e vou até a janela, observando o mar calmo lá fora. Como tudo ficou tão complicado? Era para ser apenas um acordo comercial, um casamento de conveniência. Então por que meu coração dispara toda vez que ele se aproxima? Por que sonho com seus toques, seus beijos?Uma batida suave na porta me sobressalta.— Emma? — A voz dele soa ro
EmmaO café da manhã no terraço do hotel parece uma tortura elaborada. O sol da manhã reflete na louça fina enquanto minha mãe disseca cada detalhe do nosso comportamento com seus olhos de águia. Ao meu lado, Peter mantém o sorriso educado de sempre, mas posso sentir a tensão em seus ombros depois da nossa conversa no quarto.— Querida, você poderia se inclinar um pouco mais para seu marido — minha mãe sugere, ou melhor, ordena com aquele tom açucarado que me dá náuseas. — Vocês são recém-casados, precisam parecer mais... conectados.Mordo a língua para não responder que estávamos perfeitamente "conectados" até seus passos no corredor interromperem nosso momento. Em vez disso, forço um sorriso e me aproximo alguns centímetros de Peter, que automaticamente coloca a mão em minha cintura.— Margaret, deixe os dois respirarem — meu pai intervém, mas seus olhos calculistas avaliam cada movimento nosso. — Embora eu concorde que vocês poderiam demonstrar mais... entusiasmo com a união.União