Meus dedos apertam os dele, e por um instante, vejo o homem por trás da lenda. O Dante que ninguém conhecia. O Dante que não era apenas um ex-traficante ou um líder perigoso, mas alguém que fazia diferença na vida de outras pessoas sem esperar nada em troca.Ele suspira, desviando o olhar para a mesa farta entre nós. Pratos cuidadosamente preparados, aromas deliciosos no ar, a promessa de um jantar que poderia ser agradável se não estivéssemos presos a essa conversa difícil. O silêncio se alonga entre nós, pesado, mas não desconfortável. Preciso falar com ele. Sobre algo que pode mudar os nossos planos. — Dante… — chamo, e ele levanta os olhos. — Eu não vou sair da corporação tão rápido quanto imaginei. Seu olhar se estreita. Ele solta minha mão devagar e alcança um pedaço de pão crocante, mordendo-o sem pressa, como se precisasse de algo sólido antes de responder.— O que você quer dizer com isso?Respiro fundo, sabendo que essa conversa precisa ser direta.— Eles abrirão uma sindi
DanteA água morna escorre pelas minhas mãos enquanto ensaboo os pratos, mas minha mente está longe dali. A dor no ombro pulsa, insistente, lembrando-me de que não estou inteiro. Mas eu não posso fraquejar, não agora. A fazenda exigirá muito de mim, e eu preciso estar à altura, preciso mostrar que consigo, que sou capaz. O pensamento me incomoda mais do que a dor física.Aperto a mandíbula, tentando afastar a preocupação. Não posso expor isso para ela. Ela já tem preocupações demais. Além disso, há outra conversa que me espera, Rafael.Preciso convencê-lo de que mudei, que minha filha estará segura comigo e isso só o tempo irá atestar. Por isso não posso falhar enquanto estiver lá.Solto um suspiro pesado, deixando que a água leve embora, ainda que por um instante, o peso das minhas inquietações.IsabelaA porta do quarto se abre e Dante aparece, poderoso, só de cueca, com um olhar tão sério que faz meu sorriso desvanecer instantaneamente. Ele se aproxima, senta-se ao meu lado com uma
Conflito SilenciosoAo chegar no trabalho, encontro Leandro, seu olhar cravado em mim com um misto de desconfiança e mágoa. Sei que ele percebe o quanto Dante significa para mim, e isso o incomoda. Seu olhar é pesado, carregado de perguntas não ditas e julgamentos silenciosos. Mas não é o momento para confrontos. Deixo que o silêncio fale por nós, ciente de que há feridas que o tempo precisará curar. Mesmo assim, não consigo ignorar o peso daquele olhar, como se cada gesto meu fosse um golpe invisível em algo que ele ainda não conseguiu abandonar. Um nó aperta em meu peito, mas sigo adiante, concentrando-me no que precisa ser feito.Encontro DecisivoA noite cai rápida, e o peso do dia ainda me acompanha quando Rafael chega. Ele atravessa a porta com o semblante fechado, os olhos frios e atentos, como se já esperasse por um confronto. O silêncio inicial é quase sufocante, mas sei que preciso ser direta.— Rafael, obrigada por vir. — Minha voz sai firme, mas não consigo disfarçar a tens
DanteO sábado amanhece cinzento e silencioso. Acordo com uma dor surda no ombro, um lembrete cruel das marcas que o passado me deixou. Massageio a área dolorida enquanto encaro o horizonte além da janela. O peso da decisão que preciso tomar se arrasta em minha mente como um espectro inevitável.Hoje é o dia da partida.A sindicância se aproxima, me cercando como uma sombra. Não posso mais ficar. O risco com os bolivianos é real. Sei demais. Permanecer aqui é como estender o pescoço para a lâmina. E, ainda assim, um pedaço de mim hesita. O que me espera além dessa fuga? O que resta de mim, além da incerteza?Isabela se levanta devagar, me observando em silêncio. Sei que ela percebe a tensão em meus ombros, o olhar carregado de dúvidas que não consigo disfarçar.— Está doendo? — Sua voz suave corta o silêncio com um cuidado que me desconcerta.Assinto, mas não olho para ela.— É mais o peso do que vem pela frente. — murmuro, sentindo os ecos de um futuro incerto pressionarem meu peito.
