A Esposa do meu Chefe
A Esposa do meu Chefe
Por: G. Rodrigues
Ela Voltou

O despertador tocou pela terceira vez, até que Alice finalmente se levantou, em um salto. O coração disparou, antes mesmo de seus pés tocarem o chão. 

— Droga, vou chegar atrasada de novo! — murmurou ao olhar a hora.

Morar com os pais e dois irmãos, um de doze e outro de vinte anos, significava uma rotina caótica. Entre discussões sobre quem usaria o banheiro primeiro e a briga por café da manhã, sair no horário era quase um milagre. Ela correu para o banheiro, escovou os dentes com pressa e jogou água gelada no rosto. Seu cabelo ondulado, de tom loiro-mel, estava um caos. Mas não havia tempo para grandes ajustes, então fez um coque improvisado, colocou sua bolsa no ombro e desceu as escadas às pressas, desviando do seu irmão mais novo, Tomás, que bloqueava a passagem com uma mochila gigante.

— De novo? Vai chegar atrasada. — Benício zombou, com um sorriso. — Já aviso, que não vou te dar carona. 

— Cala a boca, Benício! — Alice resmungou, pegando uma maçã da mesa antes de sair.

Alice, uma jovem determinada e promissora, de vinte e três anos, com traços delicados e um olhar âmbar expressivo. Trabalhava na Lancaster Enterprises, um lugar que moldara sua vida nos últimos três anos. Entrou como uma simples estagiária do setor de publicidade, insegura e inexperiente, mas com uma determinação feroz conquistou seu lugar. Seu esforço foi recompensado quando, ao final do estágio, recebeu a notícia inesperada de que seria efetivada. E um ano depois, veio a surpresa: uma promoção para o cargo de assistente pessoal do CEO.

Victor Lancaster.

Falando no chefe, um moreno claro de quarenta e dois anos, com um porte atlético, alinhado. O tipo de homem cauteloso, que impunha respeito, dominava os negócios com maestria. Apresentava-se como um líder nato, um tanto exigente e implacável nos negócios. Mas carismático, conseguia fazer até os mais durões baixarem a guarda.

A garota chegou na empresa ofegante, com o salto batendo rápido contra o mármore enquanto atravessava o lobby, ajeitando a blusa enquanto tentava recuperar o fôlego. Quando as portas do elevador se abriram no último andar, um ambiente acolhedor, com tons neutros e um ar sofisticado se envolviam com o aroma cítrico e discreto daquele espaço exclusivo.

Alice seguiu diretamente para a sua mesa, pronta para começar o dia. Poucos minutos após sentar-se, organizando documentos e verificando a agenda, com os dedos já voando sobre o teclado do computador branco. No entanto, o ar ao seu redor mudou. Havia alguém adentrando o corredor com um perfume diferente do habitual, parecia uma fragrância cara, mas com um toque exótico. Alice ergueu a cabeça e seus olhos por um instante se voltaram para alguém ilustre. A mulher parada à sua frente era um espetáculo. Estava diante dela:

Valentina Lancaster.

A esposa do chefe, aparentemente alta, esguia, seus olhos verdes brilhavam de forma enigmática. Cabelos negros, como ébano, perfeitamente alinhados sobre os ombros. Seu traje era sofisticado, um conjunto de alfaiataria creme. Havia algo nela que era, ao mesmo tempo, refinado e ameaçador. Elas ainda não haviam sido apresentadas. Seus lábios carnudos esboçaram um sorriso sutil, perigoso demais para ser apenas educado. 

Alice engoliu em seco. Nunca tinha se sentido tão, observada. A mulher inclinou levemente a cabeça, analisando-a sem pressa, como quem avaliasse um produto de valor estimado. 

— Então é você. — Valentina sorriu, lenta, deliberadamente. — Gostei.

A voz era suave, mas havia algo nela diferente.

— Perdão, o quê? — Alice piscou, confusa. 

Valentina deu um passo à frente, diminuindo a distância entre elas.

— Você não é assistente do meu marido?

A voz dela era expressiva e sedosa, carregava um tom que Alice não conseguia decifrar. Seria uma intimidação? Ela sentiu o coração pulsar mais rápido, incerta sobre a intencionalidade daquele olhar afiado.

— Prazer, Valentina. Qual é o seu nome?

Alice tentou não se mexer, mas suas mãos tremeram levemente.

— Alice… Alice Consuelo Martins. É um prazer senhora.

Valentina sorriu, lentamente, de forma calculada.

— Alice... — Ela repetiu cada sílaba como se estivesse saboreando aquilo. — Um nome delicado, parece combinar com você. Ah! Por favor, não me chame de senhora. Isso me faz sentir velha.

Valentina ergueu a mão, aproximando-se mais. Antes que Alice pudesse reagir, ela esfregou levemente o canto de seu olho.

— Desculpa. Seu rímel estava borrado.

— Obrigada. É que eu estava com pressa quando saí de casa, acabei cometendo esse deslize.  — Alice sorriu, sem graça.

