Episódio 02 – Roderick

Durante toda a minha vida, lutei contra um milhão de coisas. Nunca era suficiente. Sempre parecia haver algo a mais para provar, para enfrentar. Meus pais presenciaram o pior de mim na adolescência, viram de perto a minha rebeldia. Eu me envolvia em situações que lhes causavam desgosto, buscava briga no colégio, testava limites.

Foi uma fase caótica, e, para ser sincero, eu não me importava. Até que uma mulher mais velha cruzou meu caminho. No começo, Diana era apenas alguém com quem eu gostava de conversar, alguém diante de quem eu não precisava fingir. Ela também foi a única a ver o pior de mim sem recuar. Em vez disso, encarou de frente, me desafiou. E, em um certo dia, ela decidiu que era hora de me apresentar algo que mudaria completamente a minha vida.

Foi assim que me tornei um homem respeitado em toda a Alemanha. Parte do que sou hoje vem do meu próprio esforço, das batalhas que escolhi travar e das cicatrizes que carrego. Mas não posso negar que Diana teve seu papel nisso. Durante alguns anos, compartilhei mais do que segredos com ela. Fomos amantes, porque eu quis. Quando decidi colocar um ponto final, ela não aceitou bem de imediato, mas, no fim, aprendeu a respeitar. Hoje convivemos em paz, cada um seguindo seu próprio caminho. 

Estou prestes a completar trinta anos e já sou um dos homens mais influentes do mundo. Venho de uma família cuja fortuna é imensa. Sou herdeiro de tudo o que meus pais construíram, assim como minha irmã e meu irmão. Mas, sendo o mais velho, a decisão final sempre recai sobre mim. E eu aprendi a gostar desse poder.

Na época da faculdade, eu sempre fui um dos mais populares. Talvez pelo poder que carregava no sobrenome, talvez pelo dinheiro, talvez pelo respeito que eu impunha sem precisar abrir a boca. No fundo, eu sabia a resposta. As pessoas gravitavam ao meu redor por interesse, por conveniência, por puro oportunismo. Poucos eram os que se aproximavam sem segundas intenções. Mas eu nunca me importei. Fingir que não via era mais fácil do que ter que lidar com falsidade escancarada.

Ainda assim, existiam aqueles que se destacavam. Rainer, meu irmão mais novo, era um deles. Não porque precisasse de algo de mim, mas porque, de certa forma, éramos os únicos que se entendiam. Apesar das nossas diferenças gritantes, havia um vínculo inquebrável entre nós. Eu era o mais velho, aquele que carregava o peso da família nos ombros, enquanto ele podia se dar ao luxo de ser mais leve, mais despreocupado.

A pilha de documentos à minha frente exigia atenção, mas ele não estava nem aí para isso quando entrou no escritório com a cara de quem já tinha um plano em mente.

— Irmão, você vai na festa do Baldric? — perguntou, cruzando os braços e me encarando com expectativa.

Nem levantei a cabeça. Passei os olhos por mais uma cláusula do contrato antes de responder.

— Não estou muito a fim. Você sabe que, às vezes, não gosto de socializar.

Rainer soltou um suspiro exagerado e jogou o corpo na cadeira de frente para minha mesa, como se estivesse prestes a dar uma grande lição de vida.

— Você precisa se forçar a sair um pouco, viver só de trabalho não é saudável. — Ele apoiou um cotovelo no braço da cadeira e arqueou uma sobrancelha. — Será que é por isso que nunca vimos você namorando?

Finalmente, ergui o olhar para ele, soltando uma risada baixa.

— Você, melhor do que ninguém, sabe que as mulheres com quem me envolvo são apenas por um breve momento de prazer.

Ele sorriu de canto, mas não se deu por vencido.

— Ainda assim, deveria arrumar alguém fixo.

Soltei uma risada mais sarcástica dessa vez, apoiando os cotovelos na mesa e entrelaçando os dedos.

— Você deveria cuidar mais da sua vida, porra. Eu tenho o que fazer.

Mas Rainer não sabia a hora de desistir. Ele se inclinou um pouco para frente, me analisando como se estivesse tentando decifrar algo oculto.

— Ah, irmão, vamos para a festa do nosso colega. Vai ser divertido.

Suspirei pesadamente, sentindo a irritação crescendo. Mas, no fundo, eu sabia que ele não iria me deixar em paz enquanto não conseguisse o que queria.

