Deitado sobre a cama, pés tocando o piso e olhos vidrados no teto, Theodor tinha sobre o peito um porta retrato.
Um ano, era o tempo que fazia desde que tiraram aquela última fotografia. Era em família, e naquele verão em que viajavam pelas cidades de Alura, completos e felizes, ele não desejou nada mais para a vida. Apenas que estivessem juntos, e felizes assim. Mas já não estariam todos juntos, e seu coração jovem quase sufocava. Tinha apenas vinte e um anos, era cedo demais, e não acreditava que tivesse aproveitado o bastante com a mãe. Então em silêncio, chorava. — Entre. — Permitiu quando passos se aproximaram de sua porta, fracos, os punhos tocaram a madeira que a revestia. A porta foi aberta, revelando sua donzela. — Achei que tivesse ido para casa. — Comentou se sentando. Kimberly foi até ele e o abraçou. — Estava indo, mas acabei desistindo. — Respondeu segurando uma de suas mãos. Theo havia pedido que fosse embora porque queria ficar sozinho, ela cedeu. Mas enquanto se afastava, repensou, então pediu aos pais que lhe deixassem em algum lugar, e chamou um táxi. — Quer fazer alguma coisa, sair para caminhar, rir das comédias românticas, me ganhar no basket? — Questionou acariciando seu rosto. — Não, eu não quero fazer nada. — Theo respondeu melhor lhe observando. Seus olhos eram verdes, e intensos, o cabelo era naturalmente ruivo, mas Kimberly pintava para que ficasse mais destacado. Era lindamente, simpática, e estudava arte. — Tudo bem, nós podemos fazer nada então. — Resolveu sorrindo meiga. — Kim, sei o quanto gosta de pintar. Sei que essa é sua paixão, então não quero continuar atrapalhando seu sonho. — Inesperadamente, porque nem ele entendia de onde vinha aquele ideia, Theo começou por dizer confundindo a cabeça da outra. — Por isso, acho melhor terminarmos. — Proferiu. Claro que doía, mas parecia tão certo tomar aquela decisão, que decidiu que suportaria. — Como, o que está dizendo? — Kimberly piscou atónita. Continuou o olhando, e como não foi expressada nem uma outra palavra, a revelação chegou ao seu cérebro. — Theo, você não me atrapalha. - Esclareceu assustada. — É claro que atrapalho, e vou atrapalhar mais quando precisar viajar para o seu curso. Agora você não vê, mas vou complicar tanto a sua vida lá para frente, que vai passar a me odiar. — Rebateu o d'Almeida. — Mas que raio Theo, agora você sabe melhor dos meus sentimentos que eu? — Atirou chateada. — Isso não é justo, não é certo. Você acabou de perder a sua mãe e não está pensando bem, não tente me fazer sentir ruím agora. — Advertiu apontando o dedo. — E exatamente por isso que estou falando. — Theo contrapôs.— Acabei de perder a minha mãe, e descobri o quanto sentir saudades machuca. Tem vezes que choro, sinto raiva dela por não estar aqui, sinto raiva de mim por estar com raiva dela, sinto como se não pudesse respirar... não quero ter que sentir sua falta também. Fazer você sentir a minha falta, desejar voltar, mas não poder porque está perseguindo seu sonho. Eu não quero atrapalhar você, Kimy. — Relatou. — Mas eu vou sentir a sua falta de qualquer jeito, e você vai sentir a minha. Eu vou ficar triste se não poder voltar para você depois, e você também. — Comentou tristemente. Ainda segurava sua mão, e chorava. — Porquê está fazendo isso, porquê estamos tendo essa conversa agora? Não faz nem três horas que entramos a sua mãe, por favor não faça isso. — Pediu em desespero. — Não estou pronto para sentir saudades de mais ninguém, ficar esperando que volte. Eu não quero isso. — Comunicou