Eu desperto.Calor. Chamas. O cheiro acre de carne queimada e metal retorcido.Os gritos parecem distantes, como ecos de um pesadelo. Tiros. Explosões. O mundo ainda treme. Tudo é barulho, caos e morte.Minha visão se ajusta. Meu corpo está coberto de apêndices metálicos, filamentos vivos de polímeros reforçados que se agarram aos destroços ao redor, puxando matéria para reconstruir meu braço arrancado. A estrutura se refaz camada por camada, até que os dedos finalmente respondem ao meu comando.Ainda estou fraca.Me arrasto, os músculos pesados, a pele latejando onde os nanoides ainda trabalham para fechar os ferimentos. Meu gancho. O vejo jogado a alguns metros de mim. Preciso dele.Forço o corpo para frente, cada movimento um esforço brutal. O calor faz o ar vibrar, dificultando a respiração. Quando finalmente alcanço o dispositivo, agarro-o com a mão recém-formada. Sem perder tempo, o conecto ao braço.A estrutura se ajusta, tudo se alinha novamente.Acho que se passaram apenas al
Me comunico pelo rádio — Atenção, todos na área do Castelo, evacuem imediatamente, risco de explosão nuclear. Encontrado um mini artefato nuclear armado e em contagem regressiva de dois minutos. Saiam da área, repito, saiam da área. Câmbio e desligo.Dou um sorriso sádico enquanto analiso todos os passos do que devo fazer. O som abafado do cronômetro ecoa no silêncio opressor. O painel de controle da bomba brilha com luzes vermelhas e amarelas, alertas piscando como avisos de morte iminente. O artefato nuclear está alojado em uma carcaça metálica cilíndrica, com fios entrelaçados conectando seus componentes internos. O visor digital exibe uma contagem regressiva implacável.Cada movimento precisa ser calculado.1. Acesso ao dispositivoA tampa do compartimento principal é removida com cuidado, revelando a intrincada rede de circuitos e explosivos convencionais ao redor do núcleo fissível. Primeiro, o mecanismo anti-intrusão precisa ser contornado. Sensores podem detectar vibração, ca
Acelero a lancha, deixando para trás o túnel escuro e o peso da incerteza. O rio subterrâneo se alonga diante de mim, suas águas agitadas refletindo a luz fraca que se infiltra por fendas ocultas nas rochas. Meus olhos estão sempre em movimento, analisando o percurso, pronta para qualquer ameaça.Enquanto sigo o curso do rio, encontro um rádio a bordo. Com um rápido ajuste nas frequências, começo a captar transmissões militares. Caço sinais até finalmente encontrar o que procuro: a frequência do esquadrão de Jair O Leão.— Aqui é Kira. Estou viva. Encontro vocês no ponto que estou enviando agora.A resposta dele vem rápida, solícita como sempre. Jair já está a caminho, pronto para me receber.Ao emergir do subterrâneo e finalmente alcançar o ponto de encontro, lá está ele. Seus olhos me encontram de imediato, carregados de preocupação. Por um momento, ele parece avaliar meu estado, como se temesse encontrar algo pior do que vê. Mas quando me vê andando e falando normalmente, solta um
Kira foi destacada para um batalhão diferente do meu. Eu não queria que fosse assim, mas era a divisão necessária. As exigências da guerra. Ela já tinha Killey ao seu lado e um outro sicário que manuseava armas pesadas. Seu caminho a levava por um bairro perigoso, enquanto o nosso exigia discrição—afinal, vivíamos ali, e muitos nos conheciam. Conseguimos avançar sem chamar atenção, mas Kira…Ela parecia querer os holofotes para si. Ou talvez apenas soubesse que nunca passaria despercebida. E como poderia? Como alguém poderia ignorá-la? Ela era linda, feroz, com um corpo capaz de despertar até os mortos—e eu, definitivamente, estava muito vivo.Fiquei grudado no rádio, acompanhando cada passo que ela dava rumo ao Castelo. Incrível. Implacável. Os homens ao redor dela não conseguiam desviar o olhar, fascinados pela forma como ela lutava. E o mais impressionante? Mesmo ferida, ela continuava avançando. Eles não entendiam como, mas, depois de alguns minutos, não havia mais furos de bala o