— Se você me deixar em paz, eu vou, porra.

Os olhos dele brilharam com a vitória. Ele se levantou num pulo, batendo as mãos nos braços da cadeira como se tivesse acabado de marcar um gol.

— Vou me organizar e partimos!

E, com isso, saiu do meu escritório com um sorriso satisfeito no rosto, enquanto eu apenas balançava a cabeça, voltando minha atenção para os papéis.

Eu sabia que aquela festa seria uma perda de tempo. Mas, por alguma razão, não consegui ignorar o pressentimento de que, dessa vez, algo sairia do controle.

Às vezes, aquela sensação inquietante surgia sem aviso, um incômodo sutil, como um pressentimento abafado que sussurrava ao fundo da minha mente. Não era medo nem insegurança, mas uma desconfiança cravada na alma, como se algo pudesse dar errado a qualquer momento.

Afastei esses pensamentos enquanto folheava os últimos documentos sobre a mesa. O escritório estava silencioso, exceto pelo ruído da caneta riscando o papel e pelo farfalhar das folhas que eu revisava com precisão. Quando terminei, soltei um suspiro pesado, me recostando na cadeira de couro. Passei a mão pelo rosto, sentindo o peso das responsabilidades que carregava. O mundo enxergava apenas a superfície, o poder, a influência, o controle absoluto, mas poucos sabiam o que estava por trás disso tudo. 

Levantei-me com calma, peguei o terno que estava dobrado sobre a poltrona e o vesti com gestos mecânicos. Ajustei os punhos da camisa, passei a mão pelo tecido impecável e caminhei até a porta. Assim que saí do escritório, ouvi passos no corredor.

Rainer vinha na minha direção com aquele entusiasmo irritante, um brilho animado nos olhos, como se a vida fosse uma festa constante para ele.

— Finalmente! — exclamou, batendo as mãos. — Vamos, irmão, a noite promete.

Apenas encarei seu rosto sorridente, sem nenhuma pressa em responder. Para ele, tudo era leve, fácil, sem peso ou consequências. Para mim, cada passo tinha um significado, cada movimento era uma estratégia.

Ignorei sua empolgação e segui andando. A casa dos nossos pais era grande demais para ser acolhedora. Alta, imponente, uma obra-prima da arquitetura moderna que servia mais para ostentação do que para aconchego. Eu estava ali constantemente para tratar de negócios, mas nunca me demorava. Permanecer tempo demais sob aquele teto sempre me lembrava do peso do legado que eu carregava.

Descemos para a entrada, onde o carro já nos esperava. O motorista ergueu os olhos pelo retrovisor, aguardando a ordem.

— Para onde, senhores?

— Para o salão de eventos do Baldric. — Rainer respondeu prontamente, antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.

Revirei os olhos, sem esconder meu descontentamento.

— Se anima, irmão. — disse ele, batendo no meu ombro. 

— Você sabe que não curto esse tipo de coisa. Só estou indo porque ele é alguém da faculdade.

Ele apenas sorriu, sem dizer nada. O silêncio preencheu o espaço entre nós por alguns instantes, até que resolvi perguntar:

— E Hayden? Sabe quando ela volta de Paris? — Rainer deu um sorriso torto antes de responder. — Você sabe como ela é… Vai e volta mil vezes. Hayden nunca foi de ficar presa em um só lugar.

Assenti, sem surpresa alguma. Nossa irmã sempre foi um espírito livre, ao contrário de mim, que carregava o peso das decisões da família.

A viagem não durou muito. Quando chegamos ao local, o brilho das luzes, o som alto da música e a movimentação intensa já indicavam que a festa estava no auge.

Permaneci dentro do carro por alguns segundos, analisando a cena diante de mim.

— Já me arrependo amargamente de ter vindo. Poderia simplesmente ter mandado um presente para o Baldric e encerrado o assunto.

Rainer riu.

— Você é impossível.

O motorista estacionou, e meu irmão desceu primeiro, contornando o carro e ficando parado ao lado da porta, como se estivesse esperando para ver se eu tentaria escapar. Respirei fundo, ajustei o terno uma última vez e saí do carro. A noite seria longa.

Assim que saí do carro, fiz um gesto breve para o motorista.

— Nos espere aqui.

