Daniel permaneceu em silêncio.Nicole, com aquele jeito falso e delicado, segurou o braço dele com suavidade, como se quisesse acalmá-lo:— Dan, não fica assim, vai... Não foi sua culpa. Como você ia saber que ela tava grávida? Você jamais faria isso de propósito! E a avó dela... tadinha, mas já era bem velhinha, podia acontecer a qualquer hora. Não se culpe, por favor.Daniel afastou a mão dela com um movimento brusco, o olhar gelado, mais do que ela jamais tinha visto.Nicole, assustada com a frieza dele, forçou um sorrisinho, tentando manter o controle:— Dan, por que tá me olhando assim? Daniel, com a voz cortante, foi direto:— Aquele dia, o cachorro... Ele fugiu sozinho ou foi você quem soltou ele?Nicole arregalou os olhos, fingindo surpresa, e respondeu com um tom inocente:— Você tá achando que fui eu quem soltou o Totó de propósito, só para te fazer me ajudar a procurar?Daniel não respondeu.Apenas a encarou com indiferença, e disse, firme:— A partir de hoje, eu não quero
Ele estava prestes a me responder, quando batidas na porta interromperam o silêncio.Era uma das empregadas da casa, que entrou carregando uma caixa térmica com comida.Daniel pegou a caixa das mãos dela, agradeceu com um leve aceno de cabeça e a colocou sobre a mesa.Logo depois, ele encheu uma tigela de mingau, sentou-se ao meu lado e, com a colher em mãos, tentou me alimentar.— Foi o cozinheiro lá de casa que preparou esse mingau. Mandei fazer especialmente para você, é leve e nutritivo, o melhor para agora. Eu o encarei com frieza, e respondi, sem nenhuma emoção:— Daniel, sai daqui. Some da minha frente.Por incrível que pareça, ele não se irritou.Continuou segurando a tigela com cuidado e, ainda mais calmo, insistiu:— Deixa só você comer esse mingau primeiro... Depois eu vou embora, tá bom?Virei o rosto pro lado, me recusando a olhar para ele, sem dizer uma palavra.Daniel abaixou a cabeça, e a voz dele ficou mais baixa, quase um sussurro:— Eu sei que errei, amor. Você pode
Paty soltou uma risada fria, carregada de desprezo:— Felipe, escuta bem o que eu estou te dizendo: eu nunca, em toda a minha vida, vou voltar para você. Esquece essa ideia ridícula de reconciliação!E, sem esperar qualquer resposta, encerrou a ligação na cara dele.Poucos segundos depois, o celular dela voltou a tocar, era o Felipe de novo.Sem paciência, ela bloqueou o número na hora.Não demorou muito e, como eu já esperava, Daniel também começou a me ligar.Provavelmente tinha acabado de sair do hospital e só então percebeu que eu tinha me mudado sem avisar.Mas eu não atendi.Então ele começou a me mandar uma enxurrada de mensagens:[Você foi para onde? Por que não me avisou? Seu corpo ainda tá fraco, precisa descansar e se recuperar. Por favor, volta para casa. Mesmo que não queira falar comigo agora, tudo bem. Podemos deixar nossas questões para depois, só cuida da sua saúde primeiro.]Em questão de minutos, ele já tinha mandado dezenas de mensagens, e o celular não parava de vi
Depois de uma breve pausa, Felipe ainda acrescentou, como se fosse algo natural, quase uma obrigação:— Ah, e amanhã à noite tem uma festa. Quero que você vá comigo.Antes, Felipe sempre evitava aparecer em público com a Paty.Não importava o evento, ele nunca a levava.Agora, ele mesmo convidando, significava que queria assumir ela diante de todos.Mas Paty sorriu friamente:— Me apresentar como o quê? Sua ex-mulher? Felipe franziu a testa, incomodado:— Patrícia, eu vim até aqui, comprei seu bolo favorito para te agradar, o que mais você quer que eu faça?Ele falava com aquele tom arrogante, como se estivesse fazendo um grande favor, como se descer do pedestal dele fosse um sacrifício enorme.Paty riu, fria e debochada, pegou o bolo e, sem hesitar, jogou direto na lixeira.— Felipe, eu não gosto mais de bolo de blueberry. E de você também não. Coisas que a gente não gosta, a gente joga fora.Felipe ficou paralisado, como se tivesse levado um tapa na cara, sem reação.Paty nem olhou
