Aiyra— Sua ideia? — Questiono, sem entender.Live solta o ar com força, seus olhos parecendo ainda mais cansados. — Ele estava bebendo o tempo inteiro, usando umas paradas perigosas. Eu sei reconhecer quando uma pessoa está a um passo de se perder de vez. Eu mesma tive os meus dias assim. — Ela passa a mão na nuca, fechando os olhos — Da última vez que estive com ele eu o aconselhei a se agarrar a algo, a qualquer coisa. O que eu vi no olhar dele depois disso me arrepiou até os ossos. Eu também quero a cabeça de Farrey, mas sei o quão idiota seria ir atrás disso. — Mas o Ethan também sabe disso, droga! — Vocifero, a preocupação me fazendo elevar a voz.— Ele sabe Dakota.... — Live me encara — Ethan sabe, mas não se importa.Agora entendo a ida idiota de Ethan aquele evento... eu não posso permitir que ele se destrua assim. Merda, o que eu faço?Olho para Live, sabendo que Ethan não foi o único afetado pelo drama da minha vida.— E você Live, como está? — Eu... eu estou bem. — Ela
AiyraOs corredores escuros do clube em que caminho parecem ainda mais soturnos quando vistos sob a minha perspectiva agora. Com a mesma peruca prateada que usei um outro dia eu tento não coçar o couro cabeludo, um gesto nervoso que tenho tido desde que comecei a usar essas coisas. Sei que não é a qualidade do produto e sim o meu próprio nervosismo ao ter que estar aqui.Kiler está lá embaixo nesse exato momento, tentando achar um motivo plausível para metade das meninas do clube serem trocadas a cada três meses. Claro que ele não vai achar nada nem perto do correto e é isso que queremos. Tem algo de muito podre sendo feito por trás de um clube de sexo livre, como eles mesmos gostam de serem titulados. O cara com quem estive tem menos de meia hora agora dorme tranquilo no quarto, a bebida que Kiler batizou sendo boa no momento certo, as mãos cheias de intenções do cara já começavam a me irritar.Agora, o correto seria ir embora e tentar rever com Kiler e Heiko o que temos e qual cami
AiyraGritinhos animados perfuram a bolha de sono em que estou. Reconheço a voz de Yana comentando algo, bem alto e me levanto, minha cabeça pulsando dolorosamente. Ontem depois que cheguei, eu só verifiquei se as crianças estavam dormindo e depois me enfiei debaixo das cobertas, um choro cheio de soluços me embalando até o sono me vencer.Agora sentindo os olhos inchados, me arrependo um pouco da minha crise. Ontem eu tive a plena certeza que nada entre Ethan e eu poderá voltar a ser como antes de novo. Foi como levar um soco direto no meu coração.Eu o amo e acho que continuarei o amando, mas mesmo que o perigo de Farrey deixe de pairar em nós, eu ainda não acho que poderemos voltar a nos amar despreocupadamente, sem que os anos separados e mentiras cruéis pesem em nossas trocas de olhares.Levanto-me da cama, com meu humor dilacerado. A mãe em mim vai se levantar, sorrir para meus filhos e lutar até o meu último suspiro pela segurança e felicidade deles, mas a mulher, aquela em mim
AiyraMeus olhos percorrem o padrão de preto e azul do espaçoso escritório, as janelas grandes que se estendem pela parede enchendo o cômodo de luz. Tenho quase certeza que esse não é um endereço real dos negócios de Heiko. Ele deve ter alugado, sendo assim mais difícil de ser rastreado. Kiler admira a vista da janela, suas costas largas bem delineadas pela camiseta clara que veste. Olhando para ele assim, uma pedra pesada parece encher meu peito. Eu fui uma escrota com ele... Desde nossa discussão aquela noite, ele só tem me dito o estritamente necessário. Kiler já é sisudo por si só, mas acho que quando está irritado com alguém ele consegue se tornar uma pedra de gelo.Eu quero retornar ao nível de convivência decente que criamos, mas eu simplesmente não sei como proceder. Eu não o conheço, não de verdade. Desvio meus olhos dele e volto a fitar a sala, o padrão corporativo do lugar me lembrando muito a empresa de Ethan e os estúdios.É como se fosse outra vida. A saudade de com
