9- Um assassino invisível.

— Vai querer alguma coisa para beber? — Gentil, Ana perguntou ao capitão da delegacia de homicídios que acabava de chegar em sua casa. Eduardo Simas, era este o nome do homem de terno cinza.

— Não obrigado, pretendo ser breve. — Educado, o homem recusou se acomodando no lugar indicado. Assim como Anderson, estava na casa dos 40, mas diferente deste, Simas já possuía alguns traços da "velhice" em sua cabeça. — Trouxe o relatório da autopsia. — Comunicou estendendo o envelope amarelo ao dono da casa.

Atentos, seus filhos o olharam ler o material, ao mesmo tempo que se perguntaram se aquele era o procedimento padrão, se sempre deixavam os familiares das vítimas ler o laudo médico. E porquê o capitão de uma divisão inteira estava lá, investigando aquele caso?

— Diz que Mariana morreu instantaneamente após uma facada no coração. — Comunicou o médico. Mas aquilo, todos já sabiam. — E que o agressor é destro. — Acrescentou calmamente. Elizabeth piscou algumas vezes.

Era só aquilo? Aquela leitura monótona, como um relatório de compras ou como se estivesse lendo a carta de um velho amigo? Era tudo o que Anderson tinha para mostrar?

Entendia que como médico, Anderson tentasse sempre ser o mais objectivo possível, mas aquele não era um de seus tantos casos no hospital.

Era a sua mãe, a esposa dele.

Então queria que ele fosse menos médico, e mais um marido enlutado.

— Exatamente. — Afirmou o capitão. — E não encontramos a arma do crime, o que nos faz acreditar que o assassino tenha levado.— Acrescentou Simas, fazendo acelerar alguns corações. Tinha olhos rasgados, e o terno muito bem alinhado.

— E já têm alguma pista, algum ponto de partida? — Agitado, Theodor questionou. Tentava não transparecer o que sentia, mas falhava miseravelmente.

— Não concretamente. — Respondeu o homem que atendia pelo nome de Eduardo.

— O que isso quer dizer, já se passaram três dias, não têm nada? — Ana disparou. — Desculpa, me alterei um pouco. — Envergonhada, desviou o olhar dos olhos sérios do detetive.

— Não precisa se desculpar senhora, é totalmente aceitável sua preocupação. — Simas tranquilizou com certa gentileza. — Voltando ao assunto, não temos um um ponto de partida devido à natureza do roubo, e acreditamos que...

— Roubo? — Elizabeth se sobressaltou. Confuso com a explosão da menor, Simas afirmou movendo levemente a cabeça. — Mamãe foi apunhalada, os cartões multibanco estavam com ela, e o carro também. O que roubaram então? — Questionou cheia de uma nova determinação. — Se fosse um roubo, não acha que teriam levado o carro e os cartões? — Retornou irritada.

"Como ele poderia ser tão, tão... idiota?"

— Por isso mesmo, Senhorita Elizabeth. — Envolto em uma calma cirúrgica, Simas afirmou. Confusa, a adolescente olhou para o irmão se perguntando qual seria a explicação lógica para aquilo? — O agressor levou apenas a pulseira de prata que a vítima usava e um valor menor a 2 mil, e isso nos leva a crer que o assassino seja alguém viciado em drogas. — Acrescentou.

— O quê? — Theo inqueriu. Incredulidade bem presente em sua voz. — Passou três dias investigando só para chegar a essa conclusão? Já procurou por testemunhas, registros telefónicos, ligações com algum caso? Ao menos já tomou nosso depoimento? — Disparou.

— Theo. — A voz de Anderson parecia pedir para que o filho se acalmasse, ao que ele responde com um suspirar alto.

Elizabeth por sua vez, achou ser difícil encontrar a palavra certa para descrever tudo o que ouviu, mas se procurasse bem, talvez fosse dizer que estúpida, era a palavra certa.

— O telefone da vítima não estava no carro, não existem testemunhas , e quanto aos depoimentos, Dr.Anderson me disse tudo o que necessário saber sobre a vítima. — Simas argumentou, mas para os irmãos d'Almeida, só parecia que ele queria se justificar.

E como assim Anderson havia lhe dito tudo o que era necessário saber sobre a vítima?

— Isso não faz sentido algum. — Theo se manifestou. Parecia exausto, e não apenas pelas noites mal dormidas, mas porque não aguentava aquela história. Seus ouvidos não conseguiam acreditar no que ouviam.

— Sei que é difícil aceitar a morte de um ente querido, ainda mais por motivos tão banais. Mas foi isso o que aconteceu, sinto muito. —Simas assegurou.