Theo. — Eu queria que fosse diferente, mas é assim que vai ser. — Acrescentou. — Está fazendo de propósito, quer me fazer sentir mal, quer me manipular, já pedi que não fisesse isso. — Kimberly acusou. Theodor suspirou. — Theodor, não faça isso comigo. — Exigiu magoada. — Eu só não entendo porquê quer me deixar. Não vou sobreviver com migalhas de amor, então prefiro que não precise voltar. — Atirou mais alto que o normal. — Está sendo egoísta Theo, isso não é justo. — Kimberly gritou de volta. Em resposta, Theodor virou o rosto para o lado. — É sério? — Questionou magoada. Theodor não respondeu. Kimberly retirou o anel de compromisso que adornava seu dedo, jogou na cara dele e depois saiu enfurecida. [...] "— Elizabeth venha me ajudar com o bolo. — Mariana pediu colocando o avental de cozinha. Theodor fazia 19 anos, e sua mãe, sendo mãe, estava fazendo um bolo para ele. Já seu pai e madrinha, estavam na parte de trás da casa pintando um cartaz. E Elizabeth, bom, apenas olhava as coisas em volta, enquanto teclava desinteressada em seu novo portátil. — Não ouviu Elizabeth? Venha me ajudar com o bolo. — Repetiu um tempo depois. — Já vou. — Elizabeth respondeu no automático. Os olhos ainda na tela. — Liz. — Mariana chamou, mais impaciente. — Venha aqui agora. — Ordenou. E sem hesitar, a menina deixou o computador de lado indo para junto da mãe. — Coloque aquele avental e me ajude. — Apontou o pedaço de pano branco, sua voz retornando ao tom sereno. — Porquê tanto trabalho? Theo provavelmente vai sair para comemorar com os amigos e vai esquecer que nos existimos. — Dando o nó no avental, Elizabeth refilou. — Seu irmão não é de fazer essas coisas, Liz. — Mariana defendeu concentrada no bolo que decorava. — E mesmo que faça, não importa, quero fazer por ele. — Acrescentou. — Vai perder tempo, mamãe. Mas se você quer fazer... - Deu de ombros fazendo uma careta. Sobre o olhar atento da mãe, pegou no saco de pasteleiro começando a despejar a massa de qualquer jeito. — Não é assim. — Mariana repreendeu abandonando o dedo. Birrenta, Elizabeth fechou a cara deixando o saco sobre o balcão. — Mãe, eu não sei fazer essas coisas, porquê não encomendamos um? — Perguntou. — Primeiro: porque você precisa aprender, e segundo: porque eu quero fazer para o meu filho. — Mariana respondeu resoluta. — Que drama todo é esse menina? Está passando muito tempo com seu tio. — Devolvendo o saco as mãos da filha, comentou a senhora. — Mãe. — Mais uma vez, Elizabeth resmunguou. Contrariada seguia os passos da mãe para decorar os cupcakes. Sua mãe a olhou e então sorriu amável quando viu que estava fazendo certo. O cabelo ondulado preso no topo da cabeça, a roupa meio amassada e suja com a massa do bolo, mas ainda estava linda. Sempre que sorria, Elizabeth não deixava de ver a beleza de Mariana. — Pegue o meu telefone e ligue para Kim, peça que traga seu irmão. — Instruiu. — Pode até não ser uma super festa, mas ele vai saber que nos importamos e que muito o amamos. — Acrescentou deixando de lado o saco de pasteleiro. — Sabe Liz, eu amo muito você e o seu irmão. — Completou colando sua testa a da filha. Sorria de forma meiga, e por alguma razão, Elizabeth sentiu o peito se aquecer com tal declaração. — Eu também amo muito você mamãe. — Declarou. Não se conteve, e a abraçou." Estava frio quando Elizabeth abriu os olhos. A janela estava aberta. Não lembrava quando foi que a deixou assim, assim como também não lembrava como foi parar em seu quarto. Piscou os olhos e percebeu, estava se tornando recorrente. Sentando-se sobre a cama, olhou seu relógio de pulso. 