AiyraKiler e eu estamos nesse carro a mais de quatro horas. Já conversamos, discutimos, flertamos e ainda assim estou entediada.Merda.Chegou a nós uma informação de que um dos agentes de Farrey, um particularmente importante está para encontrar uma leva boa de meninas nesse motel.Segundo as informações que chegaram, Farrey tem ficado mais ganancioso, incentivando aos seus “recrutadores” que façam suas investidas em garotas mais jovens, quanto mais jovens melhor.Nojento pra caralho.Eu senti como Kiler ficou irado com isso, não é exatamente como se ele estivesse demonstrando, mas eu sinto algo como uma tensão pulsante o envolvendo cada vez que ele mira os olhos na porta do motel.Eu consigo entender o ponto dele. De certa forma isso se assemelha muito ao que ele passou com Benner.Um embrulho em meu estômago me faz travar os dentes. Uma vez que essas meninas entrarem ali, serão primeiro iludidas com promessas absurdas de grandes ganhos e se isso não funcionar, eles sempre podem u
AiyraKiler me ajuda a sair do elevador do prédio, seu braço envolvendo minha cintura com firmeza. Em outro momento eu ficaria encantada com a forma gentil com a qual seus braços me guiam ou como o seu perfume é agradável, mas agora a única coisa que toma a minha atenção é a dor que parece reverberar por meu braço cada vez que piso no chão.Kiler quis me levar ao hospital, mas eu o lembrei que segundo os registros legais desse país eu estou morta, então eu argumentei com a calma de alguém que está com dor o quanto seria idiota me levar a um hospital.Nos primeiros quinze minutos eu tentei bancar a durona, mas no vigésimo solavanco do carro meus olhos começaram a pinicar com as lágrimas.Agora eu sei exatamente a aparência decadente que me encontro. Cabelos despenteados, olhos inchados e vermelhos e mancando brevemente.Eu não quero nem ver o enorme hematoma que vai ficar em minhas costas...Chegamos à porta da minha casa e ele me ajuda com a fechadura, pois minhas mãos tremem tanto qu
Ethan O copo intocado de gim começa a suar na pequena mesa a minha frente. Eu enchi o copo com a bebida por puro hábito, pois a vontade de beber é quase nula.Uma aflição conhecida vai me preenchendo e eu a aceito com gosto. Há dias em que eu não consigo conviver com isso, mas há também os dias em que a saudade é mais exigente que isso e eu me permito afundar nela.Eu prefiro ser rasgado toda vez ao lembrar dela do que ficar nesse limbo maldito em que não a vejo de nenhuma forma. Hoje é um dia especial... seria um dia especial.Lembro-me como anos atrás eu planejava paparicar ela em cada aniversário. A acordar nos levando a um sexo quente ou suave, o que ela quisesse.Eu não tenho mais essa opção. Levanto-me do sofá e caminho para o único cômodo que eu não entro nessa nova casa. Abro a porta e um miado intenso me faz olhar para baixo.Elvis me encara e depois passa por mim, indo direto para dentro. Eu o sigo e acendo a luz, respirando fundo. Eu trouxe do antigo apartamento todas a
Aiyra Tudo em mim grita para ir até seus braços, me enredar em seu calor e deixar que os anos longe um do outro cessem esse constante vazio que me cerca o peito, mas sei que existem questões bem mais sérias aqui.— Aiyra... — ele sussurra novamente, o peito subindo e descendo com força, começando a hiperventilar.Ethan fica me encarando, as lágrimas descendo livres por seu rosto, acentuando ainda mais a certeza que eu o quebrei de formas irreparáveis.Minhas sobrancelhas se franzem quando Ethan fica pálido, a respiração se tornando rasa e dificultosa.Ah, merda... ele está tendo uma crise de pânico.O mais rápido que consigo saio do carro, com uma pequena tesoura. Abro com tudo a porta do banco do passageiro, me sento ao seu lado e corto a braçadeira que o prende. Ethan não percebe muito o que fiz, pois, seus olhos conturbados se abrem e fecham, como se ele estivesse tentando se conectar com a realidade.Ethan teve muitas dessas crises de pânico quando adolescente, a pressão que ele