— E aí... Gostou da sopa? Tá boa? — Vitória perguntou, com os olhos cheios de expectativa.Ela sabia muito bem o que estava servindo, tinha pedido delivery de um restaurante famoso, escolhendo o cardápio cuidadosamente para agradar a Gabriel, tentando conquistar o estômago dele.— Tá boa, Vi. Você cozinha muito bem. — Gabriel respondeu, depois de provar uma colherada.Mas, na verdade, a sopa era pesada, gordurosa... E tinha aquele sabor artificial típico de cozinha industrial.Ele sentia falta da leveza dos pratos que Beatriz preparava. Um gosto caseiro, limpo, cheio de carinho, completamente diferente de qualquer coisa que viesse de fora.— Que bom que gostou! Então vou preparar para você todos os dias! — Vitória sorriu, animada.Mas, ao ouvir aquele “todos os dias”, Gabriel engoliu a sopa com certo esforço, apoiou a colher na tigela e falou num tom calmo, mas firme:— Amanhã vou buscar seus documentos. Depois disso, você pode ficar hospedada em um dos hotéis da minha empresa. Nenhum
Vitória então começou a comandar a mudança.Não conseguiu ficar na suíte principal, mas... Conseguir tirar a Beatriz do próprio quarto já era, pra ela, uma vitória e tanto.Enquanto elas movimentavam as coisas da Beatriz, Gabriel franziu a testa. Algo dentro dele incomodava.Entrou no quarto e viu a assistente tentando abrir um armário trancado.Sem dizer nada, aproximou-se e, com a força de um homem impaciente, arrebentou o fecho em poucos segundos. A tranca interna ficou torta, inutilizada.Lá dentro, quase nada: apenas um pequeno caderno azul-claro.Gabriel pegou o caderno e, ao abrir a primeira página, entendeu na hora o que era.— Quem é que ainda escreve diário hoje em dia... — Murmurou, com um leve sorriso de desprezo nos lábios.Mesmo assim, não resistiu. Os dedos começaram a virar as páginas, curioso.Antes que pudesse ler, uma mão apareceu por cima do ombro e puxou o caderno de suas mãos:— Não é certo espiar o diário de uma garota, Gabi. — Vitória disse, com um sorriso doce,
As refeições estavam encomendadas, mas Rafael teve o cuidado de dizer que vinham da família Pereira, não diretamente do Sr. Gabriel.Temia que, se Beatriz soubesse a verdadeira origem, jogasse tudo no lixo sem pensar duas vezes.No hospital, Beatriz terminou a refeição com calma.Nutritiva, equilibrada... Claramente algo escolhido pela família Pereira. Provavelmente ideia do Sr. Henrique.Mas algo a incomodava.Será que Gabriel havia comentado com o avô sobre sua internação?Olhou o celular. Nenhuma mensagem de Henrique.Ela também não havia contado nada diretamente, para evitar que descobrissem a gravidade do ferimento.Na verdade, aqueles dias estavam sendo surpreendentemente tranquilos.Durante o dia, assistia vídeos de treinamento, lia materiais e praticava escrita, queria garantir que, ao sair dali, estaria pronta para enfrentar o mercado de trabalho.Sem precisar ver Gabriel, seu humor havia melhorado visivelmente.O efeito das refeições saudáveis também começava a aparecer em su
No dia em que Beatriz Silva decidiu pedir o divórcio, duas coisas aconteceram.A primeira: a mulher que sempre foi o amor idealizado de Gabriel Pereira, o famoso amor da vida dele, havia retornado ao Brasil.Para recebê-la, ele não mediu esforços, gastou milhões mandando fabricar um iate exclusivo, personalizado nos mínimos detalhes, onde passaram dois dias e duas noites entregues à pura indulgência.Os jornais e sites de fofoca não falavam de outra coisa. Para todos, a reconciliação entre Gabriel e sua antiga paixão parecia só uma questão de tempo.A segunda coisa: Beatriz aceitou o convite do seu antigo colega de faculdade para voltar à empresa que haviam criado juntos, desta vez como diretora.Em um mês, ela iria embora.Claro... Ninguém se importava com o que ela fazia ou deixava de fazer.Na cabeça de Gabriel, ela não passava de uma empregada de luxo que havia entrado na família Pereira por conveniência.Ela não comentou nada com ninguém.Silenciosamente, foi apagando todos os ves