5 da tarde. O sonho, ou melhor, a lembrança ainda estava viva em sua mente cavando buracos de saudade. Um sentimento intenso de raiva a tomou. Lençóis e almofadas foram jogados para longe, mas tão rápido quanto chegou, o sentimento foi embora, deixando apenas uma sensação enorme de vazio. No entanto, o vazio também passou, cedendo lugar a uma enxurrada de sentimentos: medo, angustia, desespero, raiva,... E por uma ou mais horas passou por aquele ciclo vicioso até que de algum lugar tirou forças e conseguiu se levantar. [...] Era a segunda vez desde a morte de Mariana que estavam todos juntos ao jantar. E tal igual a outra vez, o ambiente permanecia sombrio. Sentindo os olhos pequenos pelo cansaço, Elizabeth chegou a se perguntar se algum dia voltariam ao normal. Nada se ouvia, apenas o som emitido pelos talheres ao se chocarem acidentalmente com os pratos. O silêncio era uma constante, e ao que parecia, todos estavam perdidos em suas próprias cabeças. Na cadeira principal, estava Anderson. A sua direita, o lugar vazio pertencente a Mariana. Theo estava ao lado da irmã, e d tempos em tempos, olhava para o lugar a sua frente, como se procurasse por algo, e depois baixava a cabeça em tristeza. Sua mãe. Era por ela e sua presença alegre que buscava. Os elogios muito bem feitos a culinária do marido, os sorrisos rasgados, as conversas animadas com Ana, ou apenas seu olhar atento sobre os filhos. Era pela mulher que lhes deu a vida, que buscava com o olhar. Cansada, Elizabeth bateu os olhos na madrinha, que de frente para ela, se sentava a esquerda de Anderson. Nada vinha dela também. Nada havia mudado naquela mesa, com exceção, claro, da permanente ausência de Mariana. Sendo este um facto gritante, que mesmo tentando não conseguiam ignorar. — Theo, não está comendo? — Ana foi a responsável pela quebra do silencio mortal. Instantaneamente, Elizabeth voltou a atenção para o irmão. — Não estou com fome. — Respondeu deixando de lado o garfo. Seu prato ainda estava intacto, e os movimentos desinteressados do garfo em torno do prato, deixavam claro sua evidente falta de apetite — Não pode ficar tanto tempo sem comer Theodor, você precisa se alimentar. — Anderson o repreendeu já que ele não comia desde a noite anterior. — Sim, eu sei disso, só não estou com fome agora. — Theo respondeu, no entanto, seu tom era entediado, como se já tivesse tido a mesma conversa antes. E pela expressão que Elizabeth captou da madrinha, eles já haviam tido aquela conversa antes. — Depois eu como. — Garantiu passando a mão rapidamente pelo rosto. O tom de voz usado era tranquilizador, e pareceu surtir efeito nos adultos. — Seu anel caiu? — Curiosa, Elizabeth perguntou ao notar a ausência deste em seu dedo. — Tirei. — Theo respondeu. — Tirou? — Devolveu confusa. Desde que ele havia colocado, nunca havia tirado, mesmo quando tivesse brigado com Kimberly, então a confusão era justificada. — Sim Elizabeth, tirei. — Respondeu impaciente voltando a "brincar" com a comida. — Já não estou comprometido. — Contou. — Não está? E a Kimberley? — Ana se mostrou confusa. — Terminamos. — Theodor respondeu sentindo o peso da decisão tomada. — Quando foi isso? — Chocada, sua irmã questionou. — Há algumas horas.