DanteDirijo pela estrada, a mente um redemoinho de dúvidas e lembranças. As palavras de Isabela ecoam, misturadas com a imagem das fotos de Alice, ainda bebê, os olhos grandes e curiosos, o sorriso puro que congelava o tempo. Deixá-las para trás seria como abandonar um pedaço da minha história. O peito aperta, um nó se forma na garganta.Quando a bifurcação que leva à casa de praia se aproxima, minha decisão já está tomada, antes mesmo de virar o volante. Desvio, guiado por um impulso incontrolável, uma necessidade visceral de segurar um fragmento do passado antes que tudo se apague. Mas a cautela grita. Não vou pela frente. Não sou ingênuo.Estaciono o carro distante, engolido pelas sombras densas das árvores. O motor morre em um sussurro, e o silêncio da mata me engole. Saio devagar, os passos medidos, cada folha sob meus pés um aviso, cada som amplificado pelo receio. O coração pulsa forte, um tambor no peito, enquanto sigo margeando a mata, o olhar atento a cada movimento, cada so
DanteO silêncio de Isabela pesa do outro lado da linha. Sei que ela está processando minhas palavras, tentando encontrar um jeito de me convencer a não fazer isso. Mas não há mais volta.— Não há o que pensar. Eles foram atrás de Ronilson e meu irmão será o próximo da lista, é questão de tempo. E o boliviano costuma resolver seus problemas pessoalmente, é ele quem está lá na casa, a minha espera e eu vou me armar até os dentes e volto para acabar com ele. Minha voz sai firme, mas por dentro, uma tempestade se forma.Fecho os olhos e sou tomado por um turbilhão de lembranças. Rafael, ainda adolescente, apontando o dedo no meu peito, a raiva estampada no rosto.— Você quer ser como ele, Dante? Como nosso pai? Um fantoche de criminoso?Eu ri. Sempre ri da seriedade de Rafael. Mas, no fundo, sabia que ele estava certo. Eu só não quis ouvir.Outra memória surge. Ele, já adulto, segurando meus ombros com força, os olhos carregados de decepção.— Eu tentei te salvar, irmão. Mas você escolhe
O cheiro de pólvora ainda impregna o ar quando saio da casa. Meu peito sobe e desce em respirações pesadas, mas não há alívio. Só o gosto amargo da vingança, impregnado na minha língua como ferrugem.As chamas começam a consumir a estrutura, o estalo da madeira sendo devorada pelo fogo ecoa na noite silenciosa. A fumaça sobe em redemoinhos, levando consigo os últimos vestígios dessa guerra. Eu queimei tudo. Como se fosse possível apagar o passado.Mas o passado não se apaga.O ombro direito me lembra disso a cada movimento. A dor é um eco constante, uma presença que não se pode esquecer. As platinas dentro de mim, substituindo carne e osso, raspam umas contra as outras como um lembrete cruel de que meu corpo está longe de ser o mesmo. Cada movimento, cada respiração, cada gesto simples, é uma batalha para manter o controle. Sou um homem remendado. Cada costura, cada fragmento de metal que agora compõe minha carne, é uma recordação de quem fui. Um homem quebrado.Seguro as fotos de Alic
Acordo com um estalo no meu corpo, o peso da dor me arrastando de volta à realidade. O ombro, marcado por platinas e remendos, arde como fogo. A dor não me dá trégua, como se cada movimento que eu fizesse fosse uma lâmina rasgando a carne, cortando mais fundo. Eu olho para a janela, onde a luz do amanhecer entra, mas o que vejo é uma mancha turva. O cheiro de pólvora ainda paira no ar, o cheiro do que fiz, do que sou.Minha mão vai instintivamente até o bolso da calça, e eu sinto o pequeno pacote que já se tornou familiar. A cocaína. No estado em que estou, já não sei mais como viver sem ela. Ela me dá o que o meu corpo não consegue mais — um alívio. Um intervalo da dor insuportável que me consome. Pego a pequena quantidade e, com a habilidade de quem já fez isso muitas vezes, despejo no buraco do ombro. A sensação é imediata, como uma onda que me atinge e me afasta ao mesmo tempo. O alívio vem em gotas, o ferimento se acalma, e por um momento, posso respirar sem que a dor me quebre.M