— O que o senhor está dizendo? Não tem relação alguma com não aceitar, é que não faz mesmo sentido. — Theo se defendeu. Não estava sendo um idiota irracional, esperava não estar sendo, mas verdade fosse dita, aquele homem e sua explicação meia boca, não faziam o menor sentido.

— Talvez até faça. — Ana concordou para ver seus afilhados a olharam incrédulos. — O assassino não levou o carro e nem os cartões porque apenas precisava de uma pequena quantia, e devido ao efeito ou falta de drogas acabou atacando Mariana. — Explicou o que vinha em sua mente.

— Ah, por favor. — Theodor resmunguou contrariado. E Elizabeth se espantou com a facilidade com a qual ela estava acreditando em Simas.

— É exatamente isso que concluí na investigação. — Falou o ser, que rapidamente, Elizabeth descobriu odiar. A máscara de homem sério escondendo o profissional incompetente. O julgou um mau carácter naquele momento.

— E como explica o carro dela parado no meio da estrada? — Cerrando os punhos, Elizabeth tentava se conter. Não ser mais rude do que provavelmente seu rosto estava sendo...

— Ela deve ter parado ao avistar o indivíduo, e ninguém viu por ser uma estrada pouco movimentada. — Parecendo incerto quanto a possibilidade de ser real, Simas explicou.

— E o indivíduo? — Theo perguntou em modo automático.

— Não encontramos impressões digitais e provavelmente nunca encontraremos. — Simas respondeu. Elizabeth o olhava concentrada, com repulsa o olhava, e se questionava como alguém poderia ficar tão satisfeito com a própria incompetência. — E por isso, o caso foi encerrado. — Despejou.

— Encerrado? — Elizabeth rebateu instantaneamente. Piscou algumas vezes, questionando seriamente sua audição e percepção. O que ele havia dito?

— Como? — Se levantando bruscamente do sofá, Theo perguntou surpreso.

— Isso mesmo, esse caso não vai dar em nada, então decidi encerra-lo aqui. — E como se tivesse certeza de todas as coisas no mundo, Simas falou.

"Pessoa detestável"

E mais uma vez, a menina simpática de olhos castanhos estava sendo rude em sua cabeça.

— Esse caso? A quem o senhor está se referindo como assim? — Aborrecido, Theodor confrontou.

— Theodor. — Segurando o braço do filho, Anderson lhe instruía a ter calma. Brusco, Theo se desvenciliou do pai antes de suspirar alto na tentativa de se acalmar.

— Não podem fazer isso. — Fragilizada, Elizabeth apelou. — Papai. — Com os olhos marejados, se voltou para o pai. Um pedido silencioso de ajuda.

— Senhorita Elizabeth, entendo que seja difícil aceitar. — Afirmou o capitã. Como poderia afirmar que entendia, se não era ele recebendo uma explicação idiota para a maior perda de sua vida, como se atrevia a dizer que entendia? — Mas pense que será melhor assim. Prolongar essa investigação, é exatamente o mesmo que prolongar a dor que está sentindo, tente entender que assim será melhor. — Suas palavras deslizavam, doces e meigas, eram tentadoras.

Afinal, que mal faria? Acreditar, fazer seu coração descansar, enterrar a ansiedade, sumir com a incerteza. Acordaria de manhã, e saberiam que sua mãe partiu por um infortúnio. Que estava no lugar errado na hora errada.

Mas então se questionaria porquê Mariana estava naquela estrada vazia, porquê não pela rota normal?

Então não poderia dormir a noite. Viraria de um lado, e depois do outro.

Se perguntaria se alguém havia lhe atraído até lá por maldade, se tinha relação com algum caso antigo ou até o novo.

Elizabeth não conseguiria aguentar as incertezas.

Então não, nunca aceitaria aquele desfecho estranho que lhe dava Simas.

— Agora preciso ir. — Simas anunciou pondo-se em pé. Ajeitou o casaco do terno no corpo, antes de reaver a autópsia.

— Acompanho-lhe até a porta. — Anderson ofereceu. — Obrigado por tudo, Eduardo. — Prestando atenção, seus filhos notaram quando agradeceu apertando a mão de Simas.

Não entenderam pelo que agradecia, mas também não interferiram.

— Não precisa agradecer Anderson, estou apenas fazendo meu trabalho. — Simas retribuiu e segundos depois já não estava na casa.

— Papai. — Elizabeth chamou-o quando pretendia subir as escadas. Ainda de costas, Anderson moveu sutilmente a cabeça indicando que prosseguisse. — Porquê não disse nada, vai deixar as coisas assim? Vai permitir que encerrem assim? Sem um culpado, sem uma explicação plausível? — Indignada, procurou saber. Movendo o corpo, se colocou em pé com a pretensão de ir até onde estava o progenitor.