— Elizabeth ouviu a voz do irmão, e sua mente só gritou: Não, não mesmo. Ele só pode estar perdendo o juízo. — O que houve? Vocês brigaram? — Anderson perguntou bastante interessado. — Não brigamos. — Theo respondeu, e havia um toque de amargura em sua voz. — Ela vai viajar. Um intercâmbio ou assim, dois anos. — Quase cuspindo as palavras, lembrou. — Mesmo que viaje, não acha que foi muito precipitado? — Anderson voltou perguntar. Não havia cobrança ou repreensão em sua voz, apenas interesse, e um quê de preocupação também. — Precipitado? Kimy vai me abandonar para ver o mundo, isso sim é precipitado. — Theodor respondeu ainda mais amargo. Ergueu a cabeça e esperava não ser mais questionado. — Kimberly não está te abandonando Theo. Está indo estudar, e ela vai voltar. — Ana tomou a palavra. Elizabeth conhecia o assunto, seu irmão não estava muito contente com o relacionamento a distância, mas não esperava que ele fosse criar tanto caso. Ao menos, não àquele ponto. — E isso quando mais preciso dela. — Theodor rebateu fechando a cara. Queria ser compreendido, não repreendido. — Kim não tem culpa pelo que está acontecendo agora, e ela já havia decidido. Então não a acuse te abandonar se foi você que terminou. — Elizabeth defendeu, acreditando que a ruiva não faria tal coisa, não quando se importava tanto com seu irmão. — O que disse? — Chateado, Theo questionou. Com os olhos, Ana pediu que se acalmasse. — Você terminou com ela, certo? — Elizabeth perguntou, estava irritadiça, e lhe irritava mais o comportamento do irmão. Theo afirmou. — Então não pode dizer que ela está te abandonado, aliás, nós não devemos prender as pessoas ao nosso luto, deixe que elas persigam seus próprios sonhos. — Argumentou voltando a se concentrar na comida em seu prato. A mesa parou por um minuto enquanto absorviam suas palavras. Elizabeth estava pedindo que não fossem egoístas? — Fique quieta.— Em advertência, Theo rosnou se sentindo traído. — Theo querido, sua irmã tem razão. Kimberly tem direito de perseguir seus próprios sonhos e você não tem o direito de interferir. — Ana alertou. — Eu não estou interferindo em nada, Nana. — Theodor se defendeu. — Porquê acha que terminei? — Impaciente, questionou. Se sentia apedrejado, como se todos olhassem apenas o lado da menina doce que queria estudar, e não o dele, o jovem moço que acabou de perder a mãe. — Estou vendo o seu lado, mas ainda acho muito precipitado ter terminado com ela hoje. Sua mente ainda está confusa e você claramente não está pensando direito. — Anderson aconselhou. Theodor suspirou. — Eu já pensei. — Resoluto, Theo voltou a pegar no garfo. — O detetive que está cuidando do caso da mamãe, ele vem amanhã, não é? — Mudando repentinamente o foco da conversa, despertou os outros para o assunto em causa. — Sim. — Afirmou o médico. Suas feições foram tomados por traços mais sérios, e Ana lhe lançou um olhar solidário, ao qual respondeu sorrindo de forma fraca. — E já têm pistas? Sabem porquê alguém atacou mamãe? — Voltando a atenção para o pai, Elizabeth questionou. — Saberemos amanhã. — Tenso, Anderson respondeu. Uma ansiedade estranha o tomou, e quando seus olhos cruzaram com os do filho, em vergonha baixou o rosto. — Agora voltem a comer, por favor. — Pediu escondendo o nervosismo.— Vai querer alguma coisa para beber? — Gentil, Ana perguntou ao capitão da delegacia de homicídios que acabava de chegar em sua casa. Eduardo Simas, era este o nome do homem de terno cinza. — Não obrigado, pretendo ser breve. — Educado, o homem recusou se acomodando no lugar indicado. Assim como Anderson, estava na casa dos 40, mas diferente deste, Simas já possuía alguns traços da "velhice" em sua cabeça. — Trouxe o relatório da autopsia. — Comunicou estendendo o envelope amarelo ao dono da casa. Atentos, seus filhos o olharam ler o material, ao mesmo tempo que se perguntaram se aquele era o procedimento padrão, se sempre deixavam os familiares das vítimas ler o laudo médico. E porquê o capitão de uma divisão inteira estava lá, investigando aquele caso? — Diz que Mariana morreu instantaneamente após uma facada no coração. — Comunicou o médico. Mas aquilo, todos já sabiam. — E que o agressor é destro. — Acrescentou calmamente. Elizabeth