Eu explico tudo o que aconteceu, informando que Killey está bem e que conseguimos salvá-lo de uma investida inimiga. Mas, ao invés de alívio, vejo apenas impaciência no rosto dela.— E o Dentuço? — ela insiste, incisiva.Solto um suspiro, tão frustrado quanto ela.— Fugiu.Vejo seus olhos se estreitarem, sua mandíbula se contrair. Também estou puto com essa situação, mas agora não adianta remoer isso.— Precisamos nos reagrupar e continuar a missão — sugiro.Ela não responde imediatamente. Em vez disso, muda o foco.— E seu amigo Netlinker?— Ele está bem.Mas sei que não é isso que ela quer ouvir. Ela me encara e ordena:— Então chama ele. Quero que comece a analisar esses datachips e tente quebrar as criptografias enquanto eu cuido do resto.— Certo, vou chamá-lo.Pego o rádio e faço a chamada sem hesitar. Enquanto espero resposta, noto que Kira mexe em algumas caixinhas cheias de datachips e me entrega e sua atenção logo se volta para o rio.— Jair, vou seguir pelo rio e chamar alg
Logo que me preparava para sair da área do acampamento, Killey apareceu segurando uma monokatana. Sem hesitar, ele se ofereceu para me ajudar. Antes que eu pudesse responder, estendeu a lâmina para mim.— Aqui, achei que fosse precisar. — Disse, sem rodeios.Peguei a monokatana, sentindo seu peso familiar na mão, enquanto ele continuava com sua preparação. Carregava também um rifle pesado, que colocou dentro de um carro junto com um suporte para a arma.— Você tem certeza? Posso ver que seus pontos ainda estão visíveis. Concordo que vá, mas apenas como apoio. — Declaro, sem deixar espaço para discussão.— Como se eu tivesse sido algo além disso durante toda essa incursão. — Killey responde em um tom seco e baixo, sem interromper seu trabalho.Ele então aponta para uma moto e olha para mim.— Kira, sei que você não gosta de andar dentro de locais fechados, então ajeitei essa para você. — Um leve sorriso escapa de seus lábios.Fico realmente surpresa. Não faço ideia de como ele percebeu
A explosão das granadas abalou a estrutura da porta, soltando fragmentos de concreto e deixando marcas de queimadura no metal. Mas o que realmente me pegou de surpresa foi o que aconteceu em seguida.Uma maluca de patins?Fiquei parada por um instante, absorvendo a cena. A garota era pequena, com cabelos loiros presos em duas xuquinhas e luzes rosa e roxo destacando-se sob a iluminação precária. Pele clara, olhos azuis vibrantes, sardas espalhadas pelo rosto juvenil. Mas o detalhe mais absurdo? No lugar dos pés, ela tinha implantes de patins.Antes que eu pudesse reagir, ela disparou pelo corredor—rápida, muito rápida—mas o controle não acompanhava a velocidade. O impacto foi grotesco quando ela se chocou contra a parede no final do corredor, o baque ressoando pelo espaço apertado.Fiquei olhando, incrédula. Então, sem conseguir evitar, soltei uma risada baixa. Era ridículo, estúpido e, de alguma forma, hilário.Mas a diversão não durou.A garota se levantou de um pulo, olhos ardendo
Manaus. Meu apartamento. Ivan e G.E.S.S. conversam, mas minha mente está em outro lugar. Faz dias que penso nisso. Lutar contra as corporações, agir pelo povo. Mas como? Um nome, uma identidade, um plano... Ainda não tenho nada disso.Então, o interfone toca. Me levanto, atendo sem pensar muito. Mas a voz do outro lado me faz congelar.— Teresa?Eu só a vi uma vez, mas sei quem ela é. E sei com quem ela anda. Teresa é uma mídia e também era namorada de Chang Liu.O que diabos ela quer comigo?Teresa entra no meu apartamento como se fosse a dona do pedaço. Nem pede permissão, só passa pela porta com aquela atitude de quem acha que o mundo gira ao seu redor. Reviro os olhos. Não entendo o que acontece com a mulherada hoje em dia. Isso me faz lembrar de Lucy—ela também agia como se mandasse aqui. Um leve ressentimento me atravessa. Passamos dias juntos e, de repente, ela morreu.E Dragon... Esse eu evito pensar. As lembranças dele vêm carregadas de coisas que prefiro deixar enterradas.T