Capítulo 3
Docinha, afinal, era apenas uma criança e ainda não sabia esconder completamente suas emoções. Ao ouvir que aquela casa seria delas, ela imediatamente perguntou, empolgada:

— Sério?

Vera, nervosa, segurou o braço da menina:

— Docinha, não diga bobagens! Esta casa é da Katia.

Depois de falar, Vera olhou para mim com os olhos marejados, exibindo uma expressão de injustiçada:

— Katia, eu nunca quis estragar o seu relacionamento com o Uriah. Eu vou embora agora mesmo, por favor, não fique brava.

Ao ouvir isso, Uriah correu até ela e segurou seu braço. Vera, sem resistência, caiu deliberadamente em seus braços. Ele rapidamente a amparou, mas, quando nossos olhares se cruzaram, ele soltou o braço dela, apressado.

Os olhos de Vera brilharam por um breve momento, cheios de frustração, mas logo assumiram uma expressão de resignação:

— Uriah, não adianta insistir. Nós já estamos incomodando demais.

Enquanto falava, lágrimas começaram a escorrer de seu rosto, fazendo-a parecer uma flor de lótus prestes a murchar.

Docinha se jogou nos braços da mãe, chorando alto:

— Mamãe, não chore! A culpa é toda minha. Se não fosse por mim, você não teria que passar por tanta coisa.

Eu assistia a cena com frieza. Aquelas duas, mãe e filha, estavam desperdiçando um talento que claramente deveria ser explorado no cinema. Era uma tremenda perda para a indústria do entretenimento.

Uriah, por outro lado, olhava para elas com um olhar cheio de pena. E quanto mais ele sentia pena delas, mais irritado ficava comigo. Ele me encarou com raiva e disse:

— Katia, fui eu quem pediu para elas virem para cá. A casa da Vera está com um vazamento e vai levar alguns dias para consertar. Nossa casa é grande, então ofereci para que elas ficassem aqui. Achei que seria uma boa oportunidade para você e ela resolverem suas diferenças. Mas não imaginei que você fosse tão hostil com as duas. Docinha é só uma criança. Como você consegue deixá-la tão triste?

Eu já não tinha paciência para discutir com Uriah, mas não consegui conter a vontade de responder àquela idiotice. Com sarcasmo, eu disse:

— Uriah, se está com problemas de visão, procure um médico. Desde que elas entraram por aquela porta, eu só disse uma única frase. Vocês inventaram todo esse drama sozinhos. É uma pena que o Prêmio Nobel de Literatura não tenha incluído vocês na lista. E outra coisa: eu estou indo embora. Você acha mesmo que eu me importo com quem você quer que more aqui?

Uriah ficou paralisado, me olhando incrédulo. Ele parecia confuso, sem saber se eu realmente não me importava ou se estava apenas dizendo aquilo de propósito.

Foi só quando eu o empurrei, arrastei minha mala e saí sem olhar para trás que ele percebeu, finalmente, que eu realmente estava disposta a me divorciar.

Enquanto eu saía, Uriah se lembrou do que aconteceu seis meses antes. Na época, Vera tinha sofrido um acidente de carro. Após sair do hospital, Docinha disse que tinha medo de ficar sozinha em casa com a mãe. Então, Uriah teve a brilhante ideia de trazer as duas para morar na nossa casa.

Quando eu soube disso, fiquei tão furiosa que quebrei tudo o que vi na nossa casa e ameacei me jogar da sacada se Vera colocasse os pés ali.

Uriah desistiu da ideia, mas passou três meses em silêncio absoluto, me tratando com frieza. Só voltamos a nos falar porque Kael teve uma crise alérgica e precisou ser internado. Naquele momento, eu queria cuidar dele no hospital, mas fui impedida. Para poder estar ao lado do meu filho, tive que pedir desculpas a Uriah. Foi assim que nossa relação começou a melhorar novamente. Mas, depois disso, eu nunca mais fui a mesma com ele.

Eu me tornei obediente. Mais obediente até do que depois daquela vez em que caí das escadas.

Uriah, no entanto, achava que minha mudança era motivo de orgulho. Ele acreditava que finalmente tinha conseguido domar meu “gênio difícil”. O que ele não sabia era que, a partir daquele momento, meus sentimentos por ele começaram a desaparecer lentamente, até não restar mais nada.

Quando ele finalmente decidiu sair para me impedir, Vera soltou um grito. Ele olhou para trás e viu que Docinha havia desmaiado em seus braços.

Vera gritou, desesperada:

— Uriah, o que aconteceu com a Docinha?

Kael também ficou aflito. Ele agarrou a manga da camisa do pai e implorou:

— Papai, leve a Docinha para o hospital!

Ele não parecia se importar nem um pouco com a mãe que estava indo embora. Uriah, sem hesitar, pegou Docinha no colo e saiu correndo da casa.

Do lado de fora, ele percebeu que havia começado a nevar.

A tempestade de neve veio de repente e me impediu de conseguir um carro. Como o bairro de casas ficava em uma área afastada, eu não tive outra escolha a não ser caminhar pela neve, enfrentando o frio cortante.

O carro de Uriah parou na minha frente. Ele abaixou o vidro da janela e me olhou com uma expressão séria:

— Entre no carro.

Eu continuei andando, ignorando-o completamente.

Ele bateu no volante, frustrado, e perguntou, irritado:

— Katia, até quando você vai continuar com isso?

Nesse momento, o celular dele tocou. Era a voz da minha mãe que saiu pelo viva-voz:

— Katia, se você continuar com essa palhaçada, pode esquecer que um dia foi minha filha.

Eu ri baixinho e respondi, sem me importar:

— Mas eu já não sou sua filha há muito tempo, minha senhora.
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