Seis anos haviam se passado.Seis longos anos desde Mariana havia sido assassinada.O assassino ainda estava a monte, e eles viviam silenciosamente sobre uma guerra declarada. Uma família se quebrou naqueles anos de dor, raiva e incerteza. Até tentaram, mas nunca mais foram os mesmos.De um lado, estavam os filhos obstinados a descobrir a verdade por trás da morte da mãe, e do outro, um marido que já havia aceitado aquele desfecho. Firmes, cada lado defendia seus interesses, e muitas vezes, a doce madrinha, foi apanhada no meio.Theodor não se deteve e contratou, com o dinheiro que lhe deu seu tio, um detetive particular três meses após a morte de Mariana, mas esse não teve êxito. E a razão era só uma, Simas. O capitão convenceu o detetive contratado a abandonar o caso de Mariana, porque segundo ele, nunca chegaria ao fim. O detetive recuou, como se fosse apenas preciso uma opinião para desistir de toda uma investigação. O caso foi mais uma
— Barbie. — Elizabeth saudou adentrando a sala, que em tamanho e decoração ganhava da sua. Suas salas deixavam bem claro quem trabalhava com o quê. — Raquel. — Alegre, Clara retribuiu deixando o computador de lado, pousando os cotovelos sobre a mesa, apoiou o rosto nele sorrindo de forma amigável. Sem esperar por convite, Elizabeth sentou em uma das cadeiras de frente a sua. — Estou vendo uma pitada de satisfação nesse seu rosto, o que é? Andou falando mal de mim, ou é só do casamento? — Elizabeth perguntou bem humorada. — Nenhum dos dois, apenas relaxando para não ter rugas. — Clara respondeu . — E você, está melhor? — Retornou bastante atenciosa. Mas Elizabeth estranhou aquele "melhor"... — Estou perguntando porque ontem foi um dia difícil, e não atendeu minhas chamadas. — Esclareceu. — Eu estou bem, querida Clara. — Elizabeth garantiu. O dia anterior, marcava exatamente seis anos desde que Mariana havia partido. E como já era de se esperar, Elizabeth estava distraída e pouco
Muito mais cedo do que o normal, Elizabeth chegou á empresa. Dentro do vestido justo e rabo de cavalo alto, saudou os seguranças que ficavam do lado de fora do estabelecimento, e depois adentrou. O saguão vazio e as luzes ainda apagadas a receberam.— Está atrasada. — Clara declarou assim que a outra passou pelo balcão da recepção, que pelas horas, estava vazio. — Não sabe ser mais rápida? — Implicou.Estava parada junto ao elevador ostentando um semblante pouco simpático.— O que estou fazendo aqui? Não deveria pedir a ajuda da Cléo, ou da Margarida? — Elizabeth perguntou antes de levar a boca o copo que lhe foi oferecido. Café. — Eu deveria, mas a Margarida conhece a noiva, e a Cléo é nossa amiga, deixe ela descansar um pouco. — Clara chamou o elevador. Perante a resposta, a morena só conseguiu pensar que sua amiga era uma desgraçada.— E o que exatamente eu vou fazer? — Elizabeth voltou a questionar, desta vez adentrando o ele
