O mundo virou de cabeça para baixo.O vento cortava o rosto de Ivy como navalhas, empurrando seus cabelos para trás enquanto ela despencava pelo ar. O choque da queda fez seu estômago se revirar, a gravidade puxando-a com uma brutalidade impiedosa. Os estilhaços de vidro ainda dançavam ao seu redor, brilhando como estrelas em meio à escuridão da noite.Por um breve segundo, o tempo pareceu desacelerar.Ela viu flashes. O riso abafado de Ethan enquanto a ensinava a lutar quando eram crianças. O cheiro de terra molhada da floresta onde costumavam brincar. O toque quente da mão dele segurando a dela. "Eu sempre estarei aqui, Ivy."A dor rasgou seu peito antes mesmo de o impacto vir.O chão se aproximava rápido demais.Ivy aterrissou de lado, rolando pelo cascalho do pátio. Uma onda de dor explodiu por seu corpo, cada músculo gritando em agonia. Ela sentiu o gosto metálico do sangue na boca. Seu braço esquerdo latejava violentamente. Talvez estivesse quebrado. Mas ela não podia parar.— I
Tudo ao redor de Ivy se tornou um borrão.Os olhos dela estavam fixos no homem diante dela, mas era como se seu cérebro recusasse a processar o que via. Sua respiração vinha curta, entrecortada, como se o próprio ar tivesse se tornado pesado demais para ser puxado para dentro dos pulmões. O som dos soldados ao redor—armas sendo erguidas, passos firmes sobre a terra seca—parecia abafado, distante, como se ela estivesse submersa em um mar de confusão e descrença.Não podia ser real.Alaric…O mesmo Alaric que por tanto tempo fora seu amigo, confidente. O homem que caçava os rebeldes com uma determinação impiedosa, que falava sobre ordem, poder, paz como se fossem inquebrantáveis. O mesmo Alaric que prometera acabar com qualquer ameaça ao seu território.E agora… ele era a ameaça.O exército não estava ali para derrubá-lo. Estava ali para segui-lo.Líder.A palavra ainda pairava no ar, como uma lâmina suspensa prestes a se cravar em seu peito.— Não… — a voz dela saiu rouca, quase inaudí
O silêncio que se seguiu à chegada de Lucian foi sufocante. Tudo ao redor parecia carregado de eletricidade, como se o próprio mundo prendesse a respiração diante da cena.Os olhos de Ivy, ainda arregalados pelo choque da traição de Alaric, encontraram os de Lucian. Algo profundo e instintivo se acendeu dentro dela. Um reconhecimento imediato.Ali, ele parecia um lobo entre cordeiros.E, naquele momento, ele era sua única chance.— Soltem-a. — Lucian diz outra vez.A voz dele cortou o ar como um açoite, baixa, mas impregnada de uma ameaça tão crua que os soldados ao redor hesitaram.Alaric, no entanto, apenas ergueu uma sobrancelha, o canto dos lábios se curvando em um sorriso preguiçoso.— Ah, Lucian… Sempre tão dramático.Lucian não se moveu. Seu olhar, predatório e implacável, permaneceu fixo em Alaric.— Não vou repetir.O sorriso de Alaric se ampliou, e ele deu um passo à frente, as mãos para trás, como se estivesse avaliando um jogo de tabuleiro cujo desfecho já conhecia.— Vo
O tempo parou.Não como uma metáfora para o medo, não como um devaneio do subconsciente. Mas sim, de forma literal.O vento cessou. Os ecos da batalha morreram. As lâminas que se cruzavam ficaram suspensas no ar como se a própria realidade hesitasse.E então, veio a voz.— Chegou o momento.Não era apenas um som. Era algo mais profundo. Algo que se infiltrava sob a pele, que vibrava nos ossos, que penetrava a mente como dedos invisíveis arrancando cada lembrança, cada sentimento.Os olhos de Ivy estavam fixos nas sombras que se erguiam ao seu redor. Elas eram uma presença viva, pulsante, como se o próprio vazio tivesse encontrado forma.Mas o que realmente fez seu corpo paralisar, o que fez seu coração bater dolorosamente contra suas costelas, foi o olhar de Lucian.Terror.Não medo. Terror.Lucian, o homem que enfrentou exércitos, que cortou gargantas sem hesitação, que nunca recuou diante da morte, estava aterrorizado.E isso significava que ela deveria estar também.— Não... — a vo
