Elizabeth ficou estática ao ouvir o que sua amiga havia dito. Seus olhos piscaram duas vezes, tentando assimilar a informação, mas sua mente parecia se recusar a aceitá-la.
Seus pais iriam se separar? Ela sabia que o casamento dos Molina não estava bem. Clara mencionava brigas, e até desabafava sobre o silêncio cortante que preenchia sua casa. Mas, ultimamente, as lágrimas tinham cessado, e Elizabeth ingenuamente acreditou que as coisas haviam melhorado. Nunca cogitou que tudo terminaria em divórcio. Clara, no entanto, não precisava dizer mais nada. Seu rosto pálido e as lágrimas que encharcavam sua pele já entregavam tudo. O corpo tremia em soluços silenciosos, como se a dor estivesse a consumindo de dentro para fora. Elizabeth sentiu um nó na garganta. Como ajudar quando nem mesmo sabia o que dizer? Tentou falar, mas as palavras falharam. Tentou novamente, e o silêncio venceu outra vez. Seu peito pesava. Então, sem alternativa, apenas a abraçou. Não sabia se fazia diferença, mas permaneceu ali, firme, enquanto Clara desmoronava em seus braços. A amiga, no entanto, recusava-se a expor ainda mais sua dor. Mantinha a cabeça baixa, escondendo-se atrás dos próprios cabelos, como se o choro fosse uma confissão de fraqueza que não podia permitir. Elizabeth queria quebrar aquele silêncio sufocante, dizer algo que trouxesse conforto. Mas antes que pudesse organizar os pensamentos, Clara se afastou abruptamente, enxugando as lágrimas com as mangas da camisa larga. — Não precisa ficar triste por mim, Elizabeth. Eu vou ficar bem. — Sua voz saiu rouca, mas sua expressão era inabalável.Elizabeth não acreditou. Clara tentava ser forte, sempre tentava, mas havia rachaduras evidentes em sua armadura. — É impossível não ficar triste por você, Cla. Tudo o que te afeta, me afeta também. — Elizabeth segurou suas mãos com firmeza. Três anos sendo melhores amigas, e o laço entre elas era tão sólido quanto o de irmãs. Clara forçou um sorriso. Estava triste, destroçada e cabisbaixa. Era uma adolescente de dezessete anos, mas ainda mantinha a fantasia de que os pais ficariam juntos até a eternidade. Na noite anterior, quando seus pais se sentaram com ela, pensou que diriam algo bonito, que se desculpariam pelo caos que trouxeram até si, que sua mãe finalmente voltaria a sorrir como antes, que seu pai chegaria sempre a tempo e hora para o jantar, mas eles apenas disseram que não podiam continuar juntos e que estavam iniciando o processo de divórcio. A decisão era unilateral, percebeu pela cara que fazia sua mãe enquanto Miguel-Angel explicava. Clara nada disse, mas na madrugada, se sentiu sufocada e decidiu sair. Se achava desesperada, mas quando acordou, decidiu que teria esperanças, que se conversasse, seu pai não as deixaria. Que sua família não iria desmoronar, mas estava sendo difícil. — Quem te ouve vai achar que está se declarando. — A loira brincou um pouco depois. Elizabeth revirou os olhos, fingindo descrença. — Onde é que você encontra tanta idiotice, Clara? — Muito expressiva, Elizabeth não escondia sua falsa indignação. — Provavelmente do tanto de tempo que passo contigo. — Clara rebateu. A troca de provocações era familiar, quase reconfortante. Quase. Clara olhou as horas, o sorriso brincando em seu rosto se dissolvendo aos poucos. — Preciso ir agora. Tenho algumas coisas para resolver, e tenho que ficar com a minha mãe. Ela precisa de mim. — Aquela frase final veio com um peso extra. — Vai ficar bem? — Elizabeth procurou saber. O silêncio que seguiu a pergunta foi quase uma resposta. Mas então Clara sorriu tocando seu ombro levemente. — Sim. Não se preocupe. Eu vou resolver. — Garantiu. — Nos vemos depois. — Sentenciou pondo-se em pé. Retirou o relógio, porque não era o dela, e devolveu a amiga. Elizabeth quis acreditar. Mas era difícil. E quando Clara se foi, levando consigo um pedaço do dia, Elizabeth