Episódio 03 – Aylin

Eu nunca vou entender o que eu fiz de tão errado nesta vida para merecer passar por tudo o que estou vivendo. É como se eu estivesse presa em um pesadelo constante, e a dor dentro de mim só cresce a cada dia. Parece que, por mais que eu tente encontrar alguma explicação, nada faz sentido. Eu só queria poder acordar e não sentir essa dor esmagadora no peito, esse vazio que me engole por dentro. Ser traída pelas duas pessoas que eu mais confiava foi um golpe fatal. Eu me sentia perdida, como se o chão tivesse sumido debaixo dos meus pés e eu estivesse caindo sem fim. O que eu fiz para merecer isso? O que eu poderia ter feito de diferente? Eu me perguntava insistentemente, mas as respostas nunca chegavam. Eu só queria entender, só queria saber por que tudo isso está acontecendo comigo.

As meninas tentavam me animar, me puxando de volta para o momento, tentando me fazer sorrir, mas era como se tudo ao meu redor estivesse em câmera lenta. Eu não conseguia me concentrar em mais nada. 

A diversão, que antes parecia algo tão natural, simplesmente desapareceu. Eu estava num lugar distante, presa nas minhas próprias emoções, e nada mais fazia sentido. A música, as conversas, o movimento... Tudo era só um borrão.

Eu queria ir para casa. Queria me isolar, fugir de tudo isso. Mas quando finalmente tentei dar um passo atrás, percebi algo no canto da sala. Baldric estava no centro de uma roda de pessoas, como sempre. As meninas estavam eufóricas, indo em direção a ele com os olhares brilhando de excitação, e me deixaram para trás. Não me importava. Eu não estava mais ali, fisicamente, mas sim em outro lugar. Fui para um canto mais afastado, onde poderia estar sozinha, onde ninguém poderia me atingir.

Foi então que percebi que Tobias estava se aproximando com a namoradinha dele. Só então notei quando a Elisabeth se afastou dele rapidamente, caminhando na direção do banheiro. Tobias ficou ali, parado por alguns segundos, até que os seus olhos, como se tivessem me detectado, se fixaram em mim. Eu queria sair dali, me esconder, evitar eles, mas algo dentro de mim me impediu de me mover. 

Eu estava nervosa. Um medo estranho cresceu em mim, algo que eu não conseguia explicar. Tobias, para mim, era um fantasma, uma sombra do meu passado, alguém que eu preferia ignorar. Ele representava tudo o que eu queria deixar para trás. Aquele homem, com seu jeito arrogante, insensível e frio, me causava um desgosto profundo. Eu queria que ele se afastasse, que fosse embora e me deixasse em paz, mas eu sabia que não seria tão fácil. Ele começou a caminhar na minha direção. O ambiente ao meu redor desapareceu por um momento. Eu podia ouvir meu coração acelerando, a respiração ficando mais curta. Eu queria correr. Eu queria gritar, mas as palavras não saíam. Ele era como uma múmia para mim, alguém morto, alguém do qual eu queria me afastar de todas as formas possíveis. Ele não significava mais nada, e eu desejava que ele nunca tivesse sido parte da minha vida.

Mas ele estava vindo até mim. E, por mais que eu tentasse me convencer de que poderia simplesmente ignorá-lo, a verdade era que ele sempre soube como me afetar. 

A arrogância impregnava a voz de Tobias quando ele se aproximou, os olhos carregando aquele brilho prepotente que me fazia querer vomitar.

— Ora, ora... Que bom que está sozinha. — O sorriso torto estampado no rosto dele me enojava.

Eu ergui o olhar devagar, sem pressa, sustentando sua expressão com a minha frieza.

— Some da minha vida, Tobias. Você morreu para mim.

Ele soltou um riso baixo, debochado. Um som carregado de desprezo.

— Eu vou sempre estar aqui. Sempre vou infernizar a sua vida, sua garota patética. Você cavou a própria cova.

Senti o sangue ferver, mas engoli a raiva. Ele queria uma reação, queria ver que ainda tinha algum poder sobre mim. Mas eu não lhe daria esse prazer.

