Leandro disse que a esperaria do lado de fora. Marília terminou o banho, trocou de roupa e ficou enrolando até as dez horas. Ao seu redor, não havia som algum, nem ninguém que viesse bater à porta para apressá-la. "Ele deve ter ido embora", pensou. Marília foi até a porta do quarto, segurou a maçaneta, respirou fundo e a girou lentamente. Ao ver que não havia ninguém lá fora, soltou um longo suspiro de alívio. Quando estava prestes a sair, um fio de fumaça chegou até ela. Virou a cabeça e encontrou diretamente o olhar profundo e sombrio do homem. Leandro apagou o cigarro que segurava. — Vamos tomar café da manhã. Ele foi o primeiro a sair andando. Marília abriu a boca, sem saber o que dizer, e acabou apenas o seguindo com certa relutância. O restaurante ficava no térreo. Depois de se sentarem, o garçom trouxe o cardápio. Marília pediu dois pratos aleatórios e devolveu o menu. Sua bolsa não estava no quarto. Sem o celular para passar o tempo, só lhe restava mex
Marília observou Esperança sair da cafeteria. As lágrimas escorreram por seu rosto. Ela permaneceu sentada por um tempo antes de chamar o garçom para pedir a conta e sair. ... Ao descer do táxi, o celular de Marília tocou. Era um número desconhecido, sem identificação. Sentindo uma leve dor de cabeça e sem paciência para atender, ela simplesmente rejeitou a chamada. Assim que guardou o celular de volta na bolsa, ele tocou novamente. O mesmo número. Marília, já incomodada, atendeu. Quando estava prestes a falar algo, ouviu do outro lado uma voz agressiva: — Marília, foi você que pediu para Esperança terminar comigo? Anselmo raramente falava com ela de forma tão rude. Naquela manhã, pela mensagem que ele enviou, Marília conseguia perceber o quanto ele estava preocupado com ela. Mas agora, ele estava furioso. Por causa de Esperança. Uma dor surda atravessou o coração de Marília. Ela parou na entrada do condomínio e fechou os olhos: — Anselmo, espero que você e
Marília voltou para a casa de Zélia. Colocou a mala em pé na sala de estar e, exausta, se sentou no sofá, com o olhar perdido e vazio. Não sabia quanto tempo havia passado quando o celular tocou, a trazendo de volta à realidade. Ao olhar o identificador de chamadas, franziu a testa involuntariamente. Após pensar por um momento, decidiu atender. — Tainá, o que foi? — Srta. Marília, bem... o Sr. Anselmo pediu que eu verificasse seu quarto... Parece que algumas roupas e joias estão faltando, e também não encontrei duas bolsas de couro de crocodilo de platina. O Sr. Anselmo disse que é indispensável devolvê-las, caso contrário ele... tomará medidas legais para reavê-las. A voz de Tainá foi ficando cada vez mais baixa, evidentemente constrangida por ter que dizer aquilo. Marília ficou atônita, sem acreditar que Anselmo poderia descer tão baixo. Sentindo uma onda de raiva crescer dentro de si, exclamou furiosa: — Eu não peguei nada disso! Já revistaram minha mala. Como ele pode
No meio da noite. Um grupo de pessoas estava reunido jogando cartas e bebendo. Anselmo olhou para as cartas que tinha recebido mais uma vez e viu que era outra mão horrível. Ele franziu ligeiramente a testa, pegou a caixinha de cigarros ao lado e acendeu um cigarro. Rômulo lhe lançou um olhar e riu: — Não tinha dito que ia parar de fumar? Por que está fumando de novo? Anselmo ainda não tinha respondido, quando alguém fez uma piada: — Pois é, Anselmo, você não falou que ia parar? Com esse cheiro de cigarro no corpo, quando voltar para casa, não tem medo de a Marília não deixar você entrar? — Se você não falar, ninguém vai achar que você é mudo! — O tom brusco e repentino de Anselmo pegou todos de surpresa. Rômulo deu um chute leve na pessoa que tinha feito a piada e falou de maneira significativa: — O Anselmo agora tem namorada. Se a Srta. Esperança ouvir isso, ela não vai gostar. Não diga essas coisas mais no futuro! Eles tinham crescido juntos e sempre tiveram uma
