Capítulo 0002
Daniel ficou em silêncio por alguns segundos.

— A Isabella deve estar louca, né? Chegar ao ponto de amaldiçoar a própria avó só para me forçar a voltar... — Disse, com um tom de desprezo. — Fala para ela parar com esse teatro, já deu. Assim que eu resolver as coisas aqui, eu volto.

Antes que minha amiga pudesse responder, ele encerrou a ligação bruscamente.

Paty respirou fundo, segurando a raiva, e me devolveu o celular.

Foi então que, sem querer, abri o Instagram da Nicole.

Na foto, ela estava na praia, abraçada ao cachorro, sorrindo como se estivesse vivendo o dia mais feliz da vida dela.

Na legenda, lia-se:

[Totó quase se perdeu, mas ainda bem que o papai dele achou a tempo. Estamos tão felizes!]

Ao ver aquilo, meus lábios tremeram, e as lágrimas começaram a cair sem controle.

Que ironia cruel...

Ele se recusou a salvar a vida da minha avó, mas estava por aí, passeando com a antiga paixão e o cachorro dela, como se nada tivesse acontecido.

Na verdade, meu casamento com Daniel nunca deveria ter acontecido.

Foi um acaso cruel.

Ele era o médico responsável pela minha avó.

Na época, o tratamento dela era caríssimo, e eu, sem dinheiro, corria desesperada tentando arrumar a quantia.

Foi então que ele fez uma proposta, ele pagaria tudo, se eu fingisse ser a namorada dele, para agradar os pais, que o pressionavam para se casar.

Sem alternativa, aceitei.

Mas, convivendo com ele todos os dias, acabei me apaixonando de verdade.

Como minha melhor amiga tinha se casado com o irmão dele, achei que seríamos uma família, cunhadas, e que tudo daria certo.

Por isso, insisti na relação, me iludindo, achando que um dia ele me amaria de volta.

Assumimos o namoro oficialmente e, depois, veio o casamento.

Quando me viu chorando, Paty me abraçou forte, como se quisesse me proteger da dor que me rasgava por dentro.

— Bella, não chora mais, amiga. Um homem desse tipo não merece nem uma lágrima sua. — Ela disse, com a voz firme, mas o olhar cheio de raiva.

Mas toda vez que eu lembrava da minha avó, da certeza de que nunca mais ouviria a voz dela, a dor me esmagava o peito.

Com a voz embargada, sussurrei:

— Paty, eu não tenho mais a minha avó...

Ela me abraçou ainda mais forte, passando a mão nas minhas costas:

— Você tem a mim, Bella. Eu vou ficar com você, sempre.

Assenti com a cabeça, tentando segurar o choro, mas por dentro, meu mundo já tinha desmoronado.

Eu e Patrícia Bastos, a Paty, nos conhecíamos desde pequenas.

Mais que melhores amigas, éramos irmãs de alma, daquelas que dividem segredos, sonhos e medos.

De repente, o celular da Paty começou a tocar.

Era Felipe Lopes.

Paty tinha se casado com Felipe por causa de um acordo comercial entre as famílias.

Desde então, os boatos sobre traições dele nunca pararam.

No começo, ela acreditava nele, defendia o marido de todas as fofocas.

Mas tudo mudou na noite anterior, quando a mídia divulgou fotos dos dois viajando juntos, ele e uma atriz famosa, em momentos claramente íntimos.

Assim que atendeu, a voz irritada de Felipe veio do outro lado:

— Patrícia, acabei de descer do avião e você já tá começando com drama? Eu só encontrei com aquela atriz num restaurante, foi coincidência! Não é nada do que tão falando. E agora vai querer arrumar briga por causa disso? Não cansa, não?

Paty riu com desprezo, uma risada fria:

— Coincidência? Coincidência almoçar juntos, andar de mãos dadas e dormir no mesmo quarto de hotel, Felipe? Me poupe! Não me trate como idiota!

Felipe, sem demonstrar um pingo de culpa, respondeu:

— Isso é coisa da imprensa, querendo fazer fofoca. Eu não fiz nada. Acredita se quiser. E se quiser o divórcio, fala logo. Eu assino quando quiser.

Paty tremia de tanta raiva, o olhar cheio de dor e indignação:

— Felipe...

O som da ligação cortada ecoou no quarto.

Paty limpou as lágrimas com as costas da mão, os olhos vermelhos, brilhando de ódio:

— Eles realmente são irmãos... Iguais em tudo. Bella, a gente precisa se divorciar, se livrar desses dois canalhas!

Eu sabia que, por trás daquela raiva, Paty estava destruída.

Eles podiam ter se casado por interesse, mas ela amava o Felipe de verdade. Uma herdeira, acostumada a ter o mundo aos seus pés, que nunca tocou em nada pesado, mas que, por ele, aprendeu a cozinhar, queimou as mãos e insistiu em agradá-lo, mesmo sem nunca ser valorizada.

No aniversário dele, mesmo sabendo que ele estaria fora do país, pegava voo de mais de dez horas só para fazer surpresa.

Quantas vezes virou noites ao lado dele, só para acompanhar o trabalho pesado que ele dizia ter, mesmo sem precisar?

Mas para Felipe, ela era só um peso, uma mulher inútil que ele dizia que ficava no pé dele o tempo todo.

Nos abraçamos, chorando em silêncio, cada uma engolindo sua própria dor.

Depois do enterro da minha avó, respirei fundo, juntei coragem e mandei uma mensagem pra Daniel:

[Quando você vai ter tempo para assinar os papéis do divórcio?]

Ele demorou, mas respondeu com a mesma frieza de sempre:

[Isabella, até quando você vai bancar esse show ridículo? Tá revoltada porque eu saí do casamento antes da hora? Para de drama, a gente já tá casado, papel assinado! Festa não muda nada. E quer saber? Se continuar insistindo em divórcio, talvez eu aceite. E aí, quando perceber o que perdeu, vai chorar sozinha, e eu não vou estar lá pra te consolar.]
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