Capítulo 2
Uriah não esperava que eu já tivesse arrumado minhas malas. Ele correu até mim, tentando me impedir. Mas, antes que pudesse fazer qualquer coisa, o som da fechadura eletrônica ecoou pela sala. Alguém estava destrancando a porta.

No momento seguinte, Vera entrou, segurando a mão da filha, Docinha.

Eu não conseguia acreditar no que via. A fechadura da nossa casa tinha a digital dela registrada. Mas como isso era possível? Eu já havia deixado claro para Uriah que não queria Vera em nossa casa.

Ela me difamou, roubou tudo o que eu tinha, e eu a odiava. Mas, claramente, Uriah nunca deu ouvidos ao que eu dizia.

Quando Vera me viu, sua expressão mudou por um breve instante. Logo, ela fez aquela cara de vítima que sabia interpretar tão bem:

— Katia...

Do lado dela, Docinha imediatamente se escondeu atrás da mãe, como se eu fosse algum tipo de monstro. Chorando, ela disse:

— Não machuca a minha mamãe, por favor!

Eu olhei friamente para aquela garotinha de apenas dez anos. Ela parecia tão inocente, mas foi ela quem, no Natal, na casa dos meus pais, me acusou de ter agredido Vera.

Aquele tinha sido o Natal que eu esperei por anos. Era a primeira vez, desde o incidente, que meus pais me permitiram passar a noite com eles.

Eu queria tanto reconquistar o amor dos meus pais. Mas Vera fez questão de destruir isso. Ela me puxou pelas escadas, e nós rolamos juntas até o chão.

Minha perna quebrou, mas ninguém se importou. Todos correram até Vera, preocupados com ela.

Eu, chorando, disse:

— Foi ela quem me empurrou!

Vera não negou. Com os olhos avermelhados, ela apenas respondeu, com um tom amargo:

— Se minha irmã diz isso, deve ser verdade...

Foi então que Docinha começou a chorar alto. Descendo as escadas, ela gritou:

— Tia Katia, por que você empurrou a minha mãe? Ela nem queria vir aqui atrapalhar a sua família. Foi o vovô e a vovó que insistiram. Se você não gosta da gente aqui, a gente pode ir embora! Mas por que você teve que machucar a minha mãe?

Assim que ela terminou, minha mãe veio até mim e me deu um tapa no rosto, com força. Com nojo nos olhos, ela disse:

— Eu pensei que você tivesse se arrependido de verdade nesses últimos anos. Mas você é ainda mais cruel do que antes!

Naquele momento, as lágrimas desceram pelo meu rosto como uma enchente. Eu chorei, tentando me explicar, dizendo que não tinha empurrado Vera, mas ninguém acreditou em mim.

Meu pai, com uma expressão fria de desapontamento, disse:

— Docinha é só uma criança. Por que ela mentiria?

Uriah, com os punhos cerrados, olhou para mim com indiferença e disse:

— Katia, você não tem mais jeito.

Kael, meu próprio filho, veio até mim. Ele chutou minha perna machucada com força, e eu gritei de dor. Mas ninguém se importou. Eles me olharam sofrendo, como se isso lhes trouxesse satisfação. O silêncio deles dizia tudo: "Você mereceu".

Kael completou:

— Mãe ruim, eu te odeio!

Naquela noite, saí da casa dos meus pais chorando, mancando. Até hoje, lembro da dor que senti, tanto física quanto emocional.

Na época, decidi pedir o divórcio de Uriah. Mas, quando coloquei o documento na frente dele, ele apenas o rasgou com calma e disse:

— Katia, você ainda não entendeu? Hoje, além de mim, ninguém mais te ama.

Eu fiquei em choque, sem saber o que responder. Minha mente se encheu de dúvidas: ele realmente me amava?

Percebendo minha hesitação, ele riu com desdém e disse:

— Se eu não te amasse, por que eu continuaria aguentando você, mesmo com todas as coisas terríveis que você fez? Katia, seus pais já te abandonaram. Eles decidiram adotar Vera como filha. Aceite isso. Fique comigo e vamos compensar Vera juntos, certo?

Naquela noite, o medo falou mais alto. Eu tinha tanto medo de ser deixada sozinha, de não ter mais ninguém no mundo, que acabei cedendo. Eu não queria ser uma órfã sem lar, uma folha solta ao vento, rejeitada por todos.

Desde então, aprendi a me calar. Aprendi a ceder. Parei de tentar me defender. Permiti que Uriah e Kael, sob o pretexto de "compensar", negligenciassem a mim e favorecessem Vera e a filha dela. Mas, no fim, todo o meu esforço não trouxe nenhum resultado positivo.

Minhas memórias dolorosas foram interrompidas quando Kael passou por mim como um furacão, empurrando-me no processo. Ele correu até Docinha, segurou sua mão e disse:

— Docinha, não tenha medo. Eu e o papai estamos aqui. Ninguém vai machucar você e a Tia Vera.

Então, ele olhou para mim com desdém e declarou:

— Se você ousar machucar elas, nunca mais vou te chamar de mãe.

Docinha, com um sorriso doce e aparentemente inocente, disse:

— Kael, não seja tão duro com a Tia Katia.

Ela então olhou para mim, com um olhar que parecia inocente, mas escondia algo mais. Com a voz suave, ela continuou:

— Tia Katia, eu sei que você não gosta de mim e da minha mãe. Mas nós não somos como você. Nós não temos nada. Será que você poderia, por favor, não nos mandar embora?

Tão jovem, mas já cheia de artimanhas.

Eu sorri para ela e respondi:

— Como assim você não tem nada? Esta casa agora é de vocês.
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