— Eu nem lembro que você existe. Para mim, você já está morto.

O riso desapareceu do rosto dele num instante. O que antes era zombaria, virou algo sombrio. Seu olhar escureceu, carregado de uma fúria silenciosa que se acumulava como uma tempestade prestes a desabar.

Ele não gostava de ser descartado. Nunca gostou. Tobias sempre precisou do controle, da certeza de que podia manipular as pessoas ao seu redor. E agora, vendo que eu o enxergava como um nada, aquilo o consumia por dentro.

A tensão entre nós se intensificou no ar. Dei um passo para trás, querendo distância, mas ele foi mais rápido.

Sua mão se fechou ao redor do meu braço. Forte. Dura. A pressão de seus dedos na minha pele era como um ferro quente, me queimando, me lembrando exatamente do tipo de homem que ele era.

— Aonde você pensa que vai, porra? — Sua voz saiu em um rosnado grave. — Eu ainda não terminei de jogar umas verdades na sua cara.

Meu coração disparou, mas minha postura permaneceu rígida.

— Me solta, Tobias. Agora.

Ele ignorou. Os dedos apertaram mais. Uma pontada de dor subiu pelo meu braço, mas eu não demonstraria fraqueza.

— Você é ridícula. — Ele cuspiu as palavras. — Uma garota que eu só usei e continuaria usando. Teria me casado com você só para tirar a sua...

— Solta o braço dela.

A voz surgiu como um trovão no meio da tempestade. Firme. Afiada. Sem hesitação.

Tobias congelou por um segundo. Sua mão afrouxou no meu braço, e eu aproveitei para puxá-lo de volta para mim.

Ele virou o rosto, as narinas inflando, como um touro pronto para atacar.

O homem que se impôs entre nós exalava uma autoridade silenciosa e perigosa. Seus olhos não vacilaram ao encarar Tobias, e sua postura falava por si só: ele não estava pedindo.

— Não se mete onde não foi chamado, caralho. — Tobias rosnou, inflando o peito como se quisesse provar alguma coisa.

Mas qualquer um com meio cérebro perceberia que ele tinha acabado de mexer com a pessoa errada.

— Você acha mesmo que eu desceria ao seu nível, Tobias? — A voz firme e autoritária do homem à minha frente fez meu coração acelerar. — Você continua o mesmo cara prepotente, moleque e ridículo, que nunca sabe se contentar com uma mulher. E ainda tem a audácia de querer segurar no braço de outra só porque ela te rejeitou?

O silêncio ao redor pesou, mas Tobias apenas riu, uma risada debochada e carregada de arrogância.

— No caso, você tá equivocado, seu riquinho de merda. — Ele estreitou os olhos, cuspindo as palavras como veneno. — Aqui quem rejeitou ela fui eu, Roderick.

Ouvir aquele nome fez meu corpo travar por um instante. Só então percebi os olhares femininos sobre nós, atentos, curiosos e fascinados. O homem parado à minha frente não era qualquer um. Ele era o inimigo de Tobias.

— É verdade. — A resposta dele veio carregada de uma calma cortante, quase cruel. — Eu continuo rico, crescendo cada vez mais a minha fortuna. Mas, sinceramente, acho difícil você ter rejeitado uma loira linda como essa.

O impacto de suas palavras fez meu rosto esquentar. Uma onda de vergonha subiu pelo meu corpo, mas, ao mesmo tempo, ver a fúria crescendo no olhar de Tobias me deu uma estranha sensação de alívio. Ele merecia.

— Mas fui eu... — Tobias tentou retrucar, a voz carregada de raiva, mas eu o cortei antes que pudesse continuar.

— Estou cansada de ouvir a sua voz, Tobias. — Meu tom saiu afiado, carregado de toda a mágoa que eu tentava conter. — Vai lá com a sua namoradinha. Afinal, vocês se merecem. E, por acaso, vocês realmente achavam que eu perdoaria a traição de vocês?

As palavras saíram com mais peso do que eu esperava, mas não me arrependi. Eu precisava tirar aquilo de dentro de mim.

