Ao ver Isabela se aproximando, Davi disfarçou seu interesse, fingindo estar absorto na contemplação dos peixinhos que nadavam no aquário recém-chegado.— Professor, deixa que eu preparo o jantar. — Ofereceu Isabela.Davi morava sozinho naquele apartamento há anos e, embora precisasse contratar uma empregada, sempre recusava a ideia. Não gostava de ter estranhos circulando por sua casa e já estava habituado a preparar suas próprias refeições, tendo se tornado especialmente habilidoso no preparo de massas.— Hoje quem paga sou eu. — Respondeu ele com um sorriso acolhedor. — Vamos comer fora. Normalmente janto um pouco mais tarde, então podemos sair daqui a pouco. Ah, lembrei que esqueci de pegar uma coisa na loja aqui embaixo do prédio. Vou descer rapidinho para buscar.Levantando-se com certa agilidade apesar da idade, ele se dirigiu à porta. Antes de sair, ainda acrescentou: — Podem tirar os pastéis de nata da caixa e comer à vontade.Sempre prestativa, Isabela logo se ofereceu: — Pr
Davi devia tocar frequentemente na moldura daquela fotografia, pois suas bordas estavam polidas e suavizadas, como se o tempo e o contato constante tivessem deixado marcas de devoção silenciosa no objeto.Nos olhos de Isabela, surgiu um brilho inconfundível de admiração misturada com inveja. "Isso deve ser o que chamam de amor verdadeiro", pensou ela consigo mesma.Infelizmente, nem todos tinham a sorte de encontrar algo tão profundo. Algumas pessoas, como ela própria, até acreditavam ter encontrado, mas na realidade acabavam se deparando apenas com mentirosos e canalhas.Observando as expressões que passavam pelo rosto de Isabela, Jorge percebeu exatamente o que ela sentia. Com um sutil aperto nos lábios, quebrou o silêncio:— Você ainda acredita em amor?A resposta de Isabela veio com um balanço firme de cabeça.— Não. — Disse ela secamente. Sentindo que esse tipo de conversa sobre sentimentos talvez não fosse apropriada para ter com Jorge, Isabela rapidamente sorriu e mudou de assu
Com isso, Isabela mesma se levantou com um gesto espontâneo de gratidão, erguendo sua xícara como se fosse uma taça de vinho.— Professor Davi, eu sei que foi graças ao senhor que o Dr. Jorge me aceitou no escritório. Queria brindar em sua homenagem, mesmo que seja só com chá. — Declarou ela antes de virar o conteúdo da xícara num só gole.Davi, porém, abriu um sorriso bondoso e fez um gesto negativo com as mãos.— Você não precisa me agradecer, Isabela. Quem merece seu reconhecimento é o Jorge. Ele nunca aceita estagiários, mas fez uma exceção porque viu seu potencial. E não foi por minha causa, mas porque você é realmente boa no que faz. — Explicou ele, fazendo uma pausa significativa antes de completar. — Só que você precisa continuar se esforçando, não pode decepcionar nem a mim nem ao Jorge.Isabela virou ligeiramente o rosto, demonstrando um leve desconforto, e direcionou sua atenção para Jorge.— Obrigada, Dr. Jorge, brindo ao senhor também. — Disse ela enquanto enchia novamente
Davi claramente ficou surpreso por um momento ao saber que moravam no mesmo condomínio, mas logo abriu um sorriso caloroso e deu tapinhas amigáveis no ombro de Jorge. Não pronunciou sequer uma palavra, mas seu sorriso malicioso dizia mais que mil palavras.Ele parecia perceber que estava se preocupando à toa. Se Jorge tivesse alguma intenção com Isabela, certamente tomaria a iniciativa por conta própria. Não precisava de intermediários para fazer essa ponte.— Estou aguardando boas notícias. — Comentou Davi com um sorriso repleto de segundas intenções, enquanto lançava olhares significativos para ambos.Isabela ficou confusa, alternando o olhar entre Davi e Jorge, tentando compreender o que acontecia entre os dois homens naquele diálogo silencioso.— Podem ir agora, já está tarde. — Concluiu Davi, se preparando para fechar a porta. — Tomem cuidado na estrada.Jorge se virou então para Isabela com um gesto suave.— Vamos?— Claro. — Respondeu ela com pouco entusiasmo, ainda intrigada co