ficou ali, sentindo o ar pesado que a amiga deixara para trás. Subiu para o quarto, largou o telefone para carregar e, sem mais o que fazer, se jogou na cama, encarando o teto. O sono veio sem que percebesse. [...] A propriedade da família Ramos era um império de terras e histórias. Theodor conhecia cada caminho até lá de cor. Afinal, era onde vivia sua namorada — e, como ele gostava de dizer, sua futura esposa. A distância não importava. Nem o tempo. Ele sempre ia. Conheceram-se no ensino médio, e a amizade evoluiu sem esforço para algo maior. Não era um amor adolescente passageiro. Era sólido, intenso. Suas famílias já imaginavam o casamento, e a mãe de Theo até sonhava com os netos que cuidaria. Ele, por sua vez, já desenhava a casa onde viveriam. — Eu amo essa árvore. Parece que foi feita pra mim. — Kimberly sorriu, deitada no colo dele, olhando o céu. O sol filtrava-se entre as folhas, pintando sombras suaves sobre sua pele alva. — Então deveria pintá-la. — Theo sugeriu, brincando com um galho entre os dedos. Ela sentou-se, animada. — Boa ideia! Talvez eu faça uma exposição depois que voltar da escola de arte. — O entusiasmo dela deveria fazê-lo sorrir. Mas, ao invés disso, Theo sentiu um peso no peito. — Mas você já pinta tão bem… Não precisa ir para tão longe para melhorar. — Comentou jogando fora o galho. Kim respirou fundo. Já haviam discutido isso. Muitas vezes. — Eu quero ir. Quero melhorar. Vou voltar quando terminar o curso. — Determinou. Ele sabia que precisava apoiá-la. Todos diziam isso. Mas não era fácil. — E se não der certo? Se os contratempos forem muitos e não conseguirmos nos visitar? Se passarem dias, meses… o que faremos? — Disparou preocupado. Kimberly tocou seu rosto com carinho. — Nada vai mudar, Theo. São só dois anos. Eu acredito em nós. Acredite também. — Pediu com ternura. Ele nada respondeu. Apenas a abraçou, fechando os olhos. Mas, no fundo, desejou que aquela oportunidade nunca tivesse surgido. [...] Elizabeth despertou sentindo um incômodo no pescoço. Resmungou baixinho, frustrada. Tentou evitar dormir em uma posição ruim, e ainda assim seu corpo a traiu. Levantou-se preguiçosamente, ignorando o telefone esquecido no quarto, e caminhou para a cozinha. A casa estava vazia. Apenas um bilhete repousava na mesa: "Precisei sair, princesinha. Volto logo." A letra era de seu pai. Comeu em silêncio. Depois, sem pressa, rumou para a biblioteca, mas parou no caminho ao ouvir um "toc, toc" na porta. — Esqueceu a chave? — Questionou ao abrir. — Não consegue ser mais responsável? — Provocou cruzando os braços diante do irmão. Theo estava encostado no batente, segurando as chaves do carro do pai. — É. — Respondeu, entrando. Atirou-se no sofá, claramente abatido. Elizabeth percebeu de imediato. — E o nosso pai? — Questionou mirando o topo das escadas. — Saiu. — Elizabeth respondeu. — Ele não deveria estar descansando, para onde ele foi? — Questionou o primogénito. Elizabeth deu de ombros. — E a mamãe? — Voltou a perguntar olhando as horas no relógio. — Esqueça, ainda é cedo. — Comentou ao notar que eram apenas quatro horas da tarde, e sua mãe costumava chegar bem depois desse horário. — Está tudo bem? — Deixando imaturidade que a conduzia sempre que encontrava o irmão, Elizabeth questionou. — Eu posso ajudar. - Garantiu mesmo sem saber o que era. Theodor se virou para ela com um sorriso de canto no rosto. — Precisa ficar mais alta para isso. — Retribuiu o estudante universitário. Elizabeth pensou que se ele parecesse igual a outros dias, teria lhe atacado com toda sua imaturidade até ele se cansar, mas ele já parecia cansado, então... — Vai ficar tudo bem. — Theo garantiu. Ele beijou o topo de sua cabeça e subiu as escadas, carregando um peso que não quis compartilhar. Elizabeth ficou ali, observando-o desaparecer pelo corredor. Não gostava de vê-lo assim. E