AZRAEL . . A noite havia sido longa e inquietante. Depois de organizarmos tudo, repormos as luzes e tentarmos trazer um pouco de normalidade àquele caos, sentamos para jantar. Ethan, Ayla e eu continuamos conversando, traçando planos para o dia seguinte, enquanto Laila permanecia calada, alheia ao que acontecia ao redor. Algo nela parecia diferente, mas eu estava tão cansado e frustrado que não me importei em tentar entender. Após o jantar, decidimos onde dormiríamos. Ethan e eu ficamos na sala, deixando que as meninas tivessem um pouco de privacidade nos quartos. Laila dormiria no quarto de Ethan, enquanto Ayla ficaria no meu. A noite pareceu passar em um piscar de olhos. Eu não dormi direito. A ausência de Ayla ao meu lado me incomodava mais do que eu gostaria de admitir. Quando a manhã chegou, levantei antes de Ethan e fui até a porta do quarto de Ayla. Bati uma vez, sem resposta. Bati de novo. Nada. Um frio percorreu minha espinha. Algo estava errado. Abri a porta
Por um momento, hesitei. Eu não queria companhia, mas acabei abrindo e voltando a sentar na cama.— Eu… só queria ver como você estava.Ela disse, caminhando lentamente pelo quarto. Seus olhos me analisavam como se procurassem rachaduras em minha alma, e, naquele momento, eu sabia que ela encontraria muitas.— Estou bem.Menti, desviando o olhar. Meu peito ardia com a ausência de Ayla, e minha mente não conseguia parar de pensar em como ela simplesmente se foi. Sem avisar, sem lutar.Laila soltou um riso baixo e descrente.— Você não está bem, Azrael. E eu te entendo. Ayla não é digna de você.Ela se aproximou, sentando-se ao meu lado. — Eu tentei te avisar, mas você estava cego demais para enxergar a verdade.Minhas mãos se fecharam em punhos. Eu queria dizer que ela estava errada, que Ayla era tudo para mim, mas uma voz sussurrava em minha mente: Então por que ela foi embora?— Você sabe que eu estou certaLaila continuou, inclinando-se para perto. — Ela mentiu para você. Fez prom
Quando vi Ayla, estendida ali, sem vida, algo dentro de mim se quebrou de forma irreparável. As pessoas ao redor começaram a se afastar, olhando com compaixão, mas não me importava com elas. Só havia eu e o corpo dela. Corri até ela, os braços estendidos, e a puxei para mim, como se fosse a última coisa que eu pudesse fazer por ela.Meu coração parecia estar se despedaçando, a dor era insuportável, como se todo o ar tivesse desaparecido do meu corpo. A pressão no meu peito só aumentava, e eu me vi ali, de joelhos, com os olhos embaçados por lágrimas que nunca imaginei ser capaz de derramar. Eu não sabia mais quem eu era, não sabia mais o que fazer.— Ayla… Sussurrei, mas a palavra mal saiu da minha boca. O som da sua ausência era muito mais forte do que qualquer coisa que eu pudesse dizer.O som de sirenes chegou, e logo a polícia se aproximou. Eles começaram a cercar a área, falando entre si, mas a dor que eu sentia era tão grande que eu não conseguia me mover. Eles estavam fazendo
A dor era tão intensa que mal consegui respirar. Cada passo que eu dava na mata parecia me afundar mais na escuridão, mais distante de qualquer coisa que eu já conhecera. O céu estava pesado, coberto por nuvens tão negras que parecia que o mundo inteiro iria desabar. Eu não me importava com os galhos arranhando minha pele, com a terra úmida e o frio cortante da chuva que caía incessantemente. Eu só precisava de uma coisa: extravasar.Eu não consegui mais segurar. A raiva, a tristeza, o vazio… tudo que estava se acumulando dentro de mim precisava sair. Sem pensar, me joguei de joelhos na terra, sentindo o peso do meu corpo contra o chão, e então, sem controle, gritei.— AYLA!O grito saiu com uma força que eu nunca soubera que tinha. Era como se o próprio ar ao meu redor fosse queimado pelo meu sofrimento. Meu corpo parecia entrar em combustão, as chamas da dor me envolvendo, e a pressão no meu peito me deixando sem fôlego. Eu sentia como se estivesse sendo consumido por algo maior, po