— Alô. — Elizabeth respondeu ao telefona que sabia vir da recepção.— Liz, seu irmão está subindo. — Laura anunciou.— Obrigado por avisar. — Agradeceu antes de desligar.- Theo está subindo. — Anunciou para Clara voltando a sentar no lugar anterior.— Boa! Faz uma semana que não o vejo. — Clara devolveu com foco total nas peças de dominó que empilhava. Montava uma torre com sete andares. — É verdade? — Perguntou o querido irmão. Havia entrado sem bater.— Olha só o que fez. — Clara bradou. Sua torre havia caído, fruto do susto que levou com a entrada repentina de Theo. — Theo. — Resmungou começando a reagrupar as peças espalhadas pela mesa. Aquele era seu hobby, e depois que foi tudo ao chão, tinha uma expressão de quase choro.— Liz, é verdade, sim ou não? — Ignorando Clara e seus resmungos descontentes, voltou a perguntar. Daquela vez, menos afobado.— Não bate na porta, derruba meu projeto, nem bom dia dá,
— Então está me dizendo que quando voltar da viagem, não terei mais sobrinha. É isso mesmo? — Do outro lado do país, caminhando com os auriculares presos aos ouvidos, Donavan escutava atentamente seu sobrinho. — Isso mesmo, vou me tornar um assassino. — Theo respondeu. Já com um humor melhor, e já começava a fazer o jantar. — Sabe que está confessando seu futuro crime para um advogado, não é mesmo? — Don, como era frequentemente chamado, questionou achando aquela conversa bastante inusitada. — Estou falando com o meu tio, se tiver algum advogado, isso eu não sei. — Esperto, rebateu o menor. — Está certo, mas o que fez a sua irmã para que tivesse se chateado? — Devolveu curioso. Palavras como: ela é uma traidora, está me deixando mal, não presta e algo mais foram proferidas, mas o motivo, ainda não sabia. — Eu sei que o senhor vai dizer que uma coisa não tem relação com a outra, e que trabalho é trabalho, mas
— Theo abra a porta, sei que está em casa. — Elizabeth gritou batendo na porta do apartamento pela quarta vez. — Preciso falar com você, é importante. — Pediu. Novamente silêncio. —Theo. — Chamou começando a se perguntar se ele realmente estava em casa.— O que quer? — Seco, Theo perguntou ao abrir a porta. Seus olhos a analisaram, e sua postura gritava o quanto estar chateado.— Conversar. — Elizabeth declarou lhe afastando com a mão antes de entrar na casa. — Tenho boas notícias. — Animada, o seguiu até a cozinha. Diferente do seu apartamento, a cozinha de Theo não era no formato americano, na verdade se parecia com a casa dos pais, e ficava no final do corredor.— Aquela sua amiga morreu? — Perguntou expectante. — Então o que é? – Retornou amargo após ter recebido um não.— Simas saiu do cargo. — Contente, Elizabeth via o irmão se mover pelo espaço.— Hm. — Confuso, Theo balbuciou lhe passando dois pratos, que ela supôs, eram para o jantar. — Qual Simas? — Perguntou vascu
Theodor d'Almeida, era arquiteto. Havia desenhado a planta da clínica de seu pai, participou do projeto habitacional proposto pelo Prefeito local, e fez as plantas das casas de alguns dos maiores empresários da cidade.Trabalhava em uma empresa local de arquitectura e engenharia, mas pouco se fazia presente no local de trabalho. Seu contrato era diferenciado, e lhe permitia aparecer lá só quando se fizesse necessário.Ou seja, quando encontravam para ele um novo projecto. Quando queria concorrer em um, quando um novo cliente ia até lá solicitar o seu trabalho...e depois trabalhava de casa, ou onde estivesse. Tinha um vida estável. Dirigia o carro que era de sua falecida mãe, e morava em um apartamento bem mobiliado.Poderia estar casado e com filhos, mas seu coração estava desocupado.Poderia ser uma jovem de 27 anos como muitos outros, mas o fantasmas do passado ainda lhe perseguiam, então parecia estar preso a algo.— Uau, pensei que