Depois que o último paciente da manhã saiu, Leandro tirou o jaleco, lavou as mãos e pegou o celular para fazer uma ligação:— Estou saindo agora.Do outro lado da linha, o barulho era intenso, e Diógenes, com sua voz alta, respondeu:— Leandro, eu já estou no refeitório com o Gaeliano e os outros. Sua sobrinha está lá fora te esperando faz um bom tempo. A garota raramente aparece por aqui, leve ela para comer algo bom fora!Leandro caminhava em direção à porta enquanto segurava o celular. Quando pôs a mão na maçaneta, parou de repente, franzindo a testa:— Minha sobrinha?— Sim! A que vimos no bar anteontem, lembra? A garota bonita. Ela não te chamou de tio? — Diógenes, entre pedidos para que os outros parassem de empurrar, continuou. — Eu até pensei em entrar para te avisar, mas ela não quis, disse que não queria atrapalhar o seu trabalho. Está lá fora esperando, toda educada! Não vou falar mais nada, é minha vez de pegar comida. Vai logo levar sua sobrinha para almoçar fora. A essa h
O homem carregava nos olhos uma impaciência e frieza que não fazia questão de esconder. Marília sustentou o olhar dele, mas sem muita firmeza. Estava claro para ela que ele queria cortar qualquer vínculo, desejando ao máximo se distanciar dela, temendo que ela o importunasse. Se Marília tivesse um pouco de orgulho, teria desistido naquele momento. Porém, ao lembrar que no ano passado Anselmo e Esperança tinham se envolvido pelas suas costas, sentiu uma raiva difícil de conter. Leandro não era apenas o homem que Esperança havia admirado em vão por quatro anos. Ele era superior a Anselmo em todos os aspectos. Os amigos falsos de Anselmo sempre diziam que ela nunca encontraria alguém melhor. Só para provar o contrário, Marília precisava conquistar Leandro. — Vamos trocar nossos contatos! — Disse ela. Marília pegou o celular, mas Leandro permaneceu imóvel, olhando para ela com frieza. Tentando improvisar, ela rapidamente continuou: — Você comprou roupas para mim. Posso tr
— Você se lembra de como respondeu à minha pergunta ontem? Claro que ela se lembrava do que havia dito no dia anterior. Só que Marília não esperava que fosse se arrepender tão rápido. Se ela tivesse aceitado de imediato, não estaria passando por esse constrangimento agora! — O que eu disse ontem foi para que você não se sentisse obrigado a ficar comigo por pura responsabilidade! Marília enfatizou a palavra "obrigado" enquanto apertava a bolsa sobre os joelhos, visivelmente nervosa, mas mantendo um sorriso doce no rosto. Leandro a observava em silêncio. Depois de alguns segundos, ele abriu os lábios, falando num tom frio: — Então você não quer que eu me sinta responsável por você? Marília sabia que, se respondesse negativamente, ele certamente usaria isso como desculpa para rejeitar de vez sua investida. Ela ajeitou os cabelos e disse com suavidade e clareza: — Eu fiquei sabendo que você não tem namorada, e eu também estou solteira. Podemos tentar? — Não é necess
Entrando no refeitório, Marília percebeu que havia poucas pessoas por lá, com muitos lugares vazios. Diógenes, sempre prestativo, acompanhou Marília até a área de distribuição de comida. O serviço era self-service: pratos com carne ou vegetais tinham o mesmo preço, calculado pelo peso. No entanto, a maioria dos pratos com carne já havia acabado. Restavam mais opções vegetarianas, e o frango assado, que Diógenes tanto elogiara, também já tinha se esgotado. O que sobrara eram pequenos pedaços de carne e alguns ossos de frango. Marília se serviu de alguns legumes e, entre eles, conseguiu pegar um pedaço de carne bovina. Diógenes passou o cartão para pagar a refeição dela. Uma mesa acomodava quatro pessoas, e Diógenes se sentou ao lado de Leandro. Marília se sentou de frente para Diógenes, com um assento vazio ao seu lado. Naquele lugar vazio, já havia uma bandeja de comida pronta. — Onde a Dra. Serafina está? — Perguntou Marília. Diógenes apontou com o queixo: — Ali! M