Era Guilherme, o advogado da firma, que chegava acompanhado de um cliente. Quando ele notou Isabela visivelmente aflita no corredor, se perguntou o que teria deixado a colega tão agitada.Pelos corredores do escritório já circulavam rumores de que ela e Jorge estariam tendo um caso e, ao ver aquela cena, o fogo da fofoca se acendeu nos olhos de Guilherme, que não resistiu perguntar com um tom falsamente preocupado: — Dra. Isabela, aconteceu alguma coisa? A senhora parece perturbada.Isabela rapidamente recompôs sua expressão, mas antes que pudesse responder, Jorge interveio com seu semblante frio e voz impassível: — Dr. Guilherme, em que posso ajudá-lo?Guilherme percebeu imediatamente o olhar gélido de Jorge e, num instante, toda sua curiosidade se dissipou como fumaça. — Na verdade, vim tratar de um assunto com o senhor. — Disse ele, visivelmente constrangido.— Entre. — Comandou Jorge secamente, se dirigindo ao sofá e se acomodando com tranquilidade. Seu olhar aparentemente desi
— Para onde vamos? — Perguntou o motorista.— Para o Mercado das flores, por favor. — Respondeu Isabela, se acomodando no banco de trás.Isabela lembrou que Davi tinha comentado com Viviane sobre comprar um vaso de plantas. Agora que ele estava aposentado, provavelmente andava entediado em casa sem muitas atividades. Com esse pensamento, ela decidiu levar algumas flores para que ele pudesse se distrair cuidando delas.Ao desembarcar no mercado, se deparou com um espaço amplo e bem iluminado, repleto de barracas organizadas em corredores coloridos. O lugar tinha de tudo. Desde delicadas flores e variadas plantas até papagaios barulhentos, filhotes de gatos, cães brincalhões e pequenos peixes dourados nadando em tigelas cristalinas.Foi então que seu olhar capturou duas belas carpas. Uma com escamas douradas reluzentes e outra de um vermelho vibrante, ambas com corpos arredondados e olhos grandes que pareciam observá-la com curiosidade. Instintivamente, parou diante da banca, encantada.
Ao ver Isabela se aproximando, Davi disfarçou seu interesse, fingindo estar absorto na contemplação dos peixinhos que nadavam no aquário recém-chegado.— Professor, deixa que eu preparo o jantar. — Ofereceu Isabela.Davi morava sozinho naquele apartamento há anos e, embora precisasse contratar uma empregada, sempre recusava a ideia. Não gostava de ter estranhos circulando por sua casa e já estava habituado a preparar suas próprias refeições, tendo se tornado especialmente habilidoso no preparo de massas.— Hoje quem paga sou eu. — Respondeu ele com um sorriso acolhedor. — Vamos comer fora. Normalmente janto um pouco mais tarde, então podemos sair daqui a pouco. Ah, lembrei que esqueci de pegar uma coisa na loja aqui embaixo do prédio. Vou descer rapidinho para buscar.Levantando-se com certa agilidade apesar da idade, ele se dirigiu à porta. Antes de sair, ainda acrescentou: — Podem tirar os pastéis de nata da caixa e comer à vontade.Sempre prestativa, Isabela logo se ofereceu: — Pr
Davi devia tocar frequentemente na moldura daquela fotografia, pois suas bordas estavam polidas e suavizadas, como se o tempo e o contato constante tivessem deixado marcas de devoção silenciosa no objeto.Nos olhos de Isabela, surgiu um brilho inconfundível de admiração misturada com inveja. "Isso deve ser o que chamam de amor verdadeiro", pensou ela consigo mesma.Infelizmente, nem todos tinham a sorte de encontrar algo tão profundo. Algumas pessoas, como ela própria, até acreditavam ter encontrado, mas na realidade acabavam se deparando apenas com mentirosos e canalhas.Observando as expressões que passavam pelo rosto de Isabela, Jorge percebeu exatamente o que ela sentia. Com um sutil aperto nos lábios, quebrou o silêncio:— Você ainda acredita em amor?A resposta de Isabela veio com um balanço firme de cabeça.— Não. — Disse ela secamente. Sentindo que esse tipo de conversa sobre sentimentos talvez não fosse apropriada para ter com Jorge, Isabela rapidamente sorriu e mudou de assu