Foi então que senti o olhar de Roderick sobre mim. Quando ergui meus olhos para ele, vi um sorriso malicioso surgindo no canto de seus lábios.

— Senhorita, concede-me a sua companhia?

Meu corpo ficou tenso. Um nervosismo súbito tomou conta de mim, misturado com uma vergonha inexplicável. Mas, antes que eu pudesse responder, uma nova voz se fez presente.

— Roderick Kaiser?

A voz de Elisabeth carregava um tom surpreso e... ansioso.

Ela se aproximou com passos hesitantes, os olhos brilhando de expectativa. Mas Roderick apenas a encarou com indiferença, como se ela fosse um mero detalhe sem importância.

— Desculpe, te conheço?

A expressão de Elisabeth mudou na hora. Seu rosto ficou vermelho de constrangimento, e eu precisei me segurar para não rir. As meninas, por outro lado, não tiveram a mesma consideração — e soltaram uma risadinha abafada. O jogo tinha virado.

— Não fala com esse monte de merda. — Tobias rosnou, se afastando e indo em direção a Elisabeth.

— Vocês se merecem. — soltei com puro desprezo, encarando-o com nojo antes de desviar meu olhar. Então, voltei minha atenção para Roderick e ergui o queixo. — Sim, eu concedo a minha companhia, senhor Kaiser.

Um sorriso surgiu no canto de sua boca. 

— Pode me chamar de Roderick.

Ele ofereceu o braço, e eu aceitei, sentindo o calor sólido de seu corpo quando entrelacei minha mão no seu antebraço.

— Pode levar o meu resto. — Tobias provocou, soltando uma risada carregada de veneno.

Parei por um segundo. A raiva queimava dentro de mim, mas mantive a compostura. Olhei diretamente para ele, o desgosto transbordando em cada palavra:

— Você é nojento. Eu me arrependo amargamente de ter dedicado oito anos da minha vida a você.

Tobias travou o maxilar, mas não disse nada. Ele sabia que eu falava a verdade.

Caminhei ao lado de Roderick, sentindo os olhares se voltando para nós. O burburinho começou a se espalhar, como se as pessoas já começassem a tecer suas próprias teorias sobre o que estava acontecendo.

— Você namorou com ele por oito anos? — Roderick perguntou, a curiosidade evidente em seu tom.

— Sim... — Engoli seco. 

Ele me observou por um instante, como se tentasse puxar algo da memória. Então, sua expressão mudou sutilmente.

— Agora me lembro de você. Não muito, mas vagamente. — Seu olhar era intenso, avaliador, como se estivesse me estudando.

Chegamos a um canto mais reservado, longe da atenção exagerada dos curiosos.

— Ele nunca prestou. — A voz dele saiu mais grave, quase despreocupada, mas carregada de certeza. — Na época da faculdade, vivia com umas e outras.

Senti o chão sumir por um instante. As palavras dele foram como facas rasgando meu peito. Eu sabia, lá no fundo, mas ouvir isso da boca de outra pessoa tornava tudo mais cruel.

Roderick notou minha reação e, sem hesitar, acrescentou:

— Mas não se abale por isso. Você é uma mulher muito bonita.

Aquele elogio pegou-me de surpresa. Meu coração aqueceu um pouco, como se, por um instante, alguém estivesse costurando as feridas abertas pelo passado. Eu ainda estava processando tudo quando algumas pessoas começaram a se aproximar. Primeiro, Baldric apareceu, seguido de algumas mulheres que lançavam olhares curiosos para mim.

Mas Roderick não soltou meu braço. Pelo contrário, apertou levemente minha mão, mantendo nossa proximidade. Então, um homem alto, de feições parecidas com as dele, se aproximou. Só então ele me apresentou a seu irmão Rainer. Diferente de Roderick, ele parecia mais extrovertido, com uma expressão receptiva e um sorriso de canto que transmitia um ar de cumplicidade. Já Roderick continuava o mesmo: frio, inabalável, um enigma difícil de decifrar. Mas uma coisa era certa. Enquanto ele estivesse ao meu lado, Tobias não ousaria se aproximar.

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