O silêncio daquela vozes, seguida da proposta de Lucian, foi pior do que qualquer grito.Ivy sentiu a garganta fechar, o pavor subindo por sua espinha como garras afiadas. As sombras ao redor deles pulsavam, quase como se estivessem saboreando aquele momento.Ela lutou contra a sensação de estar presa, os olhos fixos em Lucian, que se mantinha de joelhos, inabalável, esperando a resposta das vozes.— Você está louco? — sua voz saiu trêmula, a respiração entrecortada pelo desespero. — Você não pode fazer isso, Lucian!Ele não respondeu.Ele não olhou para ela.Não moveu um músculo sequer.Lucian só aguardava.— Lucian, pelo amor da Deusa Solene. — Ivy insistiu, a voz se tornando um grito sufocado. — Isso é suicídio! Você acha mesmo que vou permitir?Ainda, ele se manteve em silêncio.As sombras se moviam como serpentes ao redor deles, murmurando entre si, contemplando a oferta.Ivy sentiu as lágrimas queimarem seus olhos.— Fale comigo! Me olhe, droga!E então, ele olhou.E o que Ivy v
Tudo ao redor vibrava, como se estivesse prestes a desmoronar. As sombras sussurravam, ansiosas. O ar pulsava com uma energia ancestral, sufocante.Lucian segurava o olhar da mãe, os olhos ardendo com uma súplica muda. Ivy sentia o peito rasgar de dentro para fora, cada fibra do seu ser gritando contra aquilo. Mas então...— Isso não pode acontecer. — A voz de Alaric cortou o espaço, firme, inabalável.As sombras estremeceram. Grace virou a cabeça, surpresa. Lucian fechou os punhos.— Você não entende, Alaric… — Grace começou, mas ele já estava caminhando para frente, a mandíbula travada.— Não é assim que funciona! — ele rugiu, o tom carregado de autoridade. — Vocês não podem interferir dessa maneira!O silêncio que se seguiu foi como a calmaria antes da tempestade. As vozes sussurraram entre si, irritadas. Grace franziu o cenho.— Cale-se, Alaric. — Uma das vozes falou, cortante.Ele não recuou.— Isso não pode ser decidido dessa forma. Vocês sabem disso!As sombras se agitaram, imp
O que sobrou daquele ambiente mais parecia como uma enorme lápide.O silêncio absoluto. Implacável.Lucian permaneceu imóvel, o olhar vidrado no vazio onde sua mãe estivera segundos antes. Seu peito subia e descia em respirações irregulares, curtas demais, como se o ar simplesmente se recusasse a entrar.Ivy sentiu o mundo se inclinando ao seu redor. Suas pernas falharam, e ela teria caído se Lucian não estivesse ali, sustentando-a. Mas, ironicamente, ele próprio tremia tanto que parecia que seria ele quem desabaria a qualquer instante.Os dedos de Ivy se fecharam com força ao redor da manga da camisa dele, buscando um ponto de ancoragem.— Lucian… — sua voz saiu falha, quase um sussurro.Ele não respondeu.Um soluço tremeu em seus lábios antes de ser sufocado. O peito dele se contraiu de maneira violenta, e então ele finalmente caiu de joelhos.— Ela… se foi. — Sua voz quebrou.Ivy sentiu os olhos arderem.— Eu sei.A dor que pesava sobre ele era tão palpável que parecia um peso real
A escuridão cedia aos poucos.Um sussurro distante, um calor confortável envolvendo seu corpo, um toque familiar em sua pele. Ivy sentia-se flutuando entre o real e o desconhecido, a mente um emaranhado de memórias dispersas, como se estivesse presa em um sonho do qual não conseguia despertar.Mas, então, algo a puxou para a realidade.Seus olhos se abriram lentamente, piscando algumas vezes para se ajustar à luz suave que preenchia o quarto. O teto alto, os detalhes dourados nas molduras, os móveis de madeira escura… reconheceu imediatamente. Estava na mansão de Lucian.Seu corpo ainda parecia pesado, mas percebeu a sensação de lençóis macios contra a pele. O ar tinha um leve cheiro de lareira acesa, misturado ao perfume amadeirado que ela associava apenas a uma pessoa.Lucian.Virando a cabeça, o encontrou ali, sentado ao lado da cama, observando-a com um olhar que misturava alívio e cansaço.— Você acordou — a voz dele era grave, mas carregada de uma ternura que a fez sentir um cal