Com isso, Isabela mesma se levantou com um gesto espontâneo de gratidão, erguendo sua xícara como se fosse uma taça de vinho.— Professor Davi, eu sei que foi graças ao senhor que o Dr. Jorge me aceitou no escritório. Queria brindar em sua homenagem, mesmo que seja só com chá. — Declarou ela antes de virar o conteúdo da xícara num só gole.Davi, porém, abriu um sorriso bondoso e fez um gesto negativo com as mãos.— Você não precisa me agradecer, Isabela. Quem merece seu reconhecimento é o Jorge. Ele nunca aceita estagiários, mas fez uma exceção porque viu seu potencial. E não foi por minha causa, mas porque você é realmente boa no que faz. — Explicou ele, fazendo uma pausa significativa antes de completar. — Só que você precisa continuar se esforçando, não pode decepcionar nem a mim nem ao Jorge.Isabela virou ligeiramente o rosto, demonstrando um leve desconforto, e direcionou sua atenção para Jorge.— Obrigada, Dr. Jorge, brindo ao senhor também. — Disse ela enquanto enchia novamente
Davi claramente ficou surpreso por um momento ao saber que moravam no mesmo condomínio, mas logo abriu um sorriso caloroso e deu tapinhas amigáveis no ombro de Jorge. Não pronunciou sequer uma palavra, mas seu sorriso malicioso dizia mais que mil palavras.Ele parecia perceber que estava se preocupando à toa. Se Jorge tivesse alguma intenção com Isabela, certamente tomaria a iniciativa por conta própria. Não precisava de intermediários para fazer essa ponte.— Estou aguardando boas notícias. — Comentou Davi com um sorriso repleto de segundas intenções, enquanto lançava olhares significativos para ambos.Isabela ficou confusa, alternando o olhar entre Davi e Jorge, tentando compreender o que acontecia entre os dois homens naquele diálogo silencioso.— Podem ir agora, já está tarde. — Concluiu Davi, se preparando para fechar a porta. — Tomem cuidado na estrada.Jorge se virou então para Isabela com um gesto suave.— Vamos?— Claro. — Respondeu ela com pouco entusiasmo, ainda intrigada co
Os olhos de Isabela brilharam num instante ao ouvir sobre o caso.— Não vou sair mais. — Respondeu ela sem hesitação.Para Isabela, o trabalho sempre esteve e continuaria em primeiro lugar. Todo o mais poderia esperar. O crescimento profissional era sua prioridade desde o divórcio.Jorge manteve os lábios levemente pressionados, mas o canto de sua boca se ergueu numa sutil demonstração de satisfação que Isabela nem sequer notou. Já concentrada, ela digitava rapidamente uma mensagem para a amiga: [Vivi, me desculpa, peguei um caso de última hora. Não vou conseguir ir.]A resposta de Viviane veio imediatamente com um simples interrogação, seguido por um emoji de uma pessoa com a cabeça explodindo de problemas.Viviane acrescentou logo em seguida, compreendendo a situação: [Tá bom então. Vou sair só com a Janete.] A profissão de advogado era assim mesmo, imprevisível e sem horários fixos.Isabela leu a mensagem, percebendo como Viviane mencionava Janete com tanta familiaridade. Conhecen
Naquele dia, quando Isabela Lopes foi levada ao tribunal pelo próprio marido, Sandro Marques, uma nevasca intensa tomava conta da cidade.Ela ainda se lembrava de como acreditava em seu amor. Durante sete anos, desde que se apaixonaram até o casamento, sempre teve certeza de que ele amava ela e que viviam um casamento feliz.Tudo mudou, porém, quando ele entregou ela às autoridades, sem hesitar, por causa de uma palavra dita por Milena.O juiz começou a leitura do caso de Isabela, acusada de porte de substâncias proibidas.— No dia 23 deste mês, durante uma blitz na Rua Oeste, agentes encontraram substâncias ilícitas no veículo conduzido pela Sra. Isabela. — Declarou o juiz. — Esta audiência é para examinar os detalhes da acusação. Solicito que o autor leia suas alegações.Sandro se levantou, o corpo alto e imponente vestido com um terno preto impecável, que só aumentava seu ar sério e afiado. Seus olhos, que um dia transbordavam de amor por sua esposa, agora mostravam apenas desaponta