O sino sobre a porta do pequeno café tilinta quando entro, chamando a atenção das poucas pessoas ali presentes, e o mais importante, a atenção dela.
Parada no meio do salão, Bella me encara como se eu fosse uma assombração. O homem baixinho atrás do balcão solta um pigarro e ela abaixa a cabeça e segue seu curso até depositar uma xícara de café em uma das mesas ocupadas.
Ignoro os olhares curiosos e me sento na ponta do balcão, longe do senhor que deduzo ser o chefe. Não acredito que ela poderá se sentar em uma mesa comigo, pelo menos aqui ela pode fingir que trabalha enquanto conversamos.
Assumindo que ela vai co
Nunca imaginei que meu orgulho teria um preço e esse preço é me casar com Dante Vasconcellos.O gosto amargo da decisão ainda queima em minha garganta. Esfrego compulsivamente o balcão, limpando uma sujeira há muito tempo exterminada, só para me manter ocupada, para não ter que olhar nos olhos de Dante e perceber sua felicidade.O jogo é dele e ele já venceu, não vou permitir que ele veja o quanto essa decisão me destrói por dentro.— Bella? — ele pergunta, segurando meu pulso com delicadeza, interrompendo meus movimentos erráticos.A verdade é que não estou enxergando nada, as lágrimas criaram uma película grossa que ofusca minha vis&
Nunca tive problema com contratos. Assino dúzias o tempo inteiro. Nada na Vasconcellos Corp. passa por mim sem no mínimo um termo de sigilo. Já lidei com cláusulas complicadas e advogados exigentes, mas nada me preparou para um contrato de casamento falso com Isabella Mendes.É no mínimo controverso que estejamos formalizando algo que beira a ilegalidade. Meu avô provavelmente vai me matar se descobrir que estou forjando um casamento só para manipular suas exigências.Sentados à mesa do elegante escritório de Enzo Martelli, Bella lê cada linha do documento com atenção, os dedos deslizando pelo papel como se precisasse sentir as palavras antes de aceitá-las.Diante do silêncio e da cara emburrada de Bella, Enzo se remexe inquieto.— Garanto que deixei tudo bem claro, você
Meu cérebro está fritando de tanto pensar. Preciso encontrar uma solução para isso, porque não posso, simplesmente não posso viver nessas condições com Dante.Como assim, não teremos privacidade nem na casa dele?Bom, na verdade, não sei por que estou tão surpresa, Alberto Vasconcellos não facilitaria as coisas para ninguém. Dante causou isso a ele mesmo. O problema é que agora vou sofrer as consequências junto.Cento e trinta mil reais.Sinto o gosto ferroso na boca de tanto mordiscar a parte interna dos lábios e Dante se remexe inquieto, como um tubarão, sentindo o cheiro do sangue.— Enzo, pode colocar aí que qualquer conduta ou comportamento inadequado da minha parte, eu sofro penalidades.
Tento não pensar em como a história se repete.Há dez anos, depois de passar um semestre inteiro trocando bilhetinhos na sala de aula, puxei Isabella para um depósito tão apertado quanto esse e a beijei pela primeira vez, não foi um primeiro beijo romântico, mas foi como tinha que ser para conter nossa ansiedade.A lembrança me causa arrepios. Inspiro fundo, tentando me concentrar no perfume de Enzo impregnado nos ternos pendurados. Não estamos naquele depósito, nem temos dezessete anos. Não vamos nos beijar.Está quente aqui dentro e muito escuro, o que parece despertar o restante dos nossos sentidos. Quando o telefone toca na sala, nós dois nos sobressaltamos, Bella esbarra no meu abdômen quando leva as mãos até a boca.Sua respiração está curta e entrecortada, o
Abro a caixa e me deparo primeiro com o contrato. As palmas das mãos suam, uma nota adesiva verde-limão está colada na primeira página:“Assine todos os lugares marcados e traga uma das cópias.”Folheio o documento, notando outros adesivos em formato de seta, indicando onde preciso assinar. Cada folha previamente assinada por Dante também. Dali cai outro papel, menor e retangular, com outra nota adesiva anexada:“Seu pai vai ficar bem lá, prometo.”É o mesmo garrancho de Enzo nos dois bilhetes, por alguma razão idiota, não amasso as notas e as jogo fora. Dobro cuidadosamente e guardo na gaveta da mesinha de cabeceira. Eles me fazem lembrar os velhos tempos, quando Enzo me perturbava para dar uma chance para Dante. Ele sempre foi um bom amigo, para nós dois, mas eu tinha
— E se ela não vier?— Ela vai vir.— Você não tem como saber — insisto.— Mas eu sei — ele responde distraidamente.— E como você sabe?— Caralho, Dante. — Enzo me interrompe. — Ela vai vir. Confia, maninho. Acho que vou pegar uma cerveja.Ele vai andando na minha frente, é cedo para beber, o Solaris Fest ainda está relativamente vazio. Mas hoje não tem uma única nuvem sequer e o sol está começando a ganhar força, subindo no céu.Apresso o passo para alcançá-lo.
A cena diante dos meus olhos é ótima para minha confiança. Não é como se eu já não estivesse arrependida antes mesmo de sair de casa.— Bella! — é Enzo quem grita, depois de levar uma cotovelada do amigo. — Caramba, quanto tempo.A loira azeda se vira para olhar e me apresso em suavizar a expressão antes que ela me flagre.Os dois vêm em minha direção, ainda abraçados um no outro, é um pouco patético que o esforço maior seja de Enzo. Dante parece fora da órbita, provavelmente pensando em como vai fazer para fingir que está apaixonado por mim e ainda se enfiar no meio das pernas da outra sem que ninguém saiba.Enzo me abra&c
Sei que Enzo veio junto justamente porque era uma boa ideia parecermos só amigos a princípio, mas não gosto disso quando Flávia está aqui, já fomos vistos juntos outras vezes e a mídia já especulou um possível relacionamento entre nós.E se dessa vez a mídia achar que esse é um encontro de casais? Se juntar os casais errados?Olho de relance para Enzo mostrando as fotos de seu celular para Bella, ele arrastou a cadeira para mais perto dela e ela está debruçada sobre a mesa, olhando com atenção o aparelho na mão dele.— Esse é o… — ele faz uma pausa dramática e vira o rosto para ela, que retribui o olhar. — Ronronaldo.Bella solta uma risada genuína, apoiando uma das mãos no braço de Enzo.Minhas narinas inflam e meu peito exp