Alice sentiu a garganta secar. Havia algo na presença daquela mulher que a desconcertava por completo. Mas Valentina não pareceu notar ou se notou, se divertiu com a situação. Ela ajeitou a bolsa no ombro e olhou ao redor como se estivesse inspecionando o espaço novamente.

— Preciso ir ver o meu marido agora — disse, casualmente, mas com um brilho afiado nos olhos. — Passei vários dias fora, e ele fez questão de deixar claro que eu precisava passar logo aqui, urgentemente! 

A ênfase na última palavra fez Alice apertar as mãos no colo. Ela desviou o olhar, desconfortável, enquanto Valentina deu um sorriso. Quase como se estivesse se divertindo com a sua reação. Então, virou-se e caminhou em direção à porta do escritório de Victor, seus saltos ecoando suavemente pelo chão de mármore polido. Mas, ao invés de entrar imediatamente, ela parou e virou-se.

— Foi um prazer conhecê-la, Alice! — Sua voz ecoou moderadamente, quase um sussurro íntimo. — Tenho a sensação de que nos daremos super bem.

E com isso, desapareceu dentro do escritório ao fechar a porta de vidro. Alice permaneceu estática. O impacto daquele primeiro encontro a deixara sem fôlego. Seu estômago revirava. Precisava de um tempo para voltar a normalidade, então afastou-se discretamente do corredor principal e desceu para tomar um ar. O impacto do olhar de Valentina ainda pairava sobre ela, e aquele sorriso… Havia algo naquele sorriso que a deixava inquieta. Aproveitando, ela se dirigiu à cozinha compartilhada, onde conseguia uns minutos de paz. Mas, antes mesmo de conseguir encher um copo d’água, ouviu o som apressado de saltos e passos pesados atrás dela.

— Menina, pelo amor de Deus, o que a esposa do CEO veio fazer aqui?! — Os olhos catanhos arregalados, com a voz em um sussurro histérico.

Era Dora, a secretária mais antenada da empresa. Ela se aproximou, segurando o braço de Alice, como se estivesse prestes a ouvir um grande escândalo.

— Você está falando da… Sra. Lancaster? — Alice piscou, confusa.

Dora suspirou, impaciente.

— Ela não gosta de ser chamada de senhora, não esqueça! Aliás, aquela lá é uma sedutora encarnada. E ela quase nunca pisa aqui por acaso, sabe disso, né?

Alice negou com a cabeça, ainda sem entender o que estava acontecendo direito.

— Pois é, minha amiga. Quando ela aparece, alguém sempre se queima. — Dora abaixou a voz, como se estivesse prestes a revelar um segredo sombrio. 

Antes que Alice pudesse perguntar o que era, outra voz entrou na conversa.

— Essa aí não é flor que se cheire.

Alice virou-se e encontrou Dona Santa, a zeladora mais antiga da empresa. Ela se aproximou com os olhos estreitos de desconfiança.

— O que a senhora quer dizer?

— O assistente do chefe sumiu depois de uns boatos que ele tava envolvido com ela.

Alice sentiu um frio na barriga, incrédula.

— Envolvido, como assim? Que boatos são esses? — Alice perguntou, a voz mais fina do que gostaria.

Dora e Dona Santa trocaram olhares significativos.

— Como assim, Alice? — Dora cochichou, arregalando os olhos. — Casos escandalosos, segredos sujos. Dizem que o assistente Raul se envolveu com ela e... bem, você sabe como essas histórias terminam. —  Ela acrecentou, — você acha que um assistente como ele, que era braço direito do Victor e do sogro, ia ser demitido assim do nada?!

Dona Santa fez um som de desdém.

— Além disso, o rapaz era pobre e o Sr.Ramon nunca iria concordar com aquele relacionamento. Depois disso, Victor ficou mais esperto e passou a contratar pro cargo mulheres ou homens que não gostam de jeito nenhum de mulheres. Talvez seja por isso que a mulher perdeu o interesse de continuar vindo trabalhar.

Alice engoliu seco, processando o que ouviu.

— Mas o Sr. Victor é casado com ela. Parece apaixonado. Ele a ama, não?

Dora soltou uma risada abafada.

— Apaixonado é pouco. Ele é obcecado! E ela sabe disso. Se aproveita da situação. Tenho pra mim que ela faz isso de propósito, só de provocação.

Dona Santa acrescentou ainda:

— Amor é uma palavra complicada quando Valentina está envolvida. Ela j**a com as pessoas.

Dora concordou, balançando a cabeça e Alice sentiu um certo arrepio.

— Então por que ela veio aqui hoje?

As duas se entreolharam, e Dona Santa arregalou os olhos claros.

— Isso é o que me pergunto. Porque, se tem uma coisa que sei, é que o patrão não quer nem saber dela pintada por aqui. E hoje ele ter pedido para ela vir, acho muito estranho.

Alice mordeu o lábio, se despedindo das colegas. Saiu, lembrando-se da forma como Valentina a olhou, de cima para baixo. O sorriso dela não era natural, pareceu um riso provocativo. Aparentava ser uma mulher intimidadora.

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