Os olhos de Isabela brilharam num instante ao ouvir sobre o caso.— Não vou sair mais. — Respondeu ela sem hesitação.Para Isabela, o trabalho sempre esteve e continuaria em primeiro lugar. Todo o mais poderia esperar. O crescimento profissional era sua prioridade desde o divórcio.Jorge manteve os lábios levemente pressionados, mas o canto de sua boca se ergueu numa sutil demonstração de satisfação que Isabela nem sequer notou. Já concentrada, ela digitava rapidamente uma mensagem para a amiga: [Vivi, me desculpa, peguei um caso de última hora. Não vou conseguir ir.]A resposta de Viviane veio imediatamente com um simples interrogação, seguido por um emoji de uma pessoa com a cabeça explodindo de problemas.Viviane acrescentou logo em seguida, compreendendo a situação: [Tá bom então. Vou sair só com a Janete.] A profissão de advogado era assim mesmo, imprevisível e sem horários fixos.Isabela leu a mensagem, percebendo como Viviane mencionava Janete com tanta familiaridade. Conhecen
Analisando os autos do processo, Isabela constatou que a lesão poderia ser classificada como leve de grau um ou, na pior das hipóteses, grave de grau dois, o que significava que sua cliente estava sendo formalmente acusada de lesão corporal dolosa. Nessas circunstâncias, iniciar um processo de divórcio imediatamente não seria nada favorável para ela.Além disso, conforme o registro do depoimento policial, as autoridades haviam enquadrado o incidente também como rixa, complicando ainda mais a situação jurídica da cliente.Jorge se recostou na cadeira e, com um gesto suave de mão, a incentivou:— Me diga o que você pensa sobre isso.Isabela respirou fundo, organizando mentalmente seus argumentos antes de responder:— Pelos documentos que analisei, não há fundamento legal para a acusação de rixa. Estive pensando se não seria mais estratégico dividir esse caso em duas etapas distintas.Após uma breve pausa para estruturar melhor suas ideias, ela prosseguiu com mais confiança:— Dr. Jorge,
— Não poderia me chamar de outra forma? — Perguntou Jorge, nitidamente desconfortável com a formalidade que Isabela mantinha. — Parece que sou apenas seu chefe...— Mas você é o meu chefe. — Respondeu ela com naturalidade, sem compreender por que aquilo o incomodava tanto. Na sua visão, a maneira como o tratava estava perfeitamente adequada à relação profissional que mantinham.Jorge permaneceu em silêncio por alguns instantes antes de sugerir com voz mais suave: — Pode me ver como um amigo também.Isabela piscou várias vezes, confusa com aquela proposta inesperada. Nem sequer tinha bebido durante o jantar, então o que estaria acontecendo com ele? Além disso, não conseguia entender por que a forma respeitosa como o tratava parecia incomodá-lo tanto. Mesmo que fossem amigos, Jorge era alguém que ela admirava, e acreditava que deveria sempre demonstrar esse respeito....Ao chegar em casa, Isabela se deitou na cama com a mente ainda fervilhando de pensamentos sobre o caso jurídico. Por
Após serem demitidos sem justa causa, os funcionários não receberiam nenhuma compensação financeira, se encontrando numa situação amarga da qual não podiam sequer reclamar. Leonardo se aproximou de Isabela com aquele seu característico sorriso travesso e comentou animadamente:— Isabela, fiquei sabendo que nenhum homem conseguiu escapar daquela armadilha! Todos caíram direitinho.Isabela se manteve em silêncio, observando a empolgação do rapaz com o desfecho daquela situação.— Você não faz ideia de como eu ri quando soube! — Exclamou Leonardo, segurando a barriga enquanto gargalhava. — Isso é muita enrolação, uma história mais maluca que a outra!Não dava para negar que esses advogados realmente sabiam como se divertir com as desgraças alheias.— Todo mundo diz que os advogados são os verdadeiros mestres do bem e do mal, e não é que é verdade mesmo? — Continuou ele, baixando ligeiramente o tom de voz. — Mas ouvi dizer que o Dr. Jorge é ainda mais incrível. Dizem que ele ajuda as pess