Ao voltar para a casa de Ethan, meu corpo estava pesado, como se eu tivesse carregado o peso do mundo nas costas. Eu queria fugir da dor, mas ela me seguia, me arrastava.Ao chegar, não encontrei Ethan. Só Laila estava lá, me olhando com uma expressão estranha. Por um momento, me perguntei o que havia de errado, mas depois percebi que isso só era mais uma consequência do que acontecera entre nós. Talvez ela estivesse me observando assim por causa disso.Ela não disse uma palavra sobre Ayla. Fiquei esperando que falasse, que pelo menos demonstrasse algum tipo de empatia, mas não. Um silêncio constrangedor se estendeu entre nós. Eu olhei para ela, desconfiado.— Onde está o Ethan? Perguntei, a voz rouca, sem paciência para jogos.Ela parecia hesitar antes de responder, como se o simples fato de me olhar fosse um desafio. Finalmente, ela disse:— Ele teve que ir dar o depoimento dele. Provavelmente, você e eu também teremos que ir, mais tarde. Ela falava com frieza, como se estivesse a
Eu ainda sentia a fúria fervendo dentro de mim quando mesmo diante da presença de Ethan, segurei os punhos de Laila com força, chacoalhando-a como se assim eu pudesse arrancar dela uma explicação que fizesse sentido. Seus olhos estavam arregalados, mas não havia arrependimento ali, apenas medo.— O que está acontecendo aqui?! Ele perguntou, a voz carregada de urgência. — Eu ouvi os gritos da rua!Soltei Laila bruscamente e recuei, tentando conter o ódio que me consumia. Passei as mãos pelos cabelos, tentando organizar meus pensamentos.— A vontade que eu tenho é de matá-la, Ethan.Rosnei, sentindo meu peito subir e descer com a respiração pesada.Ethan olhou para mim e depois para Laila, que tremia.— Laila, me diz o que está acontecendo. O que você fez?Laila soluçou, apertando as próprias mãos, como se quisesse se segurar.— Eu não queria... Eu não queria! Repetia como um mantra. — Mas ele me prometeu... o anjo me prometeu que, se eu fizesse tudo o que ele mandasse, Azrael seria
Passei longas horas no quarto, preso dentro de um silêncio insuportável. Minha mente girava em torno de uma única verdade: Laila foi a pior coisa que aconteceu na minha vida. Ela e aquele maldito anjo, que eu me recusava a chamar de irmão, me tiraram Ayla, arrancaram de mim a única chance de ser feliz. Pensar nela morta era como sentir meu próprio coração se estilhaçar dentro do peito, pedaço por pedaço, até não restar mais nada além de um vazio aterrador.Eu precisava ir embora. Encontrar a avó de Ayla, descobrir se ela realmente havia me enviado um recado através daquela visão sobrenatural. Mas havia um problema: eu não sabia onde ela morava. O fato de não lembrar do meu passado me impedia de saber qualquer coisa concreta sobre onde encontrá-la. Ainda assim, eu não podia ir embora antes do velório de Ayla. Não sabia qual seria o procedimento da polícia em relação ao corpo dela, e, considerando que sua família a havia expulsado de casa, era provável que não se importassem com seu e
O dia amanheceu cinza. Talvez fosse coincidência, talvez o universo estivesse de luto junto comigo. Eu mal preguei os olhos durante a noite, e quando Ethan bateu na porta, já sabia que era hora de encarar a realidade mais cruel da minha existência.— Precisamos organizar as coisas para o funeral, Azrael. A voz dele era baixa, quase cuidadosa. Mas não havia forma de suavizar aquilo. Ayla estava morta, e eu tinha que enterrá-la.Assenti e saí do quarto. O silêncio entre nós não era incômodo, era respeitoso. Descobrimos que tentaram novamente contato com a família dela e conseguiram, mas a mãe dela disse que não tinha mais filha.Eu não deveria me surpreender, mas o ódio me consumiu como uma chama ardente.— Eles realmente abandonaram ela, Ethan. Até na morte. Como se nunca tivesse existido. Minha voz saiu trêmula, carregada de raiva.Ele suspirou, olhando para os próprios pés antes de responder:— Eles não merecem a filha que tiveram. Mas ela teve você.As palavras dele me atingiram c