MayaraO novo burburinho na cidade está ficando cada vez mais alto. O assunto que está na boca do povo? Eu, Caíque e Gustavo.Desde que Caíque voltou, só ouvi um comentário ou outro sobre o seu retorno, como ele era bonito, estava solteiro, era de boa família… O de sempre. Mas agora que ele começou a se aproximar de Gustavo, os olhares curiosos e os cochichos se tornaram inevitáveis e mais altos que os anteriores. E tudo piorou depois do nosso passeio ao museu.No fim do dia, ele nos ofereceu carona. Eu ia negar como sempre, mas Gustavo queria vir com o Caíque. Concordei e assim que chegamos, reparei o quanto chamamos atenção por estarmos andando juntos pelas ruas da cidade. Parece que nos esbarrarmos antes, não era nada de mais, até estar dentro do seu carro.Agora as pessoas não se importam em esconder ou serem discretas quando comentam sobre nós, fazem suposições, tiram conclusões precipitadas. Como se nossas vidas fossem um livro aberto para todos interpretarem do jeito que quiser
CaíqueMeus pais sempre souberam como me pressionar. Mas dessa vez, não é sobre carreira, dinheiro ou a crise que enfrentamos. Mayara falou mais cedo sobre como o assunto chegaria até eles, mas não esperei que seria tão cedo.Estou sentado à mesa da cozinha desde que cheguei, por estar comendo um pão e tomando café, não me apressei em levantar quando os dois chegaram da rua, não querendo chamar atenção.Eu deveria estranhar quando os dois vieram me fazer companhia, não era o habitual. Ao menos, não agora que sou adulto. Fingi não estar pensando sobre os motivos deles estarem aqui, como se estivessem sua presa. Foi quando o meu pai não continuou sua cena, fechando o jornal e me encarando com aquele olhar avaliador. Minha mãe está ao lado dele, mexendo a colher dentro da xícara de chá, mas a expressão no rosto dela é tensa.— O que estão dizendo por aí é verdade? — meu pai pergunta, sem rodeios. — Você voltou para Mayara?Respiro fundo, sabendo que essa conversa seria inevitável.— Não.
MayaraEu estava prestes a apagar a última luz da sala quando escuto batidas na porta. O som me assusta. A essa hora? Meu coração dispara. Quem viria até minha casa tão tarde? Seguro a maçaneta, hesitante, e olho pelo olho mágico. Meu estômago dá um nó.Caíque.Abro a porta devagar, como se isso me ajudasse a processar o motivo da sua visita. Ele está ali, encostado no batente, as mãos nos bolsos da calça jeans escura, a expressão tensa. Os olhos escuros encontram os meus, e percebo o cansaço misturado à raiva contida. O maxilar está travado. Algo sério aconteceu.— Oi — ele diz, a voz mais rouca do que o normal.— Oi. O que você está fazendo aqui?Ele suspira e passa a mão pelos cabelos, bagunçando-os ainda mais.— Acabei vindo direto aqui, não pensei muito. Eu… Eu preciso de um pouco de paz. — Uno as sobrancelhas, estranhando sua explicação.— O Gu está dormindo — aviso, caso seja esse o motivo dele vir. — Mas se quiser entrar…Abro mais a porta e dou espaço para ele que aceita o co
Caíque— Você está com sono? — Mayara pergunta um tempo depois.— Eu não. E você?— Também não.Mayara sai sem falar nada, me deixando confuso por um momento. Até retornar com travesseiro e cobertor que usei anteriormente. Coloca no sofá e sai de novo, indo até a cozinha e voltando com a caneca de chá e uma xícara para ela.— Vou tomar um chá também, vai que o sono aparece — comenta. — Caso queira mais, só pegar. Aceito sua oferta. Ela senta na minha frente com a postura ereta, os olhos atentos por cima da beirada da xícara enquanto bebe o líquido morno. Ela me encara como se quisesse decifrar cada movimento meu. Como se estivesse esperando que eu dissesse algo que confirmasse suas suspeitas. Mas o que exatamente ela suspeita? Será que vê mais da confusão dentro de mim?Seguro a minha xícara com força, sentindo a louça contra minha pele. Tomo um gole da bebida, qualquer coisa para me dar tempo. Para não deixar escapar uma verdade que ainda não sei como nomear e que poderia assustá-la
