Descobrir a traição foi um golpe que eu jamais imaginei sofrer, ainda mais vindo de duas pessoas em quem eu confiava cegamente. Meu noivado foi cancelado, assim como todo o casamento. Não havia mais planos, vestidos ou promessas. Tudo virou pó. E, no meio desse caos, a verdade mais cruel se revelou: eu nunca conheci de verdade quem Tobias era. O homem com quem eu planejava dividir a vida, aquele que jurava me amar, nunca passou de um estranho.
Estou arrasada. Essa é a verdade.
Faz duas semanas que descobri tudo, duas semanas que cortei qualquer vínculo com eles. Mas o eco da traição ainda ressoa na minha mente, assombrando meus dias e tornando minhas noites um tormento. Ainda assim, algumas pessoas permaneceram ao meu lado. Meu círculo de amizades se fechou em torno de poucos, mas esses poucos ficaram horrorizados quando souberam o que me aconteceu. Eles tentam me incluir, me chamar para eventos sociais, me lembrar que a vida continua. Eu não sou rica como eles, mas sempre me convidam, sempre fazem questão de me incluir. E, vez ou outra, quando consigo reunir forças, eu aceito.
Mas, nos últimos sete dias, minha dor encontrou um novo peso. Tobias e Elisabeth fazem questão de aparecer juntos em qualquer lugar que eu esteja. Não é coincidência. Não é acaso. É um jogo cruel, uma tortura planejada para me quebrar ainda mais. Eles desfilam lado a lado, como se fossem um casal perfeito, me lançando olhares carregados de deboche, testando minha resistência. Eles querem que eu desmorone. Querem que eu enlouqueça.
E, para ser sincera, às vezes acho que vou. Porque a verdade é que isso me destrói. Ainda machuca. Ainda sangra. Mas, mesmo carregando essa dor dentro do peito, mesmo sentindo o coração apertado e a raiva queimando sob a minha pele, eu tento ignorar. Tento fingir que não me afeta. Tento seguir em frente, mesmo quando tudo dentro de mim grita o contrário.
— Aylin? — ouço a voz de Carla se aproximando, hesitante.
Levanto o olhar e vejo sua expressão carregada de algo que beira a culpa.
— Oi, Carla. — respondo, mantendo a voz neutra.
Ela suspira antes de dar mais um passo.
— O Tobias está para chegar com aquela garota. — Sua voz sai cautelosa, como se temesse minha reação.
Sinto um peso apertar meu peito, mas não demonstro.
— Não é novidade que eles vão vir. — respondo, como se aquilo não me afetasse. Como se eu já estivesse acostumada.
Carla baixa o olhar por um instante. Mesmo sabendo de tudo, ela escolheu se afastar quando eu a questionei. Cortou laços, fingiu que não era com ela. E agora, aqui estava, como se ainda tivéssemos algo a compartilhar.
— É triste demais ver essa pressão que você tem passado. — comenta, sua voz carregada de uma compaixão tardia.
Antes que eu possa responder, Gisela se aproxima animada, mudando completamente o tom da conversa.
— Amiga, você ouviu falar que o Roderick está para vir aqui hoje? — Seu tom é cheio de empolgação.
Fico em silêncio por alguns segundos, tentando puxar pela memória.
— Não conheço esse, amiga. — confesso.
Ela solta uma risada, descrente.
— Sabe sim! Ele é o gostoso mais popular da Alemanha. E, além disso, você sabe que ele e o Tobias são inimigos, né?
Pisco algumas vezes, tentando processar a informação.
— Nunca tive muita aproximação ou procurei saber quem era amigo ou inimigo dele. Sempre me mantive neutra nessas coisas. — comento, sem dar muita importância.
Gisela sorri, balançando a cabeça.
— É porque você é uma pessoa boa e tem um coração incrível.
Seus olhos brilham com sinceridade, e, por um breve momento, sinto um calor confortante em meio ao caos que me cerca.
— A Gisela tem razão, você é uma pessoa incrível, Aylin. — disse Carla, sua voz carregada de um carinho sincero.
Apenas sorri, tentando absorver aquelas palavras como um bálsamo para a tempestade que ainda rugia dentro de mim. Peguei minha taça e tomei um gole da champanhe, sentindo o líquido gelado escorrer pela garganta, trazendo um conforto passageiro.
— Obrigada, meninas. — murmurei, e ambas sorriram, cúmplices.