odiava ainda mais o fato de não saber o motivo.Elizabeth estava gastando seu tempo com coisas que sua mãe considerava demasiado improdutivas, ou seja, jogando em seu telefone até que seu pai chegou da rua trazendo consigo alguns sacos das compras que recentemente havia feito, e uma animação exagerada para quem iria apenas cozinhar. Sua filha lhe perguntou o que era, e Anderson, sem conseguir se conter, disse que faria um jantar especial para comemorar a vitória da esposa no tribunal.Aquela vitória era esperada, porém nova. Então, a menina se animou com a iniciativa do pai e logo se ofereceu para ajudar. Começaram a mexer nas panelas, aqui e ali, fazendo algum barulho que atraiu a atenção de Theo para a cozinha, que, percebendo o que era feito, também ofereceu ajuda.Então, disponíveis e com uma certa felicidade, estavam todos empenhados em fazer um jantar especial para Mariana.Faziam meses que a mulher de longos cabelos cacheados estava incansavelmente trabalhando naquele caso, tentando provar que a ex-esposa de um médico não ha
- E então, pai, o que houve? - Theo perguntou novamente, vendo Anderson se sentar. Seu rosto não tinha expressão nenhuma, e isso apenas aumentou a inquietação de Elizabeth, cuja imaginação já não lhe dava tréguas. - Papai. - Repetiu, agora impaciente e com um toque de rudeza. Não percebeu a respiração acelerada, nem o coração batendo forte no peito, mas já começava a se desesperar.A menina, conhecida como a mais pessimista da família, sentia as mãos trêmulas e suadas. O coração pulsava como se quisesse rasgar seu peito. A sensação ruim da manhã estava de volta, ainda mais forte."Calma", dizia a si mesma. "Não pensa besteira." Mas sua mente não lhe obedecia. Dentro dela, uma voz gritava, chorava, se debatia como se já soubesse o que estava por vir. Mesmo sem nenhuma certeza, o medo a sufocava.- Não sei por onde começar… não me preparei para isso. - A voz de Anderson soou baixa, cansada. Ele suspirou longo e pesado, os olhos baixos, evitando o olhar dos filhos. Para Theo e Elizabeth,
Ainda longe do meio dia, a casa dos Molina era preenchida pela voz de Miranda, que irritada, tentava convencer o marido a não lhe deixar. Dentro do quarto, Clara tentava não se abalar pela mais recente briga dos pais. Guardava esperança de que seu pai reconsideraria e que ficassem todos junto. Sua mãe não sofreria e sua família seguiria unida.Talvez fosse imaturo pensar assim, mas não perdia a esperança na família já foram. — Então é isso, vai mesmo sair de casa e me deixar? — Embora estivesse vendo as malas que ele carregava, Miranda não conseguia acreditar que seu casamento estava acabado, ainda amava o marido e esperava resolver as divergências. — Vai deixar a sua família, não se preocupa nem um pouco com a sua filha? — Voltou a questionar. Tinha as mãos na cintura, e o nervosismo estampado no rosto. — Miranda, entenda por favor. Esse casamento não está dando certo. — Miguel-Angel rebateu. Fazia gestos pausados e realmen
Com o semblante abatido e o corpo cansado, Theo fugiu das pessoas que no andar de baixo procuravam entregar suas condolências, lhe consolar e até se mostrar amigas, para subir as escadas. Disse a sua namorada que iria descansar, e que ela poderia ir descansar também, e mesmo relutante, a moça ruiva concordou indo para casa se trocar.Subindo um e mais outro degrau, estava pronto para encontrar o isolamento que fornecia seu quarto em tons de preto e vermelho, mas a porta entre aberta do quarto em que antes dormia sua mãe chamou sua atenção.Não tinha o costume de entrar no quarto dos pais, ainda mais quando não estivessem lá, mas daquela vez, seus pés o conduziram automaticamente.Afastou vagarosamente a porta com a mão, tão lento que parecia que não queria entrar, mas acabou parando no limite. Um pé a frente, outro a trás. Havia uma certa esitação, então mesmo do lado de fora observou o que podia sobre o quarto.Simples e li