— E o que quer que faça, Elizabeth? — Devolveu o médico. Não havia traço algum do tom de voz meigo ao qual estava habituada, muito pelo contrário. Sua voz grave estava fria e seca.— Quer que eu vá de beco em beco procurar pelo assassino de Mariana? — Sua voz já carregava mais emoção quando voltou a perguntar. Desta vez, a encarrando.

— Não. — Respondeu apressada. — Mas quero que obrigue aquele capitão a fazer o trabalho do modo certo, e que ele pare de atribuir a culpa a seres inexistentes. — Despejou em um só fôlego.

— Está dizendo que o Capitão da delegacia de homicídios de Alura, inventou um culpado? Porquê inventaria? — Anderson questionou. Elizabeth engoliu em seco sem coragem para responder. — Então quem acha que matou Mariana, me diga Elizabeth, me diga quem matou minha esposa. - Exigiu irritado. Novamente Elizabeth engoliu em seco. — Não vai responder, Elizabeth? — Sua voz ressoou fria se aproximando da filha.

— Porquê está perguntando isso para ela? Exiga ao seu amigo que faça direito o trabalho dele d tera respostas. — Theodor se intrometeu também em pé. Ana suspirou presenciando tamanha tensão.

— Elizabeth. — Ignorando seu primogénito, Anderson chamou com dor na voz. Cansado, colocou as mãos em seus ombros. — Sua mãe morreu. — Despejou. Olho no olho, Elizabeth sentiu que lhe caia uma tonelada em cima. — E mesmo que encontrem o culpado e o condenem a tantos anos de prisão, ela não vai voltar. — Seus olhos negros marejaram com sua própria fala. — O que nós temos que fazer é seguir em frente. — Acrescentou enxugando as lágrimas que escorriam pelo rosto da filha.

— Como assim seguir em frente , do que o senhor está falando? — Irritada, Elizabeth afastou a mão do pai de seu rosto, e por consequência, se afastou dele também. — Quem o senhor está tão apresado para esquecer? — Disparou a menor.

Anderson suspirou, moveu os olhos para Theo e depois para Ana.

— Nunca esquecerei sua mãe. — Anderson determinou. — Mas ela morreu, um idiota qualquer a matou, nada do que fizermos vai fazer o tempo voltar. Então aceitem e mesmo que seja difícil no início , em algum momento, vamos seguir em frente. — Acrescentou.

Theodor se colocou atrás da irmã lhe segurando pelos ombros, porque ao seu ver, ela estava prestes a ceder.

— A sua esposa foi assassinada, a mulher para quem estava fazendo um jantar especial a menos de uma semana, e não quer saber porquê? — Confuso quanto a reação do pai, Theo questionou. Anderson prosseguiu, inabalável, não desviava o olhar. — O senhor acha isso muito estranho? — Retornou.

— O que é estranho? — Anderson questionou.

— Uma advogada foi assassinada no mesmo dia em que ela venceu um caso importante. Mas não fomos chamados para prestar depoimento, o capitão parece não

estar fazendo nada, e como se não bastasse, o senhor não se importa. Eu não consigo entender. — Comentou. Sua voz denunciando o choro que reprimia.

— O que você não quer entender Theodor? Acidentes acontecem, Mariana estava no lugar errado. — Anderson argumentou.

— Isso não foi um acidente, alguém apunhalou a minha mãe! — Theo bradou.

— Um viciado em drogas, existem milhares na cidade, vá procurá-lo então. — Deixando fluir o quanto estava irritado, retribuiu o médico.

— Anderson. — A voz de Ana pareceu um raio de sol depois de um dia de tempestade, e desarmando seu amigo. — Vamos parar e nos acalmar, brigar não vai nos levar a lado nenhum. — Pediu.

— Perdi a minha mulher a menos de uma semana Theo, o tanto que isso me afeta, é difícil descrever... — Parecendo mais calmo, o médico começou por dizer. — O capitão fez o trabalho dele, e diferente de vocês, eu não preciso de uma explicação grandiosa ou de uma conspiração para preencher o vazio que ela deixou, nada disso vai trazê-la de volta. Então eu não quero ouvir mais nada sobre esse assunto. — Severo, pontuou antes de começar a se afastar.

— Nós vamos descobrir o que aconteceu com a nossa mãe. — Theodor soltou antes que ele subisse o ultimo lance de escada. — Seus medos não vão nos impedir. — Pontuou quando seu pai lhe dirigiu o olhar.

Uma chama queimando em seu coração, o desejo pela verdade lhe conduzindo e uma promessa silenciosa.

Eles descobriram o que havia acontecido com Mariana.

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