Nuria
A primeira coisa que senti foi o vazio.
Não o emocional. Esse eu já conhecia. Era físico mesmo. O calor que envolvia meu corpo durante a noite tinha desaparecido. E quando abri os olhos, vi que a cama enorme estava vazia.
Stefanos não estava ali.
Me sentei devagar, os lençóis ainda grudados à pele, e olhei ao redor. O quarto estava iluminado pela luz da manhã que entrava pelas janelas altas. A cama desfeita, o travesseiro amassado onde ele dormira.
Passei a mão pelo local que ainda guardava o cheiro dele e respirei fundo. Sândalo. Fumaça. Lobo.
NuriaO cheiro dele ainda estava em mim.Mesmo depois do banho demorado, mesmo depois de lavar cada centímetro da pele como se tentasse tirar algo que já não estava fora — e sim, dentro.A água escorreu quente pelas costas, mas não me queimava tanto quanto as lembranças da manhã. Os olhos prateados dele. A voz rouca. As ordens. O meu corpo… obedecendo.Respirei fundo.Vesti a única roupa que ainda me fazia sentir invisível: o uniforme cinza de criada. Sem graça, apertado demais no peito, largo demais nos quadris. Quase como eu.
StefanosEla ainda estava contra a parede.Os lábios úmidos.A respiração descompassada.O cheiro de desejo ainda no ar.Mas então… aquele sorriso.Aquele maldito sorriso triste.“Eu não posso ser,” ela murmurou. “E menos ainda… a sua.”A frase se cravou na minha mente como uma lâmina.O silêncio entre nós foi ensurdecedor.A raiva surgiu primeiro —
NuriaCaí de joelhos no exato instante em que ele saiu pela porta.O chão gelado me recebeu como se quisesse me engolir. Minhas mãos foram direto ao peito, tentando conter a dor absurda que se espalhava por dentro, como uma fisgada aguda em cada costela, como se meu coração tivesse esquecido como bater.Não era só raiva.Não era só tristeza.Era a perda de algo que eu sequer podia nomear.Minha loba gritou.Gritou como uma alma despedaçada.E eu… eu não entendia.
StefanosO mundo passou em borrões enquanto o lobo corria.Galhos se quebravam sob as patas. O vento rasgava o pelo. E, por dentro, tudo ardia.Ele correu porque eu deixei. Porque não suportava mais sentir. Porque, naquele instante, ser fera era mais fácil do que ser homem.Não havia pensamento. Só instinto.Mas até o instinto cansa.Quando as patas falharam, o corpo tombou no solo coberto de folhas úmidas, arfando. E foi então que a consciência humana voltou. Me arrastei pela mata até retomar a forma e, quando perceb
StefanosO barulho da sirene ainda ecoava na minha cabeça, mesmo depois de terem levado Nuria para longe da mansão. A imagem dela, imóvel, a pele quase translúcida, recusava-se a abandonar minha mente.E eu, parado ali, sem saber como reagir pela primeira vez na vida.Minha garganta apertou. Não era medo. Não podia ser medo, não de um Alfa como eu.Era fúria.Movido pela raiva que borbulhava dentro do meu peito, agarrei o braço do médico quando ele tentou passar apressado por mim."Pare." Minha voz saiu rouca, grave,
StefanosO médico me encarou com olhos arregalados, nitidamente abalado pela minha ordem. Suas mãos tremeram ao ajeitar os óculos, e senti minha paciência, já mínima, atingir níveis perigosamente baixos."O senhor quer dizer… sobre as Millenares?" Sua voz gaguejou, claramente desconfortável com o rumo daquela conversa. "Nunca tivemos… eu achei que fossem apenas uma lenda antiga, algo como um mito...""Mitos não sangram azul, doutor," respondi rispidamente, estreitando os olhos para enfatizar meu ponto. "Nuria é uma Millenar, e ela está morrendo. Preciso saber por que diabos isso está acontecendo, e você vai me ajudar. Vasculhe cada maldita página deste hospital, se precisar, mas trag
StefanosMinha pulsação estava acelerada, martelando violentamente em minhas têmporas, enquanto os médicos ao meu redor pareciam lutar inutilmente contra algo que não entendiam. Meu corpo inteiro estava rígido de tensão, e cada bip acelerado das máquinas ao lado de Nuria fazia meu coração saltar.“Senhor Varkas, por favor, se afaste!” um dos médicos exclamou, me empurrando suavemente, mas com firmeza. “Não há nada que o senhor possa fazer aqui.”Eu rosnei, com fúria pulsando em minha garganta.“Se eu não puder fazer nada, então ninguém p
StefanosO silêncio naquela sala pesava mais que o aço. Me levantei devagar, sentindo cada músculo tensionado pelo esforço das últimas horas. Mas nada doía mais do que vê-la ali, imóvel, deitada naquela cama branca e fria, cercada por fios e máquinas que sussurravam o que restava da vida dela.Me aproximei como quem teme assustar um sonho. Minha mão hesitou no ar antes de tocar seu rosto. A pele dela estava fria, pálida... Mas ainda era a dela. Ainda era a minha ruína.Passei os dedos pela curva de sua bochecha, traçando o contorno do maxilar com cuidado, como se aquele toque pudesse convencê-la a abrir os olhos. Um sorriso amargo escapou, sem vontade."Claro que seria você... a me deixar a