Deitado sobre a cama, pés tocando o piso e olhos vidrados no teto, Theodor tinha sobre o peito um porta retrato. Um ano, era o tempo que fazia desde que tiraram aquela última fotografia. Era em família, e naquele verão em que viajavam pelas cidades de Alura, completos e felizes, ele não desejou nada mais para a vida. Apenas que estivessem juntos, e felizes assim. Mas já não estariam todos juntos, e seu coração jovem quase sufocava. Tinha apenas vinte e um anos, era cedo demais, e não acreditava que tivesse aproveitado o bastante com a mãe. Então em silêncio, chorava. — Entre. — Permitiu quando passos se aproximaram de sua porta, fracos, os punhos tocaram a madeira que a revestia. A porta foi aberta, revelando sua donzela. — Achei que tivesse ido para casa. — Comentou se sentando. Kimberly foi até ele e o abraçou. — Estava indo, mas acabei desistindo. — Respondeu segurando uma de suas mãos. Theo ha
— Vai querer alguma coisa para beber? — Gentil, Ana perguntou ao capitão da delegacia de homicídios que acabava de chegar em sua casa. Eduardo Simas, era este o nome do homem de terno cinza. — Não obrigado, pretendo ser breve. — Educado, o homem recusou se acomodando no lugar indicado. Assim como Anderson, estava na casa dos 40, mas diferente deste, Simas já possuía alguns traços da "velhice" em sua cabeça. — Trouxe o relatório da autopsia. — Comunicou estendendo o envelope amarelo ao dono da casa. Atentos, seus filhos o olharam ler o material, ao mesmo tempo que se perguntaram se aquele era o procedimento padrão, se sempre deixavam os familiares das vítimas ler o laudo médico. E porquê o capitão de uma divisão inteira estava lá, investigando aquele caso? — Diz que Mariana morreu instantaneamente após uma facada no coração. — Comunicou o médico. Mas aquilo, todos já sabiam. — E que o agressor é destro. — Acrescentou calmamente. Elizabeth
Seis anos haviam se passado.Seis longos anos desde Mariana havia sido assassinada.O assassino ainda estava a monte, e eles viviam silenciosamente sobre uma guerra declarada. Uma família se quebrou naqueles anos de dor, raiva e incerteza. Até tentaram, mas nunca mais foram os mesmos.De um lado, estavam os filhos obstinados a descobrir a verdade por trás da morte da mãe, e do outro, um marido que já havia aceitado aquele desfecho. Firmes, cada lado defendia seus interesses, e muitas vezes, a doce madrinha, foi apanhada no meio.Theodor não se deteve e contratou, com o dinheiro que lhe deu seu tio, um detetive particular três meses após a morte de Mariana, mas esse não teve êxito. E a razão era só uma, Simas. O capitão convenceu o detetive contratado a abandonar o caso de Mariana, porque segundo ele, nunca chegaria ao fim. O detetive recuou, como se fosse apenas preciso uma opinião para desistir de toda uma investigação. O caso foi mais uma
— Barbie. — Elizabeth saudou adentrando a sala, que em tamanho e decoração ganhava da sua. Suas salas deixavam bem claro quem trabalhava com o quê. — Raquel. — Alegre, Clara retribuiu deixando o computador de lado, pousando os cotovelos sobre a mesa, apoiou o rosto nele sorrindo de forma amigável. Sem esperar por convite, Elizabeth sentou em uma das cadeiras de frente a sua. — Estou vendo uma pitada de satisfação nesse seu rosto, o que é? Andou falando mal de mim, ou é só do casamento? — Elizabeth perguntou bem humorada. — Nenhum dos dois, apenas relaxando para não ter rugas. — Clara respondeu . — E você, está melhor? — Retornou bastante atenciosa. Mas Elizabeth estranhou aquele "melhor"... — Estou perguntando porque ontem foi um dia difícil, e não atendeu minhas chamadas. — Esclareceu. — Eu estou bem, querida Clara. — Elizabeth garantiu. O dia anterior, marcava exatamente seis anos desde que Mariana havia partido. E como já era de se esperar, Elizabeth estava distraída e pouco