Passei o dia com o Edwin como de costume. Para fingir estar doente, tinha de me privar de andar pelo castelo livremente. Pelo menos os guardas tinham parado de vigiar minha porta depois daquele jantar. Estava liberada para vagar por aí, mas agora precisava manter meu disfarce para o príncipe se manter longe de mim.
Todavia, o meu disfarce foi posto em xeque quando alguém bateu na porta do meu quarto. Meus olhos se arregalaram e eu e meu mordomo trocamos olhares significativos. Corri para cama e me enfiei nos cobertores. Ele puxou um pedaço de pano no bolso e colocou na minha testa. Uma bandeja com água e alguns aperitivos já estava no criado-mudo e ele logo passou a mão no cabelo para penteá-los antes de abrir a porta para a visita.
— Ah, Vossa Alteza... — o Edwin disse
Uma semana meio perturbadora se seguiu desde a minha conversa com o príncipe Matthew no meu quarto. Esses dias foram marcados com alguns almoços e jantares finalmente mais descontraídos. Aos pouquinhos eu ia vendo o "garoto" sem precisar vê-lo transformado pela sua maldição. Parecia que eu estava retirando sua casca e revelando alguém um pouco diferente. Ainda pensava nas palavras da deusa e não me deixava envolver totalmente... Quero dizer, isso se "envolver" não tiver incluído alguns beijinhos de vez em quando. Esperava que não.Para o meu alívio, meu mordomo ainda não desconfiava de nada. Pelo contrário, estava ficando feliz por eu ter descoberto que o príncipe não é uma pessoa tão ruim assim de se conviver. As vezes ficava com um pouco de dó porque a cad
Mais uma semana se passou enquanto eu tentava assemelhar todas as palavras da princesa Marilene. Apesar da sua recomendação para eu ficar longe do príncipe Matthew, acabou ficando mais complicado de cumprir, ainda mais agora que eu tinha dado uma semana de corda no príncipe. Constantemente ele me chamava para almoçar e jantar com ele. Esses momentos, além de envolverem comida, era importante para eu tirar mais algumas dúvidas com ele.Entretanto, ele me perguntou diversas vezes o que a princesa havia me dito naquele dia. Fiz questão de não contar exatamente. Tentava dizer só o que não lhe dizia respeito e como se tivesse percebido a minha intenção, ele voltava a essa pergunta, querendo descobrir as informações ocultadas por mim. Não disse nada.
Não consegui dormir sabendo que a qualquer hora o Trevor viria para me buscar. A essa altura, Edwin parecia descansar tranquilamente no sofá como sempre fazia assim que ficava tarde. Entendia sobre ele estar muito cansado com o trabalho de cuidar de mim, por isso, deixei ele descansar. Ainda torcia para ele conseguir sobreviver junto do príncipe ao ataque para acontecer por esses dias.Fechei os olhos, prestando bastante atenção nos sons ao meu redor. Conseguia distinguir no escuro o respirar tranquilo do meu mordomo e os sons de alguns animais vindos do lado de fora.E, no meio desses sons tímidos, ouço alguém bater levemente na porta do meu quarto. Foi realmente um toque bem suave e se eu não estivesse atenta, com certeza não notaria. Outro toque foi dado, mas eu j&
Nunca tinha carregado alguém no meu dorso, mas agora teria de me acostumar com o peso extra. Fiz amarras de escuridão para mantê-lo preso a mim e saltei a janela aberta. Trevor seguia logo atrás. Me agarrava àquela chance de sobrevivência como nunca.A situação do lado de fora era tão caótica quanto à de dentro. Entretanto, ali havia muito mais gente lutando um contra o outro e eu podia notar homens mais velhos enfrentando os Cavaleiros. Deviam ser mais rebeldes para acudir os garotos vindos no treinamento.Trevor tocou meu pescoço de equino e seguiu na frente. Como não haviam árvores suficientemente cheias como as de Mariah, obviamente estávamos expostos. Mesmo assim, isso não foi o suficiente para despertar vontade dos Cavalei
Quando os Cavaleiros conseguiram restabelecer a ordem do castelo, pude observar o tamanho do estrago causado pelos rebeldes. Teve uma quantidade considerável de mortos espalhados por todo o jardim. Os Cavaleiros sobreviventes ficaram responsáveis por levar os corpos para os fundos do terreno onde fizeram uma funda cova e foram descartando os corpos por ali mesmo. Longe e fundo o suficiente para o cheiro não incomodar o ambiente do castelo.Tive de voltar para o meu quarto, então não pude acompanhar o desenrolar da coisa. Felizmente Edwin estava no meu quarto para me manter atualizada sobre os acontecimentos do castelo. Não esperava poder ver o príncipe hoje já que passaria o restante da noite ocupado. Olhei o relógio na parede, tendo a surpresa da noite estar avançando rapidamente.
Aproveitei os meus últimos momentos com o Edwin naquele dia. Jogamos por várias vezes o jogo de cartas enquanto ele me interrogava frequentemente sobre eu ir embora assim tão de repente. Sempre desviava a pergunta, dizendo ser apenas uma sensação boba de despedida. Podia estar errada, mas não estava. O dia do ataque serviu para a organização do castelo e logo fiquei sabendo de novos Cavaleiros convocados para servirem no castelo real.Naquela noite, abracei o Edwin antes de ele ir dormir e aguardei, sentada na cama, a chegada do príncipe. Ele nunca me deixava andar desacompanhada e fico pensando se tinha a ver com a falta de confiança dele com os próprios Cavaleiros. Teria ele medo de eles me fazerem algum mal? Talvez nunca fosse descobrir.Ouço duas bat
PARTE TRÊSO ÚLTIMO DESTINOEu me tornei uma Guerreira. Ainda me lembrava claramente do treinamento e do quanto eu tinha me dado bem nele. Retirei o restante da armadura, guardando no local apropriado. Suspirei. Admirei-me no espelho, vendo meus cabelos um pouco mais longos, entretanto, ainda estavam no meu ombro.O treinamento havia me deixado mais madura e tinha a sensação de dever cumprido. Tinha me dado tão bem no treinamento que havia sido contratada pessoalmente pela princesa Marilene para me tornar seu braço direito. Maior orgulho dela.Era difícil permitirem fazer
Deitei na cama com o pequeno bilhete em mãos. Meu coração estava apertado no peito, pensando se aquele bilhete não tinha sido a última coisa a qual minha mãe teve o prazer de escrever. Comprimi os lábios, tentando reprimir o choro. Minha garganta ardeu e logo uma lágrima me escapou, escorrendo pelo meu rosto. Pensar que ela havia partido sem nem poder se despedir — e muito menos sem um enterro digno — era quase cruel.Fechei os olhos, por um momento tentando imaginar aqueles homens imundos segurando-a e simplesmente lhe tirando a vida. Sabia que degolaria um homem se estivesse o vendo maltratar minha mãe daquela forma.Ao menos poderiam ter deixado o corpo dela em paz, pensei em desgosto.Reli o bilhete deixado por ela para mim várias vezes.