Caíque— Faz tempo?— Que meus pais se mudaram? — Aceno. — Faz uns três anos. Nos falamos por telefone, Gu fala com eles. Sentimos saudades, mas foi bom para eles, sabe? Estão tendo uma vida mais leve se comparada com a que tinham aqui. Aproveitam mais, tem paz sendo só os dois na casinha deles.— Que bom. E a casa antiga ficou fechada?— Sim. Ela tem uns problemas documentais e ninguém estava com dinheiro para cuidar dessas burocracias. Os parentes queriam ficar na casa de graça, mas nem pagar as contas não queriam. Aí eu tomei as dores e coloquei todo mundo para correr, meus pais iam acabar pagando tudo para os outros morar por puro comodismo. — Ela revira os olhos. — Me tornei odiada por todos, mas eu não ligo. Agora estou juntando dinheiro para ajudar eles com esse assunto, quem sabe reformar e alugar daqui a um tempo, seria um valor extra para meus pais, ainda mais com o avanço da idade.— Bonito da sua parte ajudar eles.— Eles são bons pais e avós incríveis. Só não tiveram opor
MayaraEu não sabia muito bem o que fazer com ele. Caíque tinha entrado na minha vida de uma forma que eu jamais imaginei: sem aviso, sem preparação. Tudo havia acontecido tão rápido, e agora que ele retorna, é uma segunda avalanche que me atinge. Estávamos ali, no mesmo espaço, dividindo algo que nem eu mesma sabia como lidar direito.A paternidade de Gustavo é o que nos une. Continuaremos fazendo tudo por ele, claro. A preocupação com o nosso filho se torna maior do que qualquer mal-entendido ou distância que existisse entre nós. Mas se eu fosse ser sincera, não esperava que Caíque fosse se importar tanto, eu não sabia o que esperar sobre sua reação quando soubesse do Gu, tenho me surpreendido positivamente quanto a isso.Caíque parece feliz. Nosso filho está feliz e eu claramente estou feliz. Por isso, fiz o esforço de deixar o passado de lado e aceitá-lo como um amigo, a fim de termos um bom relacionamento com um foco em comum: o bem-estar do Gustavo.Por isso, quando ele me ligou
MayaraEu não queria pensar nele. Não mais. Já tinha me convencido de que o melhor era seguir em frente, colocar Caíque para trás e seguir com a vida. Estava tão cansada de tudo, da indecisão, da insegurança. Eu tinha tentado – juro que tentei – deixar de lado o que sentia por ele. Mas, de alguma forma, ele sempre estava ali, como uma sombra, como um eco no fundo da minha mente.Eu acreditava que tinha deixado as lembranças de nós dois no passado, assim como imaginei que não me sentiria afetada com sua reaproximação, mas pelo visto as coisas não são tão simples como imaginei.Depois da visita do Caíque e toda a conversa cheia de desabafos que tivemos, é como se a nossa recente amizade tivesse quebrado os muros que ergui nos últimos anos. É como se a nossa rotina sempre fosse essa.O vibro do celular me chama atenção, quando vejo o nome dele piscando na tela, sinto uma tensão pesar no peito. Eu não sabia o que ele queria dessa vez, mas, por algum motivo, o simples fato de ver seu nome
No passado…CaíqueO sino da última aula ecoa pelos corredores da escola, anunciando o fim de mais um dia cansativo de estudos, julgamentos silenciosos e comentários maldosos da grande maioria dos alunos que se orgulham de serem os melhores. Demoro a guardar meu material na mochila, esperando que todos saiam para seguir o caminho já tão habitual.Saio da sala de aula e, a cada passo que dou pelo corredor, sinto meu coração bater acelerado. Ao mesmo tempo, tento controlar meus pensamentos a mil e o nervosismo aparente, sem querer chamar a atenção dos outros alunos e professores.À distância, tenho o vislumbre da sua silhueta e confirmo que ela já me espera. Em um canto pouco frequentado, atrás de uma porta entreaberta que leva a um antigo depósito, Mayara está sentada em uma poltrona desgastada.Acelero os passos e, ao me aproximar, é como se nada mais importasse. Passo pela porta e, devagar, fecho-a o máximo que consigo. Mayara se levanta e vem ao meu encontro. Nossos olhos se encontr