Ele apenas assentiu, sem precisar de mais explicações. Rainer já estava ao meu lado, animado como sempre, enquanto caminhávamos para dentro do salão.

Eu preferia estar em qualquer outro lugar. No escritório, resolvendo algo que realmente importava, ou até mesmo relaxando com alguma novinha, uma daquelas que eu pegava quando a vontade batia. Mas, em vez disso, estava ali, cercado por gente que, na maior parte do tempo, eu ignorava sem o menor remorso.

Assim que entrei, os olhares se voltaram para mim. Eu já esperava por isso. Não importava onde eu chegasse, sempre causava um impacto. Era o peso do nome, da presença, da postura. As pessoas reconheciam poder quando viam um, e eu estava acostumado a ser o centro das atenções mesmo quando não fazia esforço algum para isso.

O salão estava cheio, a música alta, o cheiro de bebida misturado ao perfume caro das mulheres que circulavam pelo espaço. Poucos segundos depois, Baldric surgiu entre os convidados, caminhando até mim com um sorriso largo no rosto.

— Bem-vindo, Roderick. — Ele estendeu a mão, que apertei sem muita pressa. — Caralho, jurei que você não viria.

Dei um sorriso enviesado.

— Sinal de que me conhece.

— Ele realmente não viria. — Rainer riu. — Mas eu consegui convencer.

— Ah, eu conheço seu irmão. Sempre foi o reservado, o cara que foge de eventos assim. Mas estou feliz que tenha aberto uma exceção na agenda dele pra vir hoje.

Fiz um aceno breve, sem comentar nada. Não era necessário.

Enquanto isso, algumas mulheres começaram a se aproximar, o que finalmente despertou um leve interesse em mim. Nem tanto pelas mulheres em si, mas pela forma como a dinâmica ao meu redor mudava conforme elas chegavam. Era sempre o mesmo jogo o olhar curioso, o sorriso convidativo, os toques sutis. Um jogo que eu conhecia bem demais.

— Bom, ele vai se divertir. — Rainer provocou, rindo.

Soltei uma gargalhada curta, levando a língua contra o canto da bochecha.

— Quero uma bebida.

Baldric fez um sinal para um garçom, que rapidamente surgiu com uma bandeja. Peguei um copo de uísque, dei um gole e, naquele exato momento, minha expressão se fechou. Meu olhar encontrou um rosto que eu preferia nunca ver de novo.

O sangue ferveu. Bufei, tomando mais um gole da bebida.

— Não acredito que esse merda está aqui.

Rainer percebeu na hora quem eu estava encarando e soltou um suspiro.

— Ignora.

Uma risada seca escapou dos meus lábios.

— A coisa que eu mais amo é ignorar gente insignificante como ele.

Ainda assim, meus olhos não desviaram. O ambiente ao meu redor sumiu por alguns instantes enquanto eu observava Tobias. Ele era um verme, e só de vê-lo ali, respirando o mesmo ar que eu, minha paciência já se esgotava.

Ele não estava sozinho. A morena de pele clara ao seu lado se mantinha próxima, com a mão apoiada no braço dele, como se quisesse marcar território. Provavelmente a namorada atual. Não me importava. Até que ela se afastou.

Não prestei atenção para onde ela foi, porque algo mais chamou minha atenção.

Do outro lado do salão, afastada de toda a agitação, uma loira baixinha parecia deslocada. Diferente da maioria das mulheres dali, que aproveitavam a festa, riam alto e jogavam charme para os homens certos, ela estava quieta. O olhar fixo em um ponto qualquer, os ombros tensos. Então Tobias começou a andar na direção dela.

Meu olhar afiado captou tudo. O jeito como ele chegou perto demais. O momento em que ela percebeu e tentou se afastar. A forma como a expressão dela mudou quando ele segurou seu braço com força.

Meu maxilar travou. Não gostava de me meter na vida de ninguém, mas tinha uma coisa que eu não tolerava: homem encostar em mulher com agressividade. O sangue gelou antes de ferver de novo.

Soltei um suspiro, girando o copo de uísque na mão, observando o gelo derretendo no líquido âmbar. Então, sem pressa, me movi. Para interferir. E a noite tomou um rumo muito mais interessante, algo que eu amava.

Continue lendo no Buenovela
Digitalize o código para baixar o App

Capítulos relacionados

Último capítulo

Digitalize o código para ler no App