A festa de Baldric seguia animada, e, pela primeira vez em muito tempo, eu conseguia sentir um resquício de leveza. Era raro, quase estranho, depois de tudo que aconteceu. Desde o fim do meu noivado, eu me mantinha na encolha, evitando eventos sociais, fugindo de qualquer chance de me expor à humilhação que ainda pesava sobre mim. Mas, por um instante, permiti-me aproveitar. Era bom sorrir um pouco.
Até que a presença dele destruiu qualquer tentativa de paz. Tobias entrou no salão de mãos dadas com Elisabeth. O impacto foi imediato, um soco invisível no estômago. Meu coração apertou no peito, e um frio cortante percorreu minha espinha. A cena me atingiu com uma violência sufocante. Era como ver uma ferida aberta sendo cutucada sem piedade.
Por mais que eu tentasse me convencer de que não me importava, de que ele não merecia um segundo sequer da minha dor, a verdade era cruel: doía. Doía mais do que eu queria admitir. Apertei os dedos ao redor da taça, respirando fundo. Eu não daria a ele o gosto de ver o estrago que ainda causava. Não é certo desperdiçar sentimentos com quem é podre por dentro. Então, ergui o queixo e voltei a atenção para minhas amigas, determinada a seguir em frente. Mesmo que por dentro eu estivesse sangrando.
— Eu teria vergonha se fosse ela. Cresceu com você, era sua melhor amiga e, mesmo assim, ficou com ele. — disse Gisela com desgosto, torcendo os lábios como se estivesse prestes a vomitar.
— Não quero saber de nada, muito menos dar importância para isso, amiga. — respondi séria, sem desviar os olhos do líquido âmbar na minha taça.
— Eu tenho vergonha de ter chamado aquela víbora de amiga um dia. — Carla cuspiu as palavras com desdém, cruzando os braços.
— Parem de dar importância a isso. — insisti, tentando cortar o assunto antes que ele me consumisse mais uma vez.
Elas trocaram olhares e, por fim, sorriram.
— Tem razão! Vamos beber e vamos dançar. — Gisela decidiu, sem dar espaço para recusas.
Antes que eu pudesse protestar, ela me puxou pela mão, e Carla veio logo atrás. Fomos para o meio da pista, onde a música vibrava nos alto-falantes e o salão era tomado por luzes que piscavam em tons quentes. Deixei que o ritmo me envolvesse, permitindo-me sentir um resquício de liberdade, um pequeno lapso de esquecimento. Movíamos nossos corpos com energia, ríamos entre um gole e outro, e por um instante, eu quase acreditei que poderia simplesmente seguir em frente.
Mas o universo parecia determinado a testar minha paciência.
Elisabeth surgiu com Tobias ao seu lado, os dois dançando como se fossem o casal mais apaixonado da noite. Meu estômago revirou, mas fingi não vê-los, concentrando-me no momento, nos risos das minhas amigas, na batida da música. Ignorei a presença deles com sucesso até que ela se esbarrou em mim.
O contato foi intencional, um empurrão discreto, mas suficiente para me tirar do eixo.
— Está cega agora? Não me viu aqui? — revirei os olhos, soltando um riso seco.
— Garota, se manca! Você que esbarrou nela. Para de se fingir de ridícula. — Gisela retrucou antes mesmo que eu precisasse dizer qualquer coisa.
— Ignora, amiga. — pedi, mas ela me lançou um olhar afiado.
— Não posso ignorar. Essa garota pensa que é a dona da festa? Estamos aqui primeiro. Se ela fizer isso de novo, eu não respondo por mim. — sua voz carregava uma ameaça velada.
Eu confiava na Gisela, talvez mais do que em qualquer outra pessoa. Ela sempre foi leal a mim, e saber que alguém estava do meu lado nesse inferno me dava um pouco de alívio.
— Quem você pensa que é? — Elisabeth retrucou, avançando contra Gisela, os olhos faiscando de raiva.
Antes que pudesse fazer algo, Tobias a segurou pelo braço.
— Amor, não vale a pena. Deixa essas horrorosas aí sozinhas. Não vale a pena.
As palavras dele me atingiram como um tapa. Não pelo insulto em si, mas porque ali, naquele instante, percebi que nunca havia conhecido de verdade o homem com quem estive por oito anos. O Tobias que eu amava, que eu achava leal e bom, jamais existiu. E essa era a pior parte.