[Daniel, vamos nos divorciar.]Assim que enviei a mensagem, o celular tocou. Era ele.— Isabella, você não cansa de inventar drama? Ontem você me enganou dizendo que sua avó estava morrendo, e hoje já vem com esse papo de divórcio para me ameaçar? Casamento é só um ritual, precisava fazer tanto escândalo? — Ele disse, com a voz carregada de desprezo. — Já te falei, o cachorro da Nic sumiu, ela ficou desesperada, aquele cachorro tá com ela há anos, significa muito para ela. Além disso, cachorro também é uma vida! Por que esse ciúme doentio? Será que dá para ter um pouco de compaixão?Enquanto eu ouvia aquelas palavras frias e duras, meu coração se enchia de tristeza e vazio.Ontem foi o nosso casamento.No meio da cerimônia, Daniel atendeu uma ligação e simplesmente foi embora.Minha avó, de tanto desgosto, teve um ataque cardíaco. Eu a levei às pressas pro hospital. Mas o médico disse que só Daniel poderia realizar a cirurgia que salvaria a vida dela.Eu tremia, chorava, e ligava sem p
Daniel ficou em silêncio por alguns segundos.— A Isabella deve estar louca, né? Chegar ao ponto de amaldiçoar a própria avó só para me forçar a voltar... — Disse, com um tom de desprezo. — Fala para ela parar com esse teatro, já deu. Assim que eu resolver as coisas aqui, eu volto.Antes que minha amiga pudesse responder, ele encerrou a ligação bruscamente.Paty respirou fundo, segurando a raiva, e me devolveu o celular.Foi então que, sem querer, abri o Instagram da Nicole.Na foto, ela estava na praia, abraçada ao cachorro, sorrindo como se estivesse vivendo o dia mais feliz da vida dela.Na legenda, lia-se:[Totó quase se perdeu, mas ainda bem que o papai dele achou a tempo. Estamos tão felizes!]Ao ver aquilo, meus lábios tremeram, e as lágrimas começaram a cair sem controle.Que ironia cruel...Ele se recusou a salvar a vida da minha avó, mas estava por aí, passeando com a antiga paixão e o cachorro dela, como se nada tivesse acontecido.Na verdade, meu casamento com Daniel nunca
Antes, eu já tinha falado em divórcio com o Daniel algumas vezes.Mas, sempre que via ele realmente bravo, meu coração amolecia, e eu acabava cedendo. No final, era sempre eu quem pedia desculpas, tentando agradá-lo, implorando por perdão.Talvez por isso ele achasse que, dessa vez, era só mais uma das minhas birras, como ele dizia.Mas não era.[Daniel, dessa vez eu estou falando sério. Vamos nos divorciar. Amanhã, às nove e meia, na porta do cartório.] — Por isso, respondi com firmeza, sem hesitar.[Tudo bem. Já que você quer tanto isso, vou te dar o que quer.] Ele respondeu na hora.Não respondi mais.Na manhã seguinte, eu e Paty chegamos cedo ao cartório.Não demorou muito e Daniel apareceu... Com a Nicole ao lado.Nicole.A ex dele da época da faculdade.Eles tinham terminado por causa de um mal-entendido, mas, mesmo depois de tantos anos, ele nunca a esqueceu.Quando olhei para aquele cachorro nos braços dela, a dor voltou com tudo, rasgando meu peito, me lembrando da minha avó..