Gabriel saiu apressado, carregando Vitória nos braços.Ao passar pela porta, esbarrou no ombro de Beatriz.O impacto a desequilibrou. Ela cambaleou, precisando se apoiar no batente da porta.A dor intensa que subia do dorso do pé pela perna fez com que ela apertasse o batente com força, lutando para se manter de pé.Dentro do salão, todos os olhares recaíram sobre ela.Olhares carregados de desprezo, sarcasmo, deboche.Mas Beatriz… Já não se importava mais.Com esforço, virou-se devagar, apoiando-se na parede fria, e seguiu seu caminho, passo a passo, sentindo a dor latejante a cada movimento.Quando chegou ao pronto-socorro, uma enfermeira veio rapidamente ao seu encontro, visivelmente preocupada.Assim que viu o estado do pé de Beatriz, prendeu a respiração, assustada:— Meu Deus! Como você se queimou desse jeito?! — Exclamou, chocada.As bolhas eram enormes, inflamadas.A maior parecia quase do tamanho de um pão francês, e outras menores se espalhavam feito pequenas pérolas brilhant
Gabriel hesitou por um segundo, apertou os lábios, olhou para Vitória… Mas, no fim, não disse nada.Beatriz ouviu o diálogo entre os dois e não conseguiu evitar um sorriso amargo, carregado de ironia.Ela era a esposa de Gabriel, no papel.Mas, naquele momento, a sensação era nítida: os verdadeiros marido e mulher eram eles… E ela era apenas a intrusa, a amante inconveniente.Gabriel caminhava à frente, Vitória ao lado dele, como se fossem um casal perfeito saído de um comercial.E, mesmo que Beatriz tentasse ignorar toda a falsidade de Vitória, a boazinha não perdia uma chance de manter seu teatrinho:— Bia, deve estar doendo muito… Me desculpa. Na hora, o Gabi só pensou na minha carreira, por isso me trouxe primeiro ao hospital. Não fica brava com ele, tá? — Disse Vitória, num tom doce e caridoso, olhando para ela como se estivesse pedindo desculpas sinceras.Beatriz sorriu de canto, amarga, e respondeu com calma:— Eu não estou brava. Afinal… Na cabeça dele, você sempre vem em prime
Quando Beatriz finalmente chegou em casa, já passava das onze da noite.A casa estava silenciosa, mergulhada na escuridão.Beatriz não deixou nenhuma luz acesa na sala.Afinal, era quase certo que Gabriel estaria por aí, provavelmente nos braços de Vitória, aproveitando a noite em algum lugar. Voltar para casa? Isso era pouco provável.Apoiando-se nas paredes, sentindo o corpo inteiro latejar de dor, Beatriz pegou a caixa de primeiros socorros.Caminhou devagar até seu pequeno quarto.Dois anos de casamento.Na prática, um casamento de fachada.Gabriel sempre manteve distância, fiel apenas ao seu verdadeiro amor.Nunca deixou que ela sequer se aproximasse da suíte principal.“Ainda bem”, pensou Beatriz, com amargura.Só de imaginar ser tocada por ele agora… Sentia náusea.Com dificuldade, desinfetou o cotovelo ferido e o dorso do pé, inchado e dolorido.Nem teve forças para guardar a caixa de primeiros socorros.Deixou-a sobre o criado-mudo, prometendo a si mesma arrumar tudo pela ma
Dentro do quarto.Beatriz já dormia profundamente quando as batidas violentas na porta e os gritos a despertaram bruscamente.Franziu a testa, respirou fundo, acendeu o abajur e, mancando levemente, foi até a porta.— Bea… — Do lado de fora, Gabriel já ia bater novamente, com força. Mas a porta se abriu de repente, e sua mão golpeou o vazio.— O que você tá fazendo aqui? Batendo na minha porta feito um louco no meio da noite. — Disse Beatriz, irritada, o tom carregado de impaciência.Gabriel viu a frieza dela e sentiu o sangue ferver.Sem pensar, agarrou o braço dela com força, furioso:— Eu estou fazendo o quê? Voltando para minha própria casa! Isso não é normal?O olhar desafiador de Beatriz apagou por um instante.Ela baixou a cabeça, o cenho franzido, a expressão ficando tensa, dolorida.Gabriel achou que ela havia voltado a ser aquela mulher submissa de sempre.Mas, de repente, ela levantou a outra mão e tentou afastar a mão dele do próprio braço.